O dólar desceu, esta semana, abaixo dos 67 cêntimos de euro, tendo fechado hoje (23 de Outubro) nos 66,63 cêntimos. Dito de outro modo, o euro ultrapassou a fasquia psicológica dos 1,5 dólares (fechou a semana nos 1,5008 dólares) e o dólar aproximou-se, durante a semana, dos 91 ienes (a divisa japonesa).

Em relação a Janeiro deste ano, tendo em conta o índice do dólar da Reserva Federal norte-americana, a divisa desvalorizou-se 7%. O seu valor cambial desceu para uma banda de mínimos verificados entre 28 de Fevereiro e 11 de Agosto de 2008.

Muitos analistas vaticinam, por isso, uma tendência de colapso da moeda americana. Em 2008, o euro chegou a cotar-se num máximo de 1,6 dólares. Há, ainda, alguma margem de descida da divisa americana em relação aos seus mínimos históricos de Julho de 1995 e de Outubro de 1978.

Apesar da queda do dólar favorecer alegadamente as exportações americanas (que ficam mais baratas para quem as compra com moedas mais valorizadas), a tendência de queda reforça as dúvidas sobre a solidez financeira e económica dos EUA, diminui os ganhos dos exportadores de commodities que têm o preço fixado em dólares e gera a revolta dos países que sofrem a valorização das suas moedas, enfraquecendo a sua capacidade competitiva no comércio internacional, e que vêm as suas reservas estrangeiras em dólares perder assustadoramente valor.

Fruto do enfraquecimento do dólar, o preço do ouro tem mantido a tendência altista, acima do patamar dos 1050 dólares por onça (o máximo histórico está em 1063,9 dólares, atingidos em 13 de Outubro e reafirmados em 19 de Outubro), e a cotação do barril já galgou, no mercado americano, para a variedade WTI, a barreira dos 80 dólares (cotou-se, no fecho da semana, nos $80,05). A Goldman Sachs já previu que o barril possa chegar aos 85 dólares até final deste ano e aos 95 dólares pelo final de 2010.

O impacto financeiro da alta do petróleo nos países importadores é conhecido. Por exemplo, uma subida de 10 dólares do preço do barril implica uma drenagem adicional de 13 mil milhões de dólares das economias da OCDE para os exportadores de crude. Ora, um aumento de 10 dólares já ocorreu entre final de Julho e agora. Para países convalescentes de uma Grande Recessão esta punção de sangue financeiro em menos de três meses é significativa.

Aviso japonês

O analista chefe de estratégia da Sumitomo Mitsui Banking Corp, Daisuke Uno, admitiu que o dólar possa cair para os 50 iénes durante o próximo ano, o que significaria uma desvalorização brutal adicional na ordem dos 45% em relação à divisa nipónica. Um colapso desta envergadura significaria, politicamente, a perda total do papel do dólar como divisa de reserva global, conclui o analista da Sumitomo, citado pela Bloomberg.

A última cimeira do G20 acabou por não abordar, formalmente, o assunto do dólar como divisa internacional. Mas os analistas inclinam-se, agora, para admitir que a próxima reunião dos ministros das Finanças do G20, que se realizará na Escócia a 6 e 7 de Novembro próximos, terá de tomar o assunto em mãos.

Várias acções unilaterais têm vindo a ser tomadas. No início de Outubro, vários bancos centrais asiáticos, da Coreia do Sul, Taiwan, Hong Kong, Filipinas, Tailândia e Indonésia, intervieram para “arrefecer” a valorização excessiva das suas moedas face à quebra do dólar.

O sinal brasileiro

O Brasil acabou de instaurar um imposto de 2% sobre os investimentos estrangeiros em títulos e acções (não sobre investimento directo estrangeiro) tidos como “especulativos” de modo a travar a valorização do real face ao dólar (34% desde o final de 2008) e a moderar a queda das exportações brasileiras este ano (25,1% até à data).

Este controlo parcial do fluxo de capitais internacionais pelo governo brasileiro é tido como um caminho possível, se não houver uma acção internacional concertada. Naturalmente que esta medida teve impacto imediato sobre a Bolsa de São Paulo, onde as 271 empresas cotadas perderam, numa só sessão (terça-feira, dia 20, após o anuncio da nova taxa na segunda-feira), 4,5% da sua capitalização, segundo um estudo da consultora Economática. É a outra face da moeda.