Crise? Que crise? Hong Kong e Macau vivem de uma bebedeira de liquidez gigante na mãe-pátria. As quatro drogas dos novos-ricos do continente são as jóias, os vinhos, a cosmética e, claro, o jogo alto.

Vejamos os personagens seus consumidores.

1. As chinesas do continente, umas com o corpo coberto de logótipos reluzentes nas roupas, outras aparentemente sem grandes exuberâncias, afluem às ourivesarias de Hong Kong e Macau, onde as peças exibem pequeníssimas etiquetas com preços de 5 e 6 dígitos no mínimo nas moedas locais ou mesmo em yuans (a moeda chinesa), o equivalente a 4 e 5 dígitos em euros. O ouro está na moda (com cotações da onça acima dos 1100 dólares) e não só por razões sazonais (casamentos, pré-época de Natal com promoções).

2. Homens de fato-e-casaco ou vestindo sportswear de marca correm aos vinhos importados de alta qualidade e a preços exorbitantes numa Hong Kong que se transformou no que já designam por wine hub asiático, depois da extinção de uma taxa alfandegária de 40%.

3. As vaidosas. Os cosméticos são outra das loucuras caras – qualquer marca internacional de topo tem chinesas empinadas às dezenas à volta dos testers e junto das vendedoras. Cheiram, maquilham, re-maquilham, no meio de conversas sonoras e risinhos, e pagam, facilmente, facturas de 5 dígitos saindo com saquinhos carregados.

4. Finalmente, os viciados no jogo na extremidade do Rio das Pérolas. Macau anuncia um volume de receitas de 60% de crescimento em relação há um ano. Um montante de 12 mil milhões de patacas (mil milhões de euros) em Novembro, um mês considerado “baixo”. As altas jogadas não se fazem nas mesas dos primeiros andares dos casinos, mas nos private. Mas, mesmo entre os vestidos sem logótipos, perdem-se quantias numa tarde de 5 dígitos.

Uma liquidez gigantesca

O que tudo isto significa é que há uma liquidez gigantesca na China derivada da enorme especulação imobiliária e financeira em curso que começa a assustar muito analista independente na China e no estrangeiro.

Uma liquidez que se alargou, recentemente, com o disparo dos empréstimos a pretexto de inundar a economia real com dinheiro vivo – nos primeiros dez meses deste ano, os novos empréstimos concedidos na China aumentaram 144% em relação há um ano. Há um montante de 8,9 biliões (triliões, na designação anglo-saxónica) de yuan (mais de 870 mil milhões de euros) injectados pelo crédito, muito acima dos 5 biliões previstos para todo o ano pelo governo.

Para 2010 fala-se de manter um objectivo de 8 biliões de yuan – se as previsões oficiais errarem por defeito, pela mesma margem, como este ano, isso significará que o crédito atingirá mais de 12 biliões. Números redondos, o que está em circulação no crédito deve ser 1/3 do PIB chinês avaliado em yuans.

Uma nova casta capitalista

Os novos-ricos da China não são só os detentores de cargos da nomenklatura do aparelho central, regional ou local, do complexo militar ou do sector empresarial do Estado, particularmente das regiões costeiras. Nem só os super-ricos, privados, das listas da revista Fortune ou da lista mais “local” divulgada anualmente por Rupert Hoogewerf desde 1999.

São as dezenas de milhar que não constam dessas listas – os anónimos de maços de notas ou de cartões prateados e dourados que desembarcam diariamente nas duas regiões administrativas especiais. Empresários, intermediários de todo o tipo, e sobretudo uma casta de rentiers financeiros que dão pela alcunha de zhuang-jia, que jogam nas oportunidades legais e nas zonas “cinzentas”, nos erros e buracos legislativos, que como enguias vivem no meio da cadeia de valor no imobiliário, nas bolsas, nos empréstimos e na obtenção de favores dentro do próprio tentacular aparelho estatal.