Junho 2010


Há interrogação colocada em título, o analista Peter Cohan responde: provavelmente as duas coisas.

O Banco Popular da China (BPC), o banco central de Beijing, decidiu anunciar no passado fim-de-semana um processo de flutuação da sua moeda, o renminbi (RMB, que significa “dinheiro do povo”) ou yuan (a unidade monetária do RMB). Ao fim de 23 meses, a China abandonou a indexação de facto (fixed peg) ao dólar americano, na base de um câmbio fixo de 6,83 RMB por dólar.

Por isso, ontem (21/07), nos mercados asiáticos, o RMB apreciou-se ligeiramente, num só dia, em 0,43%, baixando para 6,7980 contra o dólar. Ou seja, a moeda americana passou a valer menos em divisas chinesas e, portanto, qualquer produto chinês passou a ficar mais caro ligeiramente no mercado americano e em todos os que usem o dólar. Inversamente, qualquer produto ou serviço com o preço marcado em dólares passou a custar menos em moeda chinesa.

A valorização do RMB face ao dólar é de 0,5% em relação à cotação em 1 de Janeiro de 2010. Em relação ao euro, em virtude da desvalorização deste face ao dólar, o RMB já se valorizou em 15% desde o início do ano – a União Europeia é o principal parceiro comercial da China (16,3% em volume).

Os especialistas da Bloomberg apostam numa valorização do RMB na ordem dos 2,9% no espaço de um ano. Da última vez que a moeda chinesa flutuou entre Julho de 2005 e Julho de 2008, o RMB valorizou-se em 21%.

Euforia inicial esvaziou-se

A decisão chinesa começou por ser bem recebida nas bolsas americanas ao começo da sessão de ontem, empurrando o Dow Jones Industrial Average para uma subida de 140 pontos, mas a euforia esvaziou-se rapidamente ao longo da tarde, acabando Wall Street por fechar no vermelho. As principais bolsas asiáticas, hoje, fecharam, também, no vermelho – só escaparam Xangai e Shenzhen, com ligeiríssimas melhorias.

As reacções dividiram-se entre o optimismo cauteloso oficial nos Estados Unidos e na Europa e a dúvida nos analistas, que se agravou à medida que o comunicado do BPC foi lido na íntegra. A flexibilização da taxa de câmbio da moeda chinesa será gradual e o banco central de Beijing adverte que poderá ocorrer “em ambas as direcções”, atendendo ao clima interno e à estratégia internacional de exportação e investimento dos grandes grupos estatais ou para-estatais chineses. Bem como toda a gestão cambial tomará em conta um cabaz de divisas dos principais clientes da China e não, apenas, o dólar, como explicou diligentemente um “perguntas & respostas” do banco central.

Duplicidade de Beijing

O que motivou, então, os chineses? Peter Cohan, analista financeiro em Boston, é de opinião que foi uma “combinação” de dois desígnios: “É tanto um posicionamento face ao G20 deste fim-de-semana em Toronto como um bónus aos trabalhadores chineses. Poderá ser uma mudança real na estratégia económica chinesa, mas só o tempo o dirá”, diz-nos.

O consenso dos analistas internacionais inclina-se para uma manobra táctica dos chineses destinada a retirar da mesa de discussões na cimeira do G20 de 26 e 27 de Junho este tema incómodo de um RMB artificialmente barato. Os chineses querem neutralizar o ruído da acusação de que são “manipuladores de divisas”.

Cohan chama a atenção, no entanto, que pode estar em gestação uma nova estratégia económica em Pequim. “Um renminbi mais forte será mais um factor para esvaziar a bolha interna chinesa”, sublinha o analista americano. Pode ser o começo de um período de “exportação” da inflação interna chinesa para os seus principais clientes mundiais, como já sublinhámos. “Se a divisa chinesa continuar a valorizar-se, os consumidores americanos e europeus pagarão um preço mais elevado pelos produtos chineses. Esta inflação, juntamente com uma maior relutância das autoridades monetárias chinesas em financiar os défices americanos, obrigará a Reserva Federal americana a subir as taxas de juro. O que provocará um abrandamento na economia americana”.

A era de uma superpotência mercantilista, fábrica do mundo, inundando de produtos baratos os países desenvolvidos pode estar a sair de cena nas mentes estratégicas de Beijing. O reverso dessa guinada, como sublinha Cohan, é o ocaso gradual do papel de financiador de último recurso que a China tem desempenhado em relação aos EUA. O banco central da China, recorde-se, nada em 2,45 biliões de dólares (triliões, na nomenclatura anglo-saxónica) de reservas em divisas estrangeiras. “Se a mudança for sustentada, uma moeda apreciada poderá mudar a China de um exportador barato para uma economia movida pelo consumo”, diz Cohan. O comunicado do BPC vai nesse sentido, dando a entender a necessidade de um soft landing da sobreaquecida economia chinesa e de uma deslocação do investimento para os sectores de serviços.

China mantém margem de manobra

Mas todas as medidas de política económica têm efeitos complexos dentro e fora da China, e dentro desta potência geram tensões entre os diferentes grupos de interesses e lóbis que se criaram nos últimos trinta anos a par das reformas capitalistas. Dois bancos chineses estão hoje entre os 10 maiores do mundo em capitalização. O sector exportador vale quase 40% do PIB chinês e cresceu em Maio passado 48,5% em relação ao ano anterior. Para a União Europeia, as exportações cresceram 49,7%.

Depois de um défice pontual em Março na balança comercial chinesa de mais de 7 mil milhões de dólares, o excedente subiu para 19,5 mil milhões no final de Maio. Alguns analistas de comércio internacional alegam que este disparo se deveu a antecipações de encomendas por parte de importadores antevendo a valorização do RMB.

Verso e reverso – no reino da complexidade

A mudança de política cambial chinesa pode ter um senão – os consumidores dos países desenvolvidos, habituados às pechinchas chinesas, deixarem de ser consumidores fiéis; e as marcas globais que vivem da “deslocalização” e subcontratação barata nas fábricas da China procurarem novos fornecedores e localizações. “Se esta procura mundial baixar demasiado, os estragos na economia chinesa poderão levar a uma flutuação mais limitada do renmimbi”, conclui Peter Cohan. As autoridades chinesas pretendem, por isso, manter essa margem de manobra.

Internamente, a moeda valorizada acalmará, segundo muitos analistas, o descontentamento latente do povo – particularmente da população fabril urbana – aumentando o poder de compra, mas o impacto nos custos nominais unitários do trabalho far-se-á sentir, podendo baixar a competitividade internacional do país.

O disparo do consumismo chinês será, sem dúvida, agradável para as marcas internacionais e locais que criaram notoriedade e presença no imenso mercado chinês. Para a balança comercial chinesa, a valorização do RMB significará o pagamento do petróleo e matérias-primas importadas (preço em dólares) mais barato – a China precisará de menos moeda local para pagar o barril de crude.

A Grande Recessão entrou na fase de “deslocação geopolítica global”, diz o Laboratório Europeu de Antecipação Política (LEAP)/Europa 2020, um think tank francês de prospectiva, que publica mensalmente um GlobalEurope Anticipation Bulletin (GEAB).

O LEAP adianta que essa fase trará quatro “pontos singulares de colapso” em que qualquer desarranjo num deles provocará o bloqueio do sistema mundial, como numa rede computacional.

Esses quatro pontos são, no entender dos especialistas franceses:
a) a consolidação do problema do endividamento soberano ocidental como “intolerável”;
b) o abandono da retórica e políticas de prioridade à retoma a favor da “estabilidade estrutural” (vulgo programas de austeridade);
c) o início pela China da fase de “exportação” do seu sobreaquecimento económico inflacionário (alimentado em particular pela estratégia mercantilista de exportação baseada em uma moeda subvalorizada artificialmente nos últimos dois anos);
d) a inevitabilidade dos Estados Unidos avançarem para um programa federal de austeridade (arrisca-se o número de 1 bilião de dólares[trilião, na nomenclatura anglo-saxónica] em cortes orçamentais nos próximos 3 a 5 anos) face ao risco de bancarrota de alguns Estados da federação (como se tem observado nos casos mais graves da Califórnia e de Illinois) e ao próprio agravamento político interno com o primeiro teste eleitoral da Administração Obama nas eleições de meio do mandato em Novembro para o Congresso, o Senado, parlamentos estaduais e governadores. A consequência será uma recaída na contracção e uma média anual muito longe dos 3,5% de crescimento em 2010 anunciados pelo presidente da Reserva Federal, Ben Bernanke.

G20 não é vinha vindimada para os EUA

A principal consequência geopolítica (e esse será o 5º choque), arrisca o LEAP, será a manifesta incapacidade dos Estados Unidos, a primeira potência do mundo, em liderar o G20, de que se começaram a observar sinais na cimeira de Copenhaga em Dezembro de 2009 e, mais recentemente, a 3 e 4 de Junho, na reunião de ministros das Finanças do grupo dos 20 em Busan/Pusan, na Coreia do Sul. A multiplicação, por ora, de alianças à la carte e o aumento de linhas de fractura no G20 poderá ser o resultado. O que este choque geopolítico nos reserva serão as cenas dos próximos capítulos.

Há um dominó da crise interessante: a banca espanhola está “exposta” à dívida portuguesa e a banca francesa e alemã está “exposta” à dívida espanhola. Elos que revela o último relatório do Banco Internacional de Pagamentos (mais conhecido por BIS, Bank for International Settlements).

Portugal era o quarto país no grupo dos PIGS (acrónimo humorístico pejorativo para Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha) com maior dívida junto da banca da zona euro, segundo o relatório trimestral do Banco Internacional de Pagamentos (BIS, no acrónimo em inglês) divulgado ontem.

A “exposição” da banca da zona euro ao nosso país, no final de 2009, somava 244 mil milhões de dólares (107% do PIB português em 2009 e cerca de 46% do stock da dívida externa portuguesa no final de 2009, avaliados em dólares).

Os bancos espanhóis eram os mais “expostos” a Portugal, com 45% desse montante. Essa “exposição” espanhola dirige-se em 2/3 ao sector privado não bancário. Seguem-se, por ordem decrescente de exposição ao endividamento português, a banca de França e da Alemanha. Fora da zona euro, a banca americana e inglesa somava uma exposição de cerca de 80 mil milhões de dólares em relação a Portugal.

Nesta dívida de cada país à banca estrangeira estão incluídos os sectores público, bancário, privado não bancário e outros segmentos financeiros (por exemplo, contractos de derivados e garantias).

Razões do nervosismo mundial

Tem subido de tom o nervosismo que percorre a banca europeia face aos riscos de default nos quatro países, apesar das medidas tomadas por Bruxelas em acordo com o Fundo Monetário Internacional aquando da crise de Maio [com a acriação do veículo financeiro especial European Financial Stabilization Facility] e dos vários “pacotes de austeridade” entretanto aprovados ou anunciados, alguns já com efeitos em 2010.

São os bancos sedeados na zona euro que detêm a grande fatia da “exposição” da banca mundial aos quatro PIGS, refere o relatório trimestral do BIS (BIS Quaterly Review, June 2010). A banca mundial está “exposta” em cerca de 2,6 biliões de dólares (triliões, na designação anglo-saxónica) ao grupo dos PIGS, algo como 16% do PIB da zona euro.

No final de 2009, os bancos da zona euro arcavam com 62% dessa exposição, ou seja tinham a haver cerca de 1,6 biliões de dólares junto dos quatro países da zona euro sujeitos a maior stresse financeiro nos mercados da dívida e cujas probabilidades de default (de incumprimento da dívida soberana) variam hoje entre quase 18-19% (Espanha e Irlanda) e mais de 48% (Grécia).

Banca francesa e alemã de olho em Espanha

O país com maior dívida junto dos bancos da zona euro é Espanha que “absorve” 727 mil milhões de dólares (46% da exposição total dos bancos da zona euro), seguida a alguma distância da Irlanda, com 402 mil milhões (25%), de Portugal com 244 mil milhões (15%) e Grécia com 206 mil milhões (13%).

Os bancos franceses estão expostos em 50% a Espanha, e sobretudo ao sector privado não bancário, enquanto os bancos alemães estão expostos em 43% ao nosso vizinho, mas sobretudo ao sector bancário espanhol.

Por isso, o tema “Espanha” e todos os rumores que têm campeado esta semana sobre a eventual negociação em curso de uma intervenção “à grega” num montante de 250 mil milhões de euros (1/3 da provisão para empréstimos disponível na Facilidade Financeira Europeia de Estabilidade) estão a deixar a banca francesa e alemã à beira de um ataque de nervos, como se pode observar nos reflexos na imprensa local.

Compreende-se que Espanha seja um tema mais sensível que Grécia – pesa, literalmente falando, mais de três vezes na banca europeia. Os “estouvados” da periferia foram financiados por provavelmente alguns “loucos” bancos do núcleo central da zona euro. Actuar junto do receptor ajudará a resolver os problemas a montante.

No caso específico da Irlanda, são os bancos ingleses os mais expostos em particular em relação ao sector privado não bancário.

A dívida pública conta com uma pequena parcela nesta situação – apenas 16% da “exposição” agregada da banca da zona euro ao conjunto do grupo dos PIGS.

No caso português, a banca francesa está exposta ao sector público português em 21 mil milhões de dólares e a banca alemã em 10 mil milhões. Migalhas no stock de mais de 530 mil milhões de dólares de dívida externa bruta total do país em finais de 2009.

Portugal conseguiu, finalmente, sair ontem (10/06) do clube do risco de bancarrota na sessão da tarde do mercado financeiro ligado à dívida soberana. Situação que se manteve no fecho do mercado.

Este desfecho positivo para o país ocorreu depois de na quarta-feira (9/06) ter oscilado entre a 7ª e a 10ª posições, num sintoma da alta volatilidade que afecta as expectativas dos investidores. A 10 de Junho (feriado nacional), Portugal foi substituído no último lugar pelo estado da Califórnia.

Dos países da União Europeia, mantêm-se no TOP 10 mundial do risco de default (incumprimento da dívida soberana, no caso, num horizonte de cinco anos) a Grécia (que pertence à zona euro), em 3º lugar, apesar de algum desanuviamento (a probabilidade do default desceu abaixo de 45%), a Roménia em 8º e a Letónia em 9º.

A entrada da Roménia para este grupo reflectiu, como temos sublinhado, a abertura de uma “nova frente” de percepção de risco que passou anão abranger apenas membros da zona euro.

Entretanto a moeda única europeia inverteu a tendência de queda em relação ao dólar desde dia 8 de Junho. A valorização nestes últimos três dias foi de 1,7%.

As recomendações do Fundo Monetário Internacional (FMI) na sua análise regular à situação da zona euro passaram relativamente despercebidas esta semana. O director do Fundo, o francês Dominique Strauss-Kahn, apresentou-as no Luxemburgo na segunda-feira (7/06) no âmbito da sua participação na reunião do Eurogrupo, formado pelos 16 ministros dos países aderentes à moeda única europeia.

As propostas reforçam claramente duas linhas de acção política:
a) a da necessidade e urgência de uma “governação” económica e orçamental do grupo de países da moeda única,
b) a chamada de atenção para a “prioridade-chave” de “acelerar a reestruturação do sector financeiro”.

Na análise do FMI, a obsessão actual com as finanças públicas dos vários países com dívidas soberanas em situação de maior stresse não deve apagar a urgência de mexer no sector financeiro que, aliás, esteve na origem desta grande crise, nem perder de vista a necessidade de ter soluções de conjunto para a zona monetária.

Duas reflexões da maior importância face ao “afunilamento” da gestão da crise na questão do stresse da dívida soberana de alguns membros da zona euro (em virtude do ataque especulativo ao euro) e aos ziguezagues políticos sobre a questão do que alguns já chamaram de “federalismo” orçamental.

A declaração apresentada pelo Fundo, disponível, na íntegra aqui, pode resumir-se em 10 recomendações centrais:
1- Completar o projecto de união monetária. O que exige superar a “deficiente governação da zona euro”. São necessárias acções decisivas para construir “uma efectiva arquitectura de estabilidade financeira”. Neste campo podem inclusive ser encaradas novas “avenidas”, como um maior uso dos recursos de um orçamento central, ou a emissão de títulos comuns ligados ao cumprimento do Pacto de Estabilidade e Crescimento.
2- Considerar absolutamente prioritária a “aceleração da reestruturação do sector financeiro europeu”. Será um erro grave o adiamento da “reparação” (sic) deste sistema. Pois a não ser feita, sofrer-se-á um impacto “adverso” do sistema financeiro em apuros sobre as finanças públicas.
3- Resolver a questão do crescimento da zona, que tem sido “anémico”, é essencial. Para isso será necessário um movimento duplo: uma consolidação orçamental em todos (e os analistas habituados a “interpretar” as palavras usadas neste tipo de declarações sublinham este TODOS) os países da zona euro, o mais tardar a partir de 2011; e passar “da gestão de emergência da crise para reformas de fundo”.
4- Os pacotes de ajustamento orçamental devem ser adaptados a cada caso e não impostos na base de uma receita única.
5- O pacote de reformas de fundo deverá incluir a questão do mercado de trabalho, com políticas públicas no sentido de: remover desincentivos ao trabalho; melhorar a flexibilidade da negociação de salários; liberalizar os sectores de serviços; proceder às alterações adequadas nas regras de idade de reforma; avaliar cuidadosamente o impacto de alterações nos impostos sobre os custos do trabalho.
6- As mesmas reformas de fundo deverão abarcar o sector bancário, onde as “distorções à concorrência” deverão ser eliminadas progressivamente, incluindo um plano de “saída de participações do Estado” neste sector.
7- Combater formas disfarçadas de proteccionismo.
8- Orientar as políticas públicas no sentido de “proteger os grupos mais vulneráveis durante o processo de ajustamento”.
9- A política monetária (do Banco Central Europeu) deverá continuar a orientação no sentido de taxas de juro baixas.
10- Incentivar a criação de novas instituições europeias de “ponte” entre a Comissão Europeia e o Parlamento europeu, como o estabelecimento de uma Comissão sobre o Risco Sistémico Europeu, de autoridades de supervisão europeias, de um Fundo europeu de resolução de problemas sistémicos (financiado pelo sector bancário na base de critérios de risco) e de uma Autoridade para essa resolução.

Com base nas estatísticas do stock da dívida (bruta) externa total (pública e privada) e do produto interno bruto (PIB) em 2009, o campeão na União Europeia (e mesmo no mundo) era a Irlanda com mais de 1000% do PIB “coberto” pela dívida externa. Portugal vem em 5º lugar com 225%, e não em 1º lugar.

À frente de Portugal, na União Europeia, além da Irlanda, estão Holanda (470% do PIB), Reino Unido (416%) e Bélgica (266%). Se incluirmos toda a Europa, a Suíça surge em 5º lugar, com 269% do PIB, e Portugal passará a 6º.

Segundo os dados mais recentes do Banco de Portugal, o stock de dívida externa portuguesa em termos brutos e total (pública e privada) era no final do 4º trimestre de 2009 de €370,36 mil milhões e o PIB de 2009 terá sido de €164,5 mil milhões.

No caso da Irlanda, o stock da divida externa total bruta ascendia a 2,287 biliões de dólares em final de Setembro de 2009 e o PIB daquele ano foi de 227,7 mil milhões de dólares (ligeiramente inferior ao português, em dólares). No caso da Holanda, o mesmo indicador da dívida ascendia a 3,7 biliões de dólares no final de 2009 e o PIB foi naquele ano de 794,8 mil milhões de dólares. No caso do Reino Unido, os valores respectivos eram de 9,088 biliões de dólares (em Junho de 2009) e de 2,183 biliões de dólares. No caso da Bélgica, eram respectivamente de 1,25 biliões de dólares e de 470,4 mil milhões. No caso da Suíça, eram respectivamente de 1,4 biliões (em Junho de 2009) e 496,6 mil milhões.

Nota técnica: Trata-se de um cálculo com base nos últimos dados oficiais disponíveis publicamente. A comparação e o ranking são provisórias, dado nem todos os dados sobre a dívida serem referenciados às mesmas datas em 2009. A Wikipedia mantém um ranking do stock da dívida externa bruta total aqui. Os dados apresentados pela CNBC americana ou pelo The Wall Street estão errados em muitos casos.

A cimeira de ministros e de banqueiros centrais, que terminou sábado na Coreia do Sul, revelou um xadrez muito complexo de temas fracturantes que dividem o grupo de 20 países actualmente com maior peso geopolítico. As coligações são, por ora, claramente ad hoc em muitos assuntos, mas a força da China, Brasil, Índia e até do Canadá e Coreia do Sul revela-se.

Para além do discurso politicamente correcto do comunicado final saído da cimeira de ministros de Finanças e Economia e de banqueiros centrais do G20 (grupo de 20 países actualmente com maior peso geopolítico no mundo), reunidos ontem e hoje no porto de Busan (ou Pusan), na Coreia do Sul, o ambiente foi de discussões “muito quentes”, como deixou passar para os media Shin Je-Yoon, o vice-ministro das Finanças para os assuntos internacionais do país anfitrião.

«Distracção», acusa o Canadá

Um dos temas que gerou expectativa foi o da iniciativa americana e alemã de um imposto sobre transacções financeiras que alimentasse um fundo para futuros resgates em caso de crise financeira.

O que poderia pensar-se ser pacífico, não o é. Os “fat cats” da alta finança, como lhes chamou Obama, são hoje um alvo politicamente fácil. Mas a ideia encontrou a resistência determinada do Canadá, Brasil, Índia, Austrália e Japão. O ministro canadiano, Jim Flaherty, que surgiu como líder da oposição, acusou mesmo a ideia de ser uma “distracção” em relação “aos problemas de fundo”.

O que está em jogo neste tema fracturante é que uma parte do globo – que não se considera responsável pela crise financeira e que hoje está a começar a dar cartas na geopolítica – não pretende penalizar os seus sistemas financeiros locais que estão em plena ofensiva global, aproveitando as vulnerabilidades dos eixos financeiros incumbentes de Nova Iorque, Londres e Frankfurt.

Os relatos sobre esta discussão são abertamente contraditórios, consoante o ponto geográfico do mundo que os emite. Na Ásia (siga a cobertura pelo The Korea Times) dá-se o assunto desta taxa como encerrado, como não tendo sido incluído sequer na agenda da próxima cimeira de alto nível do G20 em Toronto, no Canadá, a 26 e 27 de Junho. Outros, na Europa e nos EUA, afirmam que o tema regressará, pois é um ponto de honra, sobretudo do secretário do Tesouro, Thimothy Geithner, e colocam esperanças no relatório que o Fundo Monetário Internacional deverá apresentar em Toronto.

Consolidação orçamental tem apoio maioritário

Outro tema fracturante foi a questão da consolidação orçamental, suscitada pelo alastrar da crise da dívida soberana na União Europeia. Aqui as “coligações” de interesses são curiosamente distintas.

Americanos, franceses e Banco Central Europeu (BCE) repetem em uníssono que a Europa deu os passos adequados e alertam que a consolidação orçamental não pode ser cega nem exagerada, aumentando o risco de uma recaída na recessão.

Por seu lado, os alemães e os asiáticos – ao que parece apoiados por “uma corrente maioritária” no G20, confessou, desapontada, a ministra francesa da Economia, Christine Lagarde – insistem que a consolidação orçamental é a prioridade número um. O Brasil e a China teriam mesmo expressado sérias dúvidas sobre a gestão do problema na Europa.

O presidente do BCE, Jean-Claude Trichet, garantiu, no final, falando para os mercados financeiros que reabrem na segunda-feira, que teria havido um entendimento “muito bom” sobre o problema. O comunicado final bate palmas, logo no segundo ponto, à acção da União Europeia, do BCE e do FMI na questão.

Fogo sobre o mercantilismo

As alianças ad hoc voltam, de novo, a mudar quando chegamos ao tema da dinamização do comércio internacional e da procura mundial. O secretário do Tesouro americano defendeu que os principais exportadores mundiais de bens com superávites nas suas balanças comerciais (onde se encontram a China, líder mundial da exportação em 2009, Alemanha e Japão) deverão favorecer a importação, facilitando a exportação por parte dos deficitários, e abandonar as suas políticas mercantilistas. O que, naturalmente, não agrada aos visados.

Sobre o tema de fundo da regulação bancária e do sistema financeiro “sombra”, a cimeira de Busan chutou, de novo, o problema para os próximos encontros. Novas regras para exigir transparência às agências de notação, à actuação dos hedge funds e ao uso dos derivados continuam em estudo. Também para a cimeira do G20 em 11 e 12 de Novembro, em Seul, se espera que a Comissão Basel sobre Supervisão Bancária apresente as novas normas com que terão de se coser os bancos, no sentido de restringir o vício da excessiva alavancagem associada às vagas de financeirização desde 1860 e às crises financeiras graves que provocou desde essa altura.

Uma coisa é certa: o FMI vai ter de mudar

Um ponto político parece impor-se: o da urgência de reforma do Fundo Monetário Internacional (FMI). À margem da cimeira, Coreia do Sul e Brasil assinaram um entendimento sobre a modificação da correlação de forças no FMI (que afectará sobretudo a “representação” dos países europeus) e Seul aproveitou para vender aos brasileiros o seu know how na organização do Campeonato Mundial de 2002 e dos Jogos Olímpicos de 1998. O Brasil, como se sabe, está a organizar o Mundial de 2014 e os Jogos de 2016.
Está convocada nova reunião de ministros e banqueiros para 22 e 23 de Outubro, de novo, na Coreia do Sul.

SEMANA CONTURBADA ENVOLVE A CIMEIRA

O clima escaldante nas reuniões à porta fechada e nos bastidores derivou do contexto específico em que reuniu o G20 em Busan: as contingências da própria semana falam por si. A crise da dívida soberana na Europa “alargou-se” a vários países do Leste, com o incidente mais gravoso na Hungria. Uma má “tradução” de declarações oficiais incendiou os investidores do mercado de credit default swaps sobre a dívida (empurrando a Hungria para dentro do TOP 10 mundial de maior risco de default) e provocou um mini-crash nas bolsas europeias e em Wall Street e Manhattan (Nasdaq), como aqui analisámos no Geoscópio.

No Mediterrâneo oriental, Israel e Gaza voltam a ser um ponto quente no mundo dos conflitos regionais que podem degenerar em algo mais vasto, e a própria península coreana, onde a cimeira se realizou (e onde próximas reuniões até final do ano se irão realizar), continua sob risco permanente das manobras regulares do vizinho de Piongiang. Em Maio, recorde-se, o clima regional aqueceu com o episódio do afundamento de um navio sul-coreano por parte dos norte-coreanos.

Qualquer surpresa nestes quadrantes da geografia pode provocar um impacto decisivo no curso da actual crise. “Cisnes cinzentos”, chamam-lhes os analistas.

Para terminar, nas vésperas da cimeira, o Japão mudou de primeiro-ministro, inesperadamente. O ministro das Finanças, Naoto Kan, e líder do Partido Democrático do Japão, passou a primeiro-ministro – o 6º em quatro anos apenas – e em Busan quem acabou por aparecer foi o vice-ministro das Finanças.

Entre o discurso político e a realidade no terreno

Portugal em 2009 exportou em bens 31,085 mil milhões de euros, 19% do PIB (INE, “Destaque”, emitido em 7/05/2010 sobre estatísticas do comércio internacional, saídas de bens) para destinos intra e extra-comunitários.

O traço fundamental da geografia do seu comércio internacional resume-se a este número: 75% das exportações dirigem-se à União Europeia. O que caracterizamos como “afunilamento” da projecção global portuguesa.

Os 4 principais destinos foram em 2009: Espanha, 26,7%; Alemanha, 13,1%; França: 12,3%; Angola, 7,2%. Há um direccionamento para a lógica de proximidade (vizinho peninsular), para o núcleo central da zona euro e para um mercado de oportunidade lusófono (Angola).

Os principais sectores de exportação são máquinas e aparelhos com 16% e veículos e outro material de transporte com 13%, os dois clusters que mais se desenvolveram desde os anos 1990, mudando, então, a especialização tradicional portuguesa.

Mas, para colocar este perfil num mapa geoeconómico, realizem-se, apenas, duas comparações significativas com:

a) a Irlanda, que tem também a U.E. como principal destino (mas apenas em 42% das suas exportações de bens), mas que, com quase o mesmo PIB que Portugal, exportou em bens 85,5 mim milhões de euros (2,8 vezes mais do que Portugal), ou seja, tem uma abertura à exportação de 52% do PIB;

b) Singapura, que, com 78% do PIB português, exportou 99 mil milhões de euros (mais de 3 vezes do que Portugal), equivalendo a 73% do PIB e adicionalmente reexportou, dado ser uma plataforma logística mundial, 88 mil milhões de euros, 75% do PIB.

Em termos de perfil sectorial, no caso da Irlanda:

- 62% das exportações de bens são em produtos de “ciências da vida” (química, farmacêutica, biotecnologia, meios de diagnóstico, aparelhos e utensílios médicos), o “cluster” novo em que a Irlanda apostou;

- e 12% são computadores (um sector que a Irlanda assume como em declínio).

Aliás as exportações irlandesas em derivados das “ciências da vida” foram as únicas que não tiveram contracção em 2009.

Apesar da extrema financeirização da economia irlandesa durante os anos da «bolha», calculada em 900% do PIB do país (a mais elevada do mundo), o sector empresarial soube manter uma base de economia real com dinamismo global e grau de adaptação darwinista.

O que pode resultar destas comparações são quatro pistas de estratégia geoeconómica:

1- A necessidade imperiosa de aumentar o peso da exportação de bens em Portugal que é relativamente fraco em comparação com países com um PIB similar como a Irlanda ou com um posicionamento estratégico logístico como Singapura (inclusive com um PIB inferior);
2- A importância da logística internacional no caso de Singapura que aproveita o seu posicionamento geoestratégico no Índico/Pacífico para potenciar a reexportação que gera um adicional de riqueza no valor de 75% do PIB; ou seja, os ganhos com exportações e reexportações em Singapura são mais de 1 vez e meia o PIB;
3- A flexibilidade da Irlanda para passar de “tigre celta” da informática – a sua imagem de marca há anos atrás – para o posicionamento num novo cluster, o das ciências da vida, tendo entendido rapidamente o declínio da sua vantagem competitiva no sector da computação face à deslocalização global desta indústria para a rede asiática;
4- A capacidade da Irlanda em diversificar destinos de exportação para além da União Europeia – um diferencial de mais de 30 pontos percentuais em relação ao “afunilamento” das exportações portuguesas.

Uma sexta-feira cinzenta nas bolsas depois das confusões sobre o défice público estimado para 2010 na Hungria e do desapontamento com os números de criação de emprego nos Estados Unidos. É a pior forma de “comemorar” este centésimo apontamento sobre a crise que corre desde meados de 2007.

A polémica política em Budapeste sobre o défice público para 2010 (que provavelmente terá de passar dos 3,8% oficiais para 7 ou 7,5% do PIB) agravou uma tendência que já se observava desde Maio na região do leste da União Europeia com os riscos de bancarrota a subirem na percepção dos investidores dos mercados da dívida em vários desses países da periferia oriental, como já referimos. A Hungria acabaria por entrar hoje para o último lugar do TOP 10 do risco mundial.

Lost in translation

O que é mais espantoso é que o burburinho sobre o que se discutia em Budapeste foi mal traduzido pelas agências de informação e a confusão adensou-se.

Alguém escreveu que o governo actual teria dito que admitia a bancarrota. O que não é correcto – a referência era a declarações do governo anterior que foi substituído em Maio. Depois adiantou-se que o governo actual estava a denunciar “manipulações” de estatísticas – mas, na realidade, o governo actual denunciava que o anterior teria feito uma estimativa muito optimista para o défice estimado para este ano. Logo se inferiu que teríamos mais um escândalo à grega.

Enfim, toda esta confusão – lost in translation, diríamos em tom de filme – incendiou os já nervosos investidores. Animal spirits (diria Keynes) no seu melhor.

O governo húngaro veio, depois, ao longo do fim de semana (5 e 6 de Maio) tranquilizar que o objectivo dos 3,8% do défice em relação ao PIB para 2010 é para manter se “adoptarmos algumas medidas” que significarão reduções na despesa pública na ordem de 1 a 1,5%. Recorde-se que em Novembro de 2008, o país recebeu um pacote de €20 mil milhões por parte do Fundo Monetário Internacional, da União Europeia e do Banco Mundial. O ministro da Economia húngaro, Gyorgy Matolcsy, garantiu, por isso, que o objectivo dos 3,8% foi “acordado” com o FMI.

Vaga de contágio

A bolsa de Budapeste, a cidade que foi o foco da confusão política de hoje, caiu 3,3%. Mas uma vaga de contágio logo se espalhou por todas as bolsas europeias, com 8 delas a caírem mais de 3%. A maior queda bolsista foi na Grécia com mais de 5%. O PSI 20 lisboeta ficou-se por uma quebra de 2,2%.

Mas o contágio estendeu-se também aos Estados Unidos. Depois dos PIIGS agora são os ex-de Leste a entrar no risco de default. A que acresceu um “evento” local, americano, um desapontamento sobre o número de criação de empregos em Maio. Não foi aquele que o “consenso” dos analistas estimava! Houve uma diferença de 82 mil a menos do que o esperado. Mas a realidade, ainda, é mais crua: 95% dos novos empregos criados em Maio são temporários ligados ao desencadeamento do Censo americano de 2010! (E é óbvio que os investidores sabem isso).

O problema que atormenta os americanos é o espectro de uma retoma sem criação líquida de emprego (jobless recovery, é como lhe chamam). Diferenças entre as estimativas e a realidade (mesmo que cresça o emprego!) depois verificada lançam o pânico financeiro. O animal spirits (tão falado por Keynes) à solta!

Regresso ao urso?

E a convergência da desavença em Budapeste com o desapontamento dos números de emprego nos EUA bastou para empurrar o Dow Jones para baixo do patamar psicológico dos 10.000 pontos e para uma quebra de 3,16%. O Nasdaq, bolsa tecnológica de Manhattan, quebrou 3,6%.

Muitos analistas acham que a alta bolsista na Wall Street entre Março de 2009 e 26 de Abril de 2010 terminou definitivamente. O clima bolsista teria regressado ao “urso” (em contraponto com o “touro”, que seria o de bolha especulativa). Só em Maio, o Dow Jones caiu 7,9%. Desde o começo de Janeiro até agora, a quebra foi de 6%, revelando as oscilações a que temos assistido.

Três países da periferia leste da União Europeia vêm a probabilidade de default da dívida soberana subir acima dos 20%. Hungria e Roménia são os casos em destaque. Aperta-se uma tenaz sobre o centro da zona euro. A Hungria, aliás, acabaria por entrar hoje para o TOP 10 mundial da bancarrota, ultrapassando a probabilidade da Irlanda na corrida

Apesar de os holofotes estarem concentrados no grupo dos cinco da periferia atlântica e mediterrânica – conhecidos pejorativamente por PIIGS – que continuam a manter riscos de default (incumprimento) da sua dívida soberana elevados, uma nova frente, agora a leste, começou a desenvolver-se em Maio. Alguns já adiantam que um novo acrónimo terá de ser criado para “incorporar” a Hungria – talvez GHIPSI (para Grécia, Hungria, Irlanda, Portugal, Espanha e Itália).

No shatterbelt de leste

Os três países, que têm começado a estar no foco dos investidores institucionais no mercado da dívida soberana, são a Hungria, Roménia e Bulgária, todos membros da União Europeia e em dois casos já com intervenções do FMI (Hungria e Roménia).

Este grupo de quatro países, integrantes do que, em geopolítica, se designa por shatterbelt europeu (região de choque entre grandes potências, historicamente sujeita a disputas e cujas fronteiras são redesenhadas na sequência desses conflitos), viu o custo dos seus credit default swaps (acrónimo cds, contratos de seguro que os credores subscrevem com vista a cobrir a probabilidade de uma bancarrota num dado prazo) sobre a dívida soberana a cinco anos dispararem acima dos 250 pontos base agora em Maio.

A probabilidade de default, monitorizada pela CMA DataVision, fechou hoje acima de 23% no casos da Hungria (que entrou, assim, para o TOP 10), próximo dos 23% no caso Roménia e quase 21% para a Bulgária. Um dos membros desta periferia a leste, a Letónia, pertence ao TOP 10 do risco mundial, situando-se, ainda, em 9º lugar, logo abaixo de Portugal. Este país disputou, hoje, um sobe e desce com a Hungria.

Nesse shatterbelt, mas fora da União Europeia, encontra-se com elevado risco a Ucrânia (5º no TOP 10 mundial) e, com um risco acima da “linha Maginot”, a Croácia, com 17%. Dentro da UE, a Lituânia subiu acima dos 18% e movimentos sensíveis de subida observaram-se na Bélgica que subiu para 10,5% de risco e na Áustria que chegou quase aos 9%.

A atenção à periferia oriental, do Báltico aos Balcãs, recrudesceu depois do relatório sobre “estabilidade financeira” do Banco Central Europeu (divulgado esta semana) advertir para uma segunda “bolsa de vulnerabilidade” na Europa – o estado das economias do leste europeu.

Aperto em tenaz

A zona euro parece sofrer de um aperto em tenaz, movido pela percepção “nervosa” dos investidores financeiros sobre a situação das três periferias em foco – a atlântica (com os problemas da dívida soberana e da situação de endividamento do sector financeiro em Portugal, Espanha e Irlanda), a mediterrânica (com destaque para a Grécia e, em menor grau, para Itália) e a oriental, desde o Báltico (Letónia no TOP 10 do risco mundial e Lituânia acima dos 18% de risco de default), passando pela Hungria (que está à beira de ter de quase duplicar oficialmente o valor estimado do peso no PIB, este ano, do seu défice público) até aos Balcãs (Roménia e Bulgária, a ponta da União Europeia no Mar Negro). O medo de um cenário “grego” começa a expandir-se para esta região, historicamente sempre muito conturbada.

Efeito morfina passou

O efeito morfina das decisões tomadas em Bruxelas e pelo Banco Central Europeu (BCE) na maratona de 7 a 9 de Maio parece ter passado, entretanto. A Facilidade Europeia de Estabilidade e a decisão do BCE de adquirir títulos de dívida soberana no mercado secundário (aquisições que, entre 17 e 28 de Maio, já subiram a €61,5 mil milhões) parecem não acalmar os especuladores que observam a confusão política que permanece nos círculos de poder da zona euro e da União Europeia.

Depois de uma acalmia durante a segunda metade de Maio, a probabilidade de default voltou a entrar em alta para o grupo dos cinco PIIGS. A Grécia mantém-se, hoje, no fecho, em 3º lugar no TOP 10 mundial do risco com quase 47% de probabilidade de default, Portugal no 8º lugar, com cerca de 26%, a Irlanda na proximidade dos 23%, a Espanha acima dos 22% e a Itália acima dos 19%. Estes três últimos países bateram, hoje, de novo, recordes anteriores em custo dos credit default swaps e em probabilidade de default no horizonte de cinco anos.

As diferenças em termos de custo dos cds relativos à dívida soberana alemã a cinco anos (a referência para a zona euro) são cada vez maiores: mais de 700 pontos base (pb) para a Grécia; mais de 300 pb para Portugal, mais de 220 pb para Espanha e Irlanda e mais de 190 pb para Itália. Para se entender o spread na colocação de dívida em relação à referência alemã, tenha-se em conta que cada 100 pontos base acima no custo dos cds equivale a 1% mais de diferença nas condições de crédito.

A OCDE, onde Portugal participa com mais outros 30 membros, diz saber como crescer com o espectro do risco de default à porta e com um horizonte de incapacidade (reconhecida) de criação (líquida) de emprego em muitos dos seus membros.

A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), que reuniu o seu conselho de ministros anual em Paris no final da semana passada (27 e 28 de Maio), veio dizer que há um caminho de crescimento de saída desta Grande Recessão. Apontou aos seus 31 membros e a mais um grupo de convidados quatro políticas para haver luz ao fundo do túnel: “crescimento verde”; alavancar a inovação; recusar o proteccionismo no comércio internacional; combater concertadamente a evasão fiscal.

No entanto, reconheceu, antes destas quatro saídas do clima recessivo, que há dois escolhos maiores: a fase actual de crise de dívida em grande parte dos seus membros (vários deles com risco de probabilidade de default da dívida soberana) e o horizonte de uma dinâmica de crescimento do produto interno bruto sem criação líquida de emprego (o que tecnicamente, no economês anglo-saxónico, se designa por jobless recovery ou jobless growth).

A OCDE, um “clube” de ricos e quase-ricos a que Portugal pertence, considera que o combate à crise da dívida é um fio de arame onde se exige um grande equilíbrio: saber dar prioridade ao que se deve manter como despesa pública, realizar uma reforma fiscal “amiga” do crescimento e manter “políticas activas” no mercado de trabalho (nomeadamente a formação e reciclagem em competências e saberes).

Três alavancas de crescimento

Quanto às políticas de crescimento, a OCDE espera em 2011, na próxima reunião ministerial, apresentar um relatório de síntese sobre o que entende, na prática, por “crescimento verde”. Adianta que é indispensável continuar as políticas de eficiência energética e que se deve avançar com iniciativas que desactivem os subsídios aos combustíveis fósseis.

A inovação é outra linha insistentemente repetida pela OCDE. As orientações são conhecidas: políticas fiscais “amigas” da inovação, desenvolvimento do empreendedorismo e criação de novas empresas e fomento da investigação pública e das redes de conhecimento global.

Quanto ao comércio internacional, a OCDE sublinha que, desta vez, apesar da gravidade da Grande Recessão, e ao contrário do que ocorreu em grandes crises anteriores no século XX, não se assistiu a uma vaga de proteccionismo, com uma verdadeira guerra de tarifas, como se temia. A OCDE insiste em que se deve manter uma política mundial anti-proteccionista, que favorece o crescimento global, recomendação que foi apoiada também pelos países já convidados para aderir à organização (Estónia, Israel, Eslovénia) ou em processo de adesão (Rússia), bem como por Hong Kong e China (que fazem parte de um grupo em processo de envolvimento com a OCDE), presentes nesta reunião ministerial anual.

Apesar de mais de meio milhar de medidas avulsas já implementadas pelos diferentes governos no mundo desde a primeira cimeira do G20 em Novembro de 2008 e de alguma retórica política proteccionista, monitorizada pelo Global Trade Alert, a epidemia proteccionista dos anos 1930 não foi repetida.

2009: 5ª maior quebra do comércio mundial

A quebra do comércio internacional em 2009 foi a 5ª mais alta desde 1900 (cerca de 11%, segundo a OCDE no Economic Outlook, de Maio 2010; 12,3% segundo o FMI, no World Economic Outlook de Janeiro de 2010), mas derivou da recessão global do ano passado (que, no entanto, foi inferior a uma quebra de 1% do PIB mundial) e do novo tipo de cadeias globais de fornecimento que têm um impacto “multiplicador” elevado, quer em termos positivos como negativos. A OCDE, no seu recente “Economic Outlook”, estima que a retoma do comércio internacional em 2010 implique um crescimento das trocas mundiais na ordem dos 10,6%. Ou seja, o nível de 2008 é praticamente retomado.