Qui 29 Out 2009
Crises globais são ainda fenómenos históricos raros
Por JNR na secção Globalização , História Económica , Inteligência Económica , O novo capital financeiro[2] comentários
As crises do capitalismo moderno com impacto efectivamente mundial contam-se, ainda, pelos dedos de uma mão. Na fase pós-Revolução Industrial, os economistas Carmen Reinhart e Kenneth S. Rogoff só encontraram, ainda, três crises globais.
Nessa galeria a partir de 1860, os dois autores incluem a célebre Grande Depressão de 1929 a 1933 (que esta semana comemora os 80 anos do seu início a partir de Wall Street) e a que já é designada como Grande Recessão de 2007 a 2009.
Os dois investigadores distinguem as crises com projecção e impacto global (1908, 1929/1933 e 2007/2009) de outras plurinacionais, abrangendo vários países-chave (como o núcleo duro dos países desenvolvidos, como em 1873/79, 1893, 1982) ou mesmo regiões do mundo (como a famosa ‘crise asiática’ de 1997-1998).
Alguns pânicos financeiros nem sequer se transformaram em depressões globais, como o crash de 1987 em Wall Street ou o do Nasdaq em 2000, e outras depressões mundiais ligadas às guerras mundiais afectaram a produção mas não o comércio internacional, como a de 1945/46 (os dois anos em que o PIB mundial mais decresceu, na ordem dos 8,1 e 11,1%, mas sem efeito negativo nas trocas). Ao invés, houve crises no comércio internacional, como em 1938 (quebra de 12%) e 1975 (quebra de 7%), que não se traduziram em recessões mundiais. A situação é, por isso, complexa.
Os dois autores definiram quatro critérios técnicos (que não vamos desenvolver aqui) para identificar tais crises globais que podem ser estudados na sua recente obra, This Time is Different (Princeton University Press, 2009).
Em termos mais simples, podemos verificar que as crises globais têm, em simultâneo, um impacto negativo significativo no PIB mundial e no comércio internacional. O carácter “sistémico” do choque nos principais centros financeiros, a dinâmica de contágio, a sincronização do processo evolutivo da crise em vários países com peso significativo na economia mundial e a projecção geográfica são sintomas visíveis do globalismo de uma crise.
O pânico financeiro de 1907 (um acontecimento histórico mundial pouco conhecido, tratado em The Panic of 1907: Lessons learned from the Market’s Perfect Storm, de Robert Bruner e Sean Carr; Willey, 2007) acabou por gerar em 1908 uma quebra de produção mundial de 3,6% e do comércio internacional na ordem dos 6%.
O pânico de 1929 acabou por originar três anos de crescimento negativo mundial (5,7% em 1930, 6,4% em 1931 e 6,6% em 1932) e o mesmo período com as maiores quebras de sempre das trocas comerciais planetárias (20% em 1930, 29% em 1931 e 32% em 1932). Com base nos dados do Boletim Mensal da Liga das Nações o declínio, no período crítico da crise, entre o quarto trimestre de1929 e o terceiro trimestre de 1932, durante três anos, foi de 36%.
O balanço da Grande Recessão de 2007 a 2009 está ainda por fazer: estima-se que o PIB mundial possa cair este ano entre 1 e 2,5% (depende das estimativas; o FMI, em Outubro, estimou 1,1%; mas o Banco Mundial já apontou para uma quebra de 2,2%; o FMI em 26/01/2010 corrigiu a quebra para 0,8%) e o comércio internacional decaiu na primeira metade de 2009 mais de 30% trimestralmente, segundo a Organização Mundial do Comércio. Só nos nove meses entre Abril de 2008 e Janeiro de 2009 caiu de 20%.
Em virtude da irregularidade destas crises globais, que não se encaixam quer nas crises dos ciclos de negócio (business cycles, na linguagem técnica) mais comuns (designados tecnicamente como ciclos de Juglar, com duração entre 6 a 10 anos) como nas ondas longas (designadas de Kondratieff, com duração de 50 a 60 anos), a sua dinâmica continua a ser estudada e envolta em polémica.
SÍNTESE
Crises Globais do Capitalismo financeiro
(desde 1860, por ordem de impacto no PIB e comércio internacional)
. Grande Depressão de final da 2ª Guerra Mundial em 1945 e 1946: PIB mundial cai 8,1% em 1945 e 11,1% em 1946 (a maior queda anual de sempre na história económica do capitalismo). Não há, contudo, efeito negativo no comércio internacional.
. Pânicos financeiros de 1929 e 1931 e Grande Depressão de 1929/1933: PIB mundial cai 5,7% em 1930, 6,4% em 1931 e 6,6% em 1932. Comércio internacional sofre as maiores quebras de sempre: 20% em 1930, 29% em 1931 e 32% em 1932. Depois de uma queda ligeira do PIB em 1938 (-0,1%), o comércio mundial cai significativamente (12%). Epicentro financeiro na Wall Street (queda de 89,19% desde pico do Dow Jones até ao ponto mais baixo em 8 de Julho de 1932, a maior de sempre deste índice; 149 dias de trading). Todas as regiões do mundo afectadas.
. Pânico financeiro de 1907 e Grande Depressão de 1908: PIB mundial cai 3,6% e comércio internacional quebra 6%. Epicentro financeiro na Wall Street (queda de 48,54%, desde o pico do Dow Jones ao ponto mais baixo em 15 de Novembro de 1907, a quinta maior de sempre; 96 dias de trading). Regiões mais afectadas: Europa, Ásia e América Latina.
. Pânico financeiro de 2008 e Depressão de 2007/2009: PIB mundial deverá cair 1,7% em 2009 e comércio internacional contraiu 10,8% no quarto trimestre de 2008 e 32% em média nos dois primeiros trimestres de 2009. Epicentro financeiro na Wall Street (queda de 53,5% desde o pico do Dow Jones em 15 de Outubro de 2007 até ponto mais baixo em 9 de Março de 2009, a segunda maior de sempre; 75 dias de trading). Todas as regiões do mundo afectadas.
Fontes consultadas (links visíveis): This Time is Different, Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff, 2009, p.261; Angus Maddison (http://www.ggdc.net/maddison/ARTICLES/Business_Cycles.pdf ); Estatísticas das Nações Unidas (http://unstats.un.org/unsd/trade/imts/Historical%20data%201900-1960.pdf ), Base de dados europeia (http://dataservice.eea.europa.eu/atlas/viewdata/viewpub.asp?id=1552 ) e do FMI (http://www.imf.org/external/pubs/ft/weo/2009/update/01/index.htm#tbl1 ); Mark Lundeen (http://www.gold-eagle.com/editorials_08/lundeen030709.html ); Organização Mundial do Comércio (http://www.wto.org/english/res_e/statis_e/quarterly_world_exp_e.htm ); The World Economy (http://www.theworldeconomy.org/histostats-table07-3.pdf ).
Dezembro 7th, 2009 at 11:23
[...] adiantou que seria algo “sem precedentes”. No entanto, historicamente (como já referimos), houve outros anos bem piores. O ranking de anos negros, até à data, é o seguinte: 1932: 32%; [...]
Dezembro 24th, 2009 at 0:38
[...] economista Kenneth Rogoff, professor de Harvard e co-autor de um recente livro sobre a história de crises financeiras (This Time is Different), teme que uma vaga de falências possa ocorrer daqui a dois anos, quando [...]