Dom 27 Dez 2009
Seis escolhas sobre 2009 a pensar em 2010
Por JNR na secção Geoprotagonistas , Gestão do risco , Globalização , Inteligência Económicaainda sem comentários
É sempre difícil escolher factos que mais marcaram o ano que morre na próxima semana. Farei a minha escolha pessoal em função do que me parece poder ter mais impacto no desenrolar de 2010.
Primeira escolha: A Mesa dos Cinco em Copenhaga. Uma mesa acidental – a acreditar nas versões que surgiram. Ou era para ser uma mesa a dois (o G2: EUA-China) e entraram mais três “penetras”; ou era uma mesa a quatro (”secreta”, disseram os americanos) e o Tio Sam fez-se de “penetra”. Seja como for, um acidente da história, que emergiu, com surpresa, e marcará a geopolítica dos próximos anos. Os humilhados: a UE e o Japão. O que saiu de fininho: a Rússia. Os marginalizados: os anti-globalistas.
Segunda escolha: A guerra “justa”. O discurso de Obama ao receber o Prémio Nobel da Paz. Um discurso que recebeu muitos encómios. Mas que eu considero, perdoe-se a minha desfaçatez, um equívoco. Por razões que desenvolverei noutra ocasião. Equívoco na recuperação de um conceito historicamente datado. Perigoso pela sua reversibilidade, ou seja o carácter de boomerang que encerra em si. Extremamente incompleto quanto às condições que legitimam a guerra como continuação da política por meios violentos por parte de democracias. Inconclusivo face à herança do W. Bushismo e dos neo-cons (por exemplo, a questão das guerras pre-entivas e do uso de armas nucleares tácticas, e face ao facto de que a doutrina militar russa continua a manter a legitimidade do uso de ataques nucleares pre-entivos) ou à questão pertinente do multiplicar da assimetria das guerras. E, sobretudo, correndo o risco de obsoletismo face ao que Alvin Toffler já dizia em 1993 em Guerra e Anti-Guerra: a emergência de “guerras impensáveis”. Este equívoco de Obama terá consequências. Não se esgota, apenas, na legitimação (previsível) da guerra no Afeganistão e na sua extensão ao Paquistão.
Terceira escolha: A revolução popular em curso no Irão - não são apenas vídeos no youtube de filmagens de telemóvel. Um desfecho imprevisível com implicações em todo o xadrez do Próximo e Médio Oriente e mesmo no alinhamento entre as grandes potências. Uma vasta região de shatterbelt do globo.
Quarta escolha: A luta política entre as duas linhas no Partido Comunista da China, entre os social-financistas e os “populistas”, unidos no projecto de grande potência global e de autocracia partidária, mas divididos nas alianças sociais e na dinâmica do modelo económico.
Quinta escolha: o número 500.000. A lista de suspeitos de terrorismo. Número divulgado recentemente. Suspeitos são suspeitos – não terroristas. De qualquer modo, seja qual for a percentagem de nomes a dar baixa na lista, trata-se de um equivalente a um exército de grande potência, ainda que fragmentado por várias intenções, obediências e geografias. Uns em repouso, nas redes “adormecidas”, outros em actividade. Muitos em mobilidade. O suficiente para nos fazer pensar sobre os conflitos assimétricos que nos podem presentear.
Sexta, e última, escolha: a maior interrogação, o desenvolvimento da Grande Recessão, em V finalmente, em W lamentavelmente. Demasiadas bombas económico-financeiras de destruição massiva espalhadas pelo mundo. Incerteza – a velha palavra de Keynes paira sobre as nossas cabeças.