A impaciência de muitos analistas e países (ainda no fim de semana passado se ouviu uma crítica contundente oriunda de Beijing, da parte do regulador bancário, Liu Mingkang) deriva do facto de ser cada vez mais visível uma economia a duas velocidades em alguns nos países OCDE, e em particular nos Estados Unidos.

De um lado, uma economia real com falta de liquidez nas empresas, dificuldades na descolagem da exportação e desemprego estrutural crescente; e, do outro, um sector financeiro exuberante, com uma míni-bolha nas bolsas (o Dow Jones norte-americano estava ontem próximo dos 10.500 pontos e o índice S&P 500 já subiu 62% desde o ponto mais baixo da Bolsa em Março passado), nas commodities (por exemplo, com a onça de ouro a aproximar-se, esta semana, da barreira dos 1150 dólares, novo máximo histórico nominal) e no negócio das divisas (através das aplicações de carry trade) fruto do colapso do dólar americano.

No caso do ouro, que ultrapassou a barreira do anterior máximo histórico a 6 de Outubro (cotando-se em 1040,1 dólares por onça), não tem deixado de se mover num clima de euforia altista. Ontem, fechou nos 1140 dólares por onça e já há analistas do mercado do ouro a falar do objectivo dos 1200 dólares até final do ano. O clima especulativo no ouro tem beneficiado inclusive da tendência entre os países emergentes com liquidez de divisas em aumentarem as suas reservas oficiais em ouro dando um sinal político da importância deste metal precioso como “refúgio”.

Depois da compra recente pelo banco central da Índia de 200 toneladas de ouro de um lote de 403 disponibilizado pelo Fundo Monetário Internacional, foi a vez das Ilhas Maurícias adquirirem 2 toneladas na semana passada.

Neutralidade da política monetária não existe

O analista independente Mark J. Lundeen refere, no seu mais recente boletim de análise dos mercados, que as taxas de juro indicativas da Reserva Federal norte-americana, anormalmente baixas (quase próximas de zero e com as designadas call money rates para os brokers financeiros em níveis tão baixos jamais vistos desde 1953!), estão a gerar uma nova “bolha” especulativa nas bolsas e a desencaminhar os fluxos financeiros da economia real para a economia de casino.

O que demonstra, uma vez mais, que as políticas monetárias são tudo menos neutras – como sempre sublinhou Keynes – e podem gerar efeitos paradoxais. Não o foram no tempo da fase ascendente do ciclo de negócios quando fomentaram activamente um clima especulativo de “bolha” através de uma política monetária pró-cíclica dirigida por Alan Greenspan (então criticada por alguns, como William White, do BIS, que foram ignorados), como o não são, agora, em pleno período de política monetária anti-cíclica (anticrise).

Nos EUA, o comentador Martin Hutchinson fala de “um nirvana dos rentier”. Um dos “motores” desta exuberância seria um excedente de liquidez nos mercados financeiros que, no caso da Zona Euro, subiria a 100 mil milhões de dólares, segundo a revista belga Trends. Segundo o analista americano Peter Cohan, cerca de 360 mil milhões de dólares estariam disponíveis em fundos de mercado.