Qui 28 Jan 2010
Obama elege prioridade política para 2010: É o (des)emprego, estúpido!
Por JNR na secção Geoprotagonistas , Gestão do risco , Inteligência Económica , O novo capital financeiroainda sem comentários
“Não desistimos, não desertamos!”, disse ontem Obama no seu primeiro discurso sobre o Estado da União perante o Congresso norte-americano.
A postura do presidente americano compreende-se face à situação politicamente complexa que o Partido Democrático atravessa ao fim de um ano de mandato de Obama na Casa Branca.
Um conjunto de “choques” tem afectado a sua estratégia inicial na “frente interna”, com uma subida de tom ultimamente. Os problemas domésticos acabariam, por isso, por ocupar 85% do tempo da intervenção.
Basta recordar, a derrota no estado de Massachusetts nas eleições especiais para o lugar para o Senado deixado vago pela morte de Ted Kennedy, o levantar de vozes críticas, no seu próprio campo, sobre a recondução de Ben Bernanke à frente da Reserva Federal no final deste mês (o Senado acabaria por confirmar dia 28/01 a continuação de Bernanke por 70 contra 30 votos), e as críticas de muitos independentes seus apoiantes de que teria sido um erro táctico grave ter dado prioridade, durante o ano passado, à reforma na área da saúde, em detrimento da questão do desemprego que afecta milhões na Main Street e de colocar ordem em Wall Street.
Uma carta de Keynes
Segundo alguns analistas, um erro de prioridades. Alguns recordam a carta aberta de Keynes ao presidente Roosevelt publicada no The New York Times, no final do ano de 1933, durante os primeiros nove meses dessa Administração, em que o economista inglês aconselhava a dar prioridade política à gestão da retoma e não a reformas de longo alcance. “O sucesso virá de conseguir uma retoma no tempo mais curto, o que fará crescer o prestígio da sua Administração, o que dará a força necessária para levar adiante tais reformas”, escrevia Keynes.
Inversão de prioridades
Obama parece, agora, guinar a vara neste segundo ano da sua Administração. “Tudo começa com a nossa economia”, afirmou. A questão do emprego tornou-se a prioridade face “à devastação que continua a estar presente” no tecido económico e social, apesar do “pior da tempestade já ter passado” e de se ter evitado uma recaída “numa segunda recessão”, disse o presidente.
As manchas de pré-colapso social em muitas regiões do país (“particularmente pequenas cidades e comunidades rurais”) e o empobrecimento brutal de largas franjas da classe média americana (cujas imagens passam em programas de grande audiência, como no Oprah Winfrey Show), levou Obama a avançar, agora, com um pacote de 30 mil milhões de dólares para um programa de emergência à criação de emprego dirigido ao small business, aos empreendedores inovadores e ao próprio desempregado que queira passar a ser boss de si mesmo.
Os fundos serão retirados do dinheiro “reembolsado por Wall Street”, pelos fat cats, que o presidente continua a fustigar, declarando mesmo que “todos nós detestámos salvar a banca, eu abominei isso [fortes aplausos], vocês detestaram-no!”. A câmara de televisão focou, nessa altura, o secretário do Tesouro, Tim Geithner, cuja cara estava literalmente lívida. Um novo ataque político que a alta finança no encontro de Davos do World Economic Forum já repudiou. O dinheiro será canalizado para bancos de proximidade que reabram o crédito aos negócios.
O presidente avançou, ainda, com um novo corte de impostos para criação de emprego ou aumento de salários por parte do small business. Juntou, ainda, “a eliminação de impostos sobre ganhos de capital derivados de investimento, e um incentivo fiscal a todos os negócios, grandes ou pequenos, que invistam em novos estabelecimentos e equipamento”.
Lançou, também, uma Iniciativa para a Exportação para os próximos cinco anos com o objectivo de “duplicar as exportações” nesse período.
Obama reafirmou, ainda, o horizonte de saída desta Grande Recessão, apontando o investimento nas energias “limpas”, nas infra-estruturas do futuro e na inovação como objectivos estratégicos de longo prazo. “Não há razão para a Europa ou a China terem os comboios mais rápidos e as fábricas que produzem produtos limpos”, afirmou. Apelou à travagem da deslocalização: “Está, na altura, finalmente, de eliminar os incentivos fiscais aos que exportam os nossos postos de trabalho e de dá-los às que criam empregos nos EUA”.
Consolidação orçamental
O presidente americano, no entanto, passou, num segundo andamento do seu discurso, ao tema da necessidade de cuidar do défice das contas públicas, propondo a criação de uma comissão bipartida no Senado destinada a vigiar a despesa pública.
O plano de consolidação orçamental de Obama deverá começar em 2011 com vista a um congelamento da despesa pública durante três anos, com excepção das áreas da saúde e da segurança social. Prometeu eliminar todas as cabimentações orçamentais que não tenham funcionado ou não possam ser suportadas. “Já identificámos 20 mil milhões para o próximo ano”, disse. Prometeu, também, terminar com os benefícios fiscais às petrolíferas, aos gestores de fundos de investimento e aos que ganhem mais de 250 mil dólares por ano.
Antes de passar à “frente externa” (a que só dedicou 9 minutos em uma hora de discurso), o presidente não poupou palavras para fustigar os lóbis nacionais e estrangeiros que capturam o Congresso e o aparelho do Estado, deplorando que o Supremo Tribunal americano tenha, na semana passada, aberto uma janela de oportunidade para “interesses especiais” financiarem sem limites as campanhas eleitorais americanas.