Apesar da sua diversidade, as quatro potências globais emergentes reuniram pela segunda vez, e parecem querer dizer ao mundo que a grande crise e a habilidade geo-estratégica de Obama não paralisou o grupo.

Os três presidentes do Brasil, Rússia e China com o primeiro-ministro da Índia encontraram-se em Brasília nesta sexta-feira para realizar a 2ª Cimeira do que foi baptizado pela Goldman Sachs de BRIC – acrónimo para os quatro países. A 1ª cimeira havia-se realizado em Ecaterimburgo, na Rússia, em 16 de Junho de 2009. Como então escrevemos, o sinal que ela transmitiu para o mundo podia resumir-se numa frase: assistíamos ao princípio do fim do século americano.

As quatro potências aproveitaram, agora, para dar um outro sinal: que, no final das contas, são elas que saem desta Grande Recessão como “ganhadoras”, como nos sublinha (versão em francês) o especialista em geopolítica e geoeconomia François Heisbourg.

Se podemos puxar por frases simbólicas, ficam duas – a de Lula da Silva, de que estamos perante “uma nova geografia mundial” e a de um comentário irónico num jornal indiano, The Hindu, de que, a partir de agora, “no jobs for the boys” do Ocidente nos organismos internacionais, sobretudo nos ligados ao sistema económico e financeiro mundial.

Um artigo publicado por Lula da Silva no The Christian Science Monitor no dia 16 de Abril, no dia seguinte à cimeira de Brasília, merece ser lido na íntegra: “hoje os BRIC tornaram-se actores essenciais no processo de decisão internacional; estamos conscientes do nosso potencial como agentes de mudança, de modo a tornar a governação global mais transparente e democrática”. Lula reforça que a cena internacional não voltará a ser a mesma, de antes da crise: “estamos empenhados em construir uma abordagem diplomática conjunta”.

Cinco pontos a seguir

Do comunicado final de Brasília sai uma cartilha de objectivos geopolíticos muito clara e dura, que pode ser resumida em cinco pontos principais, cuja concretização terá de ser acompanhada ao longo do ano:

1. Reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas, onde já têm assento a Rússia e a China. Revindicação de que o Brasil e a Índia devem ganhar assento permanente;
2. Reforma do poder de voto do Banco Mundial nas próximas reuniões da Primavera;
3. Reforma das quotas no Fundo Monetário Internacional (FMI) a ser concluída até à cimeira do G20 em Novembro (como diz literalmente Lula no artigo citado: “não injectámos quase 100 mil milhões de dólares no FMI para deixar tudo na mesma como dantes”);
4. “No jobs for the (West) boys” nas posições de direcção da Banco Mundial e do FMI;
5. Estudo, sugerido pela Rússia, da viabilidade de desenvolvimento do comércio entre as quatro economias com bases nas divisas respectivas.

Lula da Silva e Dimitri Medvedev insistiram na proposta de substituir o dólar americano como divisa de referência no comércio internacional e nos fluxos financeiros globais, mas tal insistência foi amaciada no comunicado final.

O quinto passageiro

Os quatro procuraram, também, “colar” a África do Sul a este grupo, reforçando o papel geoestratégico daquele país. Desta vez, o motivo foi a realização também em Brasília da IVª cimeira do IBAS, um acrónimo mais, para Índia, Brasil e África do Sul, um eixo que é encarado como a matriz do “Sul” do planeta, assumindo que Rússia e China se situam geograficamente no “norte”.

A “colagem” da África do Sul ao grupo já havia sido testada na famosa “mesa” ad hoc em que se sentaram Estados Unidos, Brasil, China, Índia e África do Sul aquando da cimeira mundial de Copenhaga, e que acabou por ficar como foto simbólica daquele evento internacional a 18 de Dezembro.

A reunião do G24 em 22 de Abril: confirmação da agenda

A 22 de Abril realizar-se-ia em Washington a reunião de ministros do G24 para assuntos monetários que confirmaria esta agenda de Brasília.

O G24 reúne 9 países em desenvolvimento de África, 7 da Ásia, 8 da América Latina e arrasta alguns observadores, como a China, Marrocos e a OPEP. Os três eixos deste grupo são o Brasil, a Índia e a África do Sul. Guido Mantega, ministro da Fazenda brasileira, presidiu a reunião, que teve como convidados os “patrões” do FMI e do Banco Mundial.

A agenda concretizou alguns pontos de Brasília:
1. Para terminar a Ronda de Doha na área do comércio internacional o preço que os ricos terão de pagar é diminuir os benefícios do seu lóbi agrícola;
2. No FMI deverá haver uma “deslocação” de 7% de quotas dos países membros desenvolvidos para os em desenvolvimento;
3. O FMI deverá aumentar o peso dos DSE (direitos de saque especiais, a unidade de conta do Fundo) no sistema monetário internacional;
4. Um novo critério de escolha dos chefes do FMI e do Banco Mundial já na próxima eleição e uma nova estratégia de selecção da gestão sénior e dos funcionários em geral, dada “a severa subrepresentação de algumas regiões e países”;
5. Paridade de poder de voto no Banco Mundial entre países desenvolvidos e em desenvolvimento.