Segundo o relatório (‘World Economic Outook Projections’, update de 26/01/2010) de hoje do Fundo Monetário Internacional (FMI), o produto mundial terá emagrecido 0,8% em 2009, um valor negativo muito inferior à quebra de 2,2% anunciada ainda há pouco tempo pelo Banco Mundial. O FMI reviu a sua estimativa anterior (de Outubro de 2009) que apontava para uma recessão superior, na ordem dos 1,1%.

Esta melhoria do nível de recessão estimado para o ano que findou ficou a dever-se ao facto dos países emergentes terem conseguido segurar um nível de crescimento de 2,1%, com destaque para a China que conseguiu manter um crescimento anual do seu Produto Interno Bruto de 8,7%.

A recessão bateu forte nos países desenvolvidos com uma redução de 3,2% do produto, com um comportamento pior do Japão (contracção de 5,3%) e da Zona Euro (quebra de 3,9%) do que nos Estados Unidos (queda de 2,5%).

Geometria variável

Este desagravamento da profundidade da crise veio mostrar que, durante 2009 – o pior ano da Grande Recessão iniciada em finais de 2007 -, se confirmou a hipótese colocada por muitos economistas de que se assistiria a uma geometria variável nos crescimentos com uma separação (o que tecnicamente se tem designado por decoupling, em inglês) clara entre as dinâmicas dos países desenvolvidos e dos emergentes.

Se este número de 0,8% de quebra for definitivo, 2009 terá sido o quinto pior ano em termos económicos à escala mundial, em período de paz, desde 1900. Os lugares cimeiros estão, ainda, nos três anos críticos da Grande Depressão (1930, 1931 e 1932, com este último com o recorde de uma quebra de 6,6%) e no ano da Grande Recessão de 1908 que se seguiu ao Pânico financeiro internacional de 1907.

Alteração radical

O factor países emergentes que, agora, actuou tem a ver com uma alteração radical ocorrida nas dinâmicas de crescimento: os países de médio rendimento per capita passaram a ser o motor do crescimento da economia mundial.

Entre 2001 e 2007, esses países contribuíram com 55% para o crescimento do produto mundial avaliado em períodos de cinco anos, enquanto os países de alto rendimento per capita contribuíram, apenas, com 35%, segundo um estudo da economista brasileira Heloísa Marone, do Departamento de Estudos sobre o Desenvolvimento do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). De acordo com as projecções realizadas por Marone, a contribuição dos países de rendimento médio per capita deverá atingir os 90% para o período de 2006 a 2010 (incluindo, portanto, os anos da Grande Recessão).

Afundamento do comércio mundial

No entanto, esse desagravamento da quebra do produto mundial foi “compensado” por um número para o comércio internacional mais pessimista do que as estimativas anteriores já de si muito negativas. O número anterior, avançado pela Organização Mundial do Comércio, era de 10% de redução das trocas munidas de bens e serviços, mas o FMI avança agora com uma estimativa de 12,3%.

A confirmar-se, trata-se do quarto ano de maior contracção das trocas mundiais desde 1900, mais grave do que as quebras ocorridas em 1938 (depois da recaída em recessão em 1937, com 12% de contracção), em 1975 (7%) e em 1908 (6%). O ano de 2009 ficará na galeria negra depois de 1932 (quebra de 32%, a maior de sempre), de 1931 (29%) e de 1930 (20%).