Qui 29 Abr 2010
€600 mil milhões: custo de evitar a bancarrota na zona euro – diário de bordo 92
Por JNR na secção Ciberardina na crise (do default) , crise , Gestão do risco , História Económica , Inteligência Económica , O novo capital financeiroainda sem comentários
O número começou a rolar hoje de manhã nos media internacionais: €600 mil milhões – o equivalente ao plano de emergência lançado nos Estados Unidos para evitar o efeito sistémico da derrocada do Lehman Brothers em finais de 2008, que ficou conhecido pelo acrónimo TARP (Trouble Asset Relief Program). O cálculo foi feito em Londres por David Mackie, economista-chefe, a nível europeu, do J.P.Morgan. Representa 5% do PIB da União Europeia.
Esse será o custo de uma “almofada” de empréstimos bonificados que a zona euro deverá disponibilizar para evitar o risco de contágio de um “ébola” (o célebre vírus descoberto no rio do mesmo nome no Zaire em 1976) financeiro no terreno das dívidas soberanas de alguns dos seus membros mais vulneráveis. “Ébola” foi a designação – tétrica – que o chefe da OCDE, Angel Gurría, usou ontem.
Por seu lado, Dominique Strauss-Kahn, director geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), terá adiantado, também ontem, em reuniões com deputados alemães – a pátria da maior resistência a um plano anti-bancarrota dentro da zona euro – que 100 a 135 mil milhões de euros terão de estar em prontidão para o caso grego nos próximos três anos.
Por seu lado, o The New York Times, em dólares, desdobrava o pacote de emergência (em dólares cerca de 790 mil milhões) para os próximos três anos para três casos, estimando $120 mil milhões para a Grécia, $53 mil milhões para Portugal e $466 mil milhões para Espanha. Ainda que os números não batam certo com as estimativas europeias, dão ideia dos patamares em que se poderá situar a intervenção.
Não é fenómeno novo
O risco de defaults (incumprimentos da dívida soberana) em série não é novo na história económica – um vaga letal ocorreu no século XIX na Europa, envolvendo, na altura, Portugal (cinco vezes), Espanha (seis vezes) e a Grécia (quatro vezes), como recordam os trabalhos de investigação recentes de Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff, a que nos temos referido.
O palavrão técnico – default – passou a entrar na conversa de almoço dos cidadãos, tal como os cds (acrónimo paracredit default swaps) ou o rating (a notação do crédito). Uma trilogia de estranhas palavras inglesas que não largam as economias e que cada vez mais têm influência na vida do cidadão comum.
Depois do relatório do FMI da semana passada – e da exposição de um conjunto de indicadores macroeconómicos de “vulnerabilidade” que analisámos aqui – o desenho do espaço geográfico deste risco (zona euro) ficou confirmado na cabeça dos grandes investidores institucionais, com os famosos PIIGS (acrónimo humorístico pejorativo para o grupo Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha) como alvo central.
Não pode espantar, por isso, o que é designado por “ataque” aos mercados de seguros sobre a dívida soberana (os tais cds), onde actuam os grandes investidores institucionais e todo o “sistema financeiro sombra” que especulam neste e noutros mercados (de acções, de commodities, todo o tipo de veículos financeiros “derivados” e “sintéticos”) onde haja oportunidade de maximização de ganhos para os seus portfólios.
No clube desses grandes investidores estão conhecidos hedge funds (que tiveram uma célebre reunião, baptizada de “idea dinner”, a 8 de Fevereiro em Manhattan, Nova Iorque), poderosos fundos de pensões, braços financeiros no tal sistema “sombra” de bancos e outras instituições mais tradicionais. Também as agências de notação de crédito, as tristemente famosas senhoras do rating, funcionam como, um analista já lhes chamou, de megafone “pró-cíclico”, ou seja dão indicações negativas ou positivas aos investidores no sentido de detectarem as janelas de oportunidade de maximização de rendas financeiras. Esta semana, a Standard & Poor’s já bateu à porta três vezes: Grécia baixa de BBB+ para BB+ (“lixo”) e Portugal de A+ para A-, a 27 de Abril (terça-feira negra no risco e nas bolsas), e Espanha de AA+ para AA, ontem.
Sinais políticos que contam
Contudo, a dinâmica destes mercados de expectativas sobre as dívidas soberanas e sobre as dívidas de privados (nomeadamente bancos e seguradoras, que têm estado em foco, como no caso da Península Ibérica e da Irlanda) não se guiam só pelos sinais das agências de rating – mas, também, e em grande medida pelo ruído político. Ou seja, pelos sinais políticos que são dados a partir dos países em risco e das entidades internacionais que se podem envolver na resolução dos problemas financeiros que vão emergindo.
E os sinais políticos são contraditórios, o que tem provocado a enorme volatilidade a que temos assistido na classificação do risco de default no caso dos quatro países europeus da zona euro: uma terça-feira negra de disparo do risco de bancarrota, seguida de uma quarta-feira com algum sobe e desce, e com um amanhecer hoje de nítida melhoria do clima (Grécia baixou para 3º lugar no clube do risco mundial, Portugal desceu para 9º, e a Irlanda e Espanha viram os níveis de risco descer também alguns pontos percentuais, segundo dados da CMA DataVision).
Os investidores estão “ensanduichados” entre o manifesto eleitoralismo da chanceler alemã Angela Merkel (com eleições a 9 de Maio num estado crucial para manter a sua maioria no parlamento de estados regionais da federação) e os sinais que são dados pelos líderes do Banco Central Europeu e do Fundo Monetário Internacional, ou mesmo da OCDE e das estruturas da União Europeia. Até o presidente Obama terá dado algum conselho à chanceler alemã na conversa que terão tido ontem. Esperam-nos quinze dias que poderão parecer os mais longos da história recente do euro (eleições na Renânia-Norte Vestefália a 9 de Maio; cimeira europeia a 10 de Maio; limite de refinanciamento da dívida grega a 19 de Maio).
Até Axel Weber, o presidente do Bundesbank, o banco central alemão, disse hoje ao jornal alemão Bild que era urgente a colocação em prática do “pacote” em direcção à Grécia. O temor da tal vaga “sistémica” de ébola de bancarrota paira sobre Berlim.
O resultado de todo este cenário político dentro da zona euro foi o impensável há um ano atrás – transformar uma crise política “periférica” (a descoberta de vigarices nas estatísticas gregas e de alegadas manipulações da dívida pública externa pela Goldman Sachs e pelo anterior governo de direita em Atenas substituído em eleições) num rastilho de uma vaga de near-defaults (quase bancarrotas, à beira de incumprimento, ou de reescalonamento ou reestruturação de dívidas soberanas) em série.