As principais bolsas da Europa e da Ásia fecharam ontem (28/01) no vermelho, exceptuando, no entanto, paradoxalmente, os “suspeitos do costume”, a Grécia e o Dubai. Já hoje as principais bolsas da Ásia voltaram a fechar no negativo.

Apesar da recondução ontem no Senado americano (por 70 contra 30 votos) de Ben Bernanke para a presidência da Reserva Federal e de alguns efeitos positivos imediatos do discurso sobre o Estado da Nação do presidente Obama na quarta-feira, os índices do Dow Jones caíram acima de 1% e no caso do Nasdaq, a bolsa das tecnológicas em Times Square, o trambolhão foi quase de 2%.

Fim da mini-bolha?

A EconomyWatch vaticinou que estes sinais de volatilidade nos três continentes serão o sintoma de que a “mini-bolha” que se vinha a desenvolver desde Março de 2009 estará a esvaziar-se e que um novo período de domínio do “urso”, de correcção bolsista, se iniciará durante este primeiro trimestre de 2009.

No entanto, no que respeita, especificamente, à situação na Europa, o primeiro-ministro socialista grego, Georges Papandreou, levantou, ontem, no World Economic Forum, em Davos, a suspeita de que estaria a haver um ataque à Zona Euro por parte de especuladores a partir da situação grega. Alvitrou, inclusive, que adversários políticos com “motivos ulteriores” estariam envolvidos na operação.

O chefe do executivo grego aludiu que um rumor foi espalhado nos mercados financeiros de que a Grécia sairia do euro e que se dirigiria directamente aos investidores chineses para recolher fundos sem passar pelo mercado. Este rumor destruiu, de imediato, o êxito que no dia anterior tinha havido na colocação de 20 mil milhões de euros de obrigações, uma operação que recebeu propostas de financiamento quatro vezes superiores a esse montante.

E deixou o recado que “a seguir à Grécia, estão Portugal e Espanha”. Portugal foi objecto de várias missivas das agências de rating nestes últimos dias e a Espanha foi visada pelo economista americano Nouriel Roubini – conhecido na gíria por Dr.Doom – que avisou que, em caso de problemas com Espanha (o país da Zona Euro que o FMI prevê que continuará em recessão ainda em 2010), seria “um desastre”, mais grave do que a actual tragédia grega.
Papandreou recebeu, de imediato, em Davos, o apoio de Jean-Claude Trichet, presidente do Banco Central Europeu, e de José Luis Zapatero, o primeiro-ministro espanhol que preside, actualmente, à União Europeia.

Portugal e Grécia sob suspeita

Pelo segundo dia consecutivo, a situação de (des)confiança dos mercados financeiros em relação às condições de cumprimento das responsabilidades da dívida soberana portuguesa e grega agravou-se.

Os credit default swaps (CDS) relativos a estes dois países voltaram a disparar, com o caso português a atingir novo recorde, saltando 11% de um dia para o outro, situando-se, agora, nos 166,2 pontos base (pb), e o caso grego a galgar o patamar dos 400 pb.

Nos últimos 28 dias, a situação portuguesa agravou-se em 83,34%, o maior disparo na Europa, e os preços dos CDS relativos à Grécia aumentaram 43%.

No caso português há, ainda, a assinalar que três empresas portuguesas – EDP Energias de Portugal, Portugal Telecom International BV e Portugal Telecom SGPS – viram o preço dos CDS relativos à sua dívida subir mais de 50% nos últimos 28 dias, tendo ultrapassado a barreira dos 100 pontos base.

A situação grega foi ontem objecto de particular alarme. A taxa de juros a 10 anos das obrigações relativas à dívida pública grega voou para os 7,147%, um recorde na Zona Euro, com um diferencial de quase 4 pontos percentuais em relação à taxa de juros de referência alemã para este tipo de obrigações (que está nos 3,199%). Desde Novembro de 2009, a taxa grega subiu dois pontos percentuais. No caso português, face ao novo recorde do preço dos CDS, a taxa de juro da dívida portuguesa a 10 anos deverá estar próxima dos 5%.

Mecanismo europeu em preparação?

O primeiro-ministro grego falou de um ensejo muito íntimo em Davos, “uma ideia pessoal”, frisou, a de que pudesse existir “um mecanismo de socorro mútuo” dentro da União Europeia (UE) para acudir a situações extremas, uma espécie de euro-obrigações.

Refira-se que o novo Tratado de Lisboa, no seu artigo 122, prevê assistência financeira de emergência a um estado membro que “conheça dificuldades ou uma ameaça séria (…) em virtude de acontecimentos excepcionais escapando ao seu controlo”. A ideia de evitar que seja o Fundo Monetário Internacional a estender a passadeira de salvação a um membro aflito da UE estará a ganhar apoio em Bruxelas.

Aparentemente parecem existir duas “linhas” dentro da Zona Euro, uma que ficou clara, esta semana, uma vez mais, pela voz do ministro da Economia alemão, Rainer Bruderie, que garantiu que nunca haverá salvações a devedores relapsos em apuros, e outra que, segundo o jornal francês Le Monde, estaria já a ser preparada discretamente por peritos franceses e alemães. O jornal londrino The Telegraph recorda que a intransigência do ministro alemão faria muito mal ao próprio sistema financeiro desse país que estaria muito exposto à dívida grega (tal como está à espanhola e à portuguesa, acrescenta).

A Comissão Europeia deverá apreciar o plano grego de consolidação orçamental na próxima semana, um plano que prevê a contracção do défice público em quase 10 pontos percentuais do PIB até 2013 (no caso português será de mais de 5 pontos percentuais).

Um veredicto que será analisado à lupa pelos mercados financeiros internacionais, tanto mais que outros países da Zona Euro terão de fazer contracções brutais do défice, como a Irlanda e a Espanha em mais de 8 pontos percentuais. No caso da Inglaterra, que está fora da zona Euro, a contracção, para um défice similar ao recomendado aos seus parceiros comunitários com a moeda única, rondaria também os 8 pontos percentuais do PIB.