As bolsas dos Estados Unidos e da Europa fecharam hoje (9/02) no positivo, depois de um clima de crash que se viveu até ontem. A bolsa grega reanimou 6% depois das quedas brutais na semana passada e na própria segunda-feira.

O mercado dos credit default swaps (veículos financeiros de seguro contra o risco de incumprimento da dívida soberana, conhecidos pelo popular acrónimo de CDS) relativos aos cinco países europeus incluídos na designação pejorativa de PIIGS (Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha) assistiu hoje a uma baixa generalizada do risco. As quebras de preços dos CDS nestes seis países lideraram as melhorias da situação de crédito em todo o mundo. A Grécia conseguiu descer do 8º lugar de maior risco mundial para 10º, estando à beira de poder sair do maldito clube. Voltou a situar-se abaixo da barreira dos 400 pontos base (pb), fechando perto dos 380 pb.

Portugal melhora posição

Portugal, ainda, se mantêm como segunda situação de maior risco neste grupo europeu, acima ligeiramente dos 200 pb (caiu hoje 16,7% em relação a ontem, a segunda maior descida à escala mundial), apesar da agência de notação Fitch ter declarado hoje numa teleconferência a partir de Londres que o risco de incumprimento era “próximo de zero”. Arrastadas pela melhoria da situação da dívida soberana portuguesa, a PT BV e a EDP viram os seus riscos descerem, também.

A Irlanda desceu para abaixo dos 160 pb, e a Espanha (desceu 18%, a maior à escala mundial) e a Itália mantém-se abaixo dos 150 pb. O ataque especulativo dos hedge funds à Zona Euro a partir dos seus elos mais fracos parece ter abrandado.

Na Europa, a situação da Letónia agravou-se hoje, estando actualmente em 8º lugar no clube mundial dos de maior risco (que abrangem, hoje, por ordem decrescente, Venezuela, Argentina, Ucrânia, Paquistão, Iraque, Islândia, Dubai, Letónia, Republica Dominicana e Grécia) e o Dubai viu a sua situação de risco, também, agravar-se.

A situação grega continua a ser citada como a mais preocupante pelo potencial de caos político que pode gerar na região balcânica e pelo efeito de contágio sistémico sobre toda a Zona Euro. O diferencial entre os juros da dívida grega e da alemã estava em 2007 nos 0,1 pontos percentuais (pp), mas disparou durante a primeira semana negra de Fevereiro de 2010 para mais de 4,2 pp.

A inversão alemã sobre a situação grega

Apesar da Comissão Europeia ter decretado uma espécie de “protectorado” sobre as contas públicas gregas, cujo plano de consolidação orçamental até 2013 passou a estar sob vigilância apertada regular, os mercados financeiros só se acalmaram hoje com a divulgação da preparação, no Bundestag (Parlamento alemão), de um alegado “plano” de salvação da Grécia pela CDU/CSU de Angela Merkel, segundo a versão alemã do Financial Times (FTDeutschland). Rumores similares dão conta de que, alegadamente em segredo, técnicos do Banco Central Europeu terão estado a reunir com representantes de países membros da Zona Euro no mesmo sentido.

A proximidade da cimeira informal de líderes europeus de dia 11 de Fevereiro (quinta-feira) em Bruxelas tem ajudado à projecção de diversos rumores pretendendo afastar a solução de envolvimento do Fundo Monetário Internacional no caso grego, e, depois, eventualmente em outros. Tal solução foi advogada, no fim-de-semana, pelo Financial Times e o The Economist.

A Alemanha, segundo os próprios jornais alemães, como o FTD e o Der Spiegel, já estaria a inclinar-se para uma política activa de envolvimento, a partir do próprio renascimento do eixo franco-alemão e da sua Agenda 2020. Duas soluções parecem estar em cima da mesa: a emissão de eurobonds ou ajudas bilaterais extraordinárias. O novo Tratado de Lisboa permite no seu artigo 122-2, tal tipo de intervenção de assistência financeira a um membro “em certas condições” de “dificuldades ou ameaça séria de graves dificuldades em virtude de acontecimentos excepcionais escapando ao seu controlo”.

Segundo o The Telegraph londrino, a mudança de posição oficial alemã deriva da força dos números: a sua exposição no caso da Grécia é de 43 mil milhões de euros, no caso de Portugal de 47 mil milhões, na Irlanda de 193 mil milhões e na Espanha de 240 mil milhões, segundo dados do Banco de Pagamentos Internacionais (BIS).

É esperada amanhã (10 de Fevereiro), nas vésperas da cimeira de Bruxelas, uma declaração do ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schauble, sobre a situação grega junto dos seus colegas de governo federal.

O caso português, cujo PIB representa, apenas, 1,3% da riqueza da UE, é catalogado em muitos meios internacionais como “who cares” (quem se importa), por ser a economia mais pequena no grupo dos quatro em situação de observação pelos mercados financeiros; a Irlanda representa 1,5%, a Grécia 1,9% e a Espanha 8,7%. Esta última economia já conta, de facto, na balança.

A iniciativa espanhola em Londres

A organização em Londres na segunda-feira de uma reunião com banqueiros, gestores de fundos e meios de comunicação ingleses e espanhóis, por parte dos ministérios da Economia e das Finanças apresentando o país, parece ter tido um efeito positivo. Uma iniciativa que foi referida pelo comentador António Vitorino no programa “Notas Soltas” ontem na RTP1. José Campa Fernández, secretário de Estado da Economia, e Soledad Núñez, do ministério das Finanças, procuraram “descolar” Espanha de uma imagem negativa do Club Med, apesar do cenário de continuação de recessão (quebra de 0,3% do PIB em 2010, segundo o governo de Zapatero, mas de 0,6%, segundo o FMI), do alto nível de desemprego (19,5%) e da extraordinária rectificação do valor do défice público de 2009 (de pouco mais de 1% previsto para mais de 11%). Os espanhóis terão necessidade de, este ano, ir ao mercado internacional captar, em termos líquidos, mais de 75 mil milhões de euros, um montante, no entanto, 1/3 abaixo do de 2009.