(Publicado originalmente no blogue ‘A Regra do Jogo’, revisto)

Confesso que prefiro folhear o sumário, sentir o macio ou o áspero das páginas, ler algumas de trás para a frente, ir ao índice ver algumas palavras-chave e rapidamente ter um cheiro do que o autor diz.

Não desprezo a Amazon.com, bem pelo contrário sou um viciado sobretudo na procura de livros esgotados nas livrarias, aqueles que nem nas editoras já se encontram exemplares estragados nos armazéns, mas que se descobrem, por vezes a preço de pechincha, mais ou menos usados, nos revendedores associados da loja global de Jeff Bezzos, um tipo com umas sonoras gargalhadas, quando o entrevistei nos idos 1990.

Mas a minha costela tradicionalista em matéria de papel empurra-me sempre para alguma peregrinação por livrarias à antiga, onde, também, em regra encontramos livros de décadas mais remotas do século XX. É o caso da do nº36, que aqui se tem de soletrar como thirty-six. Não na variante do inglês de Shakespeare, mas de Beckett, Joyce, Yeats, Shaw e Wilde, entre os dubliners mais famosos.

O 36 é um prédio oitocentista que fica no cruzamento com mais línguas faladas por metro quadrado de Dublin e entre o conhecimento (o Trinity College) à direita e a finança (o Banco de Irlanda) em frente. Da rua subimos uma leva de escadas estreitas e entramos numa loja pouco mais larga em que a mesa ao centro com as novidades (não quer dizer que sejam edições recentes, mas escolhas do livreiro com preços convidativos) só permite que haja uma pessoa de cada lado. Ao rebuscar nas prateleiras, arriscamo-nos a dar uma cotovelada em quem está atrás, dizer sorry, sorry atabalhoadamente e apanhar alguns livros do chão.

A velha livraria tem um nome bem singelo – apenas Books Usptairs (o que é totalmente verdade), e vem no guia turístico como tendo verdadeiras pechinchas em obras de qualidade. Faz parte do meu ritual quando vou à capital irlandesa. Pode calhar por lá andar algum poeta, dramaturgo ou novelista dublinense, mas confesso que nunca dei encontrão em nenhum.

Um livrinho rápido de ler

Desta vez, ao olhar para o placard de recortes de jornais dou com um bem grande, ainda não muito amarelecido, sobre recensões de livros recentes a respeito de Keynes, de seu nome completo John Maynard Keynes (1883-1946), o célebre economista inglês que morreu ao terceiro ataque cardíaco no já distante ano de 1946, mas que, hoje, está na berra como se assistisse ao G20 integrado na delegação inglesa e rivalizasse com Obama na oratória.

Escreveu-se sobre ele abundantemente, mas sobressaem, naturalmente, as biografias. As clássicas envolvem uma de 1951, escrita por Roy Harrod. O livreiro me informa que vendeu uns últimos exemplares em paperback da edição de 1983, mas que ainda encontramos em livros usados na Amazon. É um livro denso, de mais de 800 páginas. Há, depois, as obras de referência do biógrafo oficial de Keynes – é uma trilogia assinada por Lorde Robert Skidelsky (que entrevistei recentemente a propósito da sua última obra, The Return of the Master), material já para especialistas. Há, ainda, o livro de ensaios de reflexão teórica de Hyman Minsky sobre o que é, na verdade, o keynesianismo, publicado em 1975, com o nome completo de Keynes como título.

Perguntei ao livreiro se teria algo rápido de se ler, quase como romance. Ele correu para uma das prateleiras mais escondidas, remexeu e trouxe-me Keynes, de Robert Cord, um ex-economista da Dun & Bradstreet apaixonado pelo mestre de Cambridge e pelo seu grupo boémio londrino, de Bloomsbury.

É um livrinho recente, de 2007, de menos de 15 x 20 cm, com apenas 130 páginas de texto narrativo da vida de Maynard, como o tratavam os mais chegados – e, claro, no nº36 custa menos de 9 euros em novo. Lê-se em duas noites depois de um recession menu (uma invenção dublinense para se comer mais barato em tempos de Grande Recessão) regado com umas Guinness num dos locais sagrados de Temple Bar.

Cord consegue percorrer a vida do mais afamado economista inglês do século XX salientando dois pontos que, por vezes, são menos focados por quem quer dar de Keynes uma imagem de receituário despesista: o processo evolutivo do seu pensamento e do seu percurso, e o enquadramento geopolítico que, sempre, estava presente na sua genial mente.

Duas razões de actualidade

Maynard, se as cinzas dele me permitem a intimidade, não é só actual pela célebre polémica entre 1931 e 1932 nas páginas das revistas Economica e Economic Journal contra o austríaco Friedrich von Hayek, então a dar umas palestras na London School of Economics. Discordavam sobre a política anticrise economica e monetária a seguir face à Grande Depressão então em curso (1931 e 1932 seriam, aliás, os piores anos de quebra mundial do produto e do comércio internacional).

O debate entre os dois – anterior a Keynes ter escrito o seu The General Theory (1936) e muito antes de Hayek ter escrito a sua obra-prima The Road to Serfdom (1944) – ainda hoje gera polémica e visões bem distintas.

Maynard é, também, profundamente actual pelo seu papel nas negociações de Bretton Woods, nos anos 1940, ao ter sugerido uma divisa internacional de reserva, o «bancor», que evitaria prender o mundo quer aos humores da libra (então em franco colapso) e do império britânico (em total declínio como superpotência) como aos do dólar americano e da nova superpotência triunfante (os Estados Unidos).

Como me referiu Colin Danby, da Universidade de Washington, em entrevista recente que me concedeu, esta dimensão é um dos aspectos “esquecidos” sobre Keynes: “Esse esquecimento deve-se, em parte, a ele ser famoso pela sua Teoria Geral, que procede a uma abstracção em relação à economia global. Mas, a meu ver, ele era muito mais um pensador político e histórico – isso pode ser, logo, observado em 1919 no seu livro as Consequências Económicas da Paz. Mas esta obra não se encaixava muito no que genericamente é entendido como ‘economia’”.

Keynes foi derrotado, dessa vez, nos anos 1940, pela geopolítica (os EUA falavam mais alto) e há quem diga, também, pela doença, pois sofreria um segundo ataque cardíaco ao subir demasiado rápido umas escadas no Mount Washington Hotel em Bretton Woods, correndo, atrasado, para uma reunião. Quem o atrasara?