Foi concluída a primeira fase de um estudo realizado por dois investigadores portugueses sobre a evolução do poder relativo das grandes potências desde 1973, que confirma o claro aumento de poder mundial da China em detrimento da Rússia, Japão e Europa. É um trabalho pioneiro numa área onde escasseiam hoje as investigações na comunidade académica mundial.

Em termos de poder geopolítico e geoeconómico relativo, a China duplicou desde 1973 – numa escala aritmética “disparou” de 66,17 pontos para 132,46. Como os Estados Unidos declinaram ligeiramente (apenas 2% desde 1973 e 0,6% desde 1998), manifestando uma clara resiliência, a nova potência asiática foi preenchendo o espaço no balanço mundial deixado vago pela queda brutal da Rússia (58% desde os tempos da URSS em 1973) e mais moderadamente do Japão (cerca de 16%) e da Europa (12,5% no caso de se considerar a União Europeia a 24 membros).

É a principal conclusão de um estudo sobre a evolução do poder relativo das grandes potências e dos principais espaços geográficos realizado por dois investigadores portugueses, Fernando Fonseca, de 66 anos, um especialista em recursos humanos reformado, um apaixonado pela geopolítica em “dedicação exclusiva” ao estudo destes temas, como nos confessa, e Fernando Gonçalves, de 67 anos, investigador do Centro de Estudos de Gestão do Instituto Superior Técnico, em Lisboa, e especialista em sistemas de informação.

Novo Índice geopolítico

Os dois investigadores criaram um índice geopolítico, com base num conjunto de parâmetros que aplicaram, para já, ao período de 1973 a 2006, ou seja desde o início dos choques petrolíferos até ao período de pré-crise, último ano de que dispuseram de estatísticas oficiais para todos os indicadores. O projecto inclui o alargamento do estudo a períodos anteriores e a sua actualização.

Os dois investigadores meteram mãos a uma área onde não há muitos trabalhos de investigação, desde que, nos anos 1970 e 1980, especialistas como Ray Steiner Clive (World Power Assessment: A calculus of strategic drift, 1977), Charles Doran e Wes Parsons desenvolveram modelos de avaliação do poder relativo das potências com base numa bateria de indicadores económicos, sociais, físicos e militares.

O escritor Paul Kennedy, na sua obra de culto, a volumosa Ascensão e Queda das Grandes Potências (1988), utilizou as avaliações de Doran e Parsons (1980), dando grande divulgação à metodologia, mas falhou, mesmo assim, ao não pressentir a implosão da União Soviética que decorreria pouco depois de o livro ser publicado. Doran e Parsons haviam estudado a evolução do ciclo de poder relativo de nove grandes potências entre 1816 e 1975.

Recentemente, o investigador francês Dylan Kissane publicou um estudo similar que, então, divulgámos. Fernando Fonseca e Fernando Gonçalves usaram como parâmetros básicos, devidamente ponderados, a população, o produto interno bruto (PIB), o PIB per capita, o indicador de desenvolvimento humano do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), a área geográfica, as despesas militares e o poder nuclear.

Os gráficos que se conseguem gerar com as curvas de poder relativo de várias potências permitem uma visualização fácil para o leitor não especialista das grandes mutações no xadrez mundial e uma aproximação a conclusões comparativas.

Três sinais a seguir

O estudo dos últimos trinta anos permite extrair três constatações para uma investigação mais aprofundada.

1- A própria realidade dos BRIC – acrónimo inventado pela Goldman Sachs para caracterizar as quatro grandes potências ligadas a mercados emergentes, Brasil, Rússia, Índia e China – é internamente muito diversa. Enquanto a Rússia, herdeira parcial da antiga União Soviética, caiu estrondosamente em poder relativo mundial, particularmente na década de 1990, e o Brasil declinou inclusive entre 1998 e 2006, a China aumentou 100% o seu índice relativo de poder mundial e a Índia 60% desde 1973.

O período de maior escalada de poder por parte da China foi a década de 1990, depois da implosão da URSS e apesar do “hegemonismo solitário” dos EUA. É certo que a Rússia, com o início do consulado Putin, parece ter estancado a quebra e que o Brasil poderá recuperar posição, em breve, devido aos seus recursos estratégicos em commodities (e à sua estratégia de especialização internacional na exportação de matérias-primas que, pela primeira vez desde 1978, superou a exportação de produtos manufacturados) que têm feito as manchetes quase diárias da imprensa sul-americana.

2- A União Europeia, apesar do seu alargamento geográfico progressivo e do seu reforço político tendencialmente federalista, continua a perder peso relativo no mundo.

3- Finalmente, o declínio do ‘Século Americano’ (como o baptizou, em 1941, Henry Luce, o fundador das revistas Time, Life e Fortune) é uma tendência de fundo desde os anos 1970. Perdeu posição entre 1973 e 1990, mas recuperou-a com o “hegemonismo solitário” após a implosão da URSS, tendo desde então caído ligeiramente, manifestando um certo grau de resiliência. É certo que estes dados ainda não contemplam o impacto da crise financeira e da recessão dos últimos dois anos nos “fundamentais” dos EUA.

Um autor americano, escrevendo já em plena crise, intitulou a sua obra After AmericaPaul Starobin é o primeiro, nos EUA, fora das correntes radicais, a apontar para uma realidade em transição.