Sex 4 Jun 2010
Nova frente de risco de bancarrota na Europa – diário de bordo 99
Por JNR na secção Ciberardina na crise (do default) , crise , Geoprotagonistas , Gestão do risco , Globalização , Inteligência Económica1 comentário
Três países da periferia leste da União Europeia vêm a probabilidade de default da dívida soberana subir acima dos 20%. Hungria e Roménia são os casos em destaque. Aperta-se uma tenaz sobre o centro da zona euro. A Hungria, aliás, acabaria por entrar hoje para o TOP 10 mundial da bancarrota, ultrapassando a probabilidade da Irlanda na corrida
Apesar de os holofotes estarem concentrados no grupo dos cinco da periferia atlântica e mediterrânica – conhecidos pejorativamente por PIIGS – que continuam a manter riscos de default (incumprimento) da sua dívida soberana elevados, uma nova frente, agora a leste, começou a desenvolver-se em Maio. Alguns já adiantam que um novo acrónimo terá de ser criado para “incorporar” a Hungria – talvez GHIPSI (para Grécia, Hungria, Irlanda, Portugal, Espanha e Itália).
No shatterbelt de leste
Os três países, que têm começado a estar no foco dos investidores institucionais no mercado da dívida soberana, são a Hungria, Roménia e Bulgária, todos membros da União Europeia e em dois casos já com intervenções do FMI (Hungria e Roménia).
Este grupo de quatro países, integrantes do que, em geopolítica, se designa por shatterbelt europeu (região de choque entre grandes potências, historicamente sujeita a disputas e cujas fronteiras são redesenhadas na sequência desses conflitos), viu o custo dos seus credit default swaps (acrónimo cds, contratos de seguro que os credores subscrevem com vista a cobrir a probabilidade de uma bancarrota num dado prazo) sobre a dívida soberana a cinco anos dispararem acima dos 250 pontos base agora em Maio.
A probabilidade de default, monitorizada pela CMA DataVision, fechou hoje acima de 23% no casos da Hungria (que entrou, assim, para o TOP 10), próximo dos 23% no caso Roménia e quase 21% para a Bulgária. Um dos membros desta periferia a leste, a Letónia, pertence ao TOP 10 do risco mundial, situando-se, ainda, em 9º lugar, logo abaixo de Portugal. Este país disputou, hoje, um sobe e desce com a Hungria.
Nesse shatterbelt, mas fora da União Europeia, encontra-se com elevado risco a Ucrânia (5º no TOP 10 mundial) e, com um risco acima da “linha Maginot”, a Croácia, com 17%. Dentro da UE, a Lituânia subiu acima dos 18% e movimentos sensíveis de subida observaram-se na Bélgica que subiu para 10,5% de risco e na Áustria que chegou quase aos 9%.
A atenção à periferia oriental, do Báltico aos Balcãs, recrudesceu depois do relatório sobre “estabilidade financeira” do Banco Central Europeu (divulgado esta semana) advertir para uma segunda “bolsa de vulnerabilidade” na Europa – o estado das economias do leste europeu.
Aperto em tenaz
A zona euro parece sofrer de um aperto em tenaz, movido pela percepção “nervosa” dos investidores financeiros sobre a situação das três periferias em foco – a atlântica (com os problemas da dívida soberana e da situação de endividamento do sector financeiro em Portugal, Espanha e Irlanda), a mediterrânica (com destaque para a Grécia e, em menor grau, para Itália) e a oriental, desde o Báltico (Letónia no TOP 10 do risco mundial e Lituânia acima dos 18% de risco de default), passando pela Hungria (que está à beira de ter de quase duplicar oficialmente o valor estimado do peso no PIB, este ano, do seu défice público) até aos Balcãs (Roménia e Bulgária, a ponta da União Europeia no Mar Negro). O medo de um cenário “grego” começa a expandir-se para esta região, historicamente sempre muito conturbada.
Efeito morfina passou
O efeito morfina das decisões tomadas em Bruxelas e pelo Banco Central Europeu (BCE) na maratona de 7 a 9 de Maio parece ter passado, entretanto. A Facilidade Europeia de Estabilidade e a decisão do BCE de adquirir títulos de dívida soberana no mercado secundário (aquisições que, entre 17 e 28 de Maio, já subiram a €61,5 mil milhões) parecem não acalmar os especuladores que observam a confusão política que permanece nos círculos de poder da zona euro e da União Europeia.
Depois de uma acalmia durante a segunda metade de Maio, a probabilidade de default voltou a entrar em alta para o grupo dos cinco PIIGS. A Grécia mantém-se, hoje, no fecho, em 3º lugar no TOP 10 mundial do risco com quase 47% de probabilidade de default, Portugal no 8º lugar, com cerca de 26%, a Irlanda na proximidade dos 23%, a Espanha acima dos 22% e a Itália acima dos 19%. Estes três últimos países bateram, hoje, de novo, recordes anteriores em custo dos credit default swaps e em probabilidade de default no horizonte de cinco anos.
As diferenças em termos de custo dos cds relativos à dívida soberana alemã a cinco anos (a referência para a zona euro) são cada vez maiores: mais de 700 pontos base (pb) para a Grécia; mais de 300 pb para Portugal, mais de 220 pb para Espanha e Irlanda e mais de 190 pb para Itália. Para se entender o spread na colocação de dívida em relação à referência alemã, tenha-se em conta que cada 100 pontos base acima no custo dos cds equivale a 1% mais de diferença nas condições de crédito.
Junho 4th, 2010 at 21:38
[...] dos investidores dos mercados da dívida em vários desses países da periferia oriental, como já referimos. A Hungria acabaria por entrar hoje para o TOP 10 do risco [...]