Qui 19 Nov 2009
Cenário negro até 2012 divulgado em Paris
Por JNR na secção Gestão do risco , Globalização , Inteligência Económica[2] comentários
Um relatório do analista de estratégia francês Daniel Fermon sobre a hipótese de um cenário negro de colapso económico global nos próximos anos, em virtude do disparo da dívida pública dos Estados desenvolvidos para um patamar, em média, superior a 100% do PIB, agitou os meios financeiros. É a dívida (pública), estúpido!, pode ser o resumo do relatório de choque.
Não sendo uma previsão, mas “uma exploração de perigos” (como sublinha, logo, o analista), o panorama para os próximos três a quatro anos nos países desenvolvidos, alvitrado pelo relatório negro de 68 páginas divulgado ontem pela Société Générale (SG), aponta: a) para crescimento “anémico” à japonesa nos próximos anos, b) regresso à ortodoxia orçamental, c) riscos de inflação ou de estagflação em 2012 (se os chineses procederem a uma valorização substancial da sua moeda), e d) de oportunidades em algumas commodities que denotam tendência altista.
A questão crítica, segundo o relatório de choque, poderia resumir-se à expressão de campanha política: É a dívida (pública), estúpido!
Intitulado “Worst-Case Debt Scenario”, com a assinatura do analista de estratégia Daniel Fermon – que integrou a SG em 2004 –, o equacionar de um cenário de “éffondrement générale” agitou os meios financeiros e produziu um disparo do debate na blogosfera desde ontem, tendo incluído um período de perguntas & respostas em directo com Fermon através do portal francês da Boursorama.com.
Segundo o cenário, a dívida pública externa (não incluindo a dos privados) dos Estados nos países desenvolvidos passará, em média, de 75% do produto interno bruto (PIB) de cada país em 2007 (antes da Grande Recessão) para 115% no próximo ano. Se compararmos com a recomendação do Tratado de Maastricht (60%) para a Europa, o patamar crítico seria galgado, em média, quase para o dobro.
A situação actual pode ser consultada aqui, com destaque para as situações mais críticas, entre os desenvolvidos, do Japão (173% do PIB, segundo a OCDE), Itália (113%), Grécia (100,8%), Singapura (113,7%, segundo a CIA) e Bélgica (92,2%). Portugal, segundo a OCDE, estaria nos 70,9% do PIB. Acima do “limite” maastrichtiano estariam, hoje, na União Europeia, segundo a OCDE, os seguintes países (por ordem decrescente de gravidade): Itália, Grécia, Bélgica, Hungria, França, Portugal, Alemanha e Áustria. Próximo do limiar estariam o Reino Unido, a Holanda e a Polónia, mas ainda com folga.
Dívida “insustentável” em 2011
Olhando mais em particular para as grandes potências do falecido G7, o relatório aponta para um patamar da divida pública em 2011, daqui a três anos, de 270% do PIB no Japão (o caso mais grave), 125 % nos EUA e na Zona Euro em média e 105% no Reino Unido (que convergirá para a média europeia por volta de 2015).
Trata-se de um nível de endividamento público “inteiramente insustentável no longo prazo; atingimos praticamente um nível de endividamento público de não retorno”, diz o relatório.
O endividamento público total à escala mundial passaria de 18 biliões de dólares (nota: triliões, na designação anglo-saxónica) em 2001, no início desta década, para 45 biliões de dólares em 2011. A título ilustrativo, os 45 biliões, a valores do ano passado, representariam em termos relativos 74% do PIB mundial de 2008.
Este disparo da dívida pública dos Estados desenvolvidos ocorre em virtude de uma transferência da dívida da esfera privada para a pública na ordem dos 6% no caso dos EUA e de 2% no caso da Europa, segundo o relatório.
Se olharmos à dívida total bruta (pública e privada) nos países desenvolvidos a situação crítica é multiplicada, o que pode ser verificado aqui.
Regresso à ortodoxia orçamental
No debate na blogosfera, Fermon foi questionado sobre quais os caminhos prováveis face a este disparo da dívida pública. O analista apontou três caminhos, admitindo que um quarto de falência dos Estados (como aconteceu à Islândia) possa ser colocado de parte: regresso de uma dinâmica de inflação muito clara a partir de 2012 (que se poderá acentuar se os chineses procederem a valorizações substanciais da sua moeda, como têm sido pressionados insistentemente); intervencionismo do Estado em sentido diferente do actual com vista a aliviar a carga (havendo várias opções, que referiremos adiante); e inovação acelerada à la Schumpeter (Fermon falou eventualmente do papel animador do cluster dos green business).
No campo da intervenção dos governos, Fermon alvitra uma geometria variável de políticas, separadas ou em conjunto, com um regresso político à “ortodoxia orçamental”: a) reprivatizações; b) aumento dos impostos (e das receitas fiscais); c) redução drástica pelo lado da despesa dos Estados; c) desvalorizações competitivas da moeda.
Para o investidor privado, Fermon apontou, a curto prazo (mais do que a 12 meses, Fremont disse claramente que não recomendava nada, a não ser “fazer escolhas estratégicas”), para quatro saídas de aplicação financeira: a) obrigações dos Estados; b) acções dos mercados emergentes; c) ouro (que já se aproximou, esta semana, dos 1150 dólares por onça, com uma variação média nos últimos doze meses de 47%) e outros metais preciosos (a prata com uma variação média de 70% e a platina de 60%); e d) algumas outras commodities em alta nos últimos doze meses como as alimentares (o açúcar com uma variação de 91% e o cacau de 60%) e industriais (o cobre com 60% e o algodão com 55%).
Como nota final, refira-se que alguns analistas acusam este tipo de relatórios de serem veículos de pressão sobre os governos para o abandono das políticas anticrise que já estariam a durar excessivamente.
Novembro 25th, 2009 at 12:56
[...] aumento da “bomba” da dívida pública (que, agora, começa a agitar comentaristas e consultoras) a recessão mundial, este ano, ter-se-ia situado num corredor entre 1,4% a 3,5% de queda do [...]
Dezembro 8th, 2009 at 22:35
[...] situação actual deste indicador pode ser consultada aqui, com destaque para as situações mais críticas, entre os [...]