Qui 22 Abr 2010
Quem se lixa com esta crise é a cigarra – não o mexilhão
Por JNR na secção crise , Geoprotagonistas , Gestão do risco , Globalização , História Económica , Inteligência Económica[2] comentários
Como na fábula de Jean de La Fontaine, as principais vítimas desta Grande Recessão vão ser as “cigarras”, os países que viveram manifestamente no faz-de-conta, afirmou-nos o economista francês François Heisbourg, de 60 anos, presidente do International Institute for Strategic Studies, sediado em Londres.
O ex-primeiro secretário da Missão Permanente da França nas Nações Unidas nos anos 1970 e 1980 admite que a “morte lenta” das “cigarras” (de que o caso grego é, provavelmente, o mais presente, e Portugal um forte candidato, atendendo às evoluções recentes) possa ser um problema doloroso. Tal como o choque nas “andorinhas que voaram com a globalização”, elogiadas pelos seus “milagres económicos”, e que, subitamente, com esta grande crise, se vêm com recessões mais prolongadas (como a Irlanda e a Espanha) e, em alguns casos, chutadas inclusive para níveis altos de risco de bancarrota (como o Dubai, a Islândia, a Letónia e, mais distante, a Hungria).
O elefante ganhador
Mas esta recessão trouxe mudanças decisivas na cena mundial. “Assistimos à transformação profunda da paisagem geoeconómica e geopolítica. As consequências são directas e bem visíveis”, alega o autor de “Vencedores e Vencidos”, um livro publicado recentemente em Paris. A principal, diz-nos Heisbourg numa entrevista (que pode ler aqui, na íntegra, em francês), tem a ver com a China: “Ela passou de um estatuto de potencial grande potência para a realidade dessa posição. É um salto qualitativo comparável, no plano geoeconómico e geopolítico, ao da emergência da Alemanha imperial no final do século XIX”.
O especialista francês, recorrendo a uma nomenclatura da fauna da crise, chama-lhe “um elefante, um animal com talentos múltiplos”, classificação que estende à Índia e ao Brasil que conseguiram “atravessar a crise apoiando-se numa base económica diversificada”.
Apesar da expectativa de que os Estados Unidos sairiam de rastos desta Grande Recessão, Heisbourg acha que a superpotência se aguenta “como número um, apesar de tudo”, devido a uma característica profunda que mantém: “a sua resiliência, apoiada na criatividade tecnológica, na flexibilidade social, na vitalidade demográfica e na existência de um estado federal”. Por isso, o economista duvida das “teses declinistas” sobre a América que rapidamente se propagaram.
Também, a Rússia não lhe parece que tenha levado uma estocada mortal, por ora, apesar de ser “um dinossauro mono-produtor”, um ponto fraco que é, hoje, o tema central dos debates em Moscovo tendo em vista as presidenciais de 2012, diz Heisbourg.
O principal perdedor
O mais importante «vencido» desta crise poderá ser a União Europeia (UE). “Esta Grande Recessão acentuou os riscos de um declínio terminal”, afirma, com algum pessimismo. A ideia estratégica de uma “tríade” com os EUA e a China parece morrer na praia.
A UE tem dois problemas de fundo, refere o especialista: o risco de ter uma crise grave do euro, da moeda única, bem como uma perspectiva enevoada de crescimento a longo prazo. “A Europa, no conjunto, corre o risco de se japonizar em termos de crescimento”, conclui.
O risco de “japonização” na Europa
O Japão, tal como a Itália, recorda François Heisbourg, são campeões de uma doença: um crescimento de longo prazo medíocre (abaixo de 2%), que, no caso do Japão, que nos anos 1990 tivera a ambição de subir ao escalão das superpotências, já o empurrou definitivamente para “uma marginalização estratégica”. Uma sina que já dura desde a crise de 1991. O antigo império do Sol Nascente está, hoje, numa camisa de varas: “entre o protector americano e o consumidor chinês”.
O recente World Economic Outlook do Fundo Monetário Internacional divulgado esta semana acaba de prognosticar um crescimento medíocre de apenas 1% para o conjunto da zona euro em 2010 (a região do mundo com crescimento mais baixo) e em Espanha, no blogue Nada es Gratis, o economista Antonio Cabrales interrogava-se se a Espanha irá viver uma década similar à japonesa nos anos 1990.
5 colaterais da crise
1- O principal vencedor foi a China, mas a sua janela de oportunidade vai até 2025
2- Apesar de tudo, a América mantém-se como número 1, mas a sua projecção global vai ser afectada pelo défice público e a dívida externa
3- Ficou a nu o risco de declínio terminal da União Europeia e do seu projecto de uma tríade com os EUA e a China
4- Assistimos à marginalização estratégica do Japão
5- Os “milagres económicos” de muitos “tigres” esfumaram-se
Abril 29th, 2010 at 14:37
Desculpem lá, mas as normais loas aos EUA (mas quê, vocês também recebem de Washington?) väo-se esfumar mesmo. A dívida externa de 13.500 M$, para uma dívida total de 55.000 M$ väo tornar a “resiliência” em NADA, quando os chineses começarem a investir em I&D no próprio país, em vez de nos EUA, como fizeram até agora. Porquê, quem acham que anda a financiar esses 55.000 M$? Näo é a UE com certeza, säo os chineses, especialmente nas empresas americanas que eles compraram nos últimos 10 anos. E isso é ignorado convenientemente.
Os EUA säo em 2009 o mesmo gigante com pés de barro que era a URSS em 1989. Esta última, de repente, esfumou-se em dois anos, quando começaram as eleiçöes livres no seu bloco. Para os EUA, as “eleiçöes livres” säo as falências no seu bloco.
Abril 30th, 2010 at 0:01
As opiniões do entrevistado sobre os EUA não significam que “receba” de Washington. Tal como seria absurdo de dizer que quem contesta essa opinião “recebe” algo de alguém para o dizer.