Sáb 5 Dez 2009
Caderno de Viagem: 3: O meu encontro com a geração Yu Li narrada por um economista
Por JNR na secção Geoprotagonistas , Globalização , Inteligência Económicaainda sem comentários
Permitam-me que vos apresente (o livro) Yu Li – literalmente quer dizer “excedentário” do sector público chinês, que, em português recente, dá pelo sinónimo mais popular de “supranumerário”.
Encontreio-o, em inglês, entre as novidades nos escaparates da minha predilecta Cosmos Books, na Johnston Road, em Wanchai, ou em Nathan Road, em Kowloon, HK. Soube pelo livreiro que o lançamento havia sido em finais de Outubro num dos lugares sagrados da intelectualidade rebelde de Beijing – no célebre The Bookworm, no distrito de Chao Yang, um misto de livraria, bar, restaurante e local de eventos. Um sítio incontornável numa visita à capital do Império do Meio.
Yu Li é o personagem central de Confissões de um ascensorista, uma sátira absurda sobre o social-capitalismo da China do início desta década. Lê-se em uma hora seguida, de um fôlego. Faz parte de Triologia das Casas-de-banho (sic), publicada, em chinês, desde 2000 pela heterodoxa Yunnan Publishing House.
A geração Yu Li
O nosso personagem é um estranho quase-trintão, ainda virgem, de acne na cara que causa repulsa às chinesas elegantes de salto alto, calções super-curtos e cosmética pura e dura. Era inspector de qualidade numa destilaria de vinho falsificado numa cidadezeca de quinta categoria na província de Hebei, onde, apesar de apenas distar 250 km da capital da grande potência, não havia, ainda, arranha-céus de vidro, hotéis para empregar gente, nem se usavam computadores nem inglês mal falado naquele final de século XX.
Ele sofre de dois problemas fundamentais desta geração masculina semi-rural de Yu-Lis – 1) frustração cruel por não encontrar parceira (recorde-se a incrível política de um filho, macho, por família) e por não dar uso ao que o autor de Yu Li cognomina de “arma nuclear” debaixo das calças e 2) condição de “excedentário”, pois a velha indústria maoista é para abater, as próprias iniciativas de reforma agrária capitalista nos anos 1970 e 1980 (que foram pioneiras da mudança) estão agonizantes e a vaga de chai qian – demolir, demolir, demolir! – ainda não chegou.
A solução para os Yu Lis é migrar para as grandes cidades costeiras, carregando como haveres um blusão preto, uns óculos escuros, uma camisa surrada com todos os botões abotoados até ao pescoço, uns sapatos puídos e um sacão azul às riscas. Uma geração masculina a que o artista Zhang Jianhua deu vida em esculturas realistas. Uma delas serve de capa ao livrinho.
Yu Li acabou por concorrer e ganhar, com cunha de um importante da sua cidadezeca natal, um posto de ascensorista num elevador na Porta A do Edifício B de 18 andares (ele olhava para cima e ficava tonto) do distrito C da capital, Beijing, onde o metro quadrado custava, então, 1000 euros (dez anos de salário do Yu Li) e a garagem estava cheia de Audis. A classificação confidencial do condomínio derivava do seguinte: moravam ali, como VIPs, um alto chefe de departamento, um artista de TV de nível A e uma celebridade feminina de nível C (que Yu Li viria a descobrir ser amante do chefe de departamento, para frustração dos seus planos) – que, no entanto, estavam envoltos em secretismo nacional (ninguém no prédio sabia exactamente quem eles eram).
Por favor desnuclearizem-me!
O nosso personagem nem imaginava o que fosse um elevador e foi introduzido na arte de ascensorista com um curso de três meses, incluindo literacia sobre a Constituição chinesa, anti-imperialismo básico, formação patriótica e outras bizarrias, a par de rudimentos de inglês e mandarim, engenharia eléctrica e técnicas de combate. O chefe dos ascensoristas – team leader, no jargão de gestão que invadiu toda a China – juntou, de lavra própria, estratégias para estes operadores lidarem com o problema do secretismo, o que geraria uma confusão tremenda na cabecinha de Yu Li.
Ora a “arma nuclear” de Yu Li vai percorrer as 69 páginas da novela e trazer-lhe dissabores e novas frustrações e humilhações por parte das chinesas frequentadoras do ascensor que o apelidavam desdenhosamente de “Tio das Borbulhas”. Com tanta amargura, Yu Li reclamou, no final, unilateralmente, junto das autoridades que queria ser eunuco – “Por favor desnuclearizem-me!”. A súplica não foi atendida.
Quanto ao resto do miolo convido-o a ler.
O autor
Apontamento final, sobre o autor, Jimmy Qi, que agrega como alcunha “Monkey” (sic). Economista de formação, de 47 anos, poliglota, viveu ainda de calções os finais da Grande Revolução Cultural Proletária, e sairia da China, já licenciado, para três anos em Tóquio e dez anos no Canadá. Regressou em 1998 e o livro sobre Yu Li foi escrito numa fornada, em dois dias, depois dessa chegada. Jimmy Monkey é hoje professor no College of Continuing Education da Universidade de Línguas e Cultura de Beijing. Não se considera um escritor político, mas confessa que satiriza como terapia para si próprio e para fazer rir os leitores. Tem dez livros publicados, cada um com seu estilo.
Yu Li- Confessions of An Elevator Operator foi publicado em inglês este trimestre pela corajosa editora Make Do Studios de Hong Kong, como primeiro título na colecção Modern Chinese Matters, de que estão anunciados mais lançamentos.