Sáb 5 Jun 2010
A questão do export de “bens transaccionáveis”
Por JNR na secção Ciberardina na crise (do default) , crise , Gestão do risco , Globalização , Inteligência Económica1 comentário
Entre o discurso político e a realidade no terreno
Portugal em 2009 exportou em bens 31,085 mil milhões de euros, 19% do PIB (INE, “Destaque”, emitido em 7/05/2010 sobre estatísticas do comércio internacional, saídas de bens) para destinos intra e extra-comunitários.
O traço fundamental da geografia do seu comércio internacional resume-se a este número: 75% das exportações dirigem-se à União Europeia. O que caracterizamos como “afunilamento” da projecção global portuguesa.
Os 4 principais destinos foram em 2009: Espanha, 26,7%; Alemanha, 13,1%; França: 12,3%; Angola, 7,2%. Há um direccionamento para a lógica de proximidade (vizinho peninsular), para o núcleo central da zona euro e para um mercado de oportunidade lusófono (Angola).
Os principais sectores de exportação são máquinas e aparelhos com 16% e veículos e outro material de transporte com 13%, os dois clusters que mais se desenvolveram desde os anos 1990, mudando, então, a especialização tradicional portuguesa.
Mas, para colocar este perfil num mapa geoeconómico, realizem-se, apenas, duas comparações significativas com:
a) a Irlanda, que tem também a U.E. como principal destino (mas apenas em 42% das suas exportações de bens), mas que, com quase o mesmo PIB que Portugal, exportou em bens 85,5 mim milhões de euros (2,8 vezes mais do que Portugal), ou seja, tem uma abertura à exportação de 52% do PIB;
b) Singapura, que, com 78% do PIB português, exportou 99 mil milhões de euros (mais de 3 vezes do que Portugal), equivalendo a 73% do PIB e adicionalmente reexportou, dado ser uma plataforma logística mundial, 88 mil milhões de euros, 75% do PIB.
Em termos de perfil sectorial, no caso da Irlanda:
- 62% das exportações de bens são em produtos de “ciências da vida” (química, farmacêutica, biotecnologia, meios de diagnóstico, aparelhos e utensílios médicos), o “cluster” novo em que a Irlanda apostou;
- e 12% são computadores (um sector que a Irlanda assume como em declínio).
Aliás as exportações irlandesas em derivados das “ciências da vida” foram as únicas que não tiveram contracção em 2009.
Apesar da extrema financeirização da economia irlandesa durante os anos da «bolha», calculada em 900% do PIB do país (a mais elevada do mundo), o sector empresarial soube manter uma base de economia real com dinamismo global e grau de adaptação darwinista.
O que pode resultar destas comparações são quatro pistas de estratégia geoeconómica:
1- A necessidade imperiosa de aumentar o peso da exportação de bens em Portugal que é relativamente fraco em comparação com países com um PIB similar como a Irlanda ou com um posicionamento estratégico logístico como Singapura (inclusive com um PIB inferior);
2- A importância da logística internacional no caso de Singapura que aproveita o seu posicionamento geoestratégico no Índico/Pacífico para potenciar a reexportação que gera um adicional de riqueza no valor de 75% do PIB; ou seja, os ganhos com exportações e reexportações em Singapura são mais de 1 vez e meia o PIB;
3- A flexibilidade da Irlanda para passar de “tigre celta” da informática – a sua imagem de marca há anos atrás – para o posicionamento num novo cluster, o das ciências da vida, tendo entendido rapidamente o declínio da sua vantagem competitiva no sector da computação face à deslocalização global desta indústria para a rede asiática;
4- A capacidade da Irlanda em diversificar destinos de exportação para além da União Europeia – um diferencial de mais de 30 pontos percentuais em relação ao “afunilamento” das exportações portuguesas.
Junho 5th, 2010 at 11:21
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