Fevereiro 2010
Monthly Archive
Sáb 6 Fev 2010
A meio da semana passada, Angela Merkel e Nicolas Sarkozy resolveram apertar as mãos em torno de uma “Agenda 2020” que inclui mais de 80 projectos entre os dois países vizinhos.
Na área económica, foi logo dado destaque, entre eles, a cinco projectos de política industrial comum: um office franco-alemão para as energias renováveis, um projecto-piloto de veículo eléctrico de colaboração entre Estrasburgo e Estugarda, o lançamento de um satélite franco-alemão de detecção de emissões de gás com efeito de estufa, o trabalho conjunto na área de um futuro foguetão espacial europeu e a coordenação na indústria de defesa.
Mas, para além desta convicção de que a Europa deve ter “uma base industrial sólida” (como se refere no comunicado oficial do encontro), e não só viver de rendas financeiras, de serviços (por mais importantes que sejam, como os financeiros, os logísticos, ou o turismo) e de software, a França e a Alemanha dão as mãos, de novo, para consolidar uma nova entente geopolítica, de cooperação estratégica com impacto global.
Primeiro, dentro de portas, recolocando o eixo franco-alemão na direcção estratégica da Zona Euro e da União Europeia face à confusão que reina no seu topo institucional fragmentado. Basta recordar o que aconteceu na semana finda: a Comissão Europeia dá um sinal de “sim, mas” à Grécia em apuros e, logo a seguir, um comissário, Joaquín Almunia, vem, por sua alta recriação, estragar o repasto e provocar um crash na Europa (e particularmente nas bolsas de Madrid, Lisboa e Atenas numa verdadeira quinta-feira negra) e o aumento do nervosismo nos mercados de seguros da dívida soberana (hoje conhecidos pelo popular acrónimo inglês CDS – para credit default swaps).
Plano de consolidação orçamental e de regulação
Esta 12ª reunião conjunta de conselhos de ministros, desta vez no Eliseu, em Paris, decidiu que o eixo apresentará propostas comuns na área económica e financeira já na próxima cimeira informal da União Europeia a 11 de Fevereiro – na próxima quinta-feira – em Bruxelas.
Os dois países pretendem que a consolidação orçamental nos países membros se faça até 2013 em torno da meta de um défice inferior a 3% do PIB no quadro do Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC) e de um estado de equilíbrio orçamental até 2015. Com a resposta à Grande Recessão, a França atingiu, no ano passado, os 8,3% e a Alemanha subiu para os 3,4% (um pouco acima do tal limite, o que para os alemães é uma desonra).
A Alemanha gastou, em termos acumulados ao longo do pânico financeiro e da recessão que se seguiu, 5,1% do seu PIB (em valores de 2008) a salvar o sistema financeiro e 2,5% do PIB em programas de estímulos; no caso da França aplicou muito menos em termos absolutos e relativos: 1,4% do PIB a deitar água no risco sistémico e 1,2% em estímulos, segundo dados recolhidos pela Grail Research até Setembro de 2009, uma firma de investigação estratégica, sedeada em Cambridge, Boston. No conjunto os dois países gastaram em bailout e estímulos mais de 350 mil milhões (biliões na designação anglo-saxónica) de euros, apenas 2,7% do esforço mundial que totalizou 13 biliões (triliões na designação anglo-saxónica), em que os EUA gastaram 5,9 biliões e a China 2 biliões.
Apesar da força política do PEC, um grupo de notáveis na Alemanha, membros do Painel de Conselheiros Económicos do governo federal, já propôs um Pacto europeu de consolidação orçamental em que a saída das políticas anticrise seja cautelosa e rigorosa, e assumida em conjunto por todos os estados-membros.
O eixo franco-alemão trabalhará coordenadamente nas questões quentes do problema sistémico e de algumas das lições da actual Grande Recessão: regulação do mercado de derivados e dos fundos especulativos; sobre as instituições financeiras sistémicas, as jurisdições não cooperativas (eufemismo para offshore), as normas em matéria de exigências de fundos próprios e de liquidez do sistema financeiro e as agências de compensação e de notação (as famosas agências de rating). Preparará, também, em conjunto as negociações do próximo quadro financeiro plurianual europeu.
O já referido painel alemão de conselheiros avançou com uma ideia que agrada, também, a Sarkozy: a criação de um organismo de observação sobre os mercados de divisas, considerados pelos alemães “num estado de anarquia”, assegurando um sistema tripolar, entre o euro, o dólar e o renmimbi (a moeda chinesa), curiosamente omitindo a libra.
Resposta a uma humilhação
Depois, o casalinho em lua-de-mel franco-alemão olha para fora do continente: “Num mundo em que se impõem novos actores globais, estamos convencidos que um eixo franco-alemão o mais estreito possível é indispensável para os nossos dois países e para a Europa”, diz o comunicado oficial.
Todos estão lembrados da humilhação recente da Europa na Conferência de Copenhaga sobre alterações climáticas, em que uma mesa adhoc de cinco (EUA, China, Brasil, Índia e África do Sul) deixou os europeus a falar sozinhos pelos corredores da cimeira como baratas tontas. Os passos estratégicos a dar não vêm explícitos no comunicado oficial franco-alemão.
Entre as medidas explícitas, a França apoia a aspiração da Alemanha a ter um lugar de membro permanente no Conselho de Segurança da ONU e os dois países apresentarão, logo que possível, uma candidatura à presidência conjunta da Organização de Segurança e Cooperação Europeia.
Interrogações finais: Como reagirá o Reino Unido a este renascimento do eixo franco-alemão? Voltará, de novo, para os braços do Tio Sam? Conseguirá o eixo cativar o shatterbelt europeu, dos nórdicos, ao leste (Polónia, sobretudo) e à Península Ibérica?
A política europeia voltou a ficar animada. Os jogos de poder regressaram, depois, de um interregno com a Grande Recessão e as peripécias do Tratado de Lisboa.
Qui 4 Fev 2010
Uma vaga de pânico financeiro alastrou hoje (4 Fevereiro) pelas bolsas europeias e, ao final da tarde, pelas bolsas de Wall Street e da Times Square (onde fica o Nasdaq, a bolsa das empresas tecnológicas). Os analistas começaram a sentir um cheiro a novo crash bolsista, com quedas superiores a 2,5% em todo o espaço europeu e americano, exceptuando a Ásia.
As situações mais graves na Europa ocorreram em Espanha, com o índice Ibex a cair estrondosamente quase 6% (a maior queda do dia à escala mundial), a que se seguiram as quedas aparatosas no índice PSI 20 português (quase 5%), na Hungria (4,57%) e na Polónia (4,11%). Nas Américas, a maior quebra ocorreu no índice Bovespa brasileiro (4,73%).
A nível de grandes quedas em entidades cotadas, os analistas salientam as correcções fortíssimas em grandes bancos originários da Península Ibérica, com a cotação do Santander (um dos maiores bancos do mundo) a cair 9,4%, do BBVA a quebrar 7,5%, do BCP a descer, também, 7, 5% e do BES a cair 5%.
Um cocktail de causas
Os analistas inclinam-se para “um cocktail de muitas coisas” a influenciar esta situação, como expressou à Bloomberg o analista suíço Manfred Hofer.
Nesse cocktail incluem-se factos económicos que se conjugaram, nesta semana, à escala mundial: 1) a China declarou claramente ir “arrefecer” a expansão doméstica do crédito; 2) a Moody’s avisou que “a dado passo” poderá ver-se obrigada a despromover os próprios Estados Unidos da sua notação de triplo A (a mais alta); 3) a mesma agência de rating alertou para o facto de 995 grande empresas defrontarem nos próximos cinco anos a necessidade de refinanciarem 574 mil milhões de euros de dívidas (quase 3,5 vezes o PIB português); e 4) o mercado dos credit default swaps (conhecido pelo já popular acrónimo de CDS, um veículo financeiro para segurar o risco da dívida) esteve ao rubro, com disparos nos preços desses seguros para a Islândia (6º país de maior risco à escala mundial), Grécia (7º país de maior risco), Portugal, Itália e Polónia.
As situações mais graves ocorreram hoje com o aumento no caso português e grego, que fixaram novos máximos históricos. O preço dos CDS relativos a Portugal subiu para 229,56 pontos base (pb), o que equivale a um aumento de quase 150% em relação há um mês atrás, e no caso grego para os 426,38 pb. No caso da Itália e Polónia, o preço galgou o patamar dos 150 pb.
Os analistas interrogam-se agora, se este crash vai ter continuidade e se desaguará numa recaída da recessão mundial. O que se passou na cena europeia irá fazer ricochete?
Qua 3 Fev 2010
O “clube Med”, designação mais mediterrânica e simpática para o que outros chamam de PIGS (o acrónimo para Portugal, Itália, Grécia e Espanha, que, em inglês, significaria porcos, mas não os da quinta de Orwell), voltou a dar sinal de si. Ontem juntou-se para ocupar os lugares cimeiros dos aumentos dos preços dos credit default swaps sobre a dívida soberana, segundo os dados públicos divulgados pelo Markit.
A Grécia, depois de uma descida na segunda-feira do seu máximo nos 404 pontos base (alcançado na semana passada, no auge do ataque especulador por parte de hedge funds), voltou a subir, ontem, para 386,05 pontos base (pb), apesar do “sim, mas” da Comissão Europeia ao seu plano de consolidação orçamental, que foi colocado sob observação.
Portugal, depois de uma descida ligeira, voltou ontem a subir para o seu máximo histórico de 166 pb, alcançado, também, na semana passada. A Espanha subiu, também, para os 133 pb e a Itália, que tinha estado arredada destas andanças durante uns tempos, alcançou os 121,72 pb.
Cada 100 pontos base equivalem a um diferencial de 1% em relação ao preço dos CDS sobre a dívida alemã que se situa nos 36 pontos base. Ou dito de outro modo, se um investidor pretender segurar a dívida soberana grega num montante de 10 milhões de euros, contra o risco de bancarrota a cinco anos, terá de pagar mais 385 mil euros por ano; no caso português terá de pagar mais de 160 mil euros; no espanhol mais de 130 mil; e no italiano mais de 120 mil – enquanto no caso alemão, apenas, 36 mil.
À frente do grupo europeu ocidental de países de risco está, naturalmente, a Islândia que se mantém distanciada do “clube Med”, com preços na ordem dos 650 pontos base. No leste europeu, a situação continua a piorar relativamente à Ucrânia cujos preços dos CDS estão nos 879, 82 pb. À escala mundial, as situações sob observação mais graves são a Venezuela e a Argentina que se encontram próximo do patamar dos 1000 pontos.
Ter 2 Fev 2010
A Comissão Europeia, amanhã (3 de Fevereiro), na sua apreciação do plano orçamental grego até 2013 deverá colocar em marcha um sistema de vigilância muito apertado da Grécia, um mecanismo excepcional que a União Europeia não utilizou até à data, segundo noticia hoje o jornal francês Le Monde.
O plano grego – apesar das dúvidas que tem suscitado por parte de analistas e responsáveis europeus – deverá ter o aval da Comissão. O mecanismo de observação obrigará o governo grego a apresentar um relatório em meados de Março e depois em meados de Maio, e seguidamente trimestralmente.
Os gregos vão durante as próximas semanas passar por uma escada de “portagens” sucessivas. Na próxima 6ª feira (5 de Fevereiro), em Bruxelas, os chefes de Estado e primeiros-ministros da União Europeia (UE) irão analisar discretamente a questão grega, à margem da cimeira informal consagrada aos assuntos económicos e climáticos. Depois, a 15 e 16 de Fevereiro, a reunião dos ministros das Finanças da UE deverá validar ou emendar as recomendações da Comissão sobre a Grécia.
A dívida soberana grega esteve sob ataque cerrado na semana passada (quando os preços dos credit default swaps – conhecidos pelo acrónimo CDS – relativos a essa dívida chegaram a mais de 400 pontos base, um máximo na Europa Ocidental, exceptuando o caso da Islândia que já atingiu mais de 670 pontos base) e o primeiro-ministro socialista helénico denunciou inclusive em Davos, no World Economic Forum, uma operação especulativa maciça de hedge funds em curso nessa semana, de que o Der Spiegel se fez eco.
Recorde-se que, na semana passada, os CDS relativos à dívida soberana portuguesa atingiram, também, um máximo histórico de 166 pontos base (pb). No começo desta semana, os CDS gregos já baixaram para 378,83 pb. A bolsa grega continua com alguma volatilidade.
Seg 1 Fev 2010
O mercado dos fundos de pensões, nos últimos dez anos, cresceu mais em países como Brasil, Hong Kong, Austrália e África do Sul. Na Europa cresceu mais em França e na Holanda no mesmo período, segundo um estudo da Towers Watson que abrangeu os principais treze países envolvidos nesse sector. Estaremos a assistir a mais uma mudança geoeconómica?
O mercado dos fundos de pensões teve taxas de crescimento anual (compostas) de dois dígitos no Brasil (quase 19%), Hong Kong (14%), Austrália (cerca de 14%) e África do Sul (10%) nos últimos dez anos, segundo um estudo divulgado hoje pela Towers Watson, que abrangeu 13 países entre os desenvolvidos e os emergentes. A taxa média de crescimento anual, naquele período, foi, apenas, de uns magros 3,6% para o conjunto dos treze países analisados. Nessa década, no espaço da Zona Euro, a França (9,8%) e a Holanda (9,5%) juntaram-se a esse clube de países com maiores crescimentos na década.
O estudo foi interpretado por diversos analistas como dando indicações de quais os mercados de fundos de pensões do futuro, com destaque para os três grandes países do G20 situados a Sul (Brasil, África do Sul e Austrália).
Crescimentos surpreendentes
Nos últimos doze meses, reportados a Dezembro de 2009, a taxa de crescimento anual, em dólares, foi absolutamente surpreendente em casos como Brasil (108,3%), África do Sul (cerca de 43%) e Austrália (40,3%), enquanto à escala mundial o crescimento anual foi de 15%. No caso da Europa, o crescimento mais assinalável foi o do Reino Unido, com 25% de crescimento entre Dezembro de 2008 e Dezembro de 2009. Em moeda local, os maiores crescimentos no último ano incluíram o Brasil (54,3%), Hong Kong (23,3%), Holanda (14,2%) e França (13,8%).
Trata-se de uma recuperação a sublinhar, depois de uma contracção mundial deste mercado superior a 21% entre Dezembro de 2007 e Dezembro de 2008, durante o período de pânico financeiro da actual Grande Recessão.
Os analistas referem que esses crescimentos seriam sintomas de alguma “emigração” deste mercado para o Hemisfério Sul, dado o peso da Austrália (5º mundial em activos de fundos de pensões) e a subida de países como o Brasil (quase sextuplicou; 9ª posição actualmente), África do Sul (quase triplicou; 10ª posição) e Hong Kong (mais do que triplicou; na última posição do grupo de 13 analisados).
O grupo líder em activos de fundos de pensões continua a ser formado pelos EUA (mais de 13 biliões de dólares de activos em fundos; 13 triliões na designação anglo-saxónica; ou seja 57% dos fundos de pensões existentes neste grupo de 13), Japão (3,2 biliões), Reino Unido (1,8 biliões), Canadá (1,2 biliões), Austrália (996 mil milhões) e Holanda (990 mil milhões). Dentro deste clube selecto, o Japão foi o país que apresentou a taxa de crescimento anual média mais baixa em dez anos inferior a 2% e os Estados Unidos e o Reino Unido cresceram menos de 3%. Por essa razão, o peso dos fundos de pensões destes três países líderes baixou no total dos 13 países.
Na Europa, a Holanda é o maior mercado, ocupando a 6ª posição mundial neste estudo, seguindo da Suíça e da Alemanha. O mercado francês ocupa a 11ª posição neste grupo de 13, mas foi o com maior crescimento anual nos últimos dez anos (multiplicou por 2,5).
Os mais “viciados”
A Towers Watson analisa, também, o peso destes activos em fundos de pensão em relação ao PIB de cada país na sua moeda local. Os países mais “viciados” nestes fundos são a Holanda (120% do PIB), Suíça (113%), Austrália (93%), Estados Unidos (93%), Canadá (84%) e Reino Unido (80%). Os que mostraram maior crescimento desta percentagem no PIB entre 1999 e 2009 foram Hong Kong (mais 27 pontos percentuais), Austrália (mais 26 pp), Holanda (mais 17 pp) e Brasil (mais 11 pp). Os que emagreceram no PIB ocorreram nos casos dos Estados Unidos (quebra de 16 pontos percentuais), Canadá (12 pp) e Reino Unido (12 pp).
Os casos de crescimento de peso no PIB são ainda mais assinaláveis se tivermos em conta que, no mesmo período, o peso dos fundos de pensões no PIB mundial em dólares diminuiu 6 pontos percentuais, situando-se hoje nos 70%. Países como a França e a Alemanha têm um peso dos fundos de pensões no PIB muito baixo, de 6% e 12% respectivamente.
O estudo revela, ainda, que há uma discrepância assinalável no perfil dos fundos de pensões entre duas realidades bem distintas: no Japão e no Canadá são detidos em 70% e 62% respectivamente por entidades públicas, e nos casos do Reino Unido, Austrália, Holanda, Suíça e Estados Unidos são detidos por privados em mais de 70%.
A Towers Watson disponibiliza no seu sítio na web uma ligação para o estudo que abrange outros aspectos não abordados neste artigo.
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