O consumo privado não será o motor da retoma de crescimento económico do G7 (Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Reino Unido, Itália e Canadá) nem de mais outros 9 membros da OCDE (Austrália, Áustria, Bélgica, Espanha, Finlândia, Holanda, Irlanda, Noruega e Suécia), concluiu um estudo de investigação levado a cabo por Franziska Ohnsorge, economista sénior do Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento (BERD), e Ashoka Mody, director-adjunto do Departamento Europeu do Fundo Monetário Internacional (FMI).

A importância do assunto é evidente. Nos Estados Unidos, o consumo privado pesa 70% no produto interno bruto (PIB), na Alemanha 60%, e no caso português 66,5% em 2008, segundo o recente relatório do Orçamento de Estado para 2010.

O estudo, com suporte econométrico, publicado pelos “Working Paper” do FMI, abrange um período longo de análise entre meados dos anos 1980 e 2007, antes de o irromper do pânico financeiro, e permitiu aos dois investigadores verificar que, em períodos depressivos ou mesmo de transição de ciclo económico da recessão para a retoma, há um “protagonista” que troca as voltas às dinâmicas do consumo privado.

Chama-se incerteza, uma variável a que Keynes já nos anos 1930 – por exemplo, nas célebres “cartas abertas” ao presidente norte-americano Roosevelt em 1933 e 1938 – dava grande ênfase, e que neste estudo se procura avaliar empiricamente.

Volatilidade económica

Esse estado de alma deriva do disparo do desemprego e das falências e das expectativas que as famílias manifestam em relação a essas situações de destruição do tecido económico. E depende até de uma variável de contexto, mais abrangente, que os dois investigadores, também, analisaram e que tem a ver com a “volatilidade económica”, avaliada pelo desvio entre as previsões de crescimento e os números que depois se concretizam na realidade. Tais “desvios”, quando são elevados, têm impacto real na atitude das famílias que tendem a equacionar probabilidades de “acontecimentos catastróficos” ou a manifestar “medo” pelos riscos que uma “cauda longa” pode trazer no final, sem que sejam, ainda visíveis.

Este estado de alma traduz-se num comportamento dos agregados familiares que Ohnsorge e Mody designam de “comportamento de precaução”. Tal comportamento constrange o consumo privado no curto prazo até que uma dada almofada de segurança seja reconstruída, “o que leva tempo”, sublinha o estudo. “Verificámos, no curto prazo, que a incerteza contínua afectando o rendimento, reduz significativamente o crescimento do consumo”, refere, também, o estudo.

Efeito de precaução

O que gera o tal efeito de precaução, dizem os investigadores. “A teoria económica – Keynes nomeadamente – e os resultados empíricos sugerem que os agregados familiares, nestas circunstâncias, tendem a acumular poupanças como almofada de precaução”, diz-nos a investigadora em entrevista. “A implicação desta atitude de emergência é que, naturalmente, parte das transferências dos governos para as famílias e algum alívio fiscal será mais poupado do que gasto no consumo”, prossegue.

Os dois investigadores verificaram que um aumento do desemprego na ordem de 1 ponto percentual reduz a taxa de crescimento do consumo privado em 0,75 pontos percentuais e que 1 ponto percentual no “desvio” sobre o crescimento económico vê associada uma quebra de 0,9 pontos percentuais na dinâmica de aumento do consumo. Por outro lado, um estudo da OCDE, referido recentemente pelo World Economic Forum (Global Risks 2010), referia que 1 ponto percentual de aumento no desemprego gera um aumento da dívida pública até 3% do PIB num horizonte de dez anos.

Sem dúvida que é importante realizar essas transferências para segurar o rendimento real de muitas famílias afectadas pela depressão, mas os governos têm de saber que tais operações não são decisivas para fazer disparar o consumo. “A estabilidade do contexto macroeconómico é, também, importante. Apesar da volatilidade global económica e financeira ter diminuído substancialmente, continua a estar relativamente alta. Aliás, com o desemprego a continuar a crescer, mesmo já fora do período de recessão, quer o nível como o grau de incerteza no rendimento disponível continuam altos”, diz Ohnsorge.

Mudanças no comportamento do investimento

O estudo verificou, ainda, que há duas outras variáveis que, também, actuam como factores desaceleradores do crescimento do consumo privado: a instabilidade financeira, e a própria diminuição drástica da riqueza em valores financeiros provocada pela crise financeira, e a diminuição da população activa por efeito do envelhecimento populacional.

A concluírem referem que a viragem para a exportação também se vê confrontada com a maldita da volatilidade – aliás tende a ser “ainda mais significativa do que no caso do consumo” – e que “são necessárias mudanças de comportamento no investimento”.

Um efeito não linear

O estudo revela, ainda, outro efeito interessante relativo com a riqueza das famílias. Ou seja, um aumento desta, por efeito de um melhor ambiente bolsista ou na economia real, não se traduz automaticamente em aceleração do consumo privado.

“Observámos efeitos não lineares”, dizem os investigadores. “O aumento do consumo não responde directamente ao crescimento da riqueza até ao ponto em que essa riqueza atinge um patamar que os agregados familiares consideram uma almofada suficiente para fazer face à incerteza. A partir do momento em que esse nível é atingido, então o aumento da riqueza e o consumo andam a par”.
Por isso, é de esperar “pela frente um período de crescimento lento do consumo, até que as famílias reconstruam o seu nível de segurança”.

Franziska Ohnsorge refere, no entanto, que o estudo não tomou em linha de conta o património imobiliário, hoje em dia, para muitas famílias da classe média, a sua fatia mais gorda da sua riqueza.

Entrevista Rápida a Franziska Ohnsorge

«Para o comportamento do consumo é mais importante ainda a estabilidade do ambiente económico. A crise financeira introduziu a incerteza sobre o futuro dos rendimentos familiares. Ainda que a volatilidade financeira tenha descido ultimamente, ainda se mantém alta. Além do mais, com o desemprego a crescer, quer o nível real de rendimentos foi seriamente afectado quer a incerteza disparou».

P: O que os levou a realizar este estudo?
R: A nossa investigação iniciou-se para o caso alemão. A Alemanha tinha revelado um crescimento baixo do consumo pelo menos até meados dos anos 1990, comparando com outros países. Por que razão isto acontecera? O que nos levou a um estudo comparativo. Depois, com o evoluir dos acontecimentos recentes, fomos levados a utilizar estas nossas conclusões para a avaliação das implicações em relação à retoma e aos desequilíbrios globais.

P: Muitas das políticas que foram seguidas recentemente procuravam aumentar o consume nos países OCDE através de transferências ou de estímulos ao consumo a partir do orçamento público. Actuar por essa via não terá impacto no crescimento?
R: As transferências do Estado ou cortes nos impostos no consumo ou no rendimento procuram aumentar o rendimento real das famílias (depois de impostos). Isso é importante. Contudo, nós argumentamos que para o comportamento do consumo é mais importante ainda a estabilidade do ambiente económico. A crise financeira introduziu a incerteza sobre o futuro dos rendimentos familiares. Ainda que a volatilidade financeira tenha descido ultimamente, ainda se mantém alta. Além do mais, com o desemprego a crescer, quer o nível real de rendimentos foi seriamente afectado quer a incerteza disparou. A teoria económica, bem como a nossa investigação empírica sugerem que as famílias tenderão a poupar como precaução em tais circunstâncias. A consequência é que uma parte das transferências ou de ganhos de impostos serão poupados em vez de gastos.

P: No vosso estudo referem que a riqueza tem efeitos não-lineares. As variações desta no curto prazo não têm efeito significativo?
R: A riqueza tende a ser persistente em tempos normais. Na nossa amostra, desde meados dos anos 1980 a 2007, encontrámos evidência de um efeito não linear significativo. O crescimento do consumo não responde a aumentos da riqueza, até ao ponto em que esta atinge um certo patamar que as famílias pretendem como almofada contra a incerteza financeira. Logo que esse patamar é ultrapassado, o crescimento do consumo começa a estar alinhado com o crescimento da riqueza. Os resultados da nossa investigação apontam para convergir com a opinião de outros que sugerem que poderemos ter pela frente um período de crescimento baixo do consumo, até que as famílias reconstruam as suas almofadas.

P: Quais as principais reacções à vossa investigação que receberam até à data?
R: A maioria das pessoas que leu o artigo concorda como sendo plausível a tese da poupança de precaução, o que tem implicações imediatas em relação à retoma. Outros ficaram intrigados com as diferenças de longo prazo entre os comportamentos de consumo e de poupança, e os factores por detrás dessas diferenças: os diferentes graus de volatilidade, a aversão ao risco reflectida nos preços dos activos, e as tendências demográficas, tudo aspectos que analisamos no artigo. Contudo, há uma limitação: a riqueza em termos de imobiliário não foi considerada. Para muitas famílias, o imobiliário é a principal riqueza. No entanto, dados com qualidade sobre o assunto, com possibilidade de comparação entre países e ao longo do tempo, é difícil de apanhar.