Uma frase sobre taxas de câmbio apagada do comunicado final da reunião dos 21 membros da região da Ásia-Pacífico acabou por ser a estrela mediática da cimeira realizada em Singapura este fim-de-semana. A disputa entre americanos e chineses sobre as questões cambiais prossegue, esta semana, na China com a visita oficial de Obama. Mas esta cimeira revelou novos sintomas do declínio geopolítico relativo da América

O unanimismo do discurso político anticrise e anti-proteccionista da 17ª reunião do Foro de Cooperação Económica Ásia Pacífico (conhecido pela sigla em inglês APEC, para Asia-Pacific Economic Cooperation) sofreu uma borradela.

O Foro, que reuniu em Singapura (Cingapura) os seus 21 membros costeiros do Pacífico, no sábado e no domingo (14 e 15 de Novembro), não conseguiu concordar numa frase para o comunicado final. Rezava a frase acordada, previamente, numa reunião de ministros das Finanças na sexta-feira, que “as taxas de câmbio deveriam ser orientadas pelo mercado de modo a que reflictam os fundamentos económicos subjacentes”.

Frase apagada

O consenso rompeu-se, no entanto, no foro de líderes, apesar do colorido das camisas de linho com colarinhos à Mandarim. Estados Unidos e China não se entenderam, segundo fontes anónimas, sobre a escrita, e a frase foi apagada do comunicado final. Muitos membros da reunião expressaram preocupações sérias sobre os riscos de uma crise nos mercados de divisas, se o problema não for resolvido, admitiu o primeiro-ministro anfitrião, Lee Hsieng Loong, numa conferência de imprensa. Tudo indica que o tema transitou para a visita de Estado do presidente americano a Xangai e a Beijing, que se iniciou domingo, envolta em uma onda de obamania chinesa, e durará quatro dias.

Alguns membros pressionaram a China em relação à sua moeda indexada rigidamente ao dólar desde 2008, sendo o yuan (a moeda chinesa) acusado de estar subvalorizado, dando uma vantagem competitiva mercantilista ao antigo Império do Meio. As autoridades chinesas estabeleceram uma câmbio fixo de 6,83 yuans por dólar, desde Julho de 2008, depois de uma valorização de 21% ao longo dos três anos anteriores.

Os chineses, a partir de Beijing, pela voz do regulador bancário, Liu Mingkang, retorquiram, ainda no domingo, que as taxas de juro indicativas da Reserva Federal norte-americana, anormalmente baixas (quase próximas de zero e com as designadas call money rates para os brokers financeiros em níveis tão baixos jamais vistos desde 1953, como, recentemente, alertou o analista Mark J. Lundeen), estão a gerar uma nova “bolha” especulativa nas bolsas e a desencaminhar os fluxos financeiros da economia real para a economia de casino.

O que se está a associar a um novo colapso do dólar que prejudica os detentores de bens e mercadorias com preços em dólares, e activos e reservas em dólares (como são os chineses, entre outros, com mais de 2 biliões [triliões, na designação anglo-saxónica] de dólares em reservas estrangeiras). No entanto, o Banco da China já admitiu, na semana passada, considerar futuramente um conjunto de divisas na gestão do valor cambial do yuan.

Adiamento da zona de comércio livre

O comunicado continua a repetir o discurso oficial sobre a integração comercial na região com vista a uma zona livre de comércio, mas os passos ficaram atrás do que os analistas esperavam. Recorde-se que, em 1994, na Declaração de Bogor, os membros da APEC comprometeram-se a liberalizar o comércio na região em 2010 entre as economias mais avançadas e em 2020 em relação ao resto.
O comunicado reafirma que os presentes continuarão a “explorar os pilares” em relação a uma futura “possível” zona de comércio livre (FTAAP em inglês, Free Trade Area of the Asia Pacific).

Os objectivos ficaram por uma melhoria de 5% nas medidas em cinco áreas-chave em 2011 e de 25%, em acumulado, até 2015. Referiram, também, a prioridade a uma estratégia de interligação entre cadeias de fornecedores em oito chokepoints (pontos estratégicos de passagem do comércio internacional e das rotas marítimas) da região. Eis um ponto que os interessados no Pacífico deveriam estudar com atenção.

Porque razão este impasse na zona de comércio livre?

Este marcar de passo deriva das estratégias de domínio do Pacífico que estão em confronto.
A China prossegue, há muito, a sua política económica de projecção na região e a Grande Recessão destes três anos acelerou ainda mais essa guinada geopolítica para o estabelecimento de uma geometria variável de acordos comerciais com os seus vizinhos, nomeadamente o arco decisivo que compreende o Japão, a Coreia do Sul, Taiwan e a Austrália.

Ora estes países fundamentais na balança de poder no Pacífico – e todos eles, desde há várias décadas, apoios estratégicos dos Estados Unidos – estão a aproveitar a guinada chinesa para aguentarem as suas próprias economias durante a tormenta da Recessão. A “cenoura” é atraente: os produtos dos vizinhos asiáticos poderão passar a entrar na China em regime de duty-free, o que lhes dá uma vantagem face às imposições alfandegárias, em média de 9%, sobre os provenientes de outros países.

Em 2010, a China e 10 países do sudeste asiático assinam um acordo comercial que aligeira barreiras alfandegárias em produtos agrícolas e manufacturados. Está em fase de conclusão um acordo de comércio livre entre a China e a ilha de Taiwan, e prossegue a discussão entre chineses e sul-coreanos com a mesma finalidade. No caso da Coreia do Sul, a situação é bem ilustrativa: 24% das suas exportações destinam-se à China, enquanto, apenas, 10,5% se destinam aos EUA. Em Outubro passado, os chineses estiveram na Austrália e na Nova Zelândia com propósitos próximos.

Os chineses aproveitam duas dificuldades económicas estratégicas dos EUA: a situação da sua economia devastada pela Grande Recessão, endividada sobremaneira e alimentada apenas pela especulação bolsista; bem como a inabilidade política dos americanos nas negociações de acordos comerciais – ao contrário dos chineses que são cirúrgicos e focalizados, com objectivos muito precisos, em terrenos onde soluções win-win são fáceis de obter; os americanos prosseguem uma negociação muito ampla.

A reunião reclamou, ainda, a finalização da Ronda de Doha no âmbito do comércio mundial, apelando ao “pragmatismo e a toda a flexibilidade possível” pelas várias partes.

Turbulência inesperada

O colorido da cimeira ficou, também, enegrecido com a surpreendente disputa entre o Peru e o Chile, por causa de um alegado espião peruano que trabalharia para os chilenos, um escândalo que rebentara na quinta-feira nos media daqueles dois países e que está a trazer ao rubro a tendência crónica para o conflito entre países latino-americanos vizinhos (recorde-se o choque em curso entre Venezuela e Colômbia). O presidente peruano, Alan Garcia, acabaria por abandonar a cimeira.

À parte as divergências e os impasses, a cimeira decidiu pelo seguidismo em relação ao discurso político do G20 (manutenção das politicas anticrise por enquanto e intenções na área ambiental) e colocou-lhe algum sal próprio, como a reclamação de “um novo paradigma de crescimento” para depois da crise. Neste colorido local, a reunião chamou a atenção para estratégias de aumento das oportunidades às mulheres e de reforço da “resiliência social” (em que transpira alguma cópia da ideia europeia de “rede de segurança social” que, explica o comunicado, deve “fornecer segurança de curto-prazo, mas evitar dependência de longo prazo”).

20 anos de APEC

A APEC foi fundada em 1989 por 12 países ribeirinhos do Pacífico – Austrália, Brunei, Canadá, Coreia do Sul, Estados Unidos, Filipinas, Indonésia, Japão, Malásia, Nova Zelândia, Singapura e Tailândia. A partir de 1991 aderiram a China, Hong Kong, a ilha de Taiwan (designada curiosamente por Taipe Chinês), México, Papua-Nova Guiné, Chile, Peru, Rússia e Vietname.

Desde 1993 que o presidente americano Bill Clinton instituiu as reuniões anuais de líderes, a primeira das quais foi em Seattle, no estado de Washington, costeiro do Pacífico.

A próxima cimeira decorrerá no Japão e em 2011 será a vez do Hawai, anunciou Obama.

O foro passou a ter um director-executivo nomeado por um período fixo.