Há interrogação colocada em título, o analista Peter Cohan responde: provavelmente as duas coisas.

O Banco Popular da China (BPC), o banco central de Beijing, decidiu anunciar no passado fim-de-semana um processo de flutuação da sua moeda, o renminbi (RMB, que significa “dinheiro do povo”) ou yuan (a unidade monetária do RMB). Ao fim de 23 meses, a China abandonou a indexação de facto (fixed peg) ao dólar americano, na base de um câmbio fixo de 6,83 RMB por dólar.

Por isso, ontem (21/07), nos mercados asiáticos, o RMB apreciou-se ligeiramente, num só dia, em 0,43%, baixando para 6,7980 contra o dólar. Ou seja, a moeda americana passou a valer menos em divisas chinesas e, portanto, qualquer produto chinês passou a ficar mais caro ligeiramente no mercado americano e em todos os que usem o dólar. Inversamente, qualquer produto ou serviço com o preço marcado em dólares passou a custar menos em moeda chinesa.

A valorização do RMB face ao dólar é de 0,5% em relação à cotação em 1 de Janeiro de 2010. Em relação ao euro, em virtude da desvalorização deste face ao dólar, o RMB já se valorizou em 15% desde o início do ano – a União Europeia é o principal parceiro comercial da China (16,3% em volume).

Os especialistas da Bloomberg apostam numa valorização do RMB na ordem dos 2,9% no espaço de um ano. Da última vez que a moeda chinesa flutuou entre Julho de 2005 e Julho de 2008, o RMB valorizou-se em 21%.

Euforia inicial esvaziou-se

A decisão chinesa começou por ser bem recebida nas bolsas americanas ao começo da sessão de ontem, empurrando o Dow Jones Industrial Average para uma subida de 140 pontos, mas a euforia esvaziou-se rapidamente ao longo da tarde, acabando Wall Street por fechar no vermelho. As principais bolsas asiáticas, hoje, fecharam, também, no vermelho – só escaparam Xangai e Shenzhen, com ligeiríssimas melhorias.

As reacções dividiram-se entre o optimismo cauteloso oficial nos Estados Unidos e na Europa e a dúvida nos analistas, que se agravou à medida que o comunicado do BPC foi lido na íntegra. A flexibilização da taxa de câmbio da moeda chinesa será gradual e o banco central de Beijing adverte que poderá ocorrer “em ambas as direcções”, atendendo ao clima interno e à estratégia internacional de exportação e investimento dos grandes grupos estatais ou para-estatais chineses. Bem como toda a gestão cambial tomará em conta um cabaz de divisas dos principais clientes da China e não, apenas, o dólar, como explicou diligentemente um “perguntas & respostas” do banco central.

Duplicidade de Beijing

O que motivou, então, os chineses? Peter Cohan, analista financeiro em Boston, é de opinião que foi uma “combinação” de dois desígnios: “É tanto um posicionamento face ao G20 deste fim-de-semana em Toronto como um bónus aos trabalhadores chineses. Poderá ser uma mudança real na estratégia económica chinesa, mas só o tempo o dirá”, diz-nos.

O consenso dos analistas internacionais inclina-se para uma manobra táctica dos chineses destinada a retirar da mesa de discussões na cimeira do G20 de 26 e 27 de Junho este tema incómodo de um RMB artificialmente barato. Os chineses querem neutralizar o ruído da acusação de que são “manipuladores de divisas”.

Cohan chama a atenção, no entanto, que pode estar em gestação uma nova estratégia económica em Pequim. “Um renminbi mais forte será mais um factor para esvaziar a bolha interna chinesa”, sublinha o analista americano. Pode ser o começo de um período de “exportação” da inflação interna chinesa para os seus principais clientes mundiais, como já sublinhámos. “Se a divisa chinesa continuar a valorizar-se, os consumidores americanos e europeus pagarão um preço mais elevado pelos produtos chineses. Esta inflação, juntamente com uma maior relutância das autoridades monetárias chinesas em financiar os défices americanos, obrigará a Reserva Federal americana a subir as taxas de juro. O que provocará um abrandamento na economia americana”.

A era de uma superpotência mercantilista, fábrica do mundo, inundando de produtos baratos os países desenvolvidos pode estar a sair de cena nas mentes estratégicas de Beijing. O reverso dessa guinada, como sublinha Cohan, é o ocaso gradual do papel de financiador de último recurso que a China tem desempenhado em relação aos EUA. O banco central da China, recorde-se, nada em 2,45 biliões de dólares (triliões, na nomenclatura anglo-saxónica) de reservas em divisas estrangeiras. “Se a mudança for sustentada, uma moeda apreciada poderá mudar a China de um exportador barato para uma economia movida pelo consumo”, diz Cohan. O comunicado do BPC vai nesse sentido, dando a entender a necessidade de um soft landing da sobreaquecida economia chinesa e de uma deslocação do investimento para os sectores de serviços.

China mantém margem de manobra

Mas todas as medidas de política económica têm efeitos complexos dentro e fora da China, e dentro desta potência geram tensões entre os diferentes grupos de interesses e lóbis que se criaram nos últimos trinta anos a par das reformas capitalistas. Dois bancos chineses estão hoje entre os 10 maiores do mundo em capitalização. O sector exportador vale quase 40% do PIB chinês e cresceu em Maio passado 48,5% em relação ao ano anterior. Para a União Europeia, as exportações cresceram 49,7%.

Depois de um défice pontual em Março na balança comercial chinesa de mais de 7 mil milhões de dólares, o excedente subiu para 19,5 mil milhões no final de Maio. Alguns analistas de comércio internacional alegam que este disparo se deveu a antecipações de encomendas por parte de importadores antevendo a valorização do RMB.

Verso e reverso – no reino da complexidade

A mudança de política cambial chinesa pode ter um senão – os consumidores dos países desenvolvidos, habituados às pechinchas chinesas, deixarem de ser consumidores fiéis; e as marcas globais que vivem da “deslocalização” e subcontratação barata nas fábricas da China procurarem novos fornecedores e localizações. “Se esta procura mundial baixar demasiado, os estragos na economia chinesa poderão levar a uma flutuação mais limitada do renmimbi”, conclui Peter Cohan. As autoridades chinesas pretendem, por isso, manter essa margem de manobra.

Internamente, a moeda valorizada acalmará, segundo muitos analistas, o descontentamento latente do povo – particularmente da população fabril urbana – aumentando o poder de compra, mas o impacto nos custos nominais unitários do trabalho far-se-á sentir, podendo baixar a competitividade internacional do país.

O disparo do consumismo chinês será, sem dúvida, agradável para as marcas internacionais e locais que criaram notoriedade e presença no imenso mercado chinês. Para a balança comercial chinesa, a valorização do RMB significará o pagamento do petróleo e matérias-primas importadas (preço em dólares) mais barato – a China precisará de menos moeda local para pagar o barril de crude.