Sáb 19 Dez 2009
Copenhaga III: Aritmética de uma “carta de intenções”
Por JNR na secção sem seccaoainda sem comentários
Finalmente, a Cimeira dos negociadores e assistentes sem sono terminou. Com o documento possível, disse o secretário-geral das Nações Unidas.
A decisão final da Cimeira fala de “tomar nota” do acordo escrito alcançado pelos Cinco (EUA, China, Índia, Brasil e África do Sul) e o secretário executivo da UNFCCC (United Nations Framework Convention on Climate Change), que organiza estas reuniões, limitou-se a referir a existência de uma “carta de intenções” que faltará traduzir em “algo real, mensurável e verificável”.
Essa tradução ficou adiada para reuniões de negociação em Bona, na Alemanha da chancelerina Merkel, entre 31 de Maio e 11 de Junho e a revisão do tema far-se-á, de novo, na próxima conferência anual que, em finais de 2010, será na cidade do México.
A soma dos actores
No fecho da cortina, e já com os delegados em sono solto ou apagando as mágoas ou festejando o triunfo do possível na noite de Copenhaga, fica-nos uma aritmética simples escrita na parede: 5 + 3 + 5 + (n-13).
Sem grande introdução à matemática geopolítica, aqui fica a tradução:
5=os cinco grandes da célebre mesa do “acordo” (EUA, China, Índia, Brasil e África do Sul);
3=os três grandes politicamente eclipsados (Europa, Rússia e Japão);
5=o eixo bolivariano-castrista (Venezuela com a voz marcante de uma Claudia Salerno Caldera muito activa, Cuba, Bolívia e Nicarágua, apoiados pelo muito recomendável Sudão) dos “marginais” deixados a falar sozinhos pelas grandes potências emergentes, o que significa que já nem para compagnons de route servem nomeadamente das estratégias chinesa e brasileira;
N-13=as outras partes da cimeira, o residual geopolítico, com destaque para a projecção alcançada pelos pequenos países insulares, as vítimas da linha da frente dos 0,8 ºC de aquecimento global já verificado, com destaque para a Alliance of Small Island States (22 países, onde se incluem os arquipélagos africanos de língua oficial portuguesa e Timor-Leste) e para o activismo de Tuvalu (tv., na nomenclatura da Internet, onde muitos domínios estão registados, como o do geoscopio.tv e de gurusonline.tv), pequeno estado com 10 mil habitantes ao longo de 24 km.
Antiglobalismo ferido de morte?
Fora das mais de 190 “partes” sentadas nas cadeiras da cimeira, fica, também, a constatação de que o movimento antiglobalização perde fôlego, mesmo quando “colado” a temas como o da mudança climática, onde frutificou ao longo dos anos um mosaico de movimentos ambientalistas hoje globais.
O movimento antiglobalista perdeu, também, a sua projecção no xadrez das grandes potências, por dois movimentos que, como uma tenaz, o apertam, e amanhã o poderão asfixiar.
Por um lado, a assumida estratégia autónoma de grande potência do Brasil (que albergou inclusive o Fórum Social Mundial de Porto Alegre, como espaço alternativo) que deixa os antiglobalistas sem um padrinho de peso.
Por outro, o surgimento da franja contestatária bolivariana-castrista que pretende alcandorar-se a líder da luta antiglobalista, reduzindo a margem de manobra dos movimentos antiglobalistas.
Em certo sentido simbólico, o movimento antiglobalista é outro dos derrotados pela mesa dos Cinco.