Qua 10 Fev 2010
Os novos sinais de incerteza
Por JNR na secção Geoprotagonistas , Gestão do risco , Globalização , Inteligência Económica , O novo capital financeiroainda sem comentários
A incerteza “deslocou-se” do terreno da recessão na economia real para a área financeira, de novo. O foco de atenção passou dos números do PIB e do desemprego para a situação do risco de incumprimento das dívidas soberanas, com particular atenção, desde princípio de Janeiro, na Europa. Parece que uma amnésia se abateu sobre a crise
Aos “suspeitos” do costume em matéria de risco de dívida como a Ucrânia e a Islândia, juntou-se numa espiral estonteante a Grécia (que chegou a ocupar o 8º lugar do clube dos 10 maiores de risco) e, depois, Portugal, em virtude da crise política em torno do orçamento de Estado e das fragilidades da solução governativa minoritária que conduziram à sua “colagem” (excessiva) ao padrão grego.
O risco português avaliado pelo nervosismo no mercado dos credit default swaps (CDS) chegou a um pico histórico na segunda-feira (8/02) com o preço desses veículos financeiros a atingir os 245,22 pontos base (pb). Distante, sem dúvida, do nível atingido pela Grécia (acima de 400 pb), mas correspondendo a um disparo de quase 150% nos últimos 28 dias de negociação segundo a Markit. A situação acalmou, entretanto, e o preço dos CDS relativos a Portugal já estava hoje (10/02) nos 169 pb.
Menos falados nos media europeus ocidentais, há dois países bálticos, a Letónia (que pertence ao clube dos 10 de maior risco) e a Lituânia, e vários na periferia de Leste, como a Bulgária, Roménia e Hungria que estão em situações de risco.
Com as perspectivas de uma retoma modesta nos países OCDE e face a algum esvaziar das míni-bolhas bolsistas, os investidores e os especuladores olham com nervosismo para a área da dívida soberana e da dívida das grandes empresas. Na sondagem realizada pela agência de notação Fitch relativa a Janeiro, 70% dos respondentes dos meios investidores declararam-se preocupados com o tema da dívida soberana. Um dado os atormenta: em 2010, os governos europeus necessitarão de pedir emprestado nos mercados 2200 mil milhões de euros, 12% do PIB da União Europeia.
Alarme na dívida empresarial
Acresce que o panorama no sector da dívida empresarial não os acalma. O prémio de risco subiu assustadoramente num conjunto de entidades europeias, a começar pela banca. Os maiores crescimentos em termos de preço dos CDS observaram-se, nos últimos trinta dias, num conjunto de bancos da Península Ibérica e no Intesa Sanpaolo italiano.
No caso da Península, tais disparos, por ordem decrescente abrangem: 207% para o BCP; 142% para o BES; 84% para o Santander; 80% para o BBVA, segundo dados da Fitch. Ainda segundo a mesma agência, em termos de aumento mensal no percentil no ranking dos CDS, a ordem decrescente é a seguinte: “BBVA, Intesa Sanpaolo, UBS, BNP Paribas, BCP, Credit Suisse, Commerzbank, Société Générale, BES e Santander”.
No caso das não-financeiras, a Fitch chama a atenção para um grupo de cinco grandes empresas europeias com um índice de maior liquidez, liderado pela Telecom Italia, e onde se encontra a Portugal Telecom BV. Os preços dos CDS da PT BV e da PT SGPS subiram mais de 100% nos últimos 28 dias. Ontem, tal como os CDS da dívida soberana portuguesa, baixaram, e encontram-se abaixo dos 150 pb.
O problema que a Fitch Ratings levanta no seu despacho de hoje é pertinente: toda esta instabilidade em torno das dívidas soberanas poderá gerar uma recaída recessiva – situação conhecida pelo termo técnico inglês de double-dip – na economia real que agravará, ainda mais, a situação de risco de crédito das grandes empresas, particularmente nos sectores industriais. Uma pescadinha de rabo na boca.