Dom 13 Dez 2009
O futuro (incerto) do social-financismo
Por JNR na secção História Económica , O novo capital financeiroainda sem comentários
Falar de social-financismo pode parecer provocatório aos ouvidos mais sensíveis. E quando refiro incerteza não o faço no sentido pejorativo, mas no sentido keynesiano do termo.
O social-financismo é um híbrido fruto da confluência da vaga da financeirização das últimas duas ou três décadas com a social-democracia (termo que aqui uso no sentido original do termo, reformista) governante e o totalitarismo socialista (no sentido original do termo, nomeadamente no caso do comunismo chinês, que mantém a etiqueta ideológica e política inicial) reformista.
Nasceu e desenvolveu-se, por isso, em dois berços distintos: nos países democráticos desenvolvidos depois dos choques petrolíferos e na China pós-reformas, sobretudo depois de 1992, após a célebre viagem de Deng Xiaoping a Wuchang, Shenzhen, Zhuhai e Xangai.
No mundo democrático, o social-financismo encontra as suas expressões mais refinadas no centro-esquerda americano (o Partido Democrata), e particularmente na era de ouro das clintonomics (1993-2001), e na “terceira via” inglesa (The Third Way: The Renewal of Social Democracy, 1998, Anthony Giddens). Esta última teoria política, com mais sal ou menos pimenta, foi adoptada como arquétipo da gestão social-democrata europeia (nos países mediterrânicos conserva, ainda, a etiqueta de socialista e operária entre os membros da Internacional Socialista refundada em 1951) e, mesmo, por alguns governantes que se reclamam da esquerda no chamado mundo em desenvolvimento com democracias instituídas (de que o caso paradoxal do PT de Lula é exemplo ensurdecedor).
No espaço dos regimes totalitários, o social-financismo tem uma expressão ainda mais gritante do que a divergência entre a Wall Street e a Main Street americanas. Convive e alimenta-se, no caso da China, a maior potência do mundo do espaço totalitário, de uma especulação imobiliária e bolsista, também, desenfreada, e de uma cultura indescritível de zhuang-jia, de modus vivendi rentier, particularmente desde os anos 1990.
A Grande Recessão dos últimos dois anos e meio provocou um choque nesta lua-de-mel.
O edifício teórico e político em que assentava ruiu. Não foi só o liberalismo integrista que quebrou. A “bolha” matou um “modelo” de crescimento artificial, rentier, tanto no Ocidente social-democrata como na China.
Todos se converteram a um keynesianismo apressado, mas sem tocar no coração da financeirização, pelo mesmo até à data. Ao contrário de FD Roosevelt que, em 60 a 100 dias, quando em 1933 tomou as rédeas do poder na América, ao fim de quatro anos de Grande Depressão, atacou, na raiz, a financeirização. FDR deixou uma herança que perdurou algumas décadas. O livro de William E. Leuchtenburg, Franklin D. Roosevelt and the New Deal 1932-1940 (Harper & Row, 1963, e, agora, reeditado pela Harper Perennial, no princípio de 2009) continua a ser um bom guia para se recordar a estratégia daquele presidente americano.
Hoje, apesar da retórica, mesmo Obama e Geithner (o seu homem para o Tesouro) não beliscaram, ainda a dinâmica essencial da Wall Street – bem, pelo contrário, uma míni-bolha regressou. Apesar de agora tentarem “corrigir” alguns tiros, na política de continuação do pacote anticrise conhecido por TARP.
Na China, a nomenclatura dirigente sente o dilema em que vive. Entre uma financeirização galopante, um modelo exportador-especulativo posto em causa pela depressão internacional, uma degradação do mundo rural e uma classe média ascendente cada vez mais reclamante.
O que gera dilemas complexos e contradições difíceis de gerir.
O que ocorrer durante a Administração Obama e ao longo do próximo quinquénio da liderança chinesa marcará o futuro do social-financismo, mais do que a habilidade ou inabilidade política de alguns dirigentes social-democratas europeus.