Janeiro 2010
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Sáb 30 Jan 2010
Não é esperado em 2010 um disparo similar ao que ocorreu em 2008, quando o barril de petróleo atingiu o seu máximo nominal histórico. Para o Fundo Monetário Internacional (FMI), o preço médio do barril de crude deverá situar-se abaixo dos 80 dólares (mais precisamente 76 dólares), segundo a actualização realizada na terça-feira às principais projecções macroeconómicas do World Economic Outlook.
Ainda que signifique um aumento de 22,6% em relação ao preço médio de 2009 (que se situou nos 62 dólares), alguma volatilidade esperada para o ano em curso não deverá retirar o preço médio desta commodity estratégica do patamar dos 70-80 dólares, em que se tem movido este primeiro mês do novo ano. O FMI estima que o preço médio do barril do ouro negro continue a subir em 2011, ainda que moderadamente, para um patamar de 82 dólares, um acréscimo de 7,9% em relação a 2010.
A moderação do cenário de aumento do preço médio do crude deriva da cautela das projecções do FMI para o crescimento mundial, que é estimado crescer 3,9% em 2010, um pouco mais do que em 2008. A cautela sobre esta retoma mundial deriva do facto do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) ser ainda muito moderado nos países desenvolvidos, onde não se espera que ultrapasse os 2,9%, com crescimentos mais baixos que a média no caso dos EUA (2,5%) e mesmo medíocre no caso da Zona Euro (1%). Além disso, há o efeito de eficiência energética que continua a actuar nestes países.
O actual crescimento da economia mundial está a ser alimentado, desde os anos 2000, pela dinâmica de crescimento dos países emergentes de médio rendimento, cujo crescimento médio anual se espera aproximar do que ocorreu em 2008, ou seja no patamar dos 6%. A China deverá crescer em 2010 na ordem dos 10%, quatro décimas mais do que em 2008 e 1,3 pontos percentuais mais do que em 2009.
Segundo as projecções do FMI, o efeito desta dinâmica dos emergentes não gerará, contudo, um novo choque petrolífero: “Esta pressão em alta [no preço das matérias-primas] espera-se que seja modesta, em virtude dos níveis de stock acima da média e de existir uma capacidade excedentária substancial em muitos sectores de commodities”.
Recorde-se que, apesar do aumento do preço do barril de crude entre 31/12/2008 e 31/12/2009 na ordem dos 85% para a variedade Brent (de referência na Europa) e 78% para o WTI norte-americano, o preço médio sofreu uma descida de 36% em relação ao efeito do choque petrolífero nos preços ocorrido durante meados de 2008, quando o preço médio subiu 36% em relação a 2007.
Sáb 30 Jan 2010
Ideia em destaque: “Entre países com o mesmo nível de rendimento per capita, os com melhor desempenho logístico conseguem um crescimento adicional: 1% no produto interno bruto e 2% no comércio internacional”.
Resumo: Segundo o Índice de Desempenho Logístico do Banco Mundial, Portugal caiu do 28º lugar em 2007 para o 34º em 2010. A despromoção do país deveu-se à perda de desempenho mais acentuada em três dos seis indicadores avaliados: oferta de preços competitivos para expedição internacional, frequência de cumprimento de prazos de entrega e possibilidade de controlo à distância do trajecto e entrega das cargas.
No campeonato mundial da logística, Portugal desceu na segunda divisão onde se encontra desde 2007. Uma queda de seis posições retirou o país dos lugares cimeiros do grupo com um desempenho que poderíamos classificar de “médio-alto” em logística, uma espécie de segunda divisão. Do 28º lugar em 2007 passou para 34º agora, segundo o The Logistics Performance Index (LPI) publicado, desde 2007, pelo departamento de Comércio Internacional do Banco Mundial, em Washington DC, em colaboração com a Escola de Negócios de Turku, na Finlândia, e que abrange 155 países.
A descida portuguesa foi compensada pela subida da China e da África do Sul para os lugares cimeiros deste escalão “médio-alto” em desempenho logístico que se situa entre 70% a 80% do nível da Alemanha, o líder mundial neste índice em 2010.
Descida em três indicadores
A despromoção do país dentro desta segunda divisão da logística mundial deveu-se à perda de desempenho mais acentuada em três dos seis indicadores avaliados pelo índice logístico do Banco Mundial desde 2007: oferta de preços competitivos para expedição internacional (onde caiu abruptamente do 33º lugar para o 59º), frequência de cumprimento de prazos de entrega (onde desceu da 21ª posição para a 40ª) e possibilidade de controlo à distância do trajecto e entrega das cargas (em que passou do 30º para o 39º lugar). Estes três indicadores são importantes em termos de confiança e previsibilidade do que, tecnicamente, em gestão, se designa por cadeia de fornecimentos, um elemento crítico no comércio internacional.
Apenas em um dos seis critérios do índice melhorou ligeiramente a posição, na qualidade e competência em logística. Em matéria de eficiência alfandegária e de qualidade de infra-estruturas piorou ligeiramente nos últimos dois anos, segundo o índice.
Alterações geoestratégicas
Num plano global, o índice agora publicado revelou mudanças importantes no grupo líder do índice, segundo o relatório “Connecting to Compete 2010 – Trade Logistics in the Global Economy”.
A Alemanha ultrapassou Singapura (que foi destronada do lugar supremo de rainha da logística) e a Holanda, que também se viu ultrapassada pelo vizinho nórdico, a Suécia. O caso de subida mais fulgurante nesta primeira divisão foi o do Luxemburgo que passou da 23ª posição para a 5ª, integrando agora a elite da logística. Também a Suíça e o Reino Unido subiram posições no grupo dos 10 melhores e a Bélgica e a Noruega entraram para esse clube.
Sublinhe-se que, no grupo dos 10 primeiros, o espaço europeu reforçou posições, face à descida ligeira do Japão (para 7º) e à saída de Hong Kong (passou a 13º) e do Canadá (desceu para 14º). Os Estados Unidos, a maior economia do mundo, baixou uma posição, estando agora no 15º lugar.
Os BRIC (acrónimo para Brasil, Rússia, Índia e China) revelam uma divisão em que são visíveis duas velocidades. A China subiu no grupo “médio-alto”, liderando-o (na 27ª posição), e o Brasil saltou 20 posições (passando ao 41º lugar), integrando, agora, esta segunda divisão onde se encontram o gigante asiático e Portugal. Pelo contrário, a Índia foi despromovida desta divisão, descendo da 39ª posição para a 47ª, e a Rússia continua acantonada numa posição fraca na terceira divisão, em 94ª lugar, apesar de ter subido cinco degraus entre 2007 e 2009.
Radiografia dos PIIGS
Uma radiografia dos PIIGS (acrónimo para Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha), agora, famosos na Zona Euro, pelas piores razões, revela contrastes bem marcantes entre três divisões: a Irlanda continua próxima do grupo dos 10 primeiros do índice (manteve a 11ª posição), a Itália conservou o seu 22º lugar e a Espanha subiu um degrau na primeira divisão, situando-se na 25ª posição, enquanto Portugal desceu na segunda divisão (para 34º lugar) e a Grécia foi despromovida para a terceira divisão (um trambolhão, uma queda de 26 degraus, situando-se, agora, na 54ª posição).
Efeito multiplicador
Refira-se, a concluir, que a importância da logística para o bom desempenho económico é um dos aspectos sublinhados pelo Banco Mundial ao publicar este índice. Segundo o relatório, “ a evidência do LPI de 2007 e 2010 aponta para o facto de que, entre países com o mesmo nível de rendimento per capita, os com melhor desempenho logístico conseguem um crescimento adicional: 1% no produto interno bruto e 2% no comércio internacional”.
Rankings
TOP 5 de 2010: Alemanha; Singapura; Suécia; Holanda e Luxemburgo
TOP 5 de 2007: Singapura, Holanda, Alemanha, Suécia e Áustria
TOP 5 do grupo “médio-alto” em 2010: China, África do Sul, Malásia, Polónia e Israel
TOP 5 do grupo “médio-alto” em 2007: Malásia, Portugal, Grécia, China e Tailândia
5 “Colegas” próximos de Portugal (34º) no Índice de 2010: Bahrein (32º), Líbano (33º), Tailândia (35º), Kuwait (36º) e Letónia (37º)
Sex 29 Jan 2010
As principais bolsas da Europa e da Ásia fecharam ontem (28/01) no vermelho, exceptuando, no entanto, paradoxalmente, os “suspeitos do costume”, a Grécia e o Dubai. Já hoje as principais bolsas da Ásia voltaram a fechar no negativo.
Apesar da recondução ontem no Senado americano (por 70 contra 30 votos) de Ben Bernanke para a presidência da Reserva Federal e de alguns efeitos positivos imediatos do discurso sobre o Estado da Nação do presidente Obama na quarta-feira, os índices do Dow Jones caíram acima de 1% e no caso do Nasdaq, a bolsa das tecnológicas em Times Square, o trambolhão foi quase de 2%.
Fim da mini-bolha?
A EconomyWatch vaticinou que estes sinais de volatilidade nos três continentes serão o sintoma de que a “mini-bolha” que se vinha a desenvolver desde Março de 2009 estará a esvaziar-se e que um novo período de domínio do “urso”, de correcção bolsista, se iniciará durante este primeiro trimestre de 2009.
No entanto, no que respeita, especificamente, à situação na Europa, o primeiro-ministro socialista grego, Georges Papandreou, levantou, ontem, no World Economic Forum, em Davos, a suspeita de que estaria a haver um ataque à Zona Euro por parte de especuladores a partir da situação grega. Alvitrou, inclusive, que adversários políticos com “motivos ulteriores” estariam envolvidos na operação.
O chefe do executivo grego aludiu que um rumor foi espalhado nos mercados financeiros de que a Grécia sairia do euro e que se dirigiria directamente aos investidores chineses para recolher fundos sem passar pelo mercado. Este rumor destruiu, de imediato, o êxito que no dia anterior tinha havido na colocação de 20 mil milhões de euros de obrigações, uma operação que recebeu propostas de financiamento quatro vezes superiores a esse montante.
E deixou o recado que “a seguir à Grécia, estão Portugal e Espanha”. Portugal foi objecto de várias missivas das agências de rating nestes últimos dias e a Espanha foi visada pelo economista americano Nouriel Roubini – conhecido na gíria por Dr.Doom – que avisou que, em caso de problemas com Espanha (o país da Zona Euro que o FMI prevê que continuará em recessão ainda em 2010), seria “um desastre”, mais grave do que a actual tragédia grega.
Papandreou recebeu, de imediato, em Davos, o apoio de Jean-Claude Trichet, presidente do Banco Central Europeu, e de José Luis Zapatero, o primeiro-ministro espanhol que preside, actualmente, à União Europeia.
Portugal e Grécia sob suspeita
Pelo segundo dia consecutivo, a situação de (des)confiança dos mercados financeiros em relação às condições de cumprimento das responsabilidades da dívida soberana portuguesa e grega agravou-se.
Os credit default swaps (CDS) relativos a estes dois países voltaram a disparar, com o caso português a atingir novo recorde, saltando 11% de um dia para o outro, situando-se, agora, nos 166,2 pontos base (pb), e o caso grego a galgar o patamar dos 400 pb.
Nos últimos 28 dias, a situação portuguesa agravou-se em 83,34%, o maior disparo na Europa, e os preços dos CDS relativos à Grécia aumentaram 43%.
No caso português há, ainda, a assinalar que três empresas portuguesas – EDP Energias de Portugal, Portugal Telecom International BV e Portugal Telecom SGPS – viram o preço dos CDS relativos à sua dívida subir mais de 50% nos últimos 28 dias, tendo ultrapassado a barreira dos 100 pontos base.
A situação grega foi ontem objecto de particular alarme. A taxa de juros a 10 anos das obrigações relativas à dívida pública grega voou para os 7,147%, um recorde na Zona Euro, com um diferencial de quase 4 pontos percentuais em relação à taxa de juros de referência alemã para este tipo de obrigações (que está nos 3,199%). Desde Novembro de 2009, a taxa grega subiu dois pontos percentuais. No caso português, face ao novo recorde do preço dos CDS, a taxa de juro da dívida portuguesa a 10 anos deverá estar próxima dos 5%.
Mecanismo europeu em preparação?
O primeiro-ministro grego falou de um ensejo muito íntimo em Davos, “uma ideia pessoal”, frisou, a de que pudesse existir “um mecanismo de socorro mútuo” dentro da União Europeia (UE) para acudir a situações extremas, uma espécie de euro-obrigações.
Refira-se que o novo Tratado de Lisboa, no seu artigo 122, prevê assistência financeira de emergência a um estado membro que “conheça dificuldades ou uma ameaça séria (…) em virtude de acontecimentos excepcionais escapando ao seu controlo”. A ideia de evitar que seja o Fundo Monetário Internacional a estender a passadeira de salvação a um membro aflito da UE estará a ganhar apoio em Bruxelas.
Aparentemente parecem existir duas “linhas” dentro da Zona Euro, uma que ficou clara, esta semana, uma vez mais, pela voz do ministro da Economia alemão, Rainer Bruderie, que garantiu que nunca haverá salvações a devedores relapsos em apuros, e outra que, segundo o jornal francês Le Monde, estaria já a ser preparada discretamente por peritos franceses e alemães. O jornal londrino The Telegraph recorda que a intransigência do ministro alemão faria muito mal ao próprio sistema financeiro desse país que estaria muito exposto à dívida grega (tal como está à espanhola e à portuguesa, acrescenta).
A Comissão Europeia deverá apreciar o plano grego de consolidação orçamental na próxima semana, um plano que prevê a contracção do défice público em quase 10 pontos percentuais do PIB até 2013 (no caso português será de mais de 5 pontos percentuais).
Um veredicto que será analisado à lupa pelos mercados financeiros internacionais, tanto mais que outros países da Zona Euro terão de fazer contracções brutais do défice, como a Irlanda e a Espanha em mais de 8 pontos percentuais. No caso da Inglaterra, que está fora da zona Euro, a contracção, para um défice similar ao recomendado aos seus parceiros comunitários com a moeda única, rondaria também os 8 pontos percentuais do PIB.
Qui 28 Jan 2010
“Não desistimos, não desertamos!”, disse ontem Obama no seu primeiro discurso sobre o Estado da União perante o Congresso norte-americano.
A postura do presidente americano compreende-se face à situação politicamente complexa que o Partido Democrático atravessa ao fim de um ano de mandato de Obama na Casa Branca.
Um conjunto de “choques” tem afectado a sua estratégia inicial na “frente interna”, com uma subida de tom ultimamente. Os problemas domésticos acabariam, por isso, por ocupar 85% do tempo da intervenção.
Basta recordar, a derrota no estado de Massachusetts nas eleições especiais para o lugar para o Senado deixado vago pela morte de Ted Kennedy, o levantar de vozes críticas, no seu próprio campo, sobre a recondução de Ben Bernanke à frente da Reserva Federal no final deste mês (o Senado acabaria por confirmar dia 28/01 a continuação de Bernanke por 70 contra 30 votos), e as críticas de muitos independentes seus apoiantes de que teria sido um erro táctico grave ter dado prioridade, durante o ano passado, à reforma na área da saúde, em detrimento da questão do desemprego que afecta milhões na Main Street e de colocar ordem em Wall Street.
Uma carta de Keynes
Segundo alguns analistas, um erro de prioridades. Alguns recordam a carta aberta de Keynes ao presidente Roosevelt publicada no The New York Times, no final do ano de 1933, durante os primeiros nove meses dessa Administração, em que o economista inglês aconselhava a dar prioridade política à gestão da retoma e não a reformas de longo alcance. “O sucesso virá de conseguir uma retoma no tempo mais curto, o que fará crescer o prestígio da sua Administração, o que dará a força necessária para levar adiante tais reformas”, escrevia Keynes.
Inversão de prioridades
Obama parece, agora, guinar a vara neste segundo ano da sua Administração. “Tudo começa com a nossa economia”, afirmou. A questão do emprego tornou-se a prioridade face “à devastação que continua a estar presente” no tecido económico e social, apesar do “pior da tempestade já ter passado” e de se ter evitado uma recaída “numa segunda recessão”, disse o presidente.
As manchas de pré-colapso social em muitas regiões do país (“particularmente pequenas cidades e comunidades rurais”) e o empobrecimento brutal de largas franjas da classe média americana (cujas imagens passam em programas de grande audiência, como no Oprah Winfrey Show), levou Obama a avançar, agora, com um pacote de 30 mil milhões de dólares para um programa de emergência à criação de emprego dirigido ao small business, aos empreendedores inovadores e ao próprio desempregado que queira passar a ser boss de si mesmo.
Os fundos serão retirados do dinheiro “reembolsado por Wall Street”, pelos fat cats, que o presidente continua a fustigar, declarando mesmo que “todos nós detestámos salvar a banca, eu abominei isso [fortes aplausos], vocês detestaram-no!”. A câmara de televisão focou, nessa altura, o secretário do Tesouro, Tim Geithner, cuja cara estava literalmente lívida. Um novo ataque político que a alta finança no encontro de Davos do World Economic Forum já repudiou. O dinheiro será canalizado para bancos de proximidade que reabram o crédito aos negócios.
O presidente avançou, ainda, com um novo corte de impostos para criação de emprego ou aumento de salários por parte do small business. Juntou, ainda, “a eliminação de impostos sobre ganhos de capital derivados de investimento, e um incentivo fiscal a todos os negócios, grandes ou pequenos, que invistam em novos estabelecimentos e equipamento”.
Lançou, também, uma Iniciativa para a Exportação para os próximos cinco anos com o objectivo de “duplicar as exportações” nesse período.
Obama reafirmou, ainda, o horizonte de saída desta Grande Recessão, apontando o investimento nas energias “limpas”, nas infra-estruturas do futuro e na inovação como objectivos estratégicos de longo prazo. “Não há razão para a Europa ou a China terem os comboios mais rápidos e as fábricas que produzem produtos limpos”, afirmou. Apelou à travagem da deslocalização: “Está, na altura, finalmente, de eliminar os incentivos fiscais aos que exportam os nossos postos de trabalho e de dá-los às que criam empregos nos EUA”.
Consolidação orçamental
O presidente americano, no entanto, passou, num segundo andamento do seu discurso, ao tema da necessidade de cuidar do défice das contas públicas, propondo a criação de uma comissão bipartida no Senado destinada a vigiar a despesa pública.
O plano de consolidação orçamental de Obama deverá começar em 2011 com vista a um congelamento da despesa pública durante três anos, com excepção das áreas da saúde e da segurança social. Prometeu eliminar todas as cabimentações orçamentais que não tenham funcionado ou não possam ser suportadas. “Já identificámos 20 mil milhões para o próximo ano”, disse. Prometeu, também, terminar com os benefícios fiscais às petrolíferas, aos gestores de fundos de investimento e aos que ganhem mais de 250 mil dólares por ano.
Antes de passar à “frente externa” (a que só dedicou 9 minutos em uma hora de discurso), o presidente não poupou palavras para fustigar os lóbis nacionais e estrangeiros que capturam o Congresso e o aparelho do Estado, deplorando que o Supremo Tribunal americano tenha, na semana passada, aberto uma janela de oportunidade para “interesses especiais” financiarem sem limites as campanhas eleitorais americanas.
Qui 28 Jan 2010
Foi uma quarta-feira particularmente crítica na Europa. A maioria das bolsas europeias esteve no vermelho com destaque para a continuação de um míni-crash na Grécia. O mercado de seguros sobre a dívida soberana disparou, de novo, com aumentos superiores a 10% dos preços dos CDS da Grécia, Espanha, Portugal e Itália.
A situação grega agravou-se ontem (27/01). Há dois dias que a bolsa grega vê os seus índices no vermelho com quebras típicas de mini-crash. Ontem, o índice grego FTSE/ASE caiu 4,68%, depois de ter quebrado 2,3% na terça-feira. O vermelho estendeu-se, ontem, à maioria das bolsas europeias, com destaque para as quedas do Ibex 35 espanhol (2,69%) e da bolsa irlandesa (2,17%).
A situação mais grave ocorreu, no entanto, no preço dos credit default swaps (CDS) sobre a dívida soberana dos famosos quatro PIGS (acrónimo em inglês para Portugal, Itália, Grécia e Espanha), que disparou, segundo dados do Markit. Em 28 dias, os preços dos CDS dos quatro países subiram para máximos, com o caso português a ganhar a liderança em termos da maior subida nesse período: 64,75%. A maior subida diária pertenceu ontem à Grécia (18,21%).
Os preços dos CDS desses quatro países estão, agora, em 378 pontos base (pb) no caso grego, 150 pb no caso português, 128 pb no caso de Espanha e 116 pb no caso de Itália. Cada 100 pontos base significa um ponto percentual acima da referência alemã.O preço dos CDS relativos à dívida soberana portuguesa haviam descido na terça-feira 9%, situando-se nos 129 pontos base, mas, ontem, a situação inverteu-se no quadro global de agravamento da avaliação dos PIGS.
A projecção do Fundo Monetário Internacional sobre o comportamento económico esperado para a Zona Euro em 2010 é muito preocupante. O Produto Interno Bruto (PIB) da zona da moeda única não deverá crescer mais de 1%, com uma continuação de recessão em Espanha (cujo PIB deverá cair ainda 0,6%). O panorama geral é de crescimentos abaixo ou igual a 1,5% nos países-chave da União Europeia (1,5% na Alemanha, 1,4% na França, 1% na Itália, 1,3% na Itália). No caso português, a proposta de Orçamento de Estado aponta para um crescimento de 0,7%.
Também, na Ásia, os índices de algumas bolsas importantes continuaram ontem no negativo, como o CSI 300 chinês (queda de 1,36%) e o BSE Sensex 30 da Índia (queda de 2,92%), depois de um dia negro generalizado na terça-feira.
O Dow Jones e o Nasdaq subiram ontem ligeiramente fruto do impacto imediato, positivo, do discurso sobre a União proferido pelo presidente Obama no Congresso norte-americano.
Qua 27 Jan 2010
O Fundo Monetário Internacional (FMI) procedeu à actualização das suas projecções sobre o cenário macroeconómico mundial, regularmente expressas no seu World Economic Outlook e surpreendeu os analistas: reviu em alta a sua anterior previsão de crescimento para 2010 (que se situa, agora, perto dos 4%) e corrigiu a sua estimativa mais pessimista sobre a recessão de 2009, que se prevê, agora, que tenha implicado apenas uma redução de 0,8% do produto mundial.
A previsão em alta para esta retoma moderada mundial em 2010 tem a ver com os efeitos multiplicadores dos chamados “pacotes de estímulos” da despesa pública que se julga que poderão continuar a actuar este ano, tal como evitaram em 2009 um trambolhão muito maior no produto mundial.
Essa política de estímulos públicos permitiu aos países desenvolvidos ver o seu Produto Interno Bruto (PIB) cair, em média, apenas 3,2% e aos países emergentes, em contrapartida, crescer 2,1%, particularmente no caso da China que concretizou a sua política de “segurar o oito”, ou seja manter o aumento do PIB no patamar psicológico dos 8% (a estimativa do FMI aponta para um crescimento anual de 8,7% em 2009).
China segurou o oito
Esta diversidade de dinâmicas no período mais agudo de crise económica (vários trimestres de 2009) e de batida no fundo das bolsas (cujo ponto mais baixo acabou por se situar em Março de 2009) vai marcar o quadro geoeconómico mundial com uma geometria variável para o futuro.
Há cada vez mais um fosso entre as dinâmicas de crescimento no mundo emergente e as mais moderadas ou mesmo medíocres no antigo G7 e em vários países “ricos” do grupo da OCDE. Por isso, as projecções do FMI estimam que o PIB médio nos emergentes cresça 6% ao ano em 2010 e 6,3% em 2011, enquanto o mundo dito desenvolvido, no seu conjunto, não sairá do patamar dos 2%, estando previstos 2,1% em 2010 e 2,4% em 2011.
E, mesmo dentro dos países “ricos” toma assento a tal geometria variável: o crescimento nos “tigres” asiáticos desenvolvidos situar-se-á perto dos 5% e no Canadá poderá chegar aos 3,6% em 2011; enquanto na Zona Euro, o FMI estima crescimentos medíocres de 1% em 2010 e de 1,6% em 2011, com a situação mais crítica em Espanha, onde a recessão deverá prosseguir ainda em 2010 (estimativa de quebra do PIB nos 0,6%). No terreno do meio situam-se os Estados Unidos, que arrancarão com 2,7% em 2010, desacelerando depois, em 2011, para os 2,4%, e o Japão que continuará a sair da sua crise decenal, esperando-se, contudo, que não ultrapasse os 2,2% de crescimento em 2011.
O caso português
Estas “várias velocidades da retoma”, como designa o FMI, colocam problemas delicados aos países frágeis em termos económicos que vivem do modelo de exportação.
No caso português, o crescimento do PIB para 2010 está previsto situar-se nos 0,7%, segundo a proposta de Orçamento do Estado apresentada ontem pelo governo. Isso significa que a dinâmica do PIB português será inferior à média da Zona Euro (estimada em 1%), mas superior ao nosso vizinho peninsular (que deverá continuar em recessão).
O crescimento medíocre da economia portuguesa previsto para 2010 sucede a um ano de recessão em que o PIB se contraiu 2,6%, bastante menos do que a queda na Zona Euro (3,9%).
Contudo, esta projecção muito modesta para 2010 toma, certamente, em linha de conta o contexto externo a que a exportação portuguesa está habituada e a provável dificuldade na adaptação rápida do sector exportador português àquela geometria variável a que o FMI se refere.
Os mercados de destino na Zona Euro vão apresentar crescimentos baixos nos dois próximos anos (a Alemanha e a França só em 2011 crescerão acima dos 1,5%), com a agravante da continuação da recessão em Espanha durante este ano.
Qua 27 Jan 2010
A situação nas bolsas em regiões críticas para o crescimento mundial (como é a Ásia) e em países que têm estado sob apertada observação dos mercados financeiros volta a denunciar volatilidade acentuada.
As mais importantes bolsas da Ásia fecharam ontem (26/01) no negativo, com o índice chinês CSI 300 a cair 2,56%, o Hang Seng de Hong Kong com uma quebra de 2,38%, enquanto o Strait Times de Singapura deu uma queda de 2,54% e o índice de Taiwan averbou o maior choque na região, na ordem de 3,48%. O que configura valores de um cenário pontual de míni-crash. Só a bolsa japonesa escapou, tendo tido uma subida insignificante (0,03%).
Dois dos países ultimamente em observação tiveram, também, quebras bolsistas com significado, depois de terem tido subidas na segunda-feira, denotando oscilações verdadeiramente “selvagens”. O índice da bolsa grega FTSE/ASE20 havia subido 3,4% na segunda-feira (depois de ter corrido bem a venda de títulos da dívida no valor de 8 mil milhões de euros), para no dia seguinte cair 2,3%, O índice do Dubai, o DMF, subira 2,82% no primeiro dia da semana, para ontem quebrar 3,6%. A bolsa russa, também, caiu 2,19%.
A União Europeia esteve no positivo nas principais bolsas, mas observaram-se quebras nas bolsas nórdicas e na frente de leste. O PSI 20 da bolsa portuguesa caiu muito ligeiramente (0,05%). O índice norte-americano Dow Jones Industrial Average caiu ligeiramente, bem como o Nasdaq, a bolsa tecnológica de Times Square, depois de terem averbado ganhos na segunda-feira. Na América Latina, a bolsa brasileira fechou, também, no vermelho.
Ter 26 Jan 2010
Segundo o relatório (‘World Economic Outook Projections’, update de 26/01/2010) de hoje do Fundo Monetário Internacional (FMI), o produto mundial terá emagrecido 0,8% em 2009, um valor negativo muito inferior à quebra de 2,2% anunciada ainda há pouco tempo pelo Banco Mundial. O FMI reviu a sua estimativa anterior (de Outubro de 2009) que apontava para uma recessão superior, na ordem dos 1,1%.
Esta melhoria do nível de recessão estimado para o ano que findou ficou a dever-se ao facto dos países emergentes terem conseguido segurar um nível de crescimento de 2,1%, com destaque para a China que conseguiu manter um crescimento anual do seu Produto Interno Bruto de 8,7%.
A recessão bateu forte nos países desenvolvidos com uma redução de 3,2% do produto, com um comportamento pior do Japão (contracção de 5,3%) e da Zona Euro (quebra de 3,9%) do que nos Estados Unidos (queda de 2,5%).
Geometria variável
Este desagravamento da profundidade da crise veio mostrar que, durante 2009 – o pior ano da Grande Recessão iniciada em finais de 2007 -, se confirmou a hipótese colocada por muitos economistas de que se assistiria a uma geometria variável nos crescimentos com uma separação (o que tecnicamente se tem designado por decoupling, em inglês) clara entre as dinâmicas dos países desenvolvidos e dos emergentes.
Se este número de 0,8% de quebra for definitivo, 2009 terá sido o quinto pior ano em termos económicos à escala mundial, em período de paz, desde 1900. Os lugares cimeiros estão, ainda, nos três anos críticos da Grande Depressão (1930, 1931 e 1932, com este último com o recorde de uma quebra de 6,6%) e no ano da Grande Recessão de 1908 que se seguiu ao Pânico financeiro internacional de 1907.
Alteração radical
O factor países emergentes que, agora, actuou tem a ver com uma alteração radical ocorrida nas dinâmicas de crescimento: os países de médio rendimento per capita passaram a ser o motor do crescimento da economia mundial.
Entre 2001 e 2007, esses países contribuíram com 55% para o crescimento do produto mundial avaliado em períodos de cinco anos, enquanto os países de alto rendimento per capita contribuíram, apenas, com 35%, segundo um estudo da economista brasileira Heloísa Marone, do Departamento de Estudos sobre o Desenvolvimento do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). De acordo com as projecções realizadas por Marone, a contribuição dos países de rendimento médio per capita deverá atingir os 90% para o período de 2006 a 2010 (incluindo, portanto, os anos da Grande Recessão).
Afundamento do comércio mundial
No entanto, esse desagravamento da quebra do produto mundial foi “compensado” por um número para o comércio internacional mais pessimista do que as estimativas anteriores já de si muito negativas. O número anterior, avançado pela Organização Mundial do Comércio, era de 10% de redução das trocas munidas de bens e serviços, mas o FMI avança agora com uma estimativa de 12,3%.
A confirmar-se, trata-se do quarto ano de maior contracção das trocas mundiais desde 1900, mais grave do que as quebras ocorridas em 1938 (depois da recaída em recessão em 1937, com 12% de contracção), em 1975 (7%) e em 1908 (6%). O ano de 2009 ficará na galeria negra depois de 1932 (quebra de 32%, a maior de sempre), de 1931 (29%) e de 1930 (20%).
Ter 26 Jan 2010
A dívida em vencimento em 2010 das 600 maiores empresas dos quatro principais países da União Europeia – França, Alemanha, Itália e Reino Unido – deverá atingir 397 mil milhões de euros, em que mais de 1/3 diz respeito a empresas britânicas, revela um estudo, divulgado hoje, pela consultora americana Alix Partners.
A consultora sublinha que há uma zona de risco de refinanciamento em virtude da secura que ainda se verifica no mercado de dívida.
O estudo da Alix refere, ainda, que, no caso das 1200 grandes empresas dos Estados Unidos, o montante da dívida que está em vencimento este ano atinge 513 mil milhões de dólares, ou seja 360 mil milhões de euros.
No conjunto, destes cinco países-chave do antigo G7, a dívida em vencimento soma quase 800 mil milhões de euros.
Ter 26 Jan 2010
O interessante artigo de João Silvestre publicado no Expresso (caderno Economia, pg.9) de sábado passado (edição de 23/01/2010), intitulado “Quanto mais gordos menos crescem”, merece leitura, em particular uma olhada no quadro publicado (crescimento médio anual do PIB em %) e uma remissão para o artigo que lhe serve de suporte, da autoria de Reinhart e Rogoff (‘Growth in a Time of Debt, publicado como Working Paper no NBER dos EUA, Janeiro 2010, disponível para compra online).
O que se pode verificar – comparando com o caso português – é que há défices mais iguais que outros, ou seja, pode inferir-se uma hipótese de investigação: há défices públicos, mesmo acima de 60% do PIB, que mantiveram um efeito multiplicador na taxa de crescimento, que foram “virtuosos”, ou seja em que a engorda da despesa pública teve impacto keynesiano.
No caso português, o efeito do défice crescente é em plano bem inclinado, mas no caso da Austrália, da Nova Zelândia ou da Bélgica, mesmo com défices acima de 90%, não o é; os crescimentos do PIB são superiores a 3% nestas excepções.
No caso português, o efeito desacelerador sobre o crescimento por parte do défice público superior a 60% do PIB é acentuado (crescimento médio reduziu-se para 1,4% ao ano), o que dá uma imagem da ineficiência das suas aplicações. Mas, isso não aconteceu, em países com o mesmo nível de défice, entre 60 e 90%, como a Grécia, a Irlanda, a Finlândia e o Japão. Os efeitos, nestes casos, começaram a sentir-se, mais agudamente (Japão) ou mais moderadamente, no patamar a seguir.
No entanto, uma “lei de ferro” parece actuar para o núcleo duro dos países do capitalismo OCDE: com défices públicos acima de 90%, casos como os Estados Unidos (este é mesmo o mais grave), a Itália e o Japão sofrem de quase estagnação ou de recessão.
Seg 25 Jan 2010
Apesar de terem baixado de 21 para 22 de Janeiro, o preço dos credit default swaps relativos à dívida soberana portuguesa ultrapassaram em menos de um mês os relativos a Espanha e atingiram quase os 150 pontos base durante a alta da semana passada.
Há cerca de um mês, os preços dos credit default swaps (CDS, no acrónimo que se está a tornar famoso na imprensa económica) da República Portuguesa eram inferiores aos do Reino de Espanha.
Nessa altura, esses CDS, que são uns derivados financeiros para cobertura de risco de incumprimento da dívida soberana – dito de outro modo, um seguro contra um eventual calote de um dado país – não chegavam aos 90 pontos base (pb) no caso português, enquanto para Espanha já ultrapassavam os 110 pb.
Mas em 28 dias, a situação inverteu-se. O preço da cobertura de risco relativo à República Portuguesa agravou-se em 68% tendo-se fixado no final da semana passada em 147,45 pb, enquanto no caso de Espanha aumentava apenas para 129 pb (+15%), segundo dados públicos do Markit para o fecho de sexta-feira passada. O valor de sexta-feira, para o caso português, era, no entanto, mais baixo do que o de quinta-feira quando o preço chegou perto dos 149 pb. No dia de hoje (25/01), os preços dos CDS para Espanha estavam abaixo dos 120 pb.
O que esta mudança significou para Portugal é que, em 28 dias, o spread (diferencial) em relação ao referencial alemão passou de menos de 0,9% para cerca de 1,5%. A situação peninsular está, ainda, longe do patamar grego (acima de 320 pb) ou muito longe da situação da Islândia (acima de 600 pb, um agravamento de mais de 50% nos últimos 28 dias) no que respeita à Europa. Em termos mundiais, a situação de risco mais escaldante prende-se com a Venezuela e a Argentina, onde o preço dos CDS estava, no fecho da semana passada, acima dos 1000 pb.
A dívida portuguesa segura por mais de 2000 contratos de swap atingiu um valor (notional, na designação inglesa, ou seja é um valor abstracto) bruto de 57,6 mil milhões de dólares e um valor líquido de 9,5 mil milhões, segundo dados disponíveis no ranking de 1000 entidades da Depository Trust & Clearing Corporation (DTCC).
A situação comparativa dos outros quatro PIIGS (acrónimo em inglês para Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha) é a seguinte: a Itália tem 230 mil milhões de dólares de contratos em valor bruto (vb) e 25,7 mil milhões em valor líquido (vl); a Espanha tem 100,2 mil milhões em vb e 15,3 em vl; a Grécia 74,2 mil milhões em vb e 9,1 mil milhões em vl; e a Irlanda 33,8 mil milhões em vb e 6,1 mil milhões em vl.
Seg 25 Jan 2010
Alain Minc, o conhecido ensaísta e economista francês, visiteur du soir do Palácio do Eliseu, como os media ironicamente se lhe referem, anunciou na blogosfera o mais recente desígnio económico e financeiro da França presidida por Nicolas Sarkozy: “o elemento central da nossa política económica será evitar perder a notação máxima de triplo A quanto ao risco da dívida”. Deverá, mesmo, ser “uma obsessão”, repetindo o que já havia dito em entrevista ao jornal Le Figaro no princípio deste ano.
Segundo este conselheiro do círculo íntimo do presidente francês, há que operar uma redução cuidadosa, mas efectiva, do défice público (semelhante ao português em termos relativos) que não permita nenhuma deterioração da notação de AAA dada pelas agências de rating à França.
Minc estima que 2010 vai ser o ano da verdade no campo das notações de risco. Vai ser o momento da “triagem selectiva”, disse ele ao Le Figaro. A distância vai alongar-se entre os que manterão a dianteira (com o triplo A de notação) e os que serão despromovidos, desclassificados, mesmo marginalizados, diz ele.
O conselheiro político advoga que é necessário garantir uma folga orçamental, não tanto para enfrentar riscos económicos adicionais, mas algum “risco estratégico” grave que despolete consequências económicas devastadoras. Ou seja, uma recaída, originada não por razões económicas ou financeiras estritas, mas por riscos geopolíticos.
Em 2009, o défice público francês atingiu os 8% do Produto Interno Bruto (PIB) – similar ao que é referido para o caso português. Para 2010 as previsões são ainda mais negras. Espera-se que atinja os 8,3% a 8,5% do PIB e que a dívida global em relação à riqueza nacional atinja os 90% – números inclusive ligeiramente acima do que é até estimado para Portugal, um dos países colocados no risco de entrar no corredor da “morte lenta” pela agência Moody’s. Apesar deste quadro, a França de Sarkozy continua a manter a notação máxima.
O mau aluno
Mas o rumor de que é um “mau aluno” despesista propaga-se.
O “despesismo” de que fala Minc centra-se em dois planos: 1) o das despesas das instituições locais alimentadas pelo lóbismo dos parlamentares franceses, e 2) a situação, por reformar, dos défices “sociais” do sistema de pensões e da saúde pública. “No segundo caso, ainda, não sabemos a solução, mas no primeiro sim. É preciso actuar sobre o nível das pensões, sobre a sua indexação e sobre [o alongamento da] a duração da cotização. A equação é simples, mesmo se é politicamente difícil”.
Minc acha que há alguma margem de manobra para a austeridade, pois no plano social há alguma “calma”, apesar da crise. Ele divide a população activa francesa em dois tipos: “um, à japonesa, que agrupa os funcionários públicos e os assalariados das grandes empresas, com as suas situações protegidas; outro, a mão-de-obra à americana, que reagrupa os trabalhadores temporários ou interinos [mais de dois milhões]. Foi esta última categoria que sofreu os efeitos da crise em pleno. Mas, se juntarmos os empregados à japonesa e os reformados, a maioria deles, escapou ao pior da crise, salvo em termos psicológicos”. No caso do sistema de saúde Sarkozy adiou o tema até às eleições presidenciais de 2012.
Situação social em agravamento
Minc não vê, ainda, uma situação de colapso social. A taxa de desemprego estaria nos 9,6% da população activa no final de 2009 (mais 1,8 pontos percentuais do que no final de 2008), mas as previsões para este ano apontam para uma taxa no final de 2010 perto de 11%, um nível nunca atingido em França, segundo previsões de Exane BNP Paribas. O patamar crítico a que se chegou em 1999 seria atingido em meados deste ano com uma taxa de 9,8%. São quase 4 milhões de franceses, entre desempregados procurando emprego e gente em situação muito precária.
Mesmo face a esse panorama social, Laurence Boone, economista-chefe do Barclays Capital em França, em declarações a Financial News, colocou o horizonte de austeridade em termos muito crus: o ajustamento estrutural francês terá de ser de 2% do PIB ao ano, pelo menos, no próximo triénio.
Austérité é uma palavra que Sarkozy (dado o presidencialismo do regime francês, o presidente forma o governo) gostaria de não ver muito de perto até às eleições de 2012.
Mas ao ouvir e ler Minc tudo indica que o presidente vai ter de mudar de agulha, ou as agências de rating acabam com a lua-de-mel.
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