Dezembro 2009


Falar de social-financismo pode parecer provocatório aos ouvidos mais sensíveis. E quando refiro incerteza não o faço no sentido pejorativo, mas no sentido keynesiano do termo.

O social-financismo é um híbrido fruto da confluência da vaga da financeirização das últimas duas ou três décadas com a social-democracia (termo que aqui uso no sentido original do termo, reformista) governante e o totalitarismo socialista (no sentido original do termo, nomeadamente no caso do comunismo chinês, que mantém a etiqueta ideológica e política inicial) reformista.

Nasceu e desenvolveu-se, por isso, em dois berços distintos: nos países democráticos desenvolvidos depois dos choques petrolíferos e na China pós-reformas, sobretudo depois de 1992, após a célebre viagem de Deng Xiaoping a Wuchang, Shenzhen, Zhuhai e Xangai.

No mundo democrático, o social-financismo encontra as suas expressões mais refinadas no centro-esquerda americano (o Partido Democrata), e particularmente na era de ouro das clintonomics (1993-2001), e na “terceira via” inglesa (The Third Way: The Renewal of Social Democracy, 1998, Anthony Giddens). Esta última teoria política, com mais sal ou menos pimenta, foi adoptada como arquétipo da gestão social-democrata europeia (nos países mediterrânicos conserva, ainda, a etiqueta de socialista e operária entre os membros da Internacional Socialista refundada em 1951) e, mesmo, por alguns governantes que se reclamam da esquerda no chamado mundo em desenvolvimento com democracias instituídas (de que o caso paradoxal do PT de Lula é exemplo ensurdecedor).

No espaço dos regimes totalitários, o social-financismo tem uma expressão ainda mais gritante do que a divergência entre a Wall Street e a Main Street americanas. Convive e alimenta-se, no caso da China, a maior potência do mundo do espaço totalitário, de uma especulação imobiliária e bolsista, também, desenfreada, e de uma cultura indescritível de zhuang-jia, de modus vivendi rentier, particularmente desde os anos 1990.

A Grande Recessão dos últimos dois anos e meio provocou um choque nesta lua-de-mel.

O edifício teórico e político em que assentava ruiu. Não foi só o liberalismo integrista que quebrou. A “bolha” matou um “modelo” de crescimento artificial, rentier, tanto no Ocidente social-democrata como na China.

Todos se converteram a um keynesianismo apressado, mas sem tocar no coração da financeirização, pelo mesmo até à data. Ao contrário de FD Roosevelt que, em 60 a 100 dias, quando em 1933 tomou as rédeas do poder na América, ao fim de quatro anos de Grande Depressão, atacou, na raiz, a financeirização. FDR deixou uma herança que perdurou algumas décadas. O livro de William E. Leuchtenburg, Franklin D. Roosevelt and the New Deal 1932-1940 (Harper & Row, 1963, e, agora, reeditado pela Harper Perennial, no princípio de 2009) continua a ser um bom guia para se recordar a estratégia daquele presidente americano.

Hoje, apesar da retórica, mesmo Obama e Geithner (o seu homem para o Tesouro) não beliscaram, ainda a dinâmica essencial da Wall Street – bem, pelo contrário, uma míni-bolha regressou. Apesar de agora tentarem “corrigir” alguns tiros, na política de continuação do pacote anticrise conhecido por TARP.

Na China, a nomenclatura dirigente sente o dilema em que vive. Entre uma financeirização galopante, um modelo exportador-especulativo posto em causa pela depressão internacional, uma degradação do mundo rural e uma classe média ascendente cada vez mais reclamante.

O que gera dilemas complexos e contradições difíceis de gerir.

O que ocorrer durante a Administração Obama e ao longo do próximo quinquénio da liderança chinesa marcará o futuro do social-financismo, mais do que a habilidade ou inabilidade política de alguns dirigentes social-democratas europeus.

Todos os que estudaram Economia (mesmo os que a estudaram vagamente, como eu) tiveram obrigatoriamente de passar por Samuelson.

Hoje faleceu aos 94 anos, anunciou o MIT.

Samuelson foi o popularizador de uma certa visão do keynesianismo e da teoria económica ensinada durante décadas nas universidades. O livro publicado em 1948, Economics: An Introductory Analysis (mais de 600 páginas, na altura; as edições mais recentes vão nas 800, já com as revisões feitas por William Nordhaus), é quase como uma bíblia escolar, e a sua longevidade provavelmente superará a de Samuelson. Vai em 19 edições, traduziu-se em mais de 40 línguas, e já vendeu mais de 4 milhões de exemplares.

Samuelson baseou esta “introdução” na popularização de um diagrama simples representando as relações entre poupança, investimento e rendimento nacional. Nele, também, se massificou o conceito de “síntese neoclássica” que procurava estabelecer uma ponte entre o neoclassicismo e o keynesianismo.

Hoje diríamos, em linguagem da cadeia de valor, que Samuelson surge como um verdadeiro assembler.

O diagrama e a “síntese” bebiam nos trabalhos de John Hicks publicados em 1937 que produziriam um dos modelos formalistas mais conhecidos da Economia: o IS/LM, relacionando investimento (I) e poupança (S) com liquidez (L) e oferta de moeda (M), com base na mais célebre obra de Keynes, A Teoria Geral (1936; existe uma reedição recente em paperback, de Junho de 2009).

Na ocasião, os dois discípulos mais militantes de Keynes, Joan Robinson e Richard Kahn (a quem Keynes alcunhava carinhosamente de Alexandre, e a quem devemos em 1931 a invenção do “multiplicador” da despesa pública, bem como a provável revisão técnica de A Teoria Geral) acharam o trabalho de Hicks como uma “supersimplificação” do Keynesianismo, e o próprio Hicks, mais tarde, reconheceria que o seu modelo se esquecia de vários aspectos do núcleo duro do pensamento de Keynes, nomeadamente a questão da incerteza.

Contudo, as “sínteses” de Hicks e Samuelson ajudaram, sem duvida, o keynesianismo a conquistar o mainstream na escola americana até aos anos 1970.

Mas, segundo outros, esse triunfo trouxe um presente envenenado, uma mistura “bastarda”, uma simplificação excessiva e um formalismo e sofisticação matemática que acabou por enterrar a economia politica.

Na ocasião da sua morte, dois comentários distintos sobre o papel de Paul A. Samuelson que recomendo a leitura. O de Paul Krugman no The New York Times (Cito este pedaço: “O homem que, na verdade, trouxe o pensamento económico keynesiano para a América”) e o de Carlos Santos em português (Cito, quase a finalizar: “Mais vale um arrependido”).

O artigo de William White na revista do FMI é, de facto, um bom ponto de partida para uma discussão, como alguns comentários ao post colocado em A Regra do Jogo reflectem.

A simulação económica (por via das TI) é, por exemplo, uma área que os econofísicos utilizam hoje e é um método de visualização de causas e efeitos, da complexidade das suas relações, e sobretudo de resultados inesperados e surpreendentes que o economista de secretária, ou especialista em retórica ou mesmo praxeológico não chega lá.

Mas, a meu ver, toda a Economia é economia política, ou seja o que é crítico diz respeito à visão política (e, por vezes, mesmo geopolítica), ou se quiseram ao paradigma (para usar um termo mais caro), que fundamenta as recomendações ou “hipóteses” dos académicos ou as práticas dos homens do leme governativo que se movem com maior ou menor inteligência política na turbulência e no stresse do dia-a-dia.

William White não o diz, mas parece-me querer fazer uma cirurgia nesses dois pedaços do pensamento económico.

A crítica dos austríacos à política de “bolha”

1- Recuperar a corrente austríaca do laissez-faire como tendo a capacidade de sinalizar, na fase ascendente do ciclo ou mesmo no imediato pós-crise, a linha de fronteira que separa uma situação politicamente gestionável de uma dinâmica de “bolha”, de endividamento e de défice.

Dinâmica essa que está, sempre, profundamente ligada, a duas coisas: à inovação financeira do segmento rentier do capitalismo desde 1860, e às políticas pró-cíclicas das autoridades monetárias (desde que passaram a existir, como a Reserva Federal em 1913) e ao fechar de olhos ou aprovação pró-activa dos governos que vêm na “bolha” especulativa a prenda de Natal para compensar o crescimento medíocre da economia real.

O namoro entre as clintonomics (1993-2001) e Alan Greenspan (1987-2006) é o exemplo acabado desta união de facto, que, como avisava o falecido keynesiano Hyman Minsky (morreu em 1996), daria asneira e da grossa. Como deu.

Um Keynesianismo sem abastardamento

2- Regressar à “pureza” do Keynesianismo, limpando-o dos “bastardos”.

a) Quer na forma de agir face à recessão e à depressão, usando a política orçamental como a monetária. Keynes tinha razão contra Hayek nesta questão nos anos 1930.

A postura da corrente austríaca conduziria a uma política orçamental e monetária cruel (é o termo mais adequado), que agravaria, ainda mais, a situação, sobretudo das grandes massas, dando, também, trunfos aos adversários geopolíticos da época. Quer ao totalitarismo nazi-fascista (que desde o final dos anos 1920 iniciara um intervencionismo à outrance através da política orçamental, industrial e monetária dirigida a uma economia orientada para a guerra), como ao totalitarismo estalinista (a influência do movimento comunista internacional e do seu sindicalismo vermelho -era o termo usado – era enorme na Europa e mesmo na América), preocupações geopolíticas e ideológicas sempre presentes no Mestre de Cambridge.

Para quem tenha lido o “austríaco” Murray N. Rothbard falar da Grande Depressão de 1929/1933 (no livro America’s Great Depression, publicado pelo Instituto Ludwig von Mises, 1963) e do que deveria ter sido feito ao estilo laissez-faire sente a crueldade e o tiro no pé que seria uma tal abordagem;

b) Quer na concepção original de Keynes de que a intervenção anticrise que advogava era excepcional e não uma doutrina de gestão do Estado, a que se agarram, sempre, os saudosistas do “planismo” e do sector empresarial do Estado em posição dominante. Keynes explicitou-o numa carta ao The New York Times, em 1934 – nela falava de “uma despesa governamental anormal”. O termo escolhido era “anormal” – e o Mestre de Cambridge era, sempre, muito meticuloso na escrita;

c) Quer na sua ideia de encarar a gestão da coisa económica como balizada pela incerteza e não por expectativas modelizáveis sejam elas abstractas, fruto de elucubrações académicas (as tais certezas cretinas sobre o equilíbrio e a eficiência dos mercados), ou saídas de algum breviário de esperteza saloia política (seja ele o idealismo tecnologista, o optimismo triunfalista dos spin doctors e outras variantes para enganar tolos);

d) Quer no seu desprezo pelo financismo, que o levava, algumas vezes, a recordar o americano T. Veblen e a crítica deste aos rentier, apesar da suprema ironia de Keynes ser um especulador bolsista de primeira água por conta própria e para fins terceiros.

William White, ex-chefe economista do BIS e actualmente Presidente do Economic and Development Review Committee da OCDE, que já entrevistei aqui, escreve um notável artigo de reflexão teórica (mas muito acessível ao comum dos leitores de temas de economia) no mais recente número da revista do FMI, Finance & Development (Dezembro 2009).

Em “Modern Macroeconomics is on the wrong track“, referindo os pontos fracos do neo-keynesianismo, recordando os fundamentos esquecidos dos pontos de vista de Keynes e de Hyman Minsky, e os pontos fracos e fortes da Escola Austríaca, White deixa pistas de reflexão para “pontes” entre as duas correntes, ou para a sua superação.

Há uma “utilidade prática” em termos de políticas públicas no momento actual (de gestão de final de crise e de definição de uma estratégia para o depois-da-crise) nesta abordagem de “pontes” entre as duas correntes, assunto a que voltarei mais tarde.

China infeliz é um livro publicado em Março deste ano que as recensões consideram uma continuação, actualizada, da obra de 1996 intitulada sugestivamente A China pode dizer não. Um dos autores, aliás, está presente nas duas obras. China Infeliz, ainda, não foi totalmente traduzido para inglês, apenas um capítulo é conhecido. Mas pelo debate que se pode ler aqui há uma polarização de opiniões que mostram duas correntes dentro da China actual.

“A book released earlier this year, called Unhappy China: The Great Time, Grand Vision and Our Challenges (中国不高兴:大时代,大目标及我们的内忧外患), offered a pointed nationalist critique of Western countries and their media. When the book was released in March, an article in the Oriental Morning Post (translated by the Zhongnanhai blog), said: “Unhappy China contains severe criticism of western countries, with the harshest words reserved for the United States. Zhang Xiaobo, who helped plan the book, said, ‘This is the revised and upgraded version of the book China Can Say No published in 1996. In the past 12 years, the situation inside and outside of China has changed dramatically, however, there is just one thing that hasn’t changed and never will change: that is we Chinese need to tell the western world we are not happy about what they did to us’.”

The book has been put on the shelves of Beijing bookstores. The book is authored by Song Xiaojun, Wang Xiaodong, Song Qiang, Huangjisong, and Liu Yang. One of the authors of this book, Song Qing, was also one of the authors of China Can Say No.

Unhappy China has 340 thousand words, and is published by Jiang Su Renmin Publishing House. Zhang Xiaopo said, “What happened to us Chinese in 2008 made Chinese people really angry, depressed and annoyed. We finally had our Olympics and we finally made it to the center of the world stage, but look what we got! Boycotts from the western world; treated by them like we are different kind of animal in the world.”

The full text of the book has not yet been translated into English, but Joseph McMullin has translated one chapter. Chapter Six, titled “It’s Up to the West to Face Why China is Unhappy,” takes on Westerners who support the Tibetan independence movement.”

A China venderá, este ano, 12,7 milhões de automóveis e camiões, um crescimento de 44% em relação ao ano passado. Um recorde anual que marca uma mudança mundial: pela primeira vez, o mercado chinês vendeu mais viaturas novas do que o americano, que se estima que ficará pelos 10,3 milhões, devido à Grande Recessão.

Segundo a consultora do sector J.D. Power & Associates, essa ultrapassagem só estava prevista para 2025. Mas com a Grande Recessão que deprimiu o mercado americano e que, em compensação, provocou na China uma política de corte de impostos e de estímulos, a euforia de motorização chinesa acelerou. O lado negro deste recorde: a poluição.

O secretário do Tesouro norte-americano anunciou a intenção de prorrogar o TARP (acrónimo porque é conhecido o pacote anti-crise financeira desta Administração) até Outubro do próximo ano. Até ao início deste mês faltavam gastar 44% dos 700 mil milhões de dólares.

Há, no entanto, três novidades políticas na reorientação estratégica anunciada: virar os dólares para a Main Street (famílias em estado de falência, desempregados e banca ligada ao small business); utilizar uma parte para tapar o défice orçamental; e ter o programa como reserva estratégica não vá o diabo da incerteza do final da crise pregar alguma partida.

Apesar da oposição dos congressistas republicanos, a Administração Obama decidiu estender até Outubro próximo a vigência do Pacote de intervenção anti-crise conhecido pelo acrónimo TARP. A intenção foi ontem anunciada pelo secretário do Tesouro, Tim Geithner. Mas requer a aprovação do Congresso.

TARP – ou Troubled Asset Relief Program – foi dotado com 700 mil milhões de dólares (cerca de 475 mil milhões de euros) para evitar em 2009 a continuação da crise sistémica do sistema financeiro americano. Estão por usar 44% dessas verbas, ou seja mais de 300 mil milhões de dólares. O programa deveria expirar a 31 de Dezembro.

Instrumento de reserva

Segundo Geithner manifestou, a Administração Obama pretende manter o programa activo na gaveta como instrumento de reserva em caso de emergência de uma recaída da crise financeira mundial, seja por efeito de novos Dubai ou Grécias, ou outras “bombas ao retardador”.

No entretanto, Geithner gostaria de “reorientar” o saldo para atender aos “pequenos” da Main Street – aos hipotecados desempregados ou em situação de falência pessoal e aos pequenos bancos no sentido de dirigirem o crédito para o tecido económico real, nomeadamente para o small business, cuja voz política tem aumentado.

Os congressistas republicanos alegam que o programa deveria ser encerrado e que o saldo deveria ser aplicado na diminuição do défice orçamental. Aparentemente, Obama já manifestou o ensejo de que uma parcela do saldo do TARP, cerca de 175 mil milhões de dólares, seja dirigida para essa finalidade.

Depois dos espirros do Dubai, na semana passada (um episódio que, no entanto, ainda não está encerrado), foi a vez, agora, da Grécia aumentar a incerteza sobre o andamento final da Grande Recessão mundial.

O dia de hoje foi negro para a pátria de Homero. A Fitch baixou hoje o rating da Grécia para a notação de BBB+ com outlook negativo, sendo a primeira vez em dez anos que aquele país mediterrânico desceu do nível A. Por seu lado, as outras duas mais importantes agências de rating – Moody’s e Standard and Poor’s (S&P) – também colocaram o país em outlook negativo. A S&P confirmou hoje a notação da República Helénica em A-.

A Grécia é o único país da Zona Euro com uma notação abaixo de A atribuída por uma das agências de rating mais importantes (para referência, Portugal foi despromovido de AA- para A+ no início deste ano). A Espanha seria despromovida de AAA para AA- pela S&P um dia depois da despromoção da Grécia.

Crash em Atenas

Este episódio deixou gregas as bolsas dos países europeus em situação de maior fragilidade – a ateniense foi a que quebrou com maior significado (o índice compósito caiu 6% e o FTSE/ASE 20 desceu 7%), seguida da irlandesa (quebra de 3%) e da húngara (quebra de 3,15%). O PSI 20 (índice da bolsa portuguesa) caiu 1,26%. O contágio da incerteza grega levou, também, as bolsas americanas a fechar no vermelho (Dow Jones caiu 1% e o Nasdaq um pouco menos).

A razão da “despromoção” de A- para BBB+ em relação à Grécia advém da incerteza sobre a capacidade política do país de inverter uma situação de risco na dívida pública que deverá atingir os 120% do PIB em 2010 e 125% em 2011, ou seja mais do dobro do patamar recomendado pelo Tratado de Maastricht (60%) para a Europa. Conjuga-se esta situação, segundo os analistas, com um défice orçamental dos mais elevados na União Europeia (a Comissão Europeia estima 12,7% do PIB este ano e 12,2% em 2010) e com um sistema de pensões considerado “insustentável”, por reformar.

A Itália está pior (a dívida pública ascende a 113% do PIB este ano contra 100,8% da Grécia) por ora, mas não recebeu ainda aviso de “despromoção” das agências de rating, que mantém a notação em A+ com outlook estável, segunda a S&P esta semana.

A situação actual deste indicador pode ser consultada aqui, com destaque para as situações mais críticas, entre os países desenvolvidos, do Japão (173% do PIB, segundo a OCDE), Itália (113%), Grécia (100,8%), Singapura (113,7%, segundo a CIA) e Bélgica (92,2%). Portugal, segundo a OCDE, estaria nos 70,9% do PIB.

Acima do “limite” maastrichtiano estariam, hoje, na União Europeia, segundo a OCDE, os seguintes países (por ordem decrescente de gravidade actual): Itália, Grécia, Bélgica, Hungria (não é membro da Zona Euro), França, Portugal, Alemanha e Áustria. Próximo do limiar estariam o Reino Unido (não é membro da Zona Euro), a Holanda e a Polónia (fora da Zona Euro), mas ainda com folga. A Irlanda (membro da Zona Euro), apesar da sua situação extremamente delicada (com um défice orçamental estimado de 12% do PIB no próximo ano), tem um nível de dívida pública ainda baixo.

Outras geografias de risco

O analista Mark Lundeen, ainda este fim-de-semana (num artigo disponível aqui), publicou uma lista, analisando segundo três critérios técnicos, o risco que vai pelas economias artificialmente mais escaldantes fora da Europa e encontrou dez protagonistas sempre presentes: Paquistão, Kuwait, Arábia Saudita, Estados Unidos, Venezuela, Emirados Árabes Unidos (onde se insere o agora, de novo, famoso Dubai), Hong Kong, Malta, Líbano e mesmo China.

Um artigo notável na revista Far Eastern Economic Review (Dezembro, 2009) que, ainda, não tinha tido oportunidade de assinalar.

Extractos para abrir o apetite.

“The real lesson drawn by the CCP from the events of 1989 was much more far-reaching: In order to survive and keep power, the Party concluded, it needed to adapt and respond to social change. Unceasingly.

“By following this principle, the CCP has become what could be best described as the first Darwinian Leninist Party in history, one that sees constant adaptation as the key to survival. This goes a long way towards explaining why the Party has introduced wide ranging reforms that, at first sight, would seem to undermine its rule.

“All these were demands that the Party calculated that it could and needed to accede to since they didn’t threaten the CCP’s fundamental monopoly on power.

“This also explains why many Chinese intellectuals have accepted being co-opted by the regime. The unspoken compact between China’s intelligentsia and the CCP is that so long as they remain loyal to the system they have a chance to speak behind closed doors and even influence policy. The Central Party School can now discuss any topic under the sun. This is a pragmatic policy to help the Party avoid ideological blindspots or information gaps that could lead to damaging surprises. This is also why, to the surprise of many first-time Western visitors and journalists, students and urban citizens often profess to be supportive of Party rule. If things keep getting better, why rock the boat?

“Every week brings its list of sentenced activists and whistle-blowers from the four corners of the country: lawyers, petitioners, farmers, environmentalists, NGO activists, dissidents. None pose a threat to state security, but all create risks for the Party. Letting citizens expose the truth could ultimately unravel the whole system. So the Darwinian instincts kick in, which leads some anti-corruption activists to prison and others to continue writing for prestigious publications. The Party has to let a little daylight in, but not too much.

“Yet the system might be starting to show its limits.”

A ler aqui os limites no artigo integral.

Paul Krugman referiu em “Double Dip Warning”, um post de 1 de Dezembro na sua coluna The Conscience of a Liberal, já muito citado, o risco de double-dip nos Estados Unidos.

Trocado por miúdos – risco de recaída. No economês, risco de comportamento em W do actual ciclo em vez de V. Isso já ocorreu noutras ocasiões de crise na América – e a mais estudada de sempre foi a que viria a surgir, pontualmente, no final da década de 1930, quando se julgava que a Grande Depressão já tinha dito adeus.

Os dois argumentos de Krugman são um murro nos profissionais do marketing do optimismo: a) os estímulos keynesianos esgotam-se ao fim de algum tempo (um alerta aos keynesianos integristas); b) o aumento da produção pode ser de reposição e esgota-se nos próximos trimestres.

Mas Krugman difere de outros economistas (como Barry Eichengreen e Kevin O’Rourke, ou Reinhart e Rogoff, que têm procurado abordar sempre a questão do ponto de vista global) por ser, por vezes, muito “americano” nas suas análises.

Uma chatice com o Dubai World veio trazer à tona que há mais mundo de risco para além da Wall Street. Mas o espirro do Dubai é uma continha num rosário.

O analista Mark Lundeen, ainda este fim-de-semana (num artigo que, em breve, estará disponível aqui), publicou uma lista, analisando segundo três critérios técnicos, o risco que vai pelas economias artificialmente mais escaldantes e encontrou dez protagonistas sempre presentes: Paquistão, Kuwait, Arábia Saudita, Estados Unidos, Venezuela, Emirados Árabes Unidos (onde se insere o agora, de novo, famoso Dubai), Hong Kong, Malta, Líbano e mesmo China.

Ao olhar, ao longo de mais de uma semana, os jornais asiáticos, e em particular as colunas de economistas independentes daquelas paragens, há uma tónica que sobressai: a preocupação com a China.

A sorte da actual crise, segundo esse clube de analistas, está indissoluvelmente mais ligada ao que se passar na China do que à Wall Street, mais dependente dos ziguezagues da liderança chinesa do que de Obama ou de Ben Bernanke (presidente da Reserva Federal americana).

É a China, estúpido! – parece ser o que esses analistas me quiseram dizer ao longo de uma semana.

O número negro do ano 2009 poderá ser o 10 – Pascal Lamy, o director geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), disse hoje em Seul, na Coreia do Sul, no decurso de um fórum económico, que a quebra do comércio mundial este ano poderá atingir os 10%.

Acrescentando um ponto percentual mais ao que a OMC tinha estimado em Março em termos de quebra no volume do comércio mundial.

Lamy adiantou que seria algo “sem precedentes”. No entanto, historicamente (como já referimos), houve outros anos bem piores. O ranking de anos negros, até à data, é o seguinte: 1932: 32%; 1931: 29%; 1930: 20%; 1938: 12%; 1975: 7%; 1908: 6%. A confirmarem-se os 10%, será o quinto pior ano da história do capitalismo desde o início do século XX.

As quatro quebras históricas dos anos 1930 derivaram da Grande Depressão e da sua recaída pontual no final da década. As outras duas, até à data registadas, derivaram do ano turbulento de 1975 (em que não ocorreu, no entanto, uma crise económica global) e do ano de Grande Recessão global de 1908 após o pânico financeiro mundial de 1907.

Actualização: Segundo os dados divulgados pelo FMI em 26/01/2010, a quebra do comércio internacional em 2009 teria sido de 12,3%, ou seja superior à registada em 1938, o que transforma a crise de comércio global em 2009 na 4ª mais grave do capitalismo desde 1900.

Permitam-me que vos apresente (o livro) Yu Li – literalmente quer dizer “excedentário” do sector público chinês, que, em português recente, dá pelo sinónimo mais popular de “supranumerário”.

Encontreio-o, em inglês, entre as novidades nos escaparates da minha predilecta Cosmos Books, na Johnston Road, em Wanchai, ou em Nathan Road, em Kowloon, HK. Soube pelo livreiro que o lançamento havia sido em finais de Outubro num dos lugares sagrados da intelectualidade rebelde de Beijing – no célebre The Bookworm, no distrito de Chao Yang, um misto de livraria, bar, restaurante e local de eventos. Um sítio incontornável numa visita à capital do Império do Meio.

Yu Li é o personagem central de Confissões de um ascensorista, uma sátira absurda sobre o social-capitalismo da China do início desta década. Lê-se em uma hora seguida, de um fôlego. Faz parte de Triologia das Casas-de-banho (sic), publicada, em chinês, desde 2000 pela heterodoxa Yunnan Publishing House.

A geração Yu Li

O nosso personagem é um estranho quase-trintão, ainda virgem, de acne na cara que causa repulsa às chinesas elegantes de salto alto, calções super-curtos e cosmética pura e dura. Era inspector de qualidade numa destilaria de vinho falsificado numa cidadezeca de quinta categoria na província de Hebei, onde, apesar de apenas distar 250 km da capital da grande potência, não havia, ainda, arranha-céus de vidro, hotéis para empregar gente, nem se usavam computadores nem inglês mal falado naquele final de século XX.

Ele sofre de dois problemas fundamentais desta geração masculina semi-rural de Yu-Lis – 1) frustração cruel por não encontrar parceira (recorde-se a incrível política de um filho, macho, por família) e por não dar uso ao que o autor de Yu Li cognomina de “arma nuclear” debaixo das calças e 2) condição de “excedentário”, pois a velha indústria maoista é para abater, as próprias iniciativas de reforma agrária capitalista nos anos 1970 e 1980 (que foram pioneiras da mudança) estão agonizantes e a vaga de chai qian – demolir, demolir, demolir! – ainda não chegou.

A solução para os Yu Lis é migrar para as grandes cidades costeiras, carregando como haveres um blusão preto, uns óculos escuros, uma camisa surrada com todos os botões abotoados até ao pescoço, uns sapatos puídos e um sacão azul às riscas. Uma geração masculina a que o artista Zhang Jianhua deu vida em esculturas realistas. Uma delas serve de capa ao livrinho.

Yu Li acabou por concorrer e ganhar, com cunha de um importante da sua cidadezeca natal, um posto de ascensorista num elevador na Porta A do Edifício B de 18 andares (ele olhava para cima e ficava tonto) do distrito C da capital, Beijing, onde o metro quadrado custava, então, 1000 euros (dez anos de salário do Yu Li) e a garagem estava cheia de Audis. A classificação confidencial do condomínio derivava do seguinte: moravam ali, como VIPs, um alto chefe de departamento, um artista de TV de nível A e uma celebridade feminina de nível C (que Yu Li viria a descobrir ser amante do chefe de departamento, para frustração dos seus planos) – que, no entanto, estavam envoltos em secretismo nacional (ninguém no prédio sabia exactamente quem eles eram).

Por favor desnuclearizem-me!

O nosso personagem nem imaginava o que fosse um elevador e foi introduzido na arte de ascensorista com um curso de três meses, incluindo literacia sobre a Constituição chinesa, anti-imperialismo básico, formação patriótica e outras bizarrias, a par de rudimentos de inglês e mandarim, engenharia eléctrica e técnicas de combate. O chefe dos ascensoristas – team leader, no jargão de gestão que invadiu toda a China – juntou, de lavra própria, estratégias para estes operadores lidarem com o problema do secretismo, o que geraria uma confusão tremenda na cabecinha de Yu Li.

Ora a “arma nuclear” de Yu Li vai percorrer as 69 páginas da novela e trazer-lhe dissabores e novas frustrações e humilhações por parte das chinesas frequentadoras do ascensor que o apelidavam desdenhosamente de “Tio das Borbulhas”. Com tanta amargura, Yu Li reclamou, no final, unilateralmente, junto das autoridades que queria ser eunuco – “Por favor desnuclearizem-me!”. A súplica não foi atendida.

Quanto ao resto do miolo convido-o a ler.

O autor

Apontamento final, sobre o autor, Jimmy Qi, que agrega como alcunha “Monkey” (sic). Economista de formação, de 47 anos, poliglota, viveu ainda de calções os finais da Grande Revolução Cultural Proletária, e sairia da China, já licenciado, para três anos em Tóquio e dez anos no Canadá. Regressou em 1998 e o livro sobre Yu Li foi escrito numa fornada, em dois dias, depois dessa chegada. Jimmy Monkey é hoje professor no College of Continuing Education da Universidade de Línguas e Cultura de Beijing. Não se considera um escritor político, mas confessa que satiriza como terapia para si próprio e para fazer rir os leitores. Tem dez livros publicados, cada um com seu estilo.

Yu Li- Confessions of An Elevator Operator foi publicado em inglês este trimestre pela corajosa editora Make Do Studios de Hong Kong, como primeiro título na colecção Modern Chinese Matters, de que estão anunciados mais lançamentos.

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