As quatro grandes potências emergentes não formam nenhum bloco estratégico. O mundo é, hoje, tripolar, disputado pelos Estados Unidos, China e União Europeia. O conceito foi um truque de analistas financeiros em 2001.

Os quatro apertam as mãos, sorriem para as câmaras, dão ares de um bloco geopolítico de tijolo reforçado nas cimeiras do G20 ou nas que promovem. Mas, os BRIC (acrónimo para as quatro grandes potências emergentes do século XXI, Brasil, Rússia, Índia e China) são, apenas, um aperto de mão táctico, um eixo temporário de oportunidade. “Os BRIC não são a base para uma parceria estratégica”, reage Stephen Kotkin, historiador e professor em relações internacionais da Universidade de Princeton e consultor de estratégia do World Pension Forum.

Kotkin vai mesmo mais longe e fala do surgimento do conceito de BRIC como um truque talentoso de analistas financeiros, quando o confrontamos com o imenso peso mediático do acrónimo. O nosso interlocutor aviva-nos a memória: Jim O’Neill, economista-chefe da Goldman Sachs, resolveu, com a sua equipa, em 2001, inventar esse acrónimo “que se revelaria altamente rentável, ao tornar o investimento dirigido aos quatro países menos arriscado, transformando-o em moda”. Nesta década, o acrónimo tornou-se omnipresente. Mas Kotkin acha que “será errado imaginar que a ideia de BRIC tem, na base, uma qualquer base geopolítica”.

Cada um em sua bicicleta e pista

O próprio acrónimo começou a ser corroído. Alguns analistas financeiros têm, mesmo, sugerido “amputar” o R do acrónimo e divulgar, apenas, o termo BIC. Milton Ezrati, analista da Lord Abbett & Co. LLC., divulgou, recentemente, um relatório com o título “BRIC partido”. A Rússia teria deixado de estar na moda. Kotkin dá uma explicação: “A China transformou, de facto, a Rússia num seu parceiro júnior”. Outros consultores mais ligados à Ásia, aproveitam, e adicionam ao grupo um K (em inglês), de Coreia do Sul.

“Cada uma das quatro pedala na sua bicicleta e mesmo em pistas diferentes, actuam muito independentemente e têm trajectórias de crescimento e desenvolvimento distintas. A etiqueta BRIC não faz mesmo qualquer sentido”, diz-nos, por seu lado, Parag Khanna, de 32 anos, que subiu ao estrelato literário da geoeconomia logo com o seu primeiro livro, intitulado “O Segundo Mundo”. Sobre a Rússia ele traça-lhe mesmo dois cenários radicais no futuro que deixarão os russos com os cabelos em pé: ser um anexo da Europa ou um vassalo da China. Ou as duas coisas.

Khana que é um filho da globalização, nasceu na Índia, cresceu nos Emirados e na Alemanha, e é hoje nova-iorquino assumido. O mundo hoje está em “geometria variável”, diz-nos numa entrevista que pode consultar (em inglês) aqui. Não acredita em nenhum G2 (um alegado eixo informal Estados Unidos-China). Fala de um mundo tripolar no que respeita ao patamar da hegemonia – partilhado pelos EUA, China e União Europeia. “São como três aranhas tecendo as suas teias globais, projectando a sua influência através da globalização. Não são um G3, nem desejo que o sejam”, sublinha.

As três aranhas hegemónicas

E a que se dedicam as “aranhas”? A atrair e enredar o que Khana designa por “segundo mundo”, uma espécie de potências de segunda linha que oscilam entre os três pretendentes. Khana foi buscar à política eleitoral americana esta ideia de “estados que balançam”. E juntou-lhe o desenho de um “mercado da geopolítica”, onde os três “impérios” vão a jogo e fazem os seus lances.

O segundo mundo – onde Khana inclui os outros três BRIC, bem como mais umas dezenas de potências médias, incluindo muitas do resto do G20 – espalha-se por regiões-chave do mundo, onde o apetite das três aranhas é enorme. Ironicamente, o segundo mundo dispõe de margem de manobra para se deixar cortejar, segundo Khana, não por ideologias antagónicas, mas por três modelos capitalistas e de projecção externa rivais. O resto é o efectivo terceiro mundo. Paisagem de tragédias e periferia para as disputas.

Khana acha que o espaço do Oceano Índico vai voltar a ser (como quando os portugueses lá entraram a ferro e fogo nos idos de 1500) o mais “quente” do globo.