O Fundo Monetário Internacional (FMI) ganhou a corrida de “salvar” a Grécia e “entra” pela primeira vez na coutada da zona euro.

Já desde Janeiro que os técnicos de Washington assessoravam directamente o governo socialista de George Papandreou e o seu dedo é visível no plano de austeridade, como nos referiu Jens Bastian, economista da fundação ateniense sobre Política Europeia e Estrangeira (ELIAMEP), numa entrevista que foi publicada na edição impressa de sábado do jornal português Expresso, mas que pode ser lida, numa versão ampliada em inglês, aqui.

A “rendição” ao FMI acabou por ser geral, sublinham os analistas internacionais, mesmo contra os desejos do presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, a quem não agrada este pé financeiro de Washington na zona euro, no que foi seguido por alguns políticos europeus. Não propriamente por causa do montante de 22,1 mil milhões de euros que Atenas precisa, como pão para a boca, de arranjar nos mercados financeiros entre 13 de Abril até final de Maio, a uma taxa de juro não letal, mas porque o que se discute nas cimeiras europeias já não é mais a crise grega.

Desavenças no eixo franco-alemão

O que veio,inesperadamente, para a ribalta é, sim, a crise da zona euro, diz Bastian, face ao ataque especulativo à moeda comum (o euro vale pouco mais de 1,3 dólares, uma quebra de 7% em relação ao final de 2009 e de 11% em relação ao máximo mais próximo de 22 de Outubro de 2009 quando o euro valia mais de 1,5 dólares) e devido às agendas políticas divergentes dos seus principais protagonistas, nomeadamente dentro do poderoso eixo franco-alemão.

Um “eixo” que, apesar de estar condenado a andar de “mãos dadas”, enfrenta uma conjuntura doméstica complexa: o governo francês de Nicolas Sarkozy acaba de sair de uma derrota eleitoral nas regionais e Angela Merkel tem de ter em conta a o “estado de alma” dos seus eleitores e da sua coligação que vai a votos na Renânia do Norte-Vestefália a 9 de Maio. O risco que Merkel corre, internamente, é perdendo aquela região perder a maioria na Câmara Alta, na Bundesrat, formada pelos 16 estados alemães.

A par destes constrangimentos políticos domésticos, soma-se um crescente “desentendimento” sobre o modelo europeu de desenvolvimento de saída da crise. Para os alemães, baseado no seu tradicional modelo “mercantilista” exportador (cada vez mais ameaçado pela liderança exportadora mundial pela China), e para os franceses nas políticas industriais agressivas com iniciativa estratégica do Estado (um modelo cada vez mais constrangido pela dívida externa e os défices públicos nos países ricos).

A solução “mista”

Mas as circunstâncias empurraram os dois chefes políticos, Merkel e Sarkozy, para um compromisso que cedeu o passo ao FMI e ao estado de alma dos alemães que querem uma disciplina orçamental com tolerância zero na zona euro e mesmo a “expulsão” dos prevaricadores repetentes, no limite. Ou seja, alguns dos membros do designado “clube Méd” (como a Grécia, Espanha e Portugal), precisamente uma parte dos denominados pejorativamente PIIGS (Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha), que muitos alemães e nórdicos gostariam que nunca tivessem entrado na zona euro.

“Com a Alemanha a mudar de posição de semana para semana, sempre recomendei que se desse o lugar ao FMI. Isso ajudará a despolitizar o problema e a evitar uma crise maior”, refere-nos Bill Witherell, da Cumberland Associates, um fundo global. Ainda se pensou na criação de um Fundo Monetário Europeu, uma ideia proposta pelo economista americano Mark Thoma no início da crise de dívida grega (e de que fizemos eco) e que pareceu recolher alguma simpatia na União Europeia, mas que Jens Bastian acha que “já virá tarde para os gregos”.

Laurence Boone, analista do Barclays Capital (BarCap), em Paris, adiantou que o FMI poderá disponibilizar, de imediato, entre 10 a 15 mil milhões, que poderão ser complementados com empréstimos bilaterais de outros membros europeus “coordenados pela Comissão Europeia”, como deseja Jean-Claude Juncker, o primeiro ministro do Luxemburgo, chefe do Eurogrupo. Uma solução “mista”, diz a analista, que se poderá aproximar da solução para a Letónia (que está fora da zona euro), que tem hoje um risco de bancarrota (perto dos 23%) inferior ao grego e ao islandês no clube dos 10 de maior risco à escala mundial, segundo a CMA Datavision.

Segundo o jornal francês Le Monde, a repartição dos créditos eventuais futuros, a que a Grécia poderá recorrer, em caso de emergência, se tiver problemas nos mercados financeiros, será em 2/3 proveniente da eurozona e em 1/3 do FMI, que poderá disponibilizar financiamentos a taxas de juro baixas. Dentro da eurozona, o esforço será proporcional ao peso dos diversos países no Banco Central Europeu, ou seja os líderes, Alemanha e França, seriam responsáveis por quase 50%. Os créditos europeus não terão colados nenhuns subsídios.

Este mecanismo “misto” parece agradar ao poderoso lóbi banqueiro e de fundos financeiros europeu que está profundamente exposto à dívida grega e que não gostaria de “pagar” a factura de uma bancarrota grega se os mercados financeiros internacionais “lessem” o comportamento alemão como um sinal de deixar cair em default, de vez, a Grécia. O principal credor da dívida pública grega é a França (banca e fundos privados), com 16,5% do bolo, seguindo-se a Alemanha, com 9,5%, a Itália, com 6,7%, e a Bélgica, Holanda e Luxemburgo com mais de 5% cada um.

Em suma, esta solução “mista” poderá passar a ser o modelo operativo de rede de segurança de ultimo recurso para outros casos que surjam na zona euro.

O FMI, neste momento, além da Letónia (onde actua em parceria com a União Europeia) que fixou o objectivo de entrar no euro em 2014, interveio na Hungria, na Roménia e na Polónia.

Crise na sombra

Apesar da vinda do FMI ajudar a “despolitizar” o problema grego no imediato, há um problema de fundo que se manteve na “sombra” até há umas semanas atrás, diz David Caploe, economista chefe em Singapura do EcomomyWatch.com: “O caso do Dubai é uma referência, pois exemplifica a uma escala micro o dilema. Ou o tio rico ajuda o familiar em apuros, ou a fraqueza de uma zona de moeda única fica exposta, e lança a questão, até quando poderá perdurar?”.

Um dos membros da direcção do BCE, Lorenzo Bibi Smaghi, disse publicamente em entrevista ao jornal alemão Die Zelt, antes do início da cimeira de Bruxelas na quinta-feira, que a “imagem que se dá do euro é de uma moeda que só sobrevive graças ao apoio externo de uma organização internacional, onde aliás americanos e asiáticos são cada vez mais influentes”. Um problema geopolítico sério para a Europa.

Milton Friedman, o patriarca do “liberalismo”, predisse que a moeda única colapsaria depois de uma década ou duas. O inglês Robert Skidelsky acha que, se calhar, ocorrerá antes, pois falta na União Europeia uma forma centralizada de lidar com “choques assimétricos”. Um grupo de personalidades “eurocépticas” alemães ameaçou avançar com uma acção judicial caso os países da zona euro violem a regra europeia que proíbe o salvamento financeiro de países em bancarrota externa. Esse grupo alemão insiste que a Grécia deve sair da zona euro. No que é acompanhado, por razões diversas, por grupos políticos de pressão gregos.

O próprio problema do risco de crises em série relacionadas com a dívida externa de alguns países vai perdurar por todo o ano na zona euro. Segundo o jornal alemão Der Spiegel, as necessidades de refinanciamento ao longo de 2010 para os cinco países designados por PIIGS monta a cerca de 405 mil milhões de euros, com os meses mais complicados (com maior volume) em Abril, Junho e Julho.

Efeitos colaterais

A confusão sobre a solução face à Grécia, gerou, ao longo desta semana, um reaquecimento, temporário, do mercado dos credit default swaps (cds), os seguros relativos à dívida soberana a cinco anos. Atenas, depois de ter assistido a uma acalmia ao longo das primeiras semanas de Março, voltou a assistir ao preço dos cds galgar, de novo, o patamar dos 300 pontos base (pb).

E, apesar de estar ainda distante do máximo histórico de 4 de Fevereiro (quando atingiu um recorde de mais de 426 pb), a Grécia subiu no clube do risco mundial para 7º lugar, ultrapassando, a meio desta semana, a Letónia e o Dubai. Mas, depois do acordo franco-alemão de ontem (25/03), desceu, no fecho da semana, para 9º lugar no clube dos 10 mais, situando-se o preço dos cds abaixo dos 300 pb. A yield das obrigações gregas a 10 anos chegou a aumentar seis pontos base para 6,36% durante a semana.

Também, Portugal, se viu afectado por esta turbulência, depois de um comunicado da agência de rating Fitch ter agravado, na quarta-feira, a apreciação sobre o risco português, despromovendo a notação do país de AA para AA-. Os cds relativos a Portugal subiram para próximo dos 140 pb – ainda muito longe, no entanto, do máximo histórico de mais de 245 pb em 8 de Fevereiro -, mas o suficiente para a yield relativa ao mesmo tipo de obrigações ter subido 3 pontos base para 4,34% durante a semana. Contudo, depois de conhecida a solução saída de Bruxelas, a alta parou e o preço dos cds relativos a Portugal voltou a baixar (estando no fecho de sexta-feira, 26 de Março, em 131,59).

Tudo indica que os mercados da dívida “acomodaram” positivamente as decisões de Bruxelas, no imediato. O que não significa que para a semana a situação se mantenha em lua-de-mel. Estes mercados vivem num ambiente de alta volatilidade. O mecanismo de Bruxelas está, ainda, por testar.

Finalmente, uma decisão do Banco Central Europeu de manter para além do final de 2010 as regras de excepção – em vigor durante esta Grande Recessão – quanto ao mínimo de notação requerida, que está no nível BBB-, é interpretada como a contribuição de Jean-Claude Trichet para a “salvação” da Grécia (e de outros na mesma linha de risco futuro) das garras das agências de rating. A Grécia, segundo a agência de rating Standard & Poor’s, tem uma notação de BBB+, ou seja na fronteira.