Ter 2 Mar 2010
O mês “negro” de Fevereiro e os actores por detrás do pano – diário de bordo 75
Por JNR na secção Geoprotagonistas , Gestão do risco , Inteligência Económica , O novo capital financeiro[3] comentários
O risco de incumprimento das dívidas soberanas de Portugal e da Grécia “desinchou” substancialmente neste começo de Março. Medido pelo preço em pontos base dos credit default swaps (acrónimo: cds, um derivado financeiro que serve de seguro contra o incumprimento), o risco baixou hoje para menos de 140 pontos base (pb) no caso de Portugal e quase 320 pb no caso da Grécia. No entanto, esta última continua a pertencer ao “clube” dos dez países com maior risco, ainda que estando em 9º lugar.
O risco português está, agora, próximo do irlandês – no índice composto da CMA DataVision, o risco de incumprimento no caso português era, hoje, no fecho, de 10,83% e no caso irlandês de 10,36%. (Como termo de comparação, o risco grego era, ainda, de 23,56%). Também, os preços dos cds relativos às dívidas soberanas espanhola e italiana estão em baixa significativa.
Esta tendência sofreu vários ziguezagues ao longo do mês de Fevereiro que acabaria por acomodar um período “negro” de duas semanas em que os preços dos cds relativos à Grécia e a Portugal alcançaram máximos históricos – no caso grego a 4 de Fevereiro (426,38 pb) e no caso português em 8 de Fevereiro (245, 22 pb).
Bolha dos cds “desincha”
Se compararmos com o início de Fevereiro, o preço dos cds relativos a Portugal fechou o mês (nos 163,68 pb) praticamente no mesmo nível, mas em relação ao máximo histórico “emagreceu” 81,52 pontos base. Isto significou que, em relação ao risco alemão (tomado como referência na zona euro, sendo muito baixo, na ordem dos 30-40 pb), o diferencial português baixou de 204,42 pontos para 123 pontos.
Cada 100 pontos equivalem a 1 ponto percentual no spread – ou seja, no máximo histórico a 8 de Fevereiro, a dívida soberana portuguesa tinha um spread superior a 2 pontos percentuais e no final do mês já tinha baixado para pouco acima de 1 ponto percentual. Actualmente, o spread estará abaixo de 1 ponto percentual.
No entanto, é preciso ter em conta que o rácio do valor líquido dos cds soberanos portugueses em relação à dívida pública é de 5% em 2010, o mais alto no grupo designado pejorativamente por PIIGS. A Irlanda encontra-se em 2º lugar com 3%, a Grécia com menos de 2%, a Espanha com pouco mais de 1% e a Itália com menos de 1%, segundo o relatório trimestral do Bank for International Settlements (BIS) publicado esta semana.
O longo braço franco-alemão
A diminuição da pressão sobre a Grécia é atribuída aos rumores de que o núcleo duro da Zona Euro, a Alemanha e a França, preparam uma solução para diminuir o stresse do governo helénico que tem mais de 20 mil milhões de euros da dívida para refinanciar até Maio. Durante 2010 terá necessidade de se financiar em 54 mil milhões e, até à data, já arranjou 13 mil milhões, mesmo em circunstâncias difíceis.
O governo grego adiou para esta semana uma operação de colocação de obrigações no valor de 3 a 5 mil milhões de euros. Na semana passada, as agências de rating S&P e Moody’s avisaram que poderão descer ainda mais a sua notação sobre a dívida grega, se a situação não se aclarar agora em Março. O regime de protectorado das contas gregas imposto por Bruxelas impôs um primeiro exame em meados deste mês.
Os franceses, em particular, apressaram-se a evocar uma solução em preparação nos bastidores que permita ao governo grego refinanciar-se dentro da zona euro através do envolvimento de “parceiros públicos e privados”, afirmou, este domingo, a ministra francesa da Economia Christine Lagarde numa entrevista à Europe1/Le Parisien.
Esta “solução” franco-alemã tem sofrido uma barragem de ataques dos media financeiros anglo-americanos, em particular do The Economist, do Financial Times e do Financial Times Deutschland. Este último tem feito eco da resistência de alguns meios financeiros alemães a um plano em relação à Grécia. No entanto, espera-se que, na próxima sexta-feira, o primeiro-ministro grego, o socialista George Papandreou, se encontre em Berlim com a chancelerina alemã conservadora Angela Merkel e no aperto de mão venha a tal “solução”.
Especuladores “descobrem” a dívida europeia
O que se passou em Fevereiro começa a ser atribuído a movimentos especulativos que julgaram ver em 2010 no mercado da dívida soberana de alguns países mais frágeis da zona euro um terreno fértil para ganhos financeiros em função do aumento do risco de incumprimento das dívidas. Num processo que é um verdadeiro ciclo vicioso (ver destaque).
Depois de uma corrida à míni-bolha das bolsas entre Março de 2009 e 19 de Janeiro de 2010, os movimentos especulativos, que continuam a conseguir obter financiamentos baratos (dado o nível muito baixo das taxas directoras nos EUA e na Europa, por exemplo) procuraram novas oportunidades de rendas financeiras elevadas e encontraram um maná nos mercados da dívida soberana e no câmbio do euro face ao dólar, segundo o relatório trimestral do BIS. Simon Johnson, professor do Massachusetts Institute of Technology, testemunhou perante o comité do orçamento do Senado americano, no início de Fevereiro, que “estamos a assistir a um ataque em toda a escala sobre a dívida soberana na zona euro”.
De facto, a partir de meados de Janeiro, a volatilidade no mercado dos cds disparou na Europa, numa febre altista que foi o dobro da que ocorreu nos EUA. Como refere o relatório do BIS, “este mercado [dos cds relativos à divida soberana dos países desenvolvidos] praticamente não existia há poucos anos atrás, quando os cds soberanos estavam concentrados sobretudo nos países emergentes”.
Depois tomaram o gosto pelos países “ricos”, particularmente pela Europa. O alvo central foi a Grécia – depois dos avisos de “despromoção” da notação da República Helénica pelas agências de rating Moody’s em Outubro e depois pela S&P em Dezembro e das “despromoções” feitas pela Fitch e pelas outras duas em Dezembro. Em Janeiro já se sentiam os efeitos deste ataque em toda a Europa Ocidental: o índice dos cds ligados à dívida soberana de um “cabaz” de países da Europa Ocidental subiu acima de 100 pontos base pela primeira vez – quase o triplo da referência alemã – refere o relatório do BIS.
Alguns gurus das crises alvitram que a seguir às crises financeiras graves vêm os defaults de países. Kenneth Rogoff, professor de Harvard, recordou na semana passada em Tóquio, que isso aconteceu anteriormente. E sentenciou: “ A Grécia é, apenas, o começo”.
Ao mesmo tempo, os movimentos especulativos começaram a “entrar” também na securitização da dívida dos bancos da zona euro, particularmente em relação a alguns dos PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha), em que as contas externas da banca apresentam grandes desequilíbrios entre os passivos e os activos, como são os casos de Itália, Espanha e Portugal, com saldos negativos muito elevados. Alguns dos grandes bancos privados portugueses estiveram em foco durante Fevereiro no mercado dos cds, como o BCP e o BES.
Por outro lado, verificou-se que os bancos europeus estão muito expostos às dívidas dos sectores públicos da Grécia, Espanha e Portugal, nada comparável com a minúscula exposição por parte dos bancos dos EUA, Japão e Reino Unido. No caso de Espanha, a exposição europeia atinge cerca de 100 mil milhões de dólares, no caso da Grécia está acima dos 80 mil milhões e no caso português rondará metade do espanhol, segundo o relatório do BIS. Por isso, a alta finança da zona euro é muito “sensível” ao que ocorre com estes três países do clube Méd. Entre os mais “sensíveis” ao problema estão o Crédit Suisse, a UBS, a Société Générale, o BNP Paribas e o Deutsche Bank.
Jantar de filet mignon decide ataque ao euro
Em simultâneo, a zona euro assiste a um ataque à sua moeda. Depois de um ponto alto recente em 1 de Julho de 2008 com o euro a valer quase 1,6 dólares, a tendência altista inverteu-se e o euro está hoje abaixo de 1,35 dólares. Aos especuladores esta inversão cheirou-lhes, literalmente, a filet mignon.
Num jantar realizado a 8 de Fevereiro por uma boutique financeira nova-iorquina na baixa de Manhattan, um grupo de grandes especuladores decidiu apostar que, no prazo de um ano, o dólar chegará à paridade com o euro, algo que ocorreu na primeira fase do euro (entre Março de 1999 e Janeiro de 2000) e mais tarde entre Novembro de 2002 e Abril de 2003. O dólar chegou a valer mais do que o euro entre Fevereiro de 2000 e Outubro de 2002.
A Monness, Crespi, Hardt & Co colocou alguns pesos pesados a comer filet mignon num tal “idea dinner”, falando o The Wall Street Journal que, à mesa, se banqueteavam alguns líderes dos hedge funds, como a Soros Fund Management LLC, a SAC Capital Advisors, a Greenlight Capital e a Brigade Capital.
Não esperam que haja um colapso do euro como aconteceu à libra em 1992 (em que esteve envolvido o senhor Soros), mas devem ter combinado dar uma mãozinha para que a paridade seja atingida e as suas jogadas especulativas na desvalorização do euro resultem em ganhos elevados.
DESTAQUE
O círculo vicioso dos cds
O jogo é diabólico e é desmontado assim por David Caploe, do EconomyWatch. Um determinado alvo parece estar fragilizado – por exemplo, um estado soberano e a sua dívida pública, em virtude de alta instabilidade política e de disparo de vários indicadores após o combate à crise. Os especuladores que já investiram ou emprestaram a esse país fragilizado atiram-se ao casino dos cds adquirindo esses seguros na aposta de que o país em questão terá dificuldades de cumprimento das suas obrigações de dívida. A compra desses seguros sobre a dívida soberana permitir-lhes-á serem ressarcidos em caso de default daquele Estado.
Deste modo, ao afluírem em massa a este mercado fazem com que o preço dos cds suba. Essa subida é interpretada como um sinal de agravamento da situação. E, como este risco aumenta, os governos desses países terão de pagar spreads mais altos aos tomadores de títulos e de obrigações do Tesouro. Com este adicional de encargos, os governos têm dificuldades acrescidas de colocar esses instrumentos de financiamento da dívida e, se tiverem, por exemplo, de recuar numa operação dessas, a desconfiança aumenta, as apostas no casino dos cds aumentam, e o preço dos cds sobe ainda mais. E, assim, sucessivamente. Até que ocorra, de facto, um default ou alguma acção política concertada desincha o balão especulativo.
Os principais bancos envolvidos neste mercado criaram em simultâneo uma empresa quase desconhecida, a Markit, que lançou um índice que permite o jogo, denuncia David Caploe. Em Setembro passado, a Markit introduziu um índice o iTraxx SovX Western Europe, que entrou em frenesim em Fevereiro. A procura de contratos para este índice duplicou entre Janeiro e Fevereiro – a Markit, naturalmente, arrecada uma renda financeira por licenciar o índice aos brokers.
Ou seja, há, neste casino, investidores a ganharem em vários tabuleiros: directamente na dívida, nos seguros de risco sobre a dívida e no licenciamento do índice, conclui David Caploe.
De acordo com o BIS, o mercado dos cds envolvia contratos no valor facial de 36 triliões de dólares (26,6 biliões de euros) no final do 1º semestre de 2009 e só os bancos comerciais americanos detinham 13 triliões (9,7 biliões de euros) no 3º trimestre do ano passado. Os principais “jogadores” neste casino são o JP Morgan Chase, o Citibank, o Bank of America e a Goldman Sachs (GS). No caso desta última, depois das revelações sobre as operações de maquilhagem na Grécia, a anedota que corre em Wall Street é particularmente venenosa: descubra por que países a GS andou em securitizações e saberá rapidamente quais as próximas vítimas dos especuladores focalizados nas dívidas soberanas.
O The New York Times – através da pena de Gretchen Morgenson num artigo apropriadamente intitulado “É tempo dos swaps perderem a sua arrogância” – já veio levantar uma questão incómoda: por que razão ninguém fala de tocar nos cds no quadro da reforma financeira que anda tão acalorada? O Office of the Comptroller of the Currency americano poderá ter uma resposta: o trading dos derivados de crédito rendeu 1,2 triliões de dólares só no 3º trimestre de 2009!
A ministra francesa da Economia, Christine Lagarde, pediu inclusive, no domingo passado, a “extinção” destas inovações financeiras.
Março 29th, 2010 at 18:07
[...] O primeiro sinal havia sido a Islândia, seguiu-se a grave crise na Irlanda, depois o choque no Dubai e, finalmente, a Grécia que agitou seriamente os mercados financeiros da dívida desde Dezembro (quando as agências de rating baixaram a notação do país), com um pico nas primeiras duas semanas de Fevereiro. [...]
Maio 19th, 2010 at 23:54
[...] velocidade com que o euro se tem depreciado ultimamente parece dar razão à “aposta” feita em 8 de Fevereiro num jantar de filet mignon em Manhattan reunindo a nata dos hedge funds. Em relação à cotação do final de [...]
Maio 21st, 2010 at 11:06
[...] Aqui os managers dos Hedge funds apostaram na paridade entre o dólar e o euro. Eles não costumam apostar para perder [...]