Novembro 2009


Pois, não imagina, pois não? São os alhos, exactamente aqueles bolbos com dentes. E onde? Na China, onde mais poderia ser?

A loucura do alho como activo financeiro está a galvanizar a China, que produz ¾ da produção mundial. Este produto agrícola já viu o seu preço no mercado chinês multiplicar por 15 desde Março.

Os analistas dizem que há diversas razões que estão a convergir para esta “bolha” inesperada. O disparo da procura do alho como medicina tradicional contra a gripe A, o aumento da exportação, dado a China ser o maior produtor do mundo, e, o que surpreendeu os analistas de commodities, e, enfim, a especulação desenfreada com estes dentes.

O truque é logístico. Se tiver liquidez financeira – algo que abunda hoje em dia na camada ligada ao imobiliário e à “bolha” bolsista na China – basta arranjar uns armazéns e uns quantos camiões, contam os repórteres do The Washington Post em Hong Kong e Xangai. Durante o dia vai movimentando a carga de uns armazéns para outros, sem deixar chegá-la aos mercados. Esta retenção temporária provoca a alta de preços.

Sem os pacotes de intervenção anticrise e o subsequente aumento da “bomba” da dívida pública (que, agora, começa a agitar comentaristas e consultoras) a recessão mundial, este ano, ter-se-ia situado num corredor entre 1,4% a 3,5% de queda do produto mundial, aproximando-se da dimensão da crise global de 1908, ainda que ficando a alguma distância da dos anos 1930. Ou seja, a quebra do produto mundial, em vez dos 1,1% estimados pelo Fundo Monetário Internacional para 2009, teria sido agravada entre 0,3 a 2,4 pontos percentuais.

A conclusão é de um grupo de investigadores em que sobressaem os nomes de Barry Eichengreen, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, e Kevin O´Rourke, do Trinity College de Dublin. A equipa procurou estabelecer um multiplicador das políticas orçamentais seguidas no combate à crise, sobretudo a partir de 2008, bem como realizou uma comparação com o que ocorreu durante a Grande Depressão dos anos 1930, apesar de sublinhar as profundas diferenças de contexto no tecido económico, no enquadramento monetário e na geoeconomia.

O multiplicador que aplicaram às estimativas de 2009 (o ano em que a contracção da produção e do comércio internacional deverá ser maior em todo este ciclo de crise) situa-se num intervalo entre 0,35% (limite mínimo) e 2,5% (limite máximo) adicionais por cada 1% do PIB de intervenção estatal. O que significa que o efeito multiplicador é muito díspar, dependendo das suas características. O estudo não inclui os efeitos da política monetária.

No caso do G20 estima-se que os pacotes de estímulos orçamentais anticrise possam corresponder a um equivalente a 2% do PIB mundial durante 2009. A OCDE, por seu lado, estima que, no caso dos seus países membros (que, entre os emergentes incluem, apenas, a Coreia do Sul e o México), o total dos estímulos deverá equivaler a 3,4% do PIB mundial até 2010.

Por isso, recomendam, a finalizar o estudo “From Great Depression to Great Credit Crisis: Similarities, Differences and Lessons”, que o abandono das políticas intervencionistas seja muito bem ponderado no momento e no ritmo. Matar a incipiente retoma no ovo seria o pior, concluem.

O sobreaquecimento no mercado do ouro poderá ainda receber mais achas. Uma hipótese, divulgada hoje num estudo em Singapura (Cingapura), aponta que apenas um acréscimo de 3 pontos percentuais no peso das reservas oficiais de ouro nas reservas totais de 8 países emergentes poderá provocar uma movimentação de 115 mil milhões de dólares.

O que poderá alumiar tal hipótese? Uma vontade política de oito emergentes em aplicarem dólares em ouro e diversificarem, mesmo que ligeiramente, as suas reservas. Uma decisão de impacto geoeconómico certo.

É, apenas, de 2,2% a média do peso das reservas oficiais de ouro nas reservas totais de um G8 de países emergentes, um grupo reunindo a China, Rússia, Índia, Brasil, Taiwan, Coreia do Sul, Hong Kong e Singapura.

O que compara muito desfavoravelmente com a média de um outro G8 formado pelos Estados Unidos, Japão, Banco Central Europeu, Reino Unido, Alemanha, Itália, França e Suíça, cuja média sobe aos 37,9%. No caso português, para dados do Banco de Portugal, de 2008, esse peso das reservas oficiais de ouro nas reservas totais seria de 34%.

Segundo um relatório, divulgado hoje em Singapura, oriundo da BlueGold Capital Management (um hedge fund domiciliado em Malta e criado há dois anos, muito activo em Londres e naquela cidade asiática), se o primeiro G8 emergente decidir politicamente aumentar o peso do ouro nas reservas totais em apenas 3 pontos percentuais, o que é considerada uma projecção muita conservadora, o mercado de compras de ouro seria “sobreaquecido” pela movimentação de 115 mil milhões de dólares (77 mil milhões de euros), a divisa em que está cotada a onça de ouro (que hoje cotava nos $1164).

O recente negócio feito pela Índia, adquirindo 200 toneladas de ouro ao Fundo Monetário Internacional, representa, apenas, 6% daquela hipótese.

O congressista republicano Ron Paul ganhou mais uma batalha no seu projecto de impor uma auditoria à Reserva Federal americana (FED).

Depois de várias horas de debate aceso no Comité de Serviços Financeiros do Congresso, Paul conseguiu fazer passar, na semana passada, uma emenda a uma proposta de lei do democrata Barney Frank para “uma melhoria da estabilidade financeira”, proposta de lei cuja votação, entretanto, foi adiada por iniciativa do seu proponente. A emenda de Paul foi patrocinada por Alan Grayson, representante democrata da Flórida.

A emenda cirúrgica, abrindo a possibilidade de auditorias à FED, passou por 46 votos a favor e 26 contra, todos democratas. Nos 46 “aye” (sim), contaram-se 12 democratas no Comité.

Remoção de obstáculo legal

Ron Paul, recorde-se, conseguiu congregar, até à data, 300 membros no Congresso americano para apoio à sua proposta de lei de auditoria, o que significa que tem apoio bipartidário. A auditoria através do Government Accountability Office (mais conhecido pelo acrónimo GAO), um organismo de investigação do Congresso americano para a auditoria e avaliação das actividades e programas governamentais, pretende “contornar” a independência da FED e obrigar a um primeiro processo de escrutínio das suas políticas e acções pelos representantes legítimos do povo.

A emenda aprovada, agora, permite remover um obstáculo legal: a proibição, desde há três décadas (desde que se iniciou a nova vaga de financeirização da economia americana) da realização de auditorias à política monetária do sistema do banco central, no caso à própria FED e aos seus 12 bancos regionais.

O descrédito desta política emergiu com a irrupção desta crise. As políticas monetárias pró-cíclicas durante as últimas duas décadas conduziram ao avolumar de factores de instabilidade financeira (como bem avisou o economista Hyman Minsky ao longo de décadas) que acabaram por provocar uma crise financeira, global e mais profunda do que as geradas pelos anteriores crashes (como o do Nasdaq em 2000) e crises regionais (como a asiática de 1997-1998).

O homem da rua americano entende perfeitamente o discurso de Paul contra o “laxismo” do banco central antes da crise de 2007.

End The FED: a cruzada de Paul

O descrédito acentuou-se com as politicas monetárias anticrise seguidas pela FED desde o Pânico Financeiro do último quadrimestre de 2008 que provocaram o cavar de uma economia americana a duas velocidades e o regresso de uma míni-bolha especulativa na Wall Street a partir de Março de 2009.

O enervamento da “rua” (Main Street) contra esta situação, cavou a oportunidade política que o texano Ron Paul (um republicano atípico) pretende aproveitar, dentro da sua cruzada contra o banco central, propondo a sua extinção, tema a que voltou com o seu livro recente, já best-seller, ‘End the FED’.

O Banco Central foi criado em 1913 em resposta aos problemas ocorridos com o crash de 1907 e a crise global de 1908. Os poderes do comité de governadores do sistema foram reforçados depois da Grande Depressão dos anos 1930 e progressivamente o presidente desse comité concentrou poder nas suas mãos, de que a era Alan Greenspan é provavelmente o arquétipo.

O argumento da superioridade tecnocrática

A ideia política em que se baseia esta estrutura constitucional da FED foi bem expressa, ainda recentemente, por Alan S. Blinder, professor de Princeton, neste trecho publicado no The Washington Post de sexta-feira passada: “ [a independência da política monetária] permitiu o triunfo da visão de longo prazo dos tecnocratas sobre as perspectivas de curto prazo dos políticos”. E, mais adiante, termina: “Por causa disso, e porque a política monetária tecnocrática parece ser mais capaz do que a política monetária dos políticos, a independência da FED tem sido admirada e imitada por outros países”.

O argumento da “superioridade” da tecnocracia sobre a política regressa, ainda que os factos de como se engendrou esta crise e de como ela foi combatida e com que resultados estejam bem à vista, e questionem claramente a eficácia dos tecnocratas.

A fragmentação da estratégia democrata

Para erguer um “dique” contra esta maré de Ron Paul, os democratas lançaram duas iniciativas, uma no Congresso e outra no Senado.

Uma delas é a já citada proposta de lei de Barney Frank no Congresso e a outra uma proposta que corre no Comité sobre a Banca no Senado visando os poderes de supervisão da FED e permitindo aos parlamentares americanos maior voz na escolha dos tecnocratas que integram todo o aparelho da política monetária. Esta última proposta é patrocinada por Christopher Dodd, o senador democrata que preside ao Comité sobre a Banca.

Os críticos da proposta acusam-na de politizar ainda mais as escolhas da nomenklatura do banco central e de concentrar ainda mais poder em Washington DC em detrimento da independência da política monetária e da diversidade de posições dentro do desenho original do sistema descentralizado da Reserva Federal.

Efeitos colaterais da crise

A história da resposta ao pânico financeiro de 2008 revelou duas facetas da FED: a total ausência de liderança política por parte da Presidência, do anterior presidente W. Bush, e o afunilamento das decisões na hora num duo, ou numa troyka de personagens – o chefe da FED, o secretário do Tesouro e o chefe do Banco da Reserva Federal de Nova Iorque – em que o domínio do chefe da FED era óbvio e a ausência de diversidade de opiniões manifesta.

A nomeação de Tim Geithner (o anterior chefe da Reserva em Nova Iorque e braço-direito de Bernanke na gestão da crise) para secretário do Tesouro, a indigitação de Bernanke para novo mandato à frente da FED e a opção da Administração Obama pela prioridade na questão da lei sobre o sistema de saúde, cavaram o espaço político por onde entrou a proposta de Ron Paul e a fragmentação de iniciativas democratas no Congresso e no Senado.

O debate que corre na América terá, naturalmente, spill overs sobre o papel dos Bancos Centrais em outras partes do mundo. Por isso, é uma questão crítica e não uma “americanice”.

Primeiro, no emergir da crise, a ausência de estratégia por parte da Administração Bush. Sobrou em activismo ad hoc e oportunismo eleitoralista. Depois, com a nova Administração Obama, que resolveu dar prioridade política à reforma do sistema de saúde em vez de se focalizar na prioridade das prioridades: a reforma do sistema financeiro. Quem ganhou com ambos os erros: claramente os grupos da Wall Street que reforçaram a consolidação do sector, respiram de alívio com os milhões dos contribuintes para evitarem uma vaga de grandes falências e conseguiram dar a pirueta de pôr de novo a bolsa em clima de míni-bolha.

A distância temporal com o Pânico Financeiro dos últimos quatro meses de 2008 e do primeiro trimestre de 2009 permite uma análise mais fria. As primeiras análises críticas do comportamento das autoridades americanas começam a entrar nos escaparates.

Um dos livros que marcou a análise deste período foi o publicado por David Wessel, intitulado sugestivamente In Fed We Trust, cujo autor entrevistámos na altura. Ele revelou um conhecimento de muitos detalhes – alguns deles confidenciais. Mas sobretudo permitiu traçar um retrato dos principais protagonistas na gestão da crise.

E o retrato que traçou não foi lisonjeiro para a América.

Por um lado, ficou a nu a clara ausência de liderança presidencial: George W. Bush foi um espectador, por vezes patético, com comentários de bar. A condução do activismo estatal ficou nas mãos de um duo, o secretário do Tesouro, Henry Paulson, e o presidente da Reserva Federal, Ben Bernanke; segundo outros, haveria que adicionar Tim Geithner, então presidente do Banco da Reserva Federal de Nova Iorque (e actual secretário do Tesouro).

A Administração americana não esperava qualquer crise desta dimensão (convencida pelos liberais de que as crises graves eram coisas do passado e que tudo “estava sob controlo”), ficou surpresa e revelou não ter nada de estratégia na cabeça para além dos movimentos que realizou na geopolítica, em grande medida fiascos ou tiros nos pés.

Por outro, ao lermos o filme das intervenções fica-se com a sensação clara de que o duo ou o trio actuou profundamente ad hoc e que, de início, não tinha noção clara da gravidade da situação: no fundo, acreditavam que se tratava de uma crisezita do subprime (ainda por cima um veículo financeiro completamente desconhecido) sem ramificações sistémicas nem globais. Isso os teria levado a subestimar o impacto de deixarem falir, naquelas circunstâncias, a Lehman Brothers – não era só “too big to fail”, era “too connected to fail”, como corrigiu Wessel.

Ben Bernanke, que estudara a Grande Depressão dos anos 1930 e dela tirara ilações – como a ausência de intervenção governamental séria anti-crise até à subida de Franklin D. Roosevelt (FDR) já a depressão levava quatro anos (!) – a partir do momento em que viu diante dos seus olhos o filme do pânico financeiro e da emergência de uma depressão à escala global, arregaçou as mangas, largou a canga ideológica de arauto da “grande moderação”, e lançou-se com pragmatismo na manipulação das armas do banco central. Foi constrangido pela gestão política da crise por parte de Paulson tendo em conta as eleições presidenciais, e acabou traído por parte dos republicanos no próprio Congresso. Sentiu, também, que a partir de certo limiar a própria manipulação das taxas de juro chega a um beco sem saída, como já acontecera na crise japonesa da última década e meia.

“Enrodilharam-se no dia-a-dia da gestão da crise, sempre atrás dos acontecimentos. Perderam a oportunidade de agir com estratégia. A estratégia dissolveu-se na táctica. Aquando dos acontecimentos do Lehman Brothers, naqueles 10 ou 12 dias de caos e confusão, não houve liderança alguma da parte de Washington DC. A liderança perdeu uma oportunidade num momento crítico”, diz-nos, com veemência, o economista francês Jacques Sapir que veio a Lisboa apresentar a tradução de um livro seu de há sete anos atrás, Os Buracos Negros da Ciência Económica (que peca por não ter um prefácio actualizado, apesar de muito do que o livro sustenta se ter verificado ao vivo nesta crise).

O pecado de Obama

Mas Sapir vai mais longe na apreciação crítica. Considera, também , que “houve uma oportunidade perdida por Obama”. O novo presidente “decidiu dar prioridade política à reforma da saúde – que é bem necessária -, mas fê-lo em detrimento da questão da reorganização do sistema financeiro, que, a meu ver, deveria ter sido a questão prioritária”.

No início desta Administração, Bernanke julgou que o novo presidente preencheria o lugar do leme. Assim pareceu nos primeiros momentos. Mas Obama cometeu um erro estratégico de prioridades e continua enredado na discussão das remunerações dos banqueiros, um aspecto secundário, enquanto a Wall Street afinou as suas técnicas de especulação e aproveitou para reforçar a concentração. Os big – depois de terem sido, em alguns casos, alcunhados de bancos-zombie – estão ainda mais big.

Um filme bem em contraste com o do presidente Franklin D. Roosevelt (1º mandato de 1933 a 1937) que se focalizou na crise logo nos primeiros 100 dias de governação, tendo feito assinar uma bateria de leis disciplinadoras do sistema financeiro de Março a Junho de 1933. Essa estratégia permitiu atalhar a vaga de financeirização da economia americana que vinha em crescendo desde 1860, apesar da primeira crise global sinalizadora de 1907 e 1908. FDR, logo neste primeiro mandato, lançou os alicerces da consolidação do Século da América.

Um relatório do analista de estratégia francês Daniel Fermon sobre a hipótese de um cenário negro de colapso económico global nos próximos anos, em virtude do disparo da dívida pública dos Estados desenvolvidos para um patamar, em média, superior a 100% do PIB, agitou os meios financeiros. É a dívida (pública), estúpido!, pode ser o resumo do relatório de choque.

Não sendo uma previsão, mas “uma exploração de perigos” (como sublinha, logo, o analista), o panorama para os próximos três a quatro anos nos países desenvolvidos, alvitrado pelo relatório negro de 68 páginas divulgado ontem pela Société Générale (SG), aponta: a) para crescimento “anémico” à japonesa nos próximos anos, b) regresso à ortodoxia orçamental, c) riscos de inflação ou de estagflação em 2012 (se os chineses procederem a uma valorização substancial da sua moeda), e d) de oportunidades em algumas commodities que denotam tendência altista.

A questão crítica, segundo o relatório de choque, poderia resumir-se à expressão de campanha política: É a dívida (pública), estúpido!

Intitulado “Worst-Case Debt Scenario”, com a assinatura do analista de estratégia Daniel Fermon – que integrou a SG em 2004 –, o equacionar de um cenário de “éffondrement générale” agitou os meios financeiros e produziu um disparo do debate na blogosfera desde ontem, tendo incluído um período de perguntas & respostas em directo com Fermon através do portal francês da Boursorama.com.

Segundo o cenário, a dívida pública externa (não incluindo a dos privados) dos Estados nos países desenvolvidos passará, em média, de 75% do produto interno bruto (PIB) de cada país em 2007 (antes da Grande Recessão) para 115% no próximo ano. Se compararmos com a recomendação do Tratado de Maastricht (60%) para a Europa, o patamar crítico seria galgado, em média, quase para o dobro.

A situação actual pode ser consultada aqui, com destaque para as situações mais críticas, entre os desenvolvidos, do Japão (173% do PIB, segundo a OCDE), Itália (113%), Grécia (100,8%), Singapura (113,7%, segundo a CIA) e Bélgica (92,2%). Portugal, segundo a OCDE, estaria nos 70,9% do PIB. Acima do “limite” maastrichtiano estariam, hoje, na União Europeia, segundo a OCDE, os seguintes países (por ordem decrescente de gravidade): Itália, Grécia, Bélgica, Hungria, França, Portugal, Alemanha e Áustria. Próximo do limiar estariam o Reino Unido, a Holanda e a Polónia, mas ainda com folga.

Dívida “insustentável” em 2011

Olhando mais em particular para as grandes potências do falecido G7, o relatório aponta para um patamar da divida pública em 2011, daqui a três anos, de 270% do PIB no Japão (o caso mais grave), 125 % nos EUA e na Zona Euro em média e 105% no Reino Unido (que convergirá para a média europeia por volta de 2015).

Trata-se de um nível de endividamento público “inteiramente insustentável no longo prazo; atingimos praticamente um nível de endividamento público de não retorno”, diz o relatório.

O endividamento público total à escala mundial passaria de 18 biliões de dólares (nota: triliões, na designação anglo-saxónica) em 2001, no início desta década, para 45 biliões de dólares em 2011. A título ilustrativo, os 45 biliões, a valores do ano passado, representariam em termos relativos 74% do PIB mundial de 2008.

Este disparo da dívida pública dos Estados desenvolvidos ocorre em virtude de uma transferência da dívida da esfera privada para a pública na ordem dos 6% no caso dos EUA e de 2% no caso da Europa, segundo o relatório.

Se olharmos à dívida total bruta (pública e privada) nos países desenvolvidos a situação crítica é multiplicada, o que pode ser verificado aqui.

Regresso à ortodoxia orçamental

No debate na blogosfera, Fermon foi questionado sobre quais os caminhos prováveis face a este disparo da dívida pública. O analista apontou três caminhos, admitindo que um quarto de falência dos Estados (como aconteceu à Islândia) possa ser colocado de parte: regresso de uma dinâmica de inflação muito clara a partir de 2012 (que se poderá acentuar se os chineses procederem a valorizações substanciais da sua moeda, como têm sido pressionados insistentemente); intervencionismo do Estado em sentido diferente do actual com vista a aliviar a carga (havendo várias opções, que referiremos adiante); e inovação acelerada à la Schumpeter (Fermon falou eventualmente do papel animador do cluster dos green business).

No campo da intervenção dos governos, Fermon alvitra uma geometria variável de políticas, separadas ou em conjunto, com um regresso político à “ortodoxia orçamental”: a) reprivatizações; b) aumento dos impostos (e das receitas fiscais); c) redução drástica pelo lado da despesa dos Estados; c) desvalorizações competitivas da moeda.

Para o investidor privado, Fermon apontou, a curto prazo (mais do que a 12 meses, Fremont disse claramente que não recomendava nada, a não ser “fazer escolhas estratégicas”), para quatro saídas de aplicação financeira: a) obrigações dos Estados; b) acções dos mercados emergentes; c) ouro (que já se aproximou, esta semana, dos 1150 dólares por onça, com uma variação média nos últimos doze meses de 47%) e outros metais preciosos (a prata com uma variação média de 70% e a platina de 60%); e d) algumas outras commodities em alta nos últimos doze meses como as alimentares (o açúcar com uma variação de 91% e o cacau de 60%) e industriais (o cobre com 60% e o algodão com 55%).

Como nota final, refira-se que alguns analistas acusam este tipo de relatórios de serem veículos de pressão sobre os governos para o abandono das políticas anticrise que já estariam a durar excessivamente.

Barack Obama dificilmente encarna a pele do Uncle Sam, desiludam-se os anti-globalistas e anti-yankees. As juventudes asiáticas deliram com o seu carisma natural e a sua retórica esmerada, a sua soltura e habilidade em falar de temas-tabu ou complexos para os anfitriões.

Yes, he can, o homem consegue. A obamamania, de Mao-Bama, foi uma loucura em Xangai e em Beijing. O negócio correu à boa moda comercial capitalista chinesa ancestral, às mil maravilhas, para os homens das t-shirt do paredão do Bund (em Xangai) ou frente à Cidade Proibida em Beijing ou na Muralha. A palavra entrou na juventude e nos quadros que o escutaram – mas o efeito é de longo prazo. Todos os que o ouviram (com caras de pau ou faces mais expressivas) sabem que têm de ser pragmáticos e não idealistas – os que gritam “yes we can” ficam restritos a movimentos em Hong Kong ou no estrangeiro.

Mas, paradoxo dos tempos geopolíticos que correm, o que Obama ganha em penetração de imagem e de pensamento nos fãs, não traz saldo no plano geopolítico e geo-económico imediato. Os dirigentes chineses mostraram que a China pode dizer não, ou pelo menos, ficar calada, e não responder às exigências de Washington, como reporta o The New York Times, numa peça de ontem que vale a pena ler.

É claro que Obama não é um ingénuo, com pose desenvolta, como turista adolescente maravilhado, visitando os marcos da China milenar, deixando-se manipular politicamente pela central de spin de Beijing. Ele sabe que há um trade-off nisto tudo – ganhos a longo prazo através da mensagem e da postura, mas saldo parco a curto e médio prazos, pois a China não é uma Rússia em colapso nos anos 1990 com olhos e ouvidos escancarados, disponíveis, para a receita americana ideológica, económica ou geoestratégica (os pontos “quentes” do globo que afligem os EUA e a Europa).

A realidade geopolítica é outra – a China é cada vez mais um par no duo do G2. Para o americano médio, provavelmente mais do que as geopolitiquices, restará saber algo que lhe toca na algibeira: e os chineses vão continuar a financiar-nos a boa vida ou não, Mr. Obama?

Mas para todas as potências, grandes, médias e pequenas, a imagem marcante que ficar desta viajem de Obama ao Império do Meio será crucial para os passos que cada um pensa dar.

A impaciência de muitos analistas e países (ainda no fim de semana passado se ouviu uma crítica contundente oriunda de Beijing, da parte do regulador bancário, Liu Mingkang) deriva do facto de ser cada vez mais visível uma economia a duas velocidades em alguns nos países OCDE, e em particular nos Estados Unidos.

De um lado, uma economia real com falta de liquidez nas empresas, dificuldades na descolagem da exportação e desemprego estrutural crescente; e, do outro, um sector financeiro exuberante, com uma míni-bolha nas bolsas (o Dow Jones norte-americano estava ontem próximo dos 10.500 pontos e o índice S&P 500 já subiu 62% desde o ponto mais baixo da Bolsa em Março passado), nas commodities (por exemplo, com a onça de ouro a aproximar-se, esta semana, da barreira dos 1150 dólares, novo máximo histórico nominal) e no negócio das divisas (através das aplicações de carry trade) fruto do colapso do dólar americano.

No caso do ouro, que ultrapassou a barreira do anterior máximo histórico a 6 de Outubro (cotando-se em 1040,1 dólares por onça), não tem deixado de se mover num clima de euforia altista. Ontem, fechou nos 1140 dólares por onça e já há analistas do mercado do ouro a falar do objectivo dos 1200 dólares até final do ano. O clima especulativo no ouro tem beneficiado inclusive da tendência entre os países emergentes com liquidez de divisas em aumentarem as suas reservas oficiais em ouro dando um sinal político da importância deste metal precioso como “refúgio”.

Depois da compra recente pelo banco central da Índia de 200 toneladas de ouro de um lote de 403 disponibilizado pelo Fundo Monetário Internacional, foi a vez das Ilhas Maurícias adquirirem 2 toneladas na semana passada.

Neutralidade da política monetária não existe

O analista independente Mark J. Lundeen refere, no seu mais recente boletim de análise dos mercados, que as taxas de juro indicativas da Reserva Federal norte-americana, anormalmente baixas (quase próximas de zero e com as designadas call money rates para os brokers financeiros em níveis tão baixos jamais vistos desde 1953!), estão a gerar uma nova “bolha” especulativa nas bolsas e a desencaminhar os fluxos financeiros da economia real para a economia de casino.

O que demonstra, uma vez mais, que as políticas monetárias são tudo menos neutras – como sempre sublinhou Keynes – e podem gerar efeitos paradoxais. Não o foram no tempo da fase ascendente do ciclo de negócios quando fomentaram activamente um clima especulativo de “bolha” através de uma política monetária pró-cíclica dirigida por Alan Greenspan (então criticada por alguns, como William White, do BIS, que foram ignorados), como o não são, agora, em pleno período de política monetária anti-cíclica (anticrise).

Nos EUA, o comentador Martin Hutchinson fala de “um nirvana dos rentier”. Um dos “motores” desta exuberância seria um excedente de liquidez nos mercados financeiros que, no caso da Zona Euro, subiria a 100 mil milhões de dólares, segundo a revista belga Trends. Segundo o analista americano Peter Cohan, cerca de 360 mil milhões de dólares estariam disponíveis em fundos de mercado.

Uma frase sobre taxas de câmbio apagada do comunicado final da reunião dos 21 membros da região da Ásia-Pacífico acabou por ser a estrela mediática da cimeira realizada em Singapura este fim-de-semana. A disputa entre americanos e chineses sobre as questões cambiais prossegue, esta semana, na China com a visita oficial de Obama. Mas esta cimeira revelou novos sintomas do declínio geopolítico relativo da América

O unanimismo do discurso político anticrise e anti-proteccionista da 17ª reunião do Foro de Cooperação Económica Ásia Pacífico (conhecido pela sigla em inglês APEC, para Asia-Pacific Economic Cooperation) sofreu uma borradela.

O Foro, que reuniu em Singapura (Cingapura) os seus 21 membros costeiros do Pacífico, no sábado e no domingo (14 e 15 de Novembro), não conseguiu concordar numa frase para o comunicado final. Rezava a frase acordada, previamente, numa reunião de ministros das Finanças na sexta-feira, que “as taxas de câmbio deveriam ser orientadas pelo mercado de modo a que reflictam os fundamentos económicos subjacentes”.

Frase apagada

O consenso rompeu-se, no entanto, no foro de líderes, apesar do colorido das camisas de linho com colarinhos à Mandarim. Estados Unidos e China não se entenderam, segundo fontes anónimas, sobre a escrita, e a frase foi apagada do comunicado final. Muitos membros da reunião expressaram preocupações sérias sobre os riscos de uma crise nos mercados de divisas, se o problema não for resolvido, admitiu o primeiro-ministro anfitrião, Lee Hsieng Loong, numa conferência de imprensa. Tudo indica que o tema transitou para a visita de Estado do presidente americano a Xangai e a Beijing, que se iniciou domingo, envolta em uma onda de obamania chinesa, e durará quatro dias.

Alguns membros pressionaram a China em relação à sua moeda indexada rigidamente ao dólar desde 2008, sendo o yuan (a moeda chinesa) acusado de estar subvalorizado, dando uma vantagem competitiva mercantilista ao antigo Império do Meio. As autoridades chinesas estabeleceram uma câmbio fixo de 6,83 yuans por dólar, desde Julho de 2008, depois de uma valorização de 21% ao longo dos três anos anteriores.

Os chineses, a partir de Beijing, pela voz do regulador bancário, Liu Mingkang, retorquiram, ainda no domingo, que as taxas de juro indicativas da Reserva Federal norte-americana, anormalmente baixas (quase próximas de zero e com as designadas call money rates para os brokers financeiros em níveis tão baixos jamais vistos desde 1953, como, recentemente, alertou o analista Mark J. Lundeen), estão a gerar uma nova “bolha” especulativa nas bolsas e a desencaminhar os fluxos financeiros da economia real para a economia de casino.

O que se está a associar a um novo colapso do dólar que prejudica os detentores de bens e mercadorias com preços em dólares, e activos e reservas em dólares (como são os chineses, entre outros, com mais de 2 biliões [triliões, na designação anglo-saxónica] de dólares em reservas estrangeiras). No entanto, o Banco da China já admitiu, na semana passada, considerar futuramente um conjunto de divisas na gestão do valor cambial do yuan.

Adiamento da zona de comércio livre

O comunicado continua a repetir o discurso oficial sobre a integração comercial na região com vista a uma zona livre de comércio, mas os passos ficaram atrás do que os analistas esperavam. Recorde-se que, em 1994, na Declaração de Bogor, os membros da APEC comprometeram-se a liberalizar o comércio na região em 2010 entre as economias mais avançadas e em 2020 em relação ao resto.
O comunicado reafirma que os presentes continuarão a “explorar os pilares” em relação a uma futura “possível” zona de comércio livre (FTAAP em inglês, Free Trade Area of the Asia Pacific).

Os objectivos ficaram por uma melhoria de 5% nas medidas em cinco áreas-chave em 2011 e de 25%, em acumulado, até 2015. Referiram, também, a prioridade a uma estratégia de interligação entre cadeias de fornecedores em oito chokepoints (pontos estratégicos de passagem do comércio internacional e das rotas marítimas) da região. Eis um ponto que os interessados no Pacífico deveriam estudar com atenção.

Porque razão este impasse na zona de comércio livre?

Este marcar de passo deriva das estratégias de domínio do Pacífico que estão em confronto.
A China prossegue, há muito, a sua política económica de projecção na região e a Grande Recessão destes três anos acelerou ainda mais essa guinada geopolítica para o estabelecimento de uma geometria variável de acordos comerciais com os seus vizinhos, nomeadamente o arco decisivo que compreende o Japão, a Coreia do Sul, Taiwan e a Austrália.

Ora estes países fundamentais na balança de poder no Pacífico – e todos eles, desde há várias décadas, apoios estratégicos dos Estados Unidos – estão a aproveitar a guinada chinesa para aguentarem as suas próprias economias durante a tormenta da Recessão. A “cenoura” é atraente: os produtos dos vizinhos asiáticos poderão passar a entrar na China em regime de duty-free, o que lhes dá uma vantagem face às imposições alfandegárias, em média de 9%, sobre os provenientes de outros países.

Em 2010, a China e 10 países do sudeste asiático assinam um acordo comercial que aligeira barreiras alfandegárias em produtos agrícolas e manufacturados. Está em fase de conclusão um acordo de comércio livre entre a China e a ilha de Taiwan, e prossegue a discussão entre chineses e sul-coreanos com a mesma finalidade. No caso da Coreia do Sul, a situação é bem ilustrativa: 24% das suas exportações destinam-se à China, enquanto, apenas, 10,5% se destinam aos EUA. Em Outubro passado, os chineses estiveram na Austrália e na Nova Zelândia com propósitos próximos.

Os chineses aproveitam duas dificuldades económicas estratégicas dos EUA: a situação da sua economia devastada pela Grande Recessão, endividada sobremaneira e alimentada apenas pela especulação bolsista; bem como a inabilidade política dos americanos nas negociações de acordos comerciais – ao contrário dos chineses que são cirúrgicos e focalizados, com objectivos muito precisos, em terrenos onde soluções win-win são fáceis de obter; os americanos prosseguem uma negociação muito ampla.

A reunião reclamou, ainda, a finalização da Ronda de Doha no âmbito do comércio mundial, apelando ao “pragmatismo e a toda a flexibilidade possível” pelas várias partes.

Turbulência inesperada

O colorido da cimeira ficou, também, enegrecido com a surpreendente disputa entre o Peru e o Chile, por causa de um alegado espião peruano que trabalharia para os chilenos, um escândalo que rebentara na quinta-feira nos media daqueles dois países e que está a trazer ao rubro a tendência crónica para o conflito entre países latino-americanos vizinhos (recorde-se o choque em curso entre Venezuela e Colômbia). O presidente peruano, Alan Garcia, acabaria por abandonar a cimeira.

À parte as divergências e os impasses, a cimeira decidiu pelo seguidismo em relação ao discurso político do G20 (manutenção das politicas anticrise por enquanto e intenções na área ambiental) e colocou-lhe algum sal próprio, como a reclamação de “um novo paradigma de crescimento” para depois da crise. Neste colorido local, a reunião chamou a atenção para estratégias de aumento das oportunidades às mulheres e de reforço da “resiliência social” (em que transpira alguma cópia da ideia europeia de “rede de segurança social” que, explica o comunicado, deve “fornecer segurança de curto-prazo, mas evitar dependência de longo prazo”).

20 anos de APEC

A APEC foi fundada em 1989 por 12 países ribeirinhos do Pacífico – Austrália, Brunei, Canadá, Coreia do Sul, Estados Unidos, Filipinas, Indonésia, Japão, Malásia, Nova Zelândia, Singapura e Tailândia. A partir de 1991 aderiram a China, Hong Kong, a ilha de Taiwan (designada curiosamente por Taipe Chinês), México, Papua-Nova Guiné, Chile, Peru, Rússia e Vietname.

Desde 1993 que o presidente americano Bill Clinton instituiu as reuniões anuais de líderes, a primeira das quais foi em Seattle, no estado de Washington, costeiro do Pacífico.

A próxima cimeira decorrerá no Japão e em 2011 será a vez do Hawai, anunciou Obama.

O foro passou a ter um director-executivo nomeado por um período fixo.

(Publicado originalmente no blogue ‘A Regra do Jogo’, revisto)

Confesso que prefiro folhear o sumário, sentir o macio ou o áspero das páginas, ler algumas de trás para a frente, ir ao índice ver algumas palavras-chave e rapidamente ter um cheiro do que o autor diz.

Não desprezo a Amazon.com, bem pelo contrário sou um viciado sobretudo na procura de livros esgotados nas livrarias, aqueles que nem nas editoras já se encontram exemplares estragados nos armazéns, mas que se descobrem, por vezes a preço de pechincha, mais ou menos usados, nos revendedores associados da loja global de Jeff Bezzos, um tipo com umas sonoras gargalhadas, quando o entrevistei nos idos 1990.

Mas a minha costela tradicionalista em matéria de papel empurra-me sempre para alguma peregrinação por livrarias à antiga, onde, também, em regra encontramos livros de décadas mais remotas do século XX. É o caso da do nº36, que aqui se tem de soletrar como thirty-six. Não na variante do inglês de Shakespeare, mas de Beckett, Joyce, Yeats, Shaw e Wilde, entre os dubliners mais famosos.

O 36 é um prédio oitocentista que fica no cruzamento com mais línguas faladas por metro quadrado de Dublin e entre o conhecimento (o Trinity College) à direita e a finança (o Banco de Irlanda) em frente. Da rua subimos uma leva de escadas estreitas e entramos numa loja pouco mais larga em que a mesa ao centro com as novidades (não quer dizer que sejam edições recentes, mas escolhas do livreiro com preços convidativos) só permite que haja uma pessoa de cada lado. Ao rebuscar nas prateleiras, arriscamo-nos a dar uma cotovelada em quem está atrás, dizer sorry, sorry atabalhoadamente e apanhar alguns livros do chão.

A velha livraria tem um nome bem singelo – apenas Books Usptairs (o que é totalmente verdade), e vem no guia turístico como tendo verdadeiras pechinchas em obras de qualidade. Faz parte do meu ritual quando vou à capital irlandesa. Pode calhar por lá andar algum poeta, dramaturgo ou novelista dublinense, mas confesso que nunca dei encontrão em nenhum.

Um livrinho rápido de ler

Desta vez, ao olhar para o placard de recortes de jornais dou com um bem grande, ainda não muito amarelecido, sobre recensões de livros recentes a respeito de Keynes, de seu nome completo John Maynard Keynes (1883-1946), o célebre economista inglês que morreu ao terceiro ataque cardíaco no já distante ano de 1946, mas que, hoje, está na berra como se assistisse ao G20 integrado na delegação inglesa e rivalizasse com Obama na oratória.

Escreveu-se sobre ele abundantemente, mas sobressaem, naturalmente, as biografias. As clássicas envolvem uma de 1951, escrita por Roy Harrod. O livreiro me informa que vendeu uns últimos exemplares em paperback da edição de 1983, mas que ainda encontramos em livros usados na Amazon. É um livro denso, de mais de 800 páginas. Há, depois, as obras de referência do biógrafo oficial de Keynes – é uma trilogia assinada por Lorde Robert Skidelsky (que entrevistei recentemente a propósito da sua última obra, The Return of the Master), material já para especialistas. Há, ainda, o livro de ensaios de reflexão teórica de Hyman Minsky sobre o que é, na verdade, o keynesianismo, publicado em 1975, com o nome completo de Keynes como título.

Perguntei ao livreiro se teria algo rápido de se ler, quase como romance. Ele correu para uma das prateleiras mais escondidas, remexeu e trouxe-me Keynes, de Robert Cord, um ex-economista da Dun & Bradstreet apaixonado pelo mestre de Cambridge e pelo seu grupo boémio londrino, de Bloomsbury.

É um livrinho recente, de 2007, de menos de 15 x 20 cm, com apenas 130 páginas de texto narrativo da vida de Maynard, como o tratavam os mais chegados – e, claro, no nº36 custa menos de 9 euros em novo. Lê-se em duas noites depois de um recession menu (uma invenção dublinense para se comer mais barato em tempos de Grande Recessão) regado com umas Guinness num dos locais sagrados de Temple Bar.

Cord consegue percorrer a vida do mais afamado economista inglês do século XX salientando dois pontos que, por vezes, são menos focados por quem quer dar de Keynes uma imagem de receituário despesista: o processo evolutivo do seu pensamento e do seu percurso, e o enquadramento geopolítico que, sempre, estava presente na sua genial mente.

Duas razões de actualidade

Maynard, se as cinzas dele me permitem a intimidade, não é só actual pela célebre polémica entre 1931 e 1932 nas páginas das revistas Economica e Economic Journal contra o austríaco Friedrich von Hayek, então a dar umas palestras na London School of Economics. Discordavam sobre a política anticrise economica e monetária a seguir face à Grande Depressão então em curso (1931 e 1932 seriam, aliás, os piores anos de quebra mundial do produto e do comércio internacional).

O debate entre os dois – anterior a Keynes ter escrito o seu The General Theory (1936) e muito antes de Hayek ter escrito a sua obra-prima The Road to Serfdom (1944) – ainda hoje gera polémica e visões bem distintas.

Maynard é, também, profundamente actual pelo seu papel nas negociações de Bretton Woods, nos anos 1940, ao ter sugerido uma divisa internacional de reserva, o «bancor», que evitaria prender o mundo quer aos humores da libra (então em franco colapso) e do império britânico (em total declínio como superpotência) como aos do dólar americano e da nova superpotência triunfante (os Estados Unidos).

Como me referiu Colin Danby, da Universidade de Washington, em entrevista recente que me concedeu, esta dimensão é um dos aspectos “esquecidos” sobre Keynes: “Esse esquecimento deve-se, em parte, a ele ser famoso pela sua Teoria Geral, que procede a uma abstracção em relação à economia global. Mas, a meu ver, ele era muito mais um pensador político e histórico – isso pode ser, logo, observado em 1919 no seu livro as Consequências Económicas da Paz. Mas esta obra não se encaixava muito no que genericamente é entendido como ‘economia’”.

Keynes foi derrotado, dessa vez, nos anos 1940, pela geopolítica (os EUA falavam mais alto) e há quem diga, também, pela doença, pois sofreria um segundo ataque cardíaco ao subir demasiado rápido umas escadas no Mount Washington Hotel em Bretton Woods, correndo, atrasado, para uma reunião. Quem o atrasara?

As quatro grandes potências emergentes não formam nenhum bloco estratégico. O mundo é, hoje, tripolar, disputado pelos Estados Unidos, China e União Europeia. O conceito foi um truque de analistas financeiros em 2001.

Os quatro apertam as mãos, sorriem para as câmaras, dão ares de um bloco geopolítico de tijolo reforçado nas cimeiras do G20 ou nas que promovem. Mas, os BRIC (acrónimo para as quatro grandes potências emergentes do século XXI, Brasil, Rússia, Índia e China) são, apenas, um aperto de mão táctico, um eixo temporário de oportunidade. “Os BRIC não são a base para uma parceria estratégica”, reage Stephen Kotkin, historiador e professor em relações internacionais da Universidade de Princeton e consultor de estratégia do World Pension Forum.

Kotkin vai mesmo mais longe e fala do surgimento do conceito de BRIC como um truque talentoso de analistas financeiros, quando o confrontamos com o imenso peso mediático do acrónimo. O nosso interlocutor aviva-nos a memória: Jim O’Neill, economista-chefe da Goldman Sachs, resolveu, com a sua equipa, em 2001, inventar esse acrónimo “que se revelaria altamente rentável, ao tornar o investimento dirigido aos quatro países menos arriscado, transformando-o em moda”. Nesta década, o acrónimo tornou-se omnipresente. Mas Kotkin acha que “será errado imaginar que a ideia de BRIC tem, na base, uma qualquer base geopolítica”.

Cada um em sua bicicleta e pista

O próprio acrónimo começou a ser corroído. Alguns analistas financeiros têm, mesmo, sugerido “amputar” o R do acrónimo e divulgar, apenas, o termo BIC. Milton Ezrati, analista da Lord Abbett & Co. LLC., divulgou, recentemente, um relatório com o título “BRIC partido”. A Rússia teria deixado de estar na moda. Kotkin dá uma explicação: “A China transformou, de facto, a Rússia num seu parceiro júnior”. Outros consultores mais ligados à Ásia, aproveitam, e adicionam ao grupo um K (em inglês), de Coreia do Sul.

“Cada uma das quatro pedala na sua bicicleta e mesmo em pistas diferentes, actuam muito independentemente e têm trajectórias de crescimento e desenvolvimento distintas. A etiqueta BRIC não faz mesmo qualquer sentido”, diz-nos, por seu lado, Parag Khanna, de 32 anos, que subiu ao estrelato literário da geoeconomia logo com o seu primeiro livro, intitulado “O Segundo Mundo”. Sobre a Rússia ele traça-lhe mesmo dois cenários radicais no futuro que deixarão os russos com os cabelos em pé: ser um anexo da Europa ou um vassalo da China. Ou as duas coisas.

Khana que é um filho da globalização, nasceu na Índia, cresceu nos Emirados e na Alemanha, e é hoje nova-iorquino assumido. O mundo hoje está em “geometria variável”, diz-nos numa entrevista que pode consultar (em inglês) aqui. Não acredita em nenhum G2 (um alegado eixo informal Estados Unidos-China). Fala de um mundo tripolar no que respeita ao patamar da hegemonia – partilhado pelos EUA, China e União Europeia. “São como três aranhas tecendo as suas teias globais, projectando a sua influência através da globalização. Não são um G3, nem desejo que o sejam”, sublinha.

As três aranhas hegemónicas

E a que se dedicam as “aranhas”? A atrair e enredar o que Khana designa por “segundo mundo”, uma espécie de potências de segunda linha que oscilam entre os três pretendentes. Khana foi buscar à política eleitoral americana esta ideia de “estados que balançam”. E juntou-lhe o desenho de um “mercado da geopolítica”, onde os três “impérios” vão a jogo e fazem os seus lances.

O segundo mundo – onde Khana inclui os outros três BRIC, bem como mais umas dezenas de potências médias, incluindo muitas do resto do G20 – espalha-se por regiões-chave do mundo, onde o apetite das três aranhas é enorme. Ironicamente, o segundo mundo dispõe de margem de manobra para se deixar cortejar, segundo Khana, não por ideologias antagónicas, mas por três modelos capitalistas e de projecção externa rivais. O resto é o efectivo terceiro mundo. Paisagem de tragédias e periferia para as disputas.

Khana acha que o espaço do Oceano Índico vai voltar a ser (como quando os portugueses lá entraram a ferro e fogo nos idos de 1500) o mais “quente” do globo.

Title: Towards a Post-American Europe: A Power Audit of EU-U.S. Relations
By Jeremy Shapiro, Director of Research, Center on the United States and Europe , and
Nick Witney, Fellow, European Council on Foreign Relations
European Council on Foreign Relations, November 2009
Full report | Executive Summary

“We are now entering a “post-American world”. The Cold War is fading into history, and globalisation is increasingly redistributing power to the South and the East.

The United States has understood this, and is working to replace its briefly held global dominance with a network of partnerships that will ensure that it remains the “indispensable nation”.

Where does this leave the transatlantic relationship? Is its importance inevitably set to decline? If so, does this matter? And how should Europeans respond?

In this report we argue that the real threat to the transatlantic relationship comes not from the remaking of America’s global strategy, but from European governments’ failure to come to terms with how the world is changing and how the relationship must adapt to those changes.

Our audit (based on extensive interviews and on structured input from all the European Union’s 27 member states) reveals that EU member states have so far failed to shake off the attitudes, behaviours, and strategies they acquired over decades of American hegemony.

This sort of Europe is of rapidly decreasing interest to the US. In the post-American world, a transatlantic relationship that works for both sides depends on the emergence of a post-American Europe.
(…)
Four Illusions
Among the illusions that European governments find hard to shake off, we identify four which are particularly damaging – the beliefs that:
• European security still depends on American protection;
• American and European interests are at bottom the same – and apparent evidence to the contrary only evidences the need for the US to pay greater heed to European advice;
• the need to keep the relationship close and harmonious therefore trumps any more specific objective that Europeans might want to secure through it; and
• “ganging up” on the US would be improper – indeed, counterproductive – given the “special relationship” that most European states believe they enjoy with Washington.

Pragmatic America

We have described the European attitude to the United States as basically infantile and fetishistic. So the idea that the future of the relationship in which they are so heavily invested lies in their own hands will not be easy to accept. America wants to be Europe’s partner, not its patron; but it cannot be responsible from without for weaning Europe off its client status. The US has other, more pressing problems; and, no matter what the enduring strength of the “ties that bind”, it will value the transatlantic relationship, and give weight and attention to European views and interests, on an essentially pragmatic basis.

Much of what Europeans need to do if they want to stay “relevant” applies not just to the transatlantic relationship but on a global basis. As is often said, Europeans need to speak increasingly with one voice, to assert their interests, and to act in the world with collective weight using all the components of power at their disposal – and they should make full use of the new possibilities that the Lisbon Treaty should offer them to do just that.
(…)
We seek to illustrate what this new approach could mean in practice in relation to three specific issues of current importance: Afghanistan, Russia, and the Middle East. Finally, we suggest how, building on the expectation that the Lisbon Treaty is at last within reaching distance of ratification, the upcoming Spanish Presidency of the European Union (EU) should try to stimulate the necessary change of mindset and of approach.
(…)
Portuguese asset
Portuguese assets vis-à-vis the US: Azores base; Africa expertise; desire to bridge. “

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