Janeiro 2010
Monthly Archive
Sáb 23 Jan 2010
A Wall Street acumulou uma quebra de mais de 4% nos últimos três dias, a maior queda desde Fevereiro de 2009. O índice Dow Jones Industrial Average (DJIA) está a cair desde quarta-feira, bem como a bolsa das tecnológicas, o Nasdaq, sediado na Times Square nova-iorquina. Este último acumulou uma desvalorização de mais de 5%.
O DJIA atingiu o seu nível mais baixo desde 6 de Novembro de 2009 e os analistas consideram que estas quedas se devem a dois acontecimentos que estão a gerar grande incerteza: a) a proposta de novo pacote Obama dirigido aos fat cats do sector financeiro e b) as dúvidas sobre se o Senado aprovará a renovação do mandato de Ben Bernanke à frente da Reserva Federal (FED, banco central norte-americano) a partir de 31 de Janeiro, renovação que foi proposta pelo presidente americano.
As dúvidas sobre a recondução de Bernanke adensaram-se hoje depois de ser anunciado que dois senadores democratas votarão contra, Russ Feingold, de Wisconsin, e Barbara Boxer, da Califórnia.
Sex 22 Jan 2010
Mesmo depois da recessão técnica terminar, mesmo depois de se entrar no que os economistas chamam de “vala” (trough, no economês) entre dois ciclos, mesmo face aos primeiros sinais de retoma, o desemprego não desce automaticamente, pelo contrário, continua numa dinâmica de crescimento líquido por algum tempo.
A destruição de empregos continua, mesmo já em zona de ‘vala’ e de primeiros sinais de retoma, a ser superior à criação de emprego. A reestruturação do tecido económico entra num pico e a criação líquida de postos de trabalho depende da afirmação de novos sectores (criadores de emprego em actividades diferentes) ou da retoma efectiva nos que sobreviveram.
Mas é, sempre, preferível referir dados concretos do que repetir teorias.
Os americanos publicaram, recentemente, um estudo sobre o comportamento do emprego depois das principais recessões que os Estados Unidos viveram desde o princípio dos anos 1970 (entre 1975-1976, entre 1982-1983, entre 1991-1992, entre 2001-2002).
Eric Rosengren, presidente e CEO do Federal Reserve Bank of Boston desde 2007, divulgou, no princípio do mês, um documento intitulado Prospects for Employment: Evidence from Prior Recoveries.
Uma leitura, mesmo de helicóptero, olhando sobretudo alguns gráficos, deixa-nos perplexos com uma mudança, que é chocante.
A situação agravou-se desde os anos 1990.
No caso dos primeiros trimestres de retoma em 1975-1976 e em 1982-1983, o período de destruição líquida de empregos, desde o trough, foi inferior ou próximo de um trimestre. Nos dois casos de 1991-1992 e 2001-2002, a destruição líquida continuou por quatro trimestres, em que o nível se manteve abaixo do próprio patamar saído do trough.
Ou seja, enquanto nos dois casos de 1975-1976 e de 1982-1983 se assistiu, em regra, a uma taxa de crescimento do emprego ao longo de um ano nos vários sectores (com uma excepção, no caso da construção, em 1975-1976), nos outros dois casos assistimos a uma taxa negativa durante quatro trimestres, com particular incidência na construção (6% de quebra de emprego) em 1991-1992 e na produção (5,5% de quebra de emprego) em 2001-2002. Neste último período, foi nítida a desindustrialização da América.
Ter 19 Jan 2010
O preço dos credit default swaps (CDS) – derivados financeiros para cobertura de risco de crédito – da República Portuguesa subiu já para 134,12 pontos base (pb), um aumento de 11,37 pb em relação à cotação anterior, que estava nos 122,75 pb, segundo os dados públicos disponíveis ontem (18/01/10) no Marketit. Isso significa que o diferencial em relação à cobertura de risco de crédito alemã passou de 1,2% para mais de 1,3%, no caso português. Em suma, a situação agrava-se.
Foi, de novo, a maior subida registada ontem (18/01) pelo Marketit em termos de países, muito acima de outros “colegas” (Costa Rica, Colômbia e Peru) com níveis de preços de CDS até mais elevados que o caso português.
Numa avaliação da variação a 28 dias, o disparo do preço dos CDS relativos à dívida soberana portuguesa já vai em 48,44 pb.
Seg 18 Jan 2010
Um mito que convém abandonar, diz Sebastian Dullien, professor de economia internacional em Berlim. O consumo interno alemão tem estado praticamente estagnado desde 2001. A Alemanha continua viciada no modelo exportador. E viveu a última década aproveitando a expansão noutros países da Zona Euro, da União Europeia e da Ásia.
“Dificilmente poderemos falar da Alemanha como motor do crescimento económico europeu”, referiu-nos Sebastian Dullien, de 35 anos, professor de economia internacional da Universidade de Ciências Aplicadas de Berlim, pertencente à jovem geração alemã de doutorados alemães em economia.
“Muito do crescimento na Alemanha na última década adveio do aumento das exportações e da formação de capital fixo no sector exportador. O consumo interno foi muito fraco, estando praticamente estagnado desde 2001”, diz-nos Dullien, membro do conselho editorial da European Political Economy Review, tendo colaborado na edição alemã do Financial Times. Dirige, também, o blogue Eurozone Watch, de monitorização da economia e das finanças da Zona do euro.
Ele fica, por isso, surpreendido com o mito de que a Alemanha “puxa” pelo resto da economia europeia. Sorri e inverte a situação: “A Alemanha, bem pelo contrário, viveu de ‘cavalgar’ a expansão da procura em outros países da Zona Euro, como a Espanha e a França. E, quanto a mim, no futuro, essa situação pouco se alterará. A Alemanha continuará a crescer graças ao seu modelo exportador, e não puxará pelo resto da Europa”.
Bóia de salvação
Outra coisa diferente, sublinha, é ser “motor político da integração europeia, o que é verdade”. Dullien acha que, politicamente, a Alemanha poderá ser encarada como uma das bóias de salvação, das mais robustas, no caso “de ser necessário salvar algum país em crise – mas isso é uma história completamente diferente de ser considerada motor do crescimento económico europeu”.
Por isso, face ao alarme recente em relação aos casos da Grécia e da Irlanda, o professor de economia internacional acha que “a União Europeia é o nível adequado para lidar com esses problemas, não o Fundo Monetário Internacional, ainda que continue em discussão se deverá ser a Comissão Europeia ou alguns estados-membros que, no final, acabarão por dar a mão aos países em apuros”. E acrescenta: “Creio que o Banco Central Europeu, como entidade independente, terá apenas um papel secundário em qualquer plano de salvamento”. Uma coisa lhe parece politicamente certa: “Os líderes europeus serão suficientemente inteligentes para fazer tudo o que for possível para evitar a concretização de um cenário pessimista”.
Como o país vive à custa do modelo exportador, a quebra significativa no comércio internacional em 2009 (estima-se em 10% à escala mundial) repercutiu-se profundamente no crescimento do PIB caseiro, que se estima ter caído 5%, averbando uma recessão mais profunda do que noutros países da União Europeia e com uma dimensão que já não se via na Alemanha desde a Segunda Guerra Mundial.
A retoma das exportações em curso deriva do facto de que o país é especialista em áreas como a da engenharia e das máquinas-ferramentas, onde um tecido de PME tecnologicamente avançadas, líderes em clusters e nichos específicos, não tem concorrência à altura, ainda, à escala mundial. “Os clientes para este tipo de produtos Made in Germany não dispõem de muitas alternativas”, diz o nosso interlocutor. Contudo, em finais de 2009, a China deve ter ultrapassado a Alemanha como principal exportador do mundo.
Sensibilidade asiática
No entanto, o euro forte (valorizou-se 2,5% durante 2009) trará dificuldades ao sector exportador alemão, refere-nos o nosso interlocutor, sublinhando que “a China é cada vez mais um mercado crítico para a Alemanha”. “O que se passar naquele grande país asiático é crucial”, reage Dullien aos rumores de risco de rebentar da “bolha” especulativa na China. O efeito de qualquer gripe a partir de Beijing ou Xangai não se repercute, apenas, directamente na relação comercial bilateral, mas “na nossa relação com todo o ecossistema asiático, nomeadamente com a Coreia do Sul que está intimamente ligada comercialmente com a China”.
Mas esta “sensibilidade” asiática, não significa que o que fica ao pé de casa não preocupe Sebastian Dullien: “Uma crise do euro ou de incumprimento num país como a Grécia, parte da Zona Euro, ou mesmo nos novos membros da Europa Central e de Leste, é um enorme perigo para a Alemanha. Já vimos na crise do Sistema Monetário Europeu de 1992 quão vulnerável é a Alemanha em relação a qualquer distúrbio nos seus mais próximos parceiros”.
ENTREVISTA RÁPIDA
“Na minha opinião, o BCE deve manter baixa a taxa de juro durante um longo período”.
P: O sistema financeiro alemão está estabilizado?
R: O governo alemão, a meu ver, criou um bad bank [entidade financeira pública destinada a absorver os activos de risco do sistema financeiro] de um modo que não se tornou muito atractivo para a banca privada. O resultado foi que nenhum banco privado recorreu e o sistema financeiro continua com montantes significativos de activos “tóxicos” nos seus balanços. Por isso, estimo que, em 2010, o crescimento do crédito permaneça fraco. O que é mau para a economia real.
P: Acha que há risco de uma recaída na recessão?
R: Penso que é, de facto, significativo esse risco. Sobretudo, porque o próprio governo alemão terá de começar a “apertar” a politica orçamental provavelmente já na segunda metade deste ano. Há uma provisão constitucional aprovada no ano passado que exige que o défice estrutural tenha de descer para 0,35% do PIB em 2016. Ora, a estimativa de défice público do estado federal, dos estados regionais e das comunas para 2010 é de 6% do PIB, segundo dados de 10 de Dezembro passado. Se o governo alemão puser em prática essa disposição isso significará uma política de contracção brutal. O que colocará em perigo a retoma.
P: O Banco Central Europeu (BCE) deve aumentar a taxa de juro de refinanciamento que está em 1%, num patamar acima da americana?
R: Não, não, de modo algum. Como já referi, há um risco de recaída. As pressões inflacionistas continuam muito baixas. O risco continua a ser um cenário de deflação similar ao que o Japão tem vivido desde os anos 1990. Na minha opinião, o BCE deve manter baixa a taxa de juro durante um longo período.
Sáb 16 Jan 2010
Esta segunda semana de Janeiro foi marcada pelo nervosismo dos preços dos CDS – credit default swaps, derivados financeiros para cobertura de risco de crédito – relativos à dívida soberana da Grécia e Portugal.
No caso português, a dinâmica semanal de crescimento situou-se nos 35 pontos base, acima da grega, mas o patamar está ainda abaixo dos 125 pontos-base (fechou na sexta-feira, dia 15, nos 122,75pb), enquanto, no caso grego, já galgou ligeiramente os 330 pb e no caso da Irlanda os 150pb.
Desde segunda-feira, os preços dos CDS relativos à Grécia cresceram 30 pontos base, com o dia mais negro a ocorrer na quarta-feira (13/01), face à dificuldade do governo do PASOK (socialista), eleito em Outubro passado, conseguir fazer passar a ideia para os mercados financeiros internacionais de que o seu plano de consolidação orçamental a três anos é credível. O custo de titularizar a divida grega está, assim, num máximo. O diferencial (spread) em relação aos títulos alemães atingiu no final da semana os 3,3% – no caso português está nos 1,2%.
Olhando à variação a 28 dias, um dos indicadores usados pelo Markit.com, que fornece os preços diários dos CDS, o crescimento foi de 62 pontos base para a Grécia e 39 pontos base para Portugal.
Corredor da morte lenta
O aquecimento destes indicadores de risco – se a situação é percepcionada como agravando a dívida soberana e colocando em causa o cumprimento dos seus encargos, o preço dos CDS aumentam – deveu-se a um relatório da agência de rating Moody’s de análise da dívida soberana europeia, publicado na quarta-feira. Nesse relatório, Portugal juntamente com a Grécia são declarados em risco de entrar no corredor da “morte lenta” (slow death). A janela de oportunidade para o evitar, avisa a agência, “não estará aberta indefinidamente”.
Por “morte lenta” das economias, a Moody’s faz um paralelo: “Com o passar do tempo, esta cadeia de acontecimentos poderá conduzir a uma morte lenta de uma economia na zona euro, similar à morte lenta que tem sido vivida por muitas regiões dentro de países”. A “morte lenta” derivaria do desvio crescente da riqueza criada para o pagamento do serviço da dívida soberana.
O relatório apesar de amalgamar as duas economias, reconhece-lhes dois tempos diferentes. Portugal teria ainda “mais tempo” para evitar a entrada em tal corredor. A própria classificação de rating para Portugal é de Aa2 (com previsão negativa) e a para a Grécia é, mais baixa, de A1 (com previsão, também, negativa). No entanto, a Moody’s descarta nos dois casos o risco de uma “morte súbita”.
A dívida soberana portuguesa terá chegado a 85% do PIB, um ponto percentual acima da média europeia, distante, por ora, do caso italiano (117%) e do grego (125%).
Num movimento inédito, o Instituto de Gestão e da Tesouraria do Crédito Público (que trata da gestão da dívida directa do Estado português) produziu, no último dia da semana, um comunicado em inglês dirigido aos mercados financeiros internacionais e às agências de rating, onde procurava desdramatizar a situação portuguesa, referindo – prematuramente – a possibilidade de um acordo do governo com o maior partido da Oposição relativamente ao próximo Orçamento de Estado e o ensejo do executivo português em deixar estagnados os salários reais do sector público este ano.
Situação grega continua em suspenso
Sobre o contexto grego, refira-se que o plano a 3 anos do Governo chefiado por George Papandreou pretendia baixar o défice orçamental do patamar dos 12,7% do PIB em 2009 para os 8,7% este ano, e depois para 5,6% em 2011 até aos 2,8% em 2012, restabelecendo uma situação abaixo da linha de água de 3% imposta pelas normas da Zona Euro.
O governo grego tinha apontado para um programa de emagrecimento de gastos públicos que incluiria cortes assinaláveis nos sectores da defesa e da saúde, nas horas extraordinárias e bónus de funcionários e um congelamento salarial nos vencimentos do sector público acima de 2000 euros por mês.
A central sindical do sector público, a ADEDY, garantiu que mantém a convocação de uma greve geral do funcionalismo para 10 de Fevereiro.
Sáb 16 Jan 2010
A década que agora finda saldou-se por uma quebra bolsista de 22%, segundo o índice Standard & Poor’s (S&P) entre Janeiro de 2000 e Dezembro de 2009, tendo em conta a base de dados mantida pelo professor Robert Shiller da Universidade de Yale. Shiller tem um repositório histórico do comportamento deste índice desde 1871 (o S&P foi criado em 1860).
No entanto, no período de mais de 130 anos que acompanhou o comportamento bolsista de Wall Street e as vagas de desenvolvimento do capital financeiro moderno, os efeitos do crash bolsista, a partir de Outubro de 2007, e da Grande Recessão económica recente são muito inferiores à destruição de capitalização ocorrida na década subsequente ao crash de Outubro de 1929. A década de 1930 saldou-se por uma quebra de 43%, quase o dobro.
A terceira pior década de Wall Street situou-se entre 1910 e 1919, um período que sofreu, à escala global, a 1ª Guerra Mundial e o impacto geopolítico da Revolução bolchevique russa. O desgaste decenal da riqueza bolsista foi de 11,5%.
Grandes correcções são excepcionais
Estes períodos decenais de profunda correcção bolsista são, no entanto, excepcionais. Desde 1871, apenas três décadas se saldaram negativamente.
Mesmo na década de 1900, apesar do grande crash bolsista de 1907 e da Grande Recessão mundial de 1908 (uma das crises globais, segundo Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff em This Times is Different, Princeton University Press, 2009), o saldo foi largamente positivo – Wall Street cresceu em ganhos 69%, o quinto melhor resultado de sempre na história do índice S&P. Também, no período em que ocorreu a 2ª Guerra Mundial, apesar do seu carácter devastador, e de termos assistido à maior quebra mundial do Produto Interno Bruto (PIB), no pós Revolução Industrial, em 1945 e 1946, a Wall Street comportou-se no positivo (+34,5%).
A própria profundidade da correcção bolsista – recorde-se, 43% na década iniciada em 1930, 22% na começada em 2000 e 11,5% na iniciada em 1910 – foi ténue em relação as ganhos acumulados nas décadas imediatamente anteriores. Entre Janeiro de 1920 a Dezembro de 1929 havíamos assistido a um crescimento de 142% (quarto maior), entre Janeiro de 1990 e Dezembro de 1999 a um disparo de 320% (o maior de sempre na história deste índice) e entre Janeiro de 1900 e Dezembro de 1909 a um ganho já referido de 69% (quinto maior).
As melhores décadas
As melhores décadas em bolsa em Wall Street foram a de 1990/1999 (crescimento de 320%), a de 1950/1959 (253%) e a de 1980/1989 (214%).
Em termos históricos, o período de 1980 a 1999 revelou-se o de maior euforia bolsista americana, com um disparo do peso na riqueza por parte do novo capital financeiro e das rendas financeiras. Recorde-se que, em termos de economia “real”, estas duas décadas marcaram a “prisão” do crescimento real do PIB americano num patamar de 3,1%, umas décimas abaixo do ocorrido na década de 1970 e mais de um ponto percentual abaixo das médias das décadas de 1950 e 1960, segundo dados de John Bellamy Foster e Fred Magdoff (The Great Financial Crisis, Monthly Review Press, 2009).
A correcção ocorrida, agora, na década entre 2000 e 2009 (que já entra no século XXI), surge 90 anos após a correcção de 1910-1919. Se, por mera especulação, a correcção definitiva dos excessos da vaga financeira actual (segundo alguns historiadores económicos iniciada na década de 1970) seguir o mesmo padrão daquela iniciada em 1860/1870, daqui a vinte anos teríamos um crash de maiores proporções e eventualmente uma Grande Depressão mais violenta que a actual Grande Recessão.
Sex 15 Jan 2010
“Queremos o nosso dinheiro de volta, e vamos recebê-lo” é o slogan da campanha em apoio da proposta de novo imposto que o presidente Barack Obama quer lançar a partir de 30 de Junho sobre o sistema financeiro e que deverá ser submetida ao Congresso americano. O imposto será inserido como uma das medidas do orçamento que a Administração americana enviará para discussão e aprovação ao Congresso em Fevereiro.
“A taxa ajudará a reaver cada penny emprestado a Wall Street durante a crise financeira”, argumenta o texto da campanha assinado pelo vice-presidente Joe Biden no sítio na web de lançamento desta campanha, que decorre no my.barackobama.com, uma plataforma política que permaneceu para além das eleições e que mantém Obama em contacto directo digital com os seus apoiantes por todo o país, e mesmo pelo mundo, através do projecto Organizing for America.
A proposta de novo imposto para a década foi denominada Financial Crisis Responsability Fee (mais um acrónimo para decorar: FCRF) e, no dizer de Biden, “espera-se que recupere milhares de milhões de dólares dos grandes bancos, em grande parte dos dez maiores”.
Na lista de visados estão as 50 principais instituições financeiras americanas – holdings de bancos, caixas de poupança, seguradoras com braços financeiros e intermediários financeiros – com mais de 50 mil milhões de dólares de activos. Algumas delas são subsidiárias de instituições estrangeiras. Um núcleo duro de 10 instituições deverá ter de desembolsar 60% dessa colecta federal nos próximos dez anos.
O cibernauta é convidado a assinar digitalmente uma declaração de apoio que diz muito singelamente: “À Wall Street: Queremos o nosso dinheiro de volta – e estamos com o Presidente Obama para garantir que o teremos de volta”.
Buraco do TARP a financiar
A proposta de taxa foi anunciada ontem e pretende reaver 90 mil milhões de dólares com vista a tapar o buraco do programa Troubled Asset Recovery Program, conhecido pelo acrónimo TARP (que envolveu 700 mil milhões de dólares), que é estimado em 117 mil milhões de perdas, mesmo depois das devoluções por parte dos bancos beneficiários.
A taxa é dirigida aos activos de risco e deverá ser de 15% colectada pelo Internal Revenue Service. O imposto exclui do seu raio de aplicação o que, em linguagem bancária, se denomina de “tier one capital”, bem como os depósitos de poupança segurados.
Os banqueiros consideram a medida mais um passo “no assalto populista da Casa Branca contra a indústria financeira”. Os críticos da iniciativa fiscal alegam que a Wall Street vai ter de pagar a factura das acções de emergência financeira realizadas junto da General Motors, da Chrysler, da AIG, da Fannie Mae e Freddie Mac, que vão escapar à taxa.
Recorde-se que esta taxa se juntará a outra imposição recente autorizada pela Casa dos Representantes do Congresso americano no sentido de obrigar o sistema financeiro a financiar um fundo de emergência de 150 mil milhões de dólares para acudir a situações de risco sistémico e pânico financeiro (como a que ocorreu no final de 2008).
Seg 11 Jan 2010
A radiografia das valorizações bolsistas e das quedas catastróficas em Wall Street na década que findou (2000-2009) ficou marcada por uma economia a duas velocidades, com 61 sectores no positivo e 39 no vermelho.
Segundo o estudo realizado pelo analista americano Mark J. Lundeen ao comportamento do índice norte-americano Dow Jones Industrial Average (DJIA) relativo aos preços semanais de fecho das acções em 100 sectores em bolsa durante a primeira década do século XXI, o melhor e o pior pode ser agrupado em dois grupos de 10 campeões das capitalizações e 10 grandes perdedores.
Apesar do crash do Nasdaq logo em 2000 e da correcção ocorrida entre finais de 2007 e Março de 2009, dez sectores revelaram-se verdadeiros campeões dos ganhos em bolsa. O mais extraordinário salto foi o do sector do carvão, cujas empresas cotadas se valorizaram 919,94%!, ou seja quase 100% ao ano.
Seguem-se no clube dos supervalorizados, o sector dos tabacos (296,07%, benefícios dos malefícios de um vício), o minério de cobre (285,57% por libra de peso), a onça de ouro (279,16%), os caminhos-de-ferro (225,06%), o sector da mineração dos minerais não-ferrosos (218,34%), a onça de prata (213,33%), os fornecedores de serviços de cuidados de saúde (206,86%), as utilitites do sector da água (188,32%) e a construção e engenharia (164,59%).
Na cauda da listagem do estudo, entre os que tiveram quebras de capitalização superiores a 62%, há uma galeria de dez sectores com recordes no vermelho: seguros gama completa (94,41%), telemóveis (87,88%), construção automóvel (76,17%), tecnologias de comunicação (72,74%), produtos de entretenimento (65,88%), publicidade (64.6%), equipamentos electrónicos (63,89%), linhas aéreas (63,67%), companhias de telefones fixos (62,38%) e mineração de alumínio (62,24%).
Dom 10 Jan 2010
Sinal da grande mudança em curso. Os dados de 2009, agora divulgados, revelam que a China é o 1º exportador mundial, ultrapassando a Alemanha. Certamente há diferenças qualitativas na exportação se compararmos os dois países. A ler o comentário (em francês) do jornal Le Monde.
Sáb 9 Jan 2010
“Portugal será agora na Europa o que conseguir ser fora dela”, disse o ministro dos Negócios Estrangeiros português, Luís Amado, em entrevista ao jornal diário português Público de 3/01/2010.
Amado sublinha-o, porque um ciclo de integração europeia se teria encerrado, no seu entender. Este “fora da Europa” é um elemento estratégico fundamental com um impacto decisivo na sobrevivência simbólica do estado-nação mais antigo da Europa quanto às suas fronteiras e para a projecção da sua economia e cultura.
O ministro sublinha inclusive que este pensar fora da Europa implica o que está para além do eixo atlântico e que tem a ver justamente com a globalização e o acquis histórico-simbólico ganho naquele curto período de leadership mundial entre 1480 e 1530, fruto da grand strategy joanina e manuelina.
Esta postura parece-me um passo de gigante em matéria de Negócios Estrangeiros. Um primeiro passo no out-of-the-box necessário.
O sublinhar da importância estratégica do “fora do Atlântico” é crucial, a meu ver, ainda que a entrevista seja parca sobre o tema.
Chamamos-lhe em Portugal, Pioneiro da Globalização (Editora Centro Atlântico, 2007 e 2009), a importância da geometria variável, tendo em conta o acquis globalista português (que não é meramente atlantista).
O problema do “agora”
Por isso, o “agora” está, a meu ver, deslocado: Portugal sempre foi algo na Europa em função do que era fora da Europa. Portugal ganhou projecção porque justamente “libertou” a sua estratégia da caixa europeia – razão porque foi o pioneiro da globalização, tese defendida no livro citado.
A corrida à árvore das patacas de Bruxelas (o “bom aluno”) ou a passagem da raia descobrindo o vizinho (a época da prioridade das prioridades em direcção ao resto da Península: Espanha, Espanha, Espanha) ofuscou, no tal primeiro ciclo de integração europeia, essa realidade estratégica perene do ser português.
O fechamento oportunista na Europa foi temperado com duas guinadas inspiradas nas tais súbitas “prioridade das prioridades” fruto da casuística: o Brasil depois dos efeitos do Plano Real e tendo em conta as oportunidades nas privatizações nos anos 1990, e, mais recentemente, o rapidamente e em força para Angola aproveitando a “bolha” angolana.
Amado recupera, agora, este “fora da Europa” falando de três eixos centrais no Atlântico: Lisboa-Washington, Lisboa-Brasília e Lisboa-Luanda.
O que está subentendido é a importância estratégica do Atlântico Sul, onde Portugal poderia aportar algo e onde se poderá desenrolar um eventual “cruzamento” desses eixos.
As malditas novas realidades
Mas este atlantismo tem três problemas:
1- O centro político do mundo no século XXI encaminha-se a passos largos para ser o Índico e o Pacífico, não só pela concentração de grandes e médias potências jogando a great power politics como por razões geoeconómicas e ainda por ser o arco central da diáspora terrorista integrista (daí as guerras no Afeganistão, no Paquistão, os problemas no Iémen e na Somália, e um dia destes em mais algum ponto mais próximo do Pacífico);
2- O próprio objectivo estratégico dos americanos em relação ao Atlântico Sul não é vinha vindimada. Basta recordar o eixo naval em construção entre a China e o Brasil, a estratégia mais geral da China em África, e a disputa de posições entre Angola e África do Sul (esta última “repescada” para a mesa dos Cinco de Copenhaga, como estamos lembrados). O próprio papel dos Açores (esse “pedaço de asfalto no meio do Atlântico”, como dizia uma parte da equipa de Kennedy) tem de ser hoje equacionado na rede de ilhas estratégicas atlânticas que se projectam para sul (Cabo Verde, Fernando de Noronha, Ascensão, Santa Helena, Tristão da Cunha). Algo que os portugueses de Quinhentos entendiam perfeitamente, pois a eles se deve esse “cordão” logístico-militar.
3- A situação alterou-se radicalmente desde os anos 1990 na equação Atlântico Sul-Europa. Inverteu-se. O Brasil descolou da imagem negativa de América Latina e sacudiu o anti-globalismo mais radicalista das franjas do PT. O Brasil é hoje uma grande potência, projecta soft power nesse sentido (mesmo que permanecendo internamente imensos problemas estruturais). De BRIC emergente meio envergonhado passou ao estatuto de BIC – foi esse o papel mutante desempenhado pelas presidências de Fernando Henrique Cardoso e, paradoxalmente, de Lula da Silva. A questão da língua portuguesa comum conta, mas é aqui um elemento acessório. Não se cultivem ilusões.
Geometria variável porque temos uma história única
Ora estas limitações do atlantismo remetem para a tal importância de falar do “resto” – o “resto” fora do Atlântico em que Portugal tem uma história única. A de primeira potência global que se projectou no Índico e no Pacífico, que estabeleceu as primeiras relações geoestratégicas com as grandes potências económicas da altura, a Índia e a China, potências que, 500 anos depois, voltam à ribalta geopolítica.
Por isso, explicitar uma estratégia em direcção ao Índico e ao Pacífico é crucial para a captação de oportunidades de negócio bem como de projecção de soft power por parte de Portugal, podendo neste caso, também, desenvolver um nicho de contribuição para a afirmação da União Europeia se esta quer, como alvitra Amado na entrevista, sair da “dependência estratégica dos Estados Unidos”.
A própria estratégia Obama – e a virtualidade de um potencial eixo Lisboa-Washington com mais-valia – está claramente apostada em não perder o lugar nessa “deslocação” do centro da great power politics. A posição europeia sempre foi muito “ingénua” – como recorda Amado, na entrevista, falando sobre o recente episódio de Copenhaga – porque ainda não assimilou este dado, limitando-a enquanto actor global.
O que espanta é que sejam os espanhóis a reclamar a herança do simbólico globalista dos séculos XV e XVI e que não se veja nenhum esforço conjunto, ao menos, nessa matéria. Os espanhóis há algum tempo que já entenderam a necessidade de ir para além do iberoamericanismo.
Colombo provavelmente esgotou o seu soft power – hoje em dia é Gama, Magalhães, Almeida, Albuquerque, entre os mais conhecidos globalmente, que poderão marcar pontos. Façamos algo por isso.
Sex 8 Jan 2010
É um estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI) de âmbito geográfico e histórico limitado, mas destinou-se a testar uma hipótese: a de que o sistema bancário, após as crises, leva tempo a voltar à sua função primordial de financiador de investimentos, particularmente no que toca aos projectos da iniciativa empresarial privada.
Muitas das recomendações de abandono (o que no economês é designado por estratégias de “exit”, usando este termo inglês) urgente das políticas orçamentais de estímulo ao investimento em tempo de depressão para uma prioridade à consolidação orçamental subentendem que o sistema financeiro terá regressado automaticamente, no pós-crise, ao seu papel “normal” para poder suportar uma retoma do investimento privado.
Ora o estudo, levado a cabo por uma equipa do FMI, chefiada por Sarah Sanya e Montfort Machila, ao comportamento dos bancos dos quatro países do Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai) durante o período de 1990 a 2006, em que ocorreram várias crises graves e períodos subsequentes de retoma, revela que se verificou “um declínio persistente na intermediação em direcção ao sector privado por um período longo”. Traduzido em linguagem mais simples ocorreu uma continuada contracção do crédito dirigido ao sector empresarial privado, com taxas de quebra médias, depois das crises sistémicas, na ordem dos 22% no caso do Uruguai (a situação mais alarmante), de 4% no caso do Brasil, 3,4% no Paraguai e 2,9% na Argentina.
Fuga para a liquidez
Ou seja, dito de outro modo, “o período de pós-crises sistémicas financeiras mostrou uma alteração significativa do comportamento dos bancos”, escreve-se no relatório.
Paralelamente, assistiu-se à “persistência de altos níveis de excesso de liquidez bem depois das crises”. O que aconteceu é que a banca operou uma “fuga para a liquidez” procurando reestruturar os seus portefólios aplicando em activos com grande liquidez de curto prazo e em reservas de caixa. Em consequência “emagrecendo desproporcionadamente o crédito ao sector privado”, conclui, uma vez mais, o estudo do FMI.
Recomendação: “as políticas dirigidas ao estímulo da função de financiamento pela banca deverão dar ênfase ao aumento da oferta de crédito”.
Estes resultados foram publicados num working paper (nº10/1) divulgado esta semana, intitulado “Post-Crisis Bank Behavior: Lessons from Mercosur” (só disponível em inglês).
Qui 7 Jan 2010
No dia seguinte ao Dubai inaugurar com pompa o mais alto arranha-céus do mundo – o Burj Khalifa -, o Royal Bank of Scotland (RBS) colocou os Emirados Árabes Unidos (EAU) na lista das economias do arco europeu e do Mediterrâneo com “predisposição para a crise” em 2010.
Uma prenda envenenada de dia de Reis quer para o Dubai – que fez a abertura de notícias no final de Novembro passado com o risco de incumprimento de obrigações de dívida da empresa de investimentos estatal Dubai World e que chocou muita gente ao revelar que o emir vai nu em alguns potentados do Médio Oriente petrolífero – como para o conjunto dos EAU liderado pelo Abu Dhabi, chefiado pelo xeque Khalifa, que, em homenagem ao cheque de 7 mil milhões de euros que colocou na carteira do aflito Dubai (emirado vizinho, também parcela dos EAU), viu a torre gigante ser rebaptizada com o seu nome.
O relatório “Predicting Sovereign Debt Crisis: 2010”, da equipa de Timothy Ash, chefe do grupo de investigação do banco inglês sobre o que os anglo-saxónicos designam por EMEA, a região da Europa, Médio Oriente e África, colocou 14 países da área na lista “negra” de economias com “predisposição para crise” este ano.
O grupo de risco divide-se em três blocos geoeconómicos: o Próximo e Médio Oriente (onde se inclui o Líbano, os EAU e o Bahrein), uma larga franja de risco da União Europeia que ainda está fora da Zona Euro (Bulgária, Estónia, Hungria, Letónia, Lituânia, Roménia e Polónia) ou umbilicalmente ligada à UE (a Islândia, onde esta semana o presidente do país vetou uma lei que pretendia pagar as dívidas a holandeses e ingleses, derivadas da falência dos bancos islandeses no terramoto financeiro de Outubro de 2008) e a nova zona política “cinzenta” mais a leste (que inclui a Croácia, Ucrânia e Cazaquistão).
A equipa de Tim Ash retirou da lista o Qatar (outro dos reinos do petróleo árabe), que fora considerado na zona de risco no ano passado.
O RBS classifica anualmente 39 economias emergentes usando um conjunto de critérios definidos por um estudo do Fundo Monetário Internacional realizado por Nouriel Rubini, o mediático economista de Nova Iorque alcunhado de Dr. Doom (Dr. Juízo Final), e Paulo Manasse.
Nota final: Saliente-se que o RBS, o maior banco controlado pelo governo britânico, angariou 17% da dívida contraída pelo Dubai World desde Janeiro de 2007. Observar o que se passa por aquelas bandas é, por isso, crítico para o banco.
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