Ter 15 Dez 2009
O ataque de Obama aos “gatos gordos” – diário de bordo 54
Por JNR na secção História Económica , Inteligência Económica , O novo capital financeiroainda sem comentários
Depois de os ter apodado de “gatos gordos” (fat cats), o Presidente Obama reuniu ontem (14 de Dezembro) na Casa Branca com os representantes do capital financeiro privado americano. Avisou-os de que pretende regular o sector e satisfazer algumas das reclamações da arraia-miúda empresarial e do homem da rua (Main Street) que culpa os “gatos gordos” pela crise.
Entre os convivas estava a nata da alta finança americana, entre eles Ken Chenault, presidente e CEO da American Express, Jamie Dimon, presidente e CEO do JP Morgan Chase, Ken Lewis, Presidente do Bank of America e Gregory Palm, vice-presidente executivo da Goldman Sachs. Lloyd Blankfein, president e CEO da Goldman Sachs, John Mack, presidente e CEO do Morgan Stanley, e Dick Parsons, presidente do Citigroup não conseguiram voar para Washington DC por causa do mau tempo.
Palavras duras presidenciais
A conversa girou em torno dos temas quentes dos últimos dias: a intenção da maioria do Partido Democrático fazer passar no Congresso americano legislação de controlo do sector financeiro, como não haverá memória desde os tempos de Franklin D. Roosevelt nos anos 1930, e as admoestações públicas do presidente contra o mau comportamento dos ‘gatos gordos’ da alta finança em plena crise.
O homem da rua reteve na memória de 2009 os bónus galácticos dos administradores e os lucros astronómicos, a continuação da concentração do sector em entidades financeiras cada vez mais gigantes (cada vez mais demasiado gigantes para falirem mesmo que estejam em insolvência confessa) e a nova euforia especulativa na Bolsa de Nova Iorque desde Março.
Obama tinha-se atirado no domingo aos “gatos gordos” com estas palavras duras: “Não concorri para a presidência para agora andar ao colo com um bando de banqueiros gatos gordos em Wall Street”, disse ele preto no branco no programa 60 minutos da CBS.
A reunião e as palavras usadas surtiram, aparentemente, algum efeito. O patrão do Bank of America, à saída da Casa Branca, anunciou que iria estender o crédito às PME em, pelo menos, 5 mil milhões de dólares em 2010. Por seu lado, o chefe da JP Morgan Chase garantiu que apoiará os objectivos da Administração Obama.
Correcção de tiro político na economia
Depois de vários meses focalizado noutros temas (como a reforma dos serviços de saúde), o presidente acabou por, ao 11º mês de mandato, se fazer porta-voz da Main Street e do small-business contra a Wall Street, contra a “imoralidade” dos bónus dos administradores do sistema financeiro e contra a falta de crédito bancário para a economia real.
Uma correcção de tiro político que já se começara a ver na estratégia para a extensão até Outubro de 2010 do programa anticrise conhecido pelo acrónimo TARP, que pretende dar prioridade, de futuro, aos desempregados das famílias hipotecadas e ao tecido empresarial de pequenos e médios negócios.
Uma guinada política que deverá levar outros governantes do social-financismo, nomeadamente na Europa, a reflectir sobre o seu significado.
O pacote de sexta-feira
As palavras duras de Obama seguiram-se à aprovação (223 contra 203, em que, note-se, 27 democratas votaram ao lado da totalidade dos republicanos) pela Casa dos Representantes do Congresso americano de um pacote de regulação financeira na sexta-feira passada (11 de Dezembro) que, agora, terá de passar no Senado pelo crivo de negociações até final do ano.
O pacote tem um conjunto de medidas que são tidas como atacando algumas manifestações do problema do financeirização, nomeadamente: uma nova agência governamental de protecção do consumidor face aos produtos financeiros (como se viu houve muito gato vendido por lebre e excessos no crédito ao consumo); a possibilidade do governo ordenar a divisão de entidades financeiras mesmo saudáveis se forem uma ameaça para o sistema financeiro no seu todo; os accionistas passarão a ter direito de voto na definição dos pacotes de compensações dos administradores; a agência FDIC (Federal Deposit Insurance Corporation) recolherá contribuições de grandes entidades financeiras para criar um fundo de 150 mil milhões de dólares para intervenções futuras de salvação de bancos.