Sáb 16 Jan 2010
A semana mais “quente” do risco de crédito português – diário de bordo 59
Por JNR na secção Gestão do risco , Inteligência Económica , O novo capital financeiroainda sem comentários
Esta segunda semana de Janeiro foi marcada pelo nervosismo dos preços dos CDS – credit default swaps, derivados financeiros para cobertura de risco de crédito – relativos à dívida soberana da Grécia e Portugal.
No caso português, a dinâmica semanal de crescimento situou-se nos 35 pontos base, acima da grega, mas o patamar está ainda abaixo dos 125 pontos-base (fechou na sexta-feira, dia 15, nos 122,75pb), enquanto, no caso grego, já galgou ligeiramente os 330 pb e no caso da Irlanda os 150pb.
Desde segunda-feira, os preços dos CDS relativos à Grécia cresceram 30 pontos base, com o dia mais negro a ocorrer na quarta-feira (13/01), face à dificuldade do governo do PASOK (socialista), eleito em Outubro passado, conseguir fazer passar a ideia para os mercados financeiros internacionais de que o seu plano de consolidação orçamental a três anos é credível. O custo de titularizar a divida grega está, assim, num máximo. O diferencial (spread) em relação aos títulos alemães atingiu no final da semana os 3,3% – no caso português está nos 1,2%.
Olhando à variação a 28 dias, um dos indicadores usados pelo Markit.com, que fornece os preços diários dos CDS, o crescimento foi de 62 pontos base para a Grécia e 39 pontos base para Portugal.
Corredor da morte lenta
O aquecimento destes indicadores de risco – se a situação é percepcionada como agravando a dívida soberana e colocando em causa o cumprimento dos seus encargos, o preço dos CDS aumentam – deveu-se a um relatório da agência de rating Moody’s de análise da dívida soberana europeia, publicado na quarta-feira. Nesse relatório, Portugal juntamente com a Grécia são declarados em risco de entrar no corredor da “morte lenta” (slow death). A janela de oportunidade para o evitar, avisa a agência, “não estará aberta indefinidamente”.
Por “morte lenta” das economias, a Moody’s faz um paralelo: “Com o passar do tempo, esta cadeia de acontecimentos poderá conduzir a uma morte lenta de uma economia na zona euro, similar à morte lenta que tem sido vivida por muitas regiões dentro de países”. A “morte lenta” derivaria do desvio crescente da riqueza criada para o pagamento do serviço da dívida soberana.
O relatório apesar de amalgamar as duas economias, reconhece-lhes dois tempos diferentes. Portugal teria ainda “mais tempo” para evitar a entrada em tal corredor. A própria classificação de rating para Portugal é de Aa2 (com previsão negativa) e a para a Grécia é, mais baixa, de A1 (com previsão, também, negativa). No entanto, a Moody’s descarta nos dois casos o risco de uma “morte súbita”.
A dívida soberana portuguesa terá chegado a 85% do PIB, um ponto percentual acima da média europeia, distante, por ora, do caso italiano (117%) e do grego (125%).
Num movimento inédito, o Instituto de Gestão e da Tesouraria do Crédito Público (que trata da gestão da dívida directa do Estado português) produziu, no último dia da semana, um comunicado em inglês dirigido aos mercados financeiros internacionais e às agências de rating, onde procurava desdramatizar a situação portuguesa, referindo – prematuramente – a possibilidade de um acordo do governo com o maior partido da Oposição relativamente ao próximo Orçamento de Estado e o ensejo do executivo português em deixar estagnados os salários reais do sector público este ano.
Situação grega continua em suspenso
Sobre o contexto grego, refira-se que o plano a 3 anos do Governo chefiado por George Papandreou pretendia baixar o défice orçamental do patamar dos 12,7% do PIB em 2009 para os 8,7% este ano, e depois para 5,6% em 2011 até aos 2,8% em 2012, restabelecendo uma situação abaixo da linha de água de 3% imposta pelas normas da Zona Euro.
O governo grego tinha apontado para um programa de emagrecimento de gastos públicos que incluiria cortes assinaláveis nos sectores da defesa e da saúde, nas horas extraordinárias e bónus de funcionários e um congelamento salarial nos vencimentos do sector público acima de 2000 euros por mês.
A central sindical do sector público, a ADEDY, garantiu que mantém a convocação de uma greve geral do funcionalismo para 10 de Fevereiro.