Seg 23 Nov 2009
Combate à Grande Recessão: dois erros estratégicos na América
Por JNR na secção Geoprotagonistas , Gestão do risco , Globalização , História Económica , Inteligência Económica , O novo capital financeiroainda sem comentários
Primeiro, no emergir da crise, a ausência de estratégia por parte da Administração Bush. Sobrou em activismo ad hoc e oportunismo eleitoralista. Depois, com a nova Administração Obama, que resolveu dar prioridade política à reforma do sistema de saúde em vez de se focalizar na prioridade das prioridades: a reforma do sistema financeiro. Quem ganhou com ambos os erros: claramente os grupos da Wall Street que reforçaram a consolidação do sector, respiram de alívio com os milhões dos contribuintes para evitarem uma vaga de grandes falências e conseguiram dar a pirueta de pôr de novo a bolsa em clima de míni-bolha.
A distância temporal com o Pânico Financeiro dos últimos quatro meses de 2008 e do primeiro trimestre de 2009 permite uma análise mais fria. As primeiras análises críticas do comportamento das autoridades americanas começam a entrar nos escaparates.
Um dos livros que marcou a análise deste período foi o publicado por David Wessel, intitulado sugestivamente In Fed We Trust, cujo autor entrevistámos na altura. Ele revelou um conhecimento de muitos detalhes – alguns deles confidenciais. Mas sobretudo permitiu traçar um retrato dos principais protagonistas na gestão da crise.
E o retrato que traçou não foi lisonjeiro para a América.
Por um lado, ficou a nu a clara ausência de liderança presidencial: George W. Bush foi um espectador, por vezes patético, com comentários de bar. A condução do activismo estatal ficou nas mãos de um duo, o secretário do Tesouro, Henry Paulson, e o presidente da Reserva Federal, Ben Bernanke; segundo outros, haveria que adicionar Tim Geithner, então presidente do Banco da Reserva Federal de Nova Iorque (e actual secretário do Tesouro).
A Administração americana não esperava qualquer crise desta dimensão (convencida pelos liberais de que as crises graves eram coisas do passado e que tudo “estava sob controlo”), ficou surpresa e revelou não ter nada de estratégia na cabeça para além dos movimentos que realizou na geopolítica, em grande medida fiascos ou tiros nos pés.
Por outro, ao lermos o filme das intervenções fica-se com a sensação clara de que o duo ou o trio actuou profundamente ad hoc e que, de início, não tinha noção clara da gravidade da situação: no fundo, acreditavam que se tratava de uma crisezita do subprime (ainda por cima um veículo financeiro completamente desconhecido) sem ramificações sistémicas nem globais. Isso os teria levado a subestimar o impacto de deixarem falir, naquelas circunstâncias, a Lehman Brothers – não era só “too big to fail”, era “too connected to fail”, como corrigiu Wessel.
Ben Bernanke, que estudara a Grande Depressão dos anos 1930 e dela tirara ilações – como a ausência de intervenção governamental séria anti-crise até à subida de Franklin D. Roosevelt (FDR) já a depressão levava quatro anos (!) – a partir do momento em que viu diante dos seus olhos o filme do pânico financeiro e da emergência de uma depressão à escala global, arregaçou as mangas, largou a canga ideológica de arauto da “grande moderação”, e lançou-se com pragmatismo na manipulação das armas do banco central. Foi constrangido pela gestão política da crise por parte de Paulson tendo em conta as eleições presidenciais, e acabou traído por parte dos republicanos no próprio Congresso. Sentiu, também, que a partir de certo limiar a própria manipulação das taxas de juro chega a um beco sem saída, como já acontecera na crise japonesa da última década e meia.
“Enrodilharam-se no dia-a-dia da gestão da crise, sempre atrás dos acontecimentos. Perderam a oportunidade de agir com estratégia. A estratégia dissolveu-se na táctica. Aquando dos acontecimentos do Lehman Brothers, naqueles 10 ou 12 dias de caos e confusão, não houve liderança alguma da parte de Washington DC. A liderança perdeu uma oportunidade num momento crítico”, diz-nos, com veemência, o economista francês Jacques Sapir que veio a Lisboa apresentar a tradução de um livro seu de há sete anos atrás, Os Buracos Negros da Ciência Económica (que peca por não ter um prefácio actualizado, apesar de muito do que o livro sustenta se ter verificado ao vivo nesta crise).
O pecado de Obama
Mas Sapir vai mais longe na apreciação crítica. Considera, também , que “houve uma oportunidade perdida por Obama”. O novo presidente “decidiu dar prioridade política à reforma da saúde – que é bem necessária -, mas fê-lo em detrimento da questão da reorganização do sistema financeiro, que, a meu ver, deveria ter sido a questão prioritária”.
No início desta Administração, Bernanke julgou que o novo presidente preencheria o lugar do leme. Assim pareceu nos primeiros momentos. Mas Obama cometeu um erro estratégico de prioridades e continua enredado na discussão das remunerações dos banqueiros, um aspecto secundário, enquanto a Wall Street afinou as suas técnicas de especulação e aproveitou para reforçar a concentração. Os big – depois de terem sido, em alguns casos, alcunhados de bancos-zombie – estão ainda mais big.
Um filme bem em contraste com o do presidente Franklin D. Roosevelt (1º mandato de 1933 a 1937) que se focalizou na crise logo nos primeiros 100 dias de governação, tendo feito assinar uma bateria de leis disciplinadoras do sistema financeiro de Março a Junho de 1933. Essa estratégia permitiu atalhar a vaga de financeirização da economia americana que vinha em crescendo desde 1860, apesar da primeira crise global sinalizadora de 1907 e 1908. FDR, logo neste primeiro mandato, lançou os alicerces da consolidação do Século da América.