Olhando a Cimeira pelo lado dos símbolos – e não do tecnicalês que tanto entusiasmou e depois frustrou as desgraçadas ilhas do Pacífico, por exemplo, que estão na linha da frente para serem engolidas, e os ambientalistas e jornalistas com causas -, o que mais me intrigou foi a famosa mesa dos Cinco. Take a look para a famosa mesa.

As narrativas são distintas sobre essa mesa que apareceu nas televisões como a bóia de salvação do acordo.

Filme de espionagem

Numa versão heróica, quase de filme de espionagem, conta-se que Obama e Hillary interromperam, abruptamente, uma reunião secreta dos líderes da China, Brasil, Índia e África do Sul, e que lhes impuseram a presença americana, dizendo-lhes claramente que os EUA não admitiam que negociassem em segredo.

Em outra versão, mais moderada, Obama e Hillary dirigiam-se para uma reunião com o primeiro-ministro chinês e apanharam com os outros companheiros na rodada, trazidos pelo chinês – ou, então, os ditos fizeram-se de “penetras”.

Conta-se, também, que Obama e Hillary vinham de reuniões, nomeadamente com os eufóricos e resilientes líderes da União Europeia (“não arredamos pé”, ouviu-se nos ecrãs os líderes europeus dizerem), suportados, assim, por um acordo transatlântico, em que, sabe-se lá, os russos também apostaram os seus ovos.

Obama triunfou?

Em qualquer das versões, a figura americana não sai muito beneficiada, apesar de perante os media internacionais globais o dedo de Obama e o braço da senhora Clinton saírem como os “salvadores” do projecto de acordo num tête-à-tête com a China (o famoso G2, a que já me referi). Obama ganhou pontos em soft power, diz-se.

Mas será mesmo assim?

A China manteve a sua cláusula de excepcionalidade – não cedeu um ponto nisso (o que é mau para a democratização da China, mas bom para o poder em Beijing). A verificação internacional será, apenas, para iniciativas financiadas colectivamente, tanto quanto se entende do tecnicalês do documento conhecido (ver ponto 5).

E conseguiu reunir à mesma mesa de Copenhaga – uma mesa que ficará célebre; ainda nos arriscamos a vê-la leiloada na Web – os seus apoios estratégicos centrais no mundo de hoje neste tipo de matérias, a Índia (quinta potência mundial) e o Brasil (nona potência mundial). E “puxaram” uma potência africana, a África do Sul, que fruto de circunstâncias acidentais, poderá superar, assim, o facto de, num ranking de poder global (em que a Europa ainda surge espartilhada pelos seus membros), se situar no 34º lugar.

Os BRIC (acrónimo para Brasil, Rússia, Índia e China, inventado pela Goldman Sachs), decididamente, em Copenhaga, a 18 de Dezembro, passaram, finalmente, a BICA (não a nossa, de café, mas o acrónimo para Brasil, Índia, China e África do Sul, ou, se quiserem, por ordem decrescente de poder real, CIBA). Para além do G2, será este o novo figurino do mundo da great power politics?

Europa, um grupo de gaiatos excitados e humilhados

A União Europeia (cujo poder global é difícil de avaliar, dado continuar, na realidade, a ser um mosaico de potências, com a Alemanha e a França à cabeça, em 6º e 7º lugares no mundo, logo a seguir à Índia) e os russos (a Rússia é, ainda, a terceira potência em poder global, apesar da grande quebra depois da implosão da URSS) foram eclipsados.

Se calhar estes últimos compreenderam, logo, que les jeux sont faits, e Medvedev pôs-se a andar, evitando a humilhação em directo (deixando o assessor para o clima), enquanto os líderes dos diferentes países da UE ficaram por ali, cirandando, à espera de breaking news. Triste figura, de facto.

De qualquer modo, para Obama e Hillary deixar o outro lado do Atlântico na esquina como gaiatos excitados e depois humilhados não é bom conselho.

O que, no entanto, torna gritante a incapacidade política global de líderes europeus em isolado – como Angela Merkel, Gordon Brown e Sarkozy – ou dos nomeados para cargos de representação colectiva europeia, como o presidente da Comissão Europeia (José Manuel Barroso) ou o presidente da União Europeia (de que nem ainda fixei o nome, I am sorry).

A Europa sofre de um problema grave de liderança, de facto. Os personagens em curso são francamente inaptos no actual jogo mundial – Copenhaga está aí para nos dar um sopapo na cara. A Europa precisa, de facto, de um abanão.

O Japão, apesar de ainda ser a quarta potência do mundo em poder geopolítico, não existiu nas fotos nem nas mesas. O risonho actual primeiro-ministro por ali passou, mas só se deu conta que desembolsará dinheiro para um fundo – Green Climate Fund – de 30 mil milhões de dólares para o período 2010-2012. Onde, segundo os valores já adiantados, o Japão colocará 11 mil milhões, a Europa pouco mais de 10 mil milhões, e os EUA apenas 3,6 – ou seja, um paga pouco para mandar e os outros dois pagam o grosso do esforço para ver. Notável, de facto.

Pois, o mundo mudou. Se não se tinham dado conta, a cimeira de Copenhaga, mais do que fórum da mudança climática, foi uma lição de aritmética geopolítica.

Nota: As avaliações aqui feitas sobre o peso geopolítico das várias grandes potências baseiam-se no estudo pioneiro dos investigadores portugueses Fernando Fonseca e Fernando Gonçalves (no prelo).