Segundo um artigo no jornal norte-americano The Wall Street Journal, os bancos do nosso vizinho estarão a começar a desfazer-se em massa dos activos imobiliários que lhes caíram no regaço como colateral dos incumprimentos em massa entretanto ocorridos.

Incumprimentos provenientes quer de empréstimos a famílias para aquisição de habitação própria (primária ou secundária) como de investidores imobiliários que alimentaram a “bolha” especulativa em Espanha nos últimos anos até que as faíscas da Grande Recessão internacional a fizeram rebentar.

Segundo o jornal americano, a banca espanhola acumulou, nos últimos doze meses, um portefólio imobiliário no valor de 8,5 mil milhões de euros derivado da execução de hipotecas.

O movimento de vendas num mercado com pouca procura tem um efeito ainda mais depressivo sobre o preço dos imóveis e, ao mesmo tempo, acaba por acarretar prejuízos para os bancos que vendem as propriedades abaixo do valor contabilizado. Segundo um estudo do BBVA, os preços do imobiliário terão baixado 10% em 2009 e poderão cair, ainda mais, em 2010, na ordem dos 12%.

O efeito acumulado destas duas dinâmicas atingirá, provavelmente, o pico em 2010.

Espanha não aprendeu com EUA

Esta pressão para a venda destes portefólios deriva das exigências colocadas aos bancos espanhóis. “Para precaver perdas, é, agora, exigido aos bancos que detenham em reserva 20% do valor de cada imóvel de que tomaram posse na execução de uma hipoteca. Em virtude da subida dessa reserva de 10% para 20%, e não dispondo de depósitos em fluxo suficiente, os bancos espanhóis temem o estrangulamento, e, por isso, vendem imóveis para ter liquidez”, refere Carlos Santos, professor de economia na Universidade Católica Portuguesa, no Porto, e especialista em economia internacional. E acrescenta uma preocupação adicional: “O regulador anunciou inclusive para breve novos requisitos de liquidez, o que leva os bancos a anteciparem estas vendas em função dessa expectativa. Definitivamente, a Espanha parece não ter aprendido nada com o que se passou nos Estados Unidos”.

O agravamento da situação do sistema financeiro espanhol gera o risco “sistémico” de colapsos o que vai obrigar o governo espanhol a intervenções “à inglesa”, sublinha Carlos Santos. Resultado esperado: agravamento da situação das contas públicas espanholas. A Espanha poderá ter um défice público de 10% do PIB no final de 2010, segundo a Comissão Europeia. Não admira que esteja no radar das agências internacionais como país-preocupação em 2010, a par de um rol que abrange a Irlanda, Grécia, Reino Unido, Letónia, Lituânia, Roménia, Bulgária e Hungria, no seio da União Europeia.

A interrogação final que fica neste final de ano: quais serão os salpicos deste risco espanhol em Portugal?

O economista Carlos Santos afirma que não se está a dar atenção a esse “colateral”.