Outubro 2009
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Ter 6 Out 2009
Um jornal inglês revela hoje, a partir de fontes não identificadas em Hong Kong e no Médio Oriente, que decorrem negociações para substituir, até 2018, a divisa americana por um cabaz de moedas na fixação do preço do petróleo árabe.
Segundo a edição de hoje do jornal inglês The Independent, terão decorrido, ou ainda estarão a decorrer, negociações secretas entre os países exportadores de petróleo do Golfo com a Rússia, Japão, China, Brasil e França para a hipótese de criação de um cabaz de divisas, até 2018, que suporte a negociação do crude originário do Médio Oriente, substituindo o papel único do dólar, divisa em que é fixado o preço daquela commodity.
O cabaz incluiria, além do dólar, o euro, o iene japonês, o yuan chinês, uma nova divisa única dos países que formam o Conselho de Cooperação do Golfo (que reúne a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, o Kuwait e o Qatar), e ainda o ouro.
O efeito da noticia foi imediato no comportamento altista do preço do ouro (a onça bateu novo máximo histórico, fechando a 6 de Outubro nos $1040,10) e do barril do próprio petróleo e na queda do valor do dólar face ao euro, por exemplo.
Esta notícia (que não foi confirmada pelos países alegadamente envolvidos) traz, de novo, para a ribalta a questão da actual fragilidade do dólar, um problema crítico que a crise financeira iniciada em 2007 voltou a destapar.
Por isso, vários analistas têm vindo a falar de um cenário provável de colapso da moeda americana que se tem mantido, ultimamente, valendo menos de 70 cêntimos de euro. Desde o pico mais recente em Junho de 2001, quando o dólar atingiu um índice de 119,03, que já desvalorizou 36% face a um cabaz de seis divisas.
Num registo mais longo, segundo o índice seguido pela Reserva Federal, avaliando o dólar em relação às divisas dos principais parceiros comerciais, a divisa americana caiu 17% em relação a 1973, altura do primeiro «choque petrolífero», e 31% em relação ao máximo histórico de Março de 1985 (128,48). No entanto, o dólar está (88,2) ainda a quatro pontos acima dos mínimos históricos de Julho de 1995 (84,1516) e Outubro de 1978 (84,1620) e a três pontos acima dos níveis mais baixos recentes, entre Fevereiro e Julho de 2008.
Mas o risco de um tsunami monetário é hoje agitado por muitos, já que 66 países estão ancorados no dólar ou vivem mesmo dolarizados. Mas a crise trouxe um aspecto político novo: várias grandes potências começaram abertamente a falar dos malefícios da ‘nota verde’ continuar a ser a divisa internacional de referência e apontaram a necessidade de uma estratégia de diversificação.
Um privilégio exorbitante
Os chineses e os russos foram os mais sonoros, com o governador do Banco central chinês a dar inclusive uma lição “teórica” sobre o assunto em Março. Mas até o presidente francês Sarkozy se pronunciou, em Agosto, criticamente sobre a hegemonia do dólar argumentando a necessidade de “traduzir” para o sistema monetário internacional um alegado multipolarismo na geopolítica, trazendo na manga um maior protagonismo para o euro. Para maior dor de cabeça dos americanos, a poucas semanas da cimeira do G20, até um organismo das Nações Unidas (a UNCTAD) declarou, num relatório, que há “uma fraqueza no sistema internacional de reservas por se usar uma divisa nacional como activo de reserva”.
Esse seria o pecado original da solução que tem governado o mundo desde meados dos anos 1940. Um economista de origem belga, da Universidade americana de Yale, demonstrou, já nos anos 1960, que um sistema deste tipo seria instável por natureza. O problema que ele expôs ficou conhecido como o “dilema de Triffin”. De seu nome Robert Triffin, acabaria por regressar à Europa em 1977 envolvendo-se no desenvolvimento da integração monetária europeia.
Mas, apesar de se saber deste problema congénito, o assunto foi ignorado – e voltou a sê-lo, publicamente, na última cimeira do G20 em Pittsburgh. Por razões óbvias: a solução tem permitido aos Estados Unidos – donos dessa divisa – beneficiar do que o presidente francês Charles De Gaulle chamava, nos anos 1960, “um privilégio exorbitante” e que tecnicamente se designa por “prémio de liquidez”. Esse “prémio”, entre 1980 e 2005, teria permitido um desconto de 1,5 pontos percentuais nos empréstimos contraídos pelo hegemonista, que acumulou, nesse período, uma dívida de 10 biliões de dólares.
Consenso resignado
Entre os economistas americanos parece formar-se um consenso resignado. “Já não há dúvidas de que o dólar declinará, o que não é claro é como vai ocorrer a sua substituição”, diz-nos Mauro Guillen, director do The Lauder Institute of Management and International Studies, ligado à Wharton School, de Filadélfia, que, no entanto, não antevê nos seus cenários um colapso do dólar. “Isso não seria no interesse de ninguém”, argumenta. Barry Eichengreen, professor da Universidade da Califórnia, em Berkeley, sublinha-nos inclusive que “o dólar continua a ser a alternativa menos má”, apesar “ de muita pose política contra”, ironiza.
Por isso, a rejeição de uma passagem automática de uma divisa hegemónica para outra (como poderia ser o euro) é, também, consensual. “Convém lembrar, refere Mauro Guillen, que durou várias décadas e passou uma guerra mundial para que a libra fosse substituída pelo dólar”.
Analisando as alternativas ao dólar, Barry Eichengreen sublinhou, num artigo publicado na revista Foreign Affairs (‘The Dollar Dilemma‘, edição de Setembro/Outubro), que a capacidade de projecção do euro não ultrapassará os espaços contíguos, como o Mediterrâneo e eventualmente a própria Rússia (que já terá mais reservas em euros do que dólares). A moeda chinesa – o renminbi – está, também, distante. Os próprios chineses apontam para 2020 como altura em que a sua moeda poderá ser uma divisa de reserva mundial e Xangai um centro financeiro de referência, mas provavelmente regional. Por ora, inclusive a moeda chinesa é inconvertível.
O regresso a antes dos anos 1920
Eichengreen crê, assim, que entraremos num período similar ao da expansão do imperialismo imediatamente anterior à 1ª Guerra Mundial em que co-habitavam várias divisas de reserva face ao declínio paulatino da libra esterlina; a que se seguiu, depois, nos anos 1920, uma liderança bicéfala pela libra e o dólar, até que este, em Bretton Woods (1944), deu o golpe mortal na divisa do Império britânico.
Os chineses são tidos como os mais aflitos. Eichengreen considera-os prisioneiros da sua própria estratégia de acumulação de reservas em dólares (as maiores do mundo), pelo que terão de ser prudentes.
Por isso surgiu da sombra algo “neutro”, uma unidade de conta do Fundo Monetário Internacional que estava literalmente morta: os direitos de saque especiais (SDR, no acrónimo em inglês) criados em 1969. John Williamson, do Peterson Institute for International Economics, não acha, contudo, que os SDR sejam uma mera solução transitória. “São parte de uma solução de longo prazo”, frisa-nos. Williamson desenvolveu um estudo em que mostra que para os Estados Unidos, profundamente endividados, pode ser “atractivo” o papel dos SDR. E alega que a China perderá “menos” ao desviar uma parte das suas reservas para SDR, do que ficar olhando uma desvalorização do dólar que lhe corrói as reservas gigantes de que dispõe.
Em virtude de toda esta diversidade política de forças, Jeffrey Frankel, da Harvard Kennedy School, sublinha-nos que “a direcção mais provável não é nem para um sistema de reservas unipolar (baseado no dólar), nem bipolar (dólar e euro), mas um multipolar, envolvendo o dólar, o euro, o iene, o renminbi (ou yuan), o ouro e os direitos de saque especiais”. Note-se que a libra esterlina e o franco suíço são eclipsados do cabaz, não lhes deixando grande margem de manobra futura.
No fundo, Frankel fala de uma tendência política da moda, “um sistema mais fragmentado”. Ora, da última vez, que o mundo viveu numa situação dessas, o prémio, no final, não foi famoso: saiu na lotaria dos 11 dias de Outubro de 1929 que abalaram o mundo.
Sáb 3 Out 2009
Foi concluída a primeira fase de um estudo realizado por dois investigadores portugueses sobre a evolução do poder relativo das grandes potências desde 1973, que confirma o claro aumento de poder mundial da China em detrimento da Rússia, Japão e Europa. É um trabalho pioneiro numa área onde escasseiam hoje as investigações na comunidade académica mundial.
Em termos de poder geopolítico e geoeconómico relativo, a China duplicou desde 1973 – numa escala aritmética “disparou” de 66,17 pontos para 132,46. Como os Estados Unidos declinaram ligeiramente (apenas 2% desde 1973 e 0,6% desde 1998), manifestando uma clara resiliência, a nova potência asiática foi preenchendo o espaço no balanço mundial deixado vago pela queda brutal da Rússia (58% desde os tempos da URSS em 1973) e mais moderadamente do Japão (cerca de 16%) e da Europa (12,5% no caso de se considerar a União Europeia a 24 membros).
É a principal conclusão de um estudo sobre a evolução do poder relativo das grandes potências e dos principais espaços geográficos realizado por dois investigadores portugueses, Fernando Fonseca, de 66 anos, um especialista em recursos humanos reformado, um apaixonado pela geopolítica em “dedicação exclusiva” ao estudo destes temas, como nos confessa, e Fernando Gonçalves, de 67 anos, investigador do Centro de Estudos de Gestão do Instituto Superior Técnico, em Lisboa, e especialista em sistemas de informação.
Novo Índice geopolítico
Os dois investigadores criaram um índice geopolítico, com base num conjunto de parâmetros que aplicaram, para já, ao período de 1973 a 2006, ou seja desde o início dos choques petrolíferos até ao período de pré-crise, último ano de que dispuseram de estatísticas oficiais para todos os indicadores. O projecto inclui o alargamento do estudo a períodos anteriores e a sua actualização.
Os dois investigadores meteram mãos a uma área onde não há muitos trabalhos de investigação, desde que, nos anos 1970 e 1980, especialistas como Ray Steiner Clive (World Power Assessment: A calculus of strategic drift, 1977), Charles Doran e Wes Parsons desenvolveram modelos de avaliação do poder relativo das potências com base numa bateria de indicadores económicos, sociais, físicos e militares.
O escritor Paul Kennedy, na sua obra de culto, a volumosa Ascensão e Queda das Grandes Potências (1988), utilizou as avaliações de Doran e Parsons (1980), dando grande divulgação à metodologia, mas falhou, mesmo assim, ao não pressentir a implosão da União Soviética que decorreria pouco depois de o livro ser publicado. Doran e Parsons haviam estudado a evolução do ciclo de poder relativo de nove grandes potências entre 1816 e 1975.
Recentemente, o investigador francês Dylan Kissane publicou um estudo similar que, então, divulgámos. Fernando Fonseca e Fernando Gonçalves usaram como parâmetros básicos, devidamente ponderados, a população, o produto interno bruto (PIB), o PIB per capita, o indicador de desenvolvimento humano do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), a área geográfica, as despesas militares e o poder nuclear.
Os gráficos que se conseguem gerar com as curvas de poder relativo de várias potências permitem uma visualização fácil para o leitor não especialista das grandes mutações no xadrez mundial e uma aproximação a conclusões comparativas.
Três sinais a seguir
O estudo dos últimos trinta anos permite extrair três constatações para uma investigação mais aprofundada.
1- A própria realidade dos BRIC – acrónimo inventado pela Goldman Sachs para caracterizar as quatro grandes potências ligadas a mercados emergentes, Brasil, Rússia, Índia e China – é internamente muito diversa. Enquanto a Rússia, herdeira parcial da antiga União Soviética, caiu estrondosamente em poder relativo mundial, particularmente na década de 1990, e o Brasil declinou inclusive entre 1998 e 2006, a China aumentou 100% o seu índice relativo de poder mundial e a Índia 60% desde 1973.
O período de maior escalada de poder por parte da China foi a década de 1990, depois da implosão da URSS e apesar do “hegemonismo solitário” dos EUA. É certo que a Rússia, com o início do consulado Putin, parece ter estancado a quebra e que o Brasil poderá recuperar posição, em breve, devido aos seus recursos estratégicos em commodities (e à sua estratégia de especialização internacional na exportação de matérias-primas que, pela primeira vez desde 1978, superou a exportação de produtos manufacturados) que têm feito as manchetes quase diárias da imprensa sul-americana.
2- A União Europeia, apesar do seu alargamento geográfico progressivo e do seu reforço político tendencialmente federalista, continua a perder peso relativo no mundo.
3- Finalmente, o declínio do ‘Século Americano’ (como o baptizou, em 1941, Henry Luce, o fundador das revistas Time, Life e Fortune) é uma tendência de fundo desde os anos 1970. Perdeu posição entre 1973 e 1990, mas recuperou-a com o “hegemonismo solitário” após a implosão da URSS, tendo desde então caído ligeiramente, manifestando um certo grau de resiliência. É certo que estes dados ainda não contemplam o impacto da crise financeira e da recessão dos últimos dois anos nos “fundamentais” dos EUA.
Um autor americano, escrevendo já em plena crise, intitulou a sua obra After America – Paul Starobin é o primeiro, nos EUA, fora das correntes radicais, a apontar para uma realidade em transição.
Qui 1 Out 2009
Os 60 anos da proclamação do regime comunista por Mao foram envoltos hoje em colorido, numa parada militar de 200 mil soldados e em casamentos por todo o país no feriado nacional. Alguns analistas falam de que a grande potência asiática entrou numa nova fase.
Com a entronização do G20 como cúpula mundial e com os rumores sobre um G2 (EUA-China) que lideraria a transição geopolítica em curso, a China alcançou o principal objectivo geoeconómico dos últimos trinta anos. E, ainda que escrito por linhas tortas, a visão de um “Povo chinês de pé” gritada por Mao Tsé-Tung na parada de 1 de Outubro de 1949 na Cidade Proibida concretizou-se, finalmente, em termos de respeito mundial.
Contudo, este processo evolutivo não foi linear nem asséptico. “A história da República Popular da China pode ser dividida em dois períodos bem distintos”, diz-nos o investigador chinês Zhibin Gu, autor de ‘Made in China’ e com um volumoso projecto de história dos últimos 60 anos em curso de publicação até 2014. Gu vive em Shenzhen, perto de Hong Kong. Hoje é relativamente pacífico estabelecer tal divisão: o período maoista (1949-1978) e o período da transição para o capitalismo (desde as reformas de 1979 associadas a Deng XiaoPing).
O balanço destes dois períodos geracionais – de sensivelmente trinta anos cada um – é muito desigual quer em termos geopolíticos como geoeconómicos e sociais.
Falhanço económico e geopolítico
Apesar de a China ter readquirido a sua identidade contra a fragmentação e a ocupação e barbárie colonialistas com a proclamação da República Popular na simbólica Cidade Proibida de Beijing em 1949 e de nos anos 1960 ter cindido com os soviéticos e procurado uma estratégia de projecção mundial própria, o projecto de afirmação global nunca foi alcançado.
O seu saldo foi limitado: em 1971 a China obtém o seu lugar de direito na ONU e no Conselho de Segurança, mas Beijing nunca conseguiu quebrar o duopólio dos dois hegemonistas, EUA e URSS, apesar de Mao alcunhar ambos de “tigres de papel” e de Zhou EnLai (que organizou a visita de Nixon a Beijing em 1972) e Deng XiaoPing (inventor da “teoria dos três mundos”, separando o bloco soviético do Terceiro Mundo) terem tentado algumas manobras geopolíticas hábeis – uma delas o estabelecimento de relações diplomáticas com os Estados Unidos (primeiro um gabinete de ligação a partir de 1973 e depois a troca de embaixadas a partir de 1979).
No plano económico, o país ficou exangue com sucessivas vagas de políticas económicas estatizantes desde os anos 1950 e, no plano social, Mao Tsé-Tung desencadeou o que Zhibin Gu chama de “três guerras (civis) burocráticas” em nome de uma utopia totalitária, de que a mais conhecida das três guerras foi a ‘Grande Revolução Cultural Proletária’ que durou entre 1966 e a prisão do grupo maoista radical conhecido por ‘bando dos quatro’ em 1976 após o falecimento de Mao. No conjunto, a China sofreu uma catástrofe social com a fome em massa entre 1959 e 1961 (segundo alguns teriam morrido 30 milhões) e vários milhões de mortos nas tais três “guerras burocráticas”.
As tragédias que ocorreram durante este período estão ainda na memória de várias gerações ainda vivas. A escrita independente sobre este período da história chinesa é, por isso, dolorosa e difícil ainda hoje na China. A recente obra Chinese History Revisited, de Xiao Jiansheng, um jornalista de Hunão, cujo pai morreu em 1958 no final de uma greve da fome contra o movimento comunal agrário da época, teve de ser publicada em Hong Kong, apesar de inicialmente editada na China mas proibida de ser distribuída.
Surpreendentemente – e muito antes da perestroika soviética de Mikhail Gorbachov a partir de 1985 – os comunistas chineses puseram um ponto final na deriva maoista e levaram o “revisionismo” das políticas públicas tradicionais comunistas (sobretudo no plano económico) a um patamar jamais imaginado pelo patrono do “revisionismo” no final dos anos 1950, o russo Nikita Krutchov, que Mao tanto odiava.
A história feita pela rua
“A segunda fase iniciou-se com o movimento de reformas de 1979. Na realidade, o regime queria manter a supremacia tradicional burocrática, mas as coisas evoluíram de um modo inesperado, mesmo para os comunistas chineses que se foram adaptando”, sublinha-nos Gu.
Como é hábito, a história feita pela rua cavou três tendências que contornaram as baias burocráticas: “A destruição das comunas agrárias maoistas pela iniciativa de base dos próprios camponeses no período de 1978 a 1984, o que libertou 900 milhões de habitantes do mundo rural. Em segundo lugar, o desenvolvimento incrível do sector privado doméstico, chinês, que criou mais de 50 milhões de empreendedores de todos os tipos, explorando nichos de oportunidade, até ao nível do negócio de rua. Por fim, a abertura gradual da China e a sua integração na economia mundial, o que provocará mudanças estruturais profundas. A China é, desde este ano, o maior exportador do mundo e 60% do seu comércio internacional está nas mãos de investidores estrangeiros”.
Juntem-se outros factos, geoeconomicamente relevantes, de que a China forma hoje uma trilogia com os EUA e o Japão em termos de 60% das patentes colocadas em 2007, dispõe das maiores reservas em divisas estrangeiras do mundo e controla alguns minerais estratégicos. Tornou-se, também, no dínamo económico da Ásia, segundo o analista Stephen S. Roach, que vai lançar em breve The Next Asia. Segundo dados oficiais, apenas 8% dos 1300 milhões de chineses serão analfabetos.
A cereja em cima do bolo viria, esta semana, da parte do analista C.H. Kwan, do Nomura Institute of Capital Market Research, ao afirmar que a China ultrapassará o Japão em PIB (em termos nominais) já em 2010, cinco anos antes do que era previsto. Deste modo, depois dos EUA e da União Europeia, o terceiro lugar (mesmo em termos nominais) será ocupado pela China. O mesmo analista prevê que a ultrapassagem dos EUA ocorra em 2039 o mais tardar, e poderá ser antecipada para 2026, “se a China deixar apreciar a sua moeda apenas 2% ao ano”.
Os chineses terão sido, também, “ávidos estudantes” dos sucessivos acontecimentos na URSS a partir de 1986. Segundo Jeffrey Wasserstrom, autor do próximo China in the 21st Century: What Everyone needs to Know, a cúpula chinesa teria tirado duas lições de imediato: por um lado, rapidamente envolver o regime com um manto de patriotismo económico e desígnio geoestratégico acessível ao chinês comum e, por outro, matar no ovo qualquer tentativa de deixar desenvolver na sociedade um movimento de massas, aberto e independente, como o fora o Solidariedade na Polónia (daí que nos círculos de topo chineses se falasse da “doença polaca”).
A China Popular, ao fim destes dois períodos, pode ter entrado numa terceira fase: o seu reconhecimento formal como um dos ‘pesos pesados’ do G20 (quando nunca havia sido convidada a integrar um G7 estendido, como o fora a Rússia) e a estratégia “go global” em que está envolvida por todo o mundo colocam-na num novo patamar.
Na China continuam a cruzar-se várias tendências e forças. A sociedade e a política chinesas não são homogéneas nem estáticas. Zhibin Gu fala de três forças fundamentais, na sua óptica optimistas: “o empreendedorismo, a sociedade aberta que se espalha por vários nichos, e o envolvimento globalista”. Elas convivem com o longo, pesado e milenar braço da burocracia chinesa, com um enquadramento legal de uma sociedade totalitária herdada do maoismo e com a ausência de uma solução constitucional hábil (como foi a encontrada para Hong Kong e Macau nos anos 1990) para questões como a de Taiwan ou do Tibete.
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