Qui 1 Out 2009
A 3ª fase da República Popular da China
Por JNR na secção A questão dos impérios , Geoprotagonistas , Globalização , História Económica , Inteligência Económica , Sociedade aberta1 comentário
Os 60 anos da proclamação do regime comunista por Mao foram envoltos hoje em colorido, numa parada militar de 200 mil soldados e em casamentos por todo o país no feriado nacional. Alguns analistas falam de que a grande potência asiática entrou numa nova fase.
Com a entronização do G20 como cúpula mundial e com os rumores sobre um G2 (EUA-China) que lideraria a transição geopolítica em curso, a China alcançou o principal objectivo geoeconómico dos últimos trinta anos. E, ainda que escrito por linhas tortas, a visão de um “Povo chinês de pé” gritada por Mao Tsé-Tung na parada de 1 de Outubro de 1949 na Cidade Proibida concretizou-se, finalmente, em termos de respeito mundial.
Contudo, este processo evolutivo não foi linear nem asséptico. “A história da República Popular da China pode ser dividida em dois períodos bem distintos”, diz-nos o investigador chinês Zhibin Gu, autor de ‘Made in China’ e com um volumoso projecto de história dos últimos 60 anos em curso de publicação até 2014. Gu vive em Shenzhen, perto de Hong Kong. Hoje é relativamente pacífico estabelecer tal divisão: o período maoista (1949-1978) e o período da transição para o capitalismo (desde as reformas de 1979 associadas a Deng XiaoPing).
O balanço destes dois períodos geracionais – de sensivelmente trinta anos cada um – é muito desigual quer em termos geopolíticos como geoeconómicos e sociais.
Falhanço económico e geopolítico
Apesar de a China ter readquirido a sua identidade contra a fragmentação e a ocupação e barbárie colonialistas com a proclamação da República Popular na simbólica Cidade Proibida de Beijing em 1949 e de nos anos 1960 ter cindido com os soviéticos e procurado uma estratégia de projecção mundial própria, o projecto de afirmação global nunca foi alcançado.
O seu saldo foi limitado: em 1971 a China obtém o seu lugar de direito na ONU e no Conselho de Segurança, mas Beijing nunca conseguiu quebrar o duopólio dos dois hegemonistas, EUA e URSS, apesar de Mao alcunhar ambos de “tigres de papel” e de Zhou EnLai (que organizou a visita de Nixon a Beijing em 1972) e Deng XiaoPing (inventor da “teoria dos três mundos”, separando o bloco soviético do Terceiro Mundo) terem tentado algumas manobras geopolíticas hábeis – uma delas o estabelecimento de relações diplomáticas com os Estados Unidos (primeiro um gabinete de ligação a partir de 1973 e depois a troca de embaixadas a partir de 1979).
No plano económico, o país ficou exangue com sucessivas vagas de políticas económicas estatizantes desde os anos 1950 e, no plano social, Mao Tsé-Tung desencadeou o que Zhibin Gu chama de “três guerras (civis) burocráticas” em nome de uma utopia totalitária, de que a mais conhecida das três guerras foi a ‘Grande Revolução Cultural Proletária’ que durou entre 1966 e a prisão do grupo maoista radical conhecido por ‘bando dos quatro’ em 1976 após o falecimento de Mao. No conjunto, a China sofreu uma catástrofe social com a fome em massa entre 1959 e 1961 (segundo alguns teriam morrido 30 milhões) e vários milhões de mortos nas tais três “guerras burocráticas”.
As tragédias que ocorreram durante este período estão ainda na memória de várias gerações ainda vivas. A escrita independente sobre este período da história chinesa é, por isso, dolorosa e difícil ainda hoje na China. A recente obra Chinese History Revisited, de Xiao Jiansheng, um jornalista de Hunão, cujo pai morreu em 1958 no final de uma greve da fome contra o movimento comunal agrário da época, teve de ser publicada em Hong Kong, apesar de inicialmente editada na China mas proibida de ser distribuída.
Surpreendentemente – e muito antes da perestroika soviética de Mikhail Gorbachov a partir de 1985 – os comunistas chineses puseram um ponto final na deriva maoista e levaram o “revisionismo” das políticas públicas tradicionais comunistas (sobretudo no plano económico) a um patamar jamais imaginado pelo patrono do “revisionismo” no final dos anos 1950, o russo Nikita Krutchov, que Mao tanto odiava.
A história feita pela rua
“A segunda fase iniciou-se com o movimento de reformas de 1979. Na realidade, o regime queria manter a supremacia tradicional burocrática, mas as coisas evoluíram de um modo inesperado, mesmo para os comunistas chineses que se foram adaptando”, sublinha-nos Gu.
Como é hábito, a história feita pela rua cavou três tendências que contornaram as baias burocráticas: “A destruição das comunas agrárias maoistas pela iniciativa de base dos próprios camponeses no período de 1978 a 1984, o que libertou 900 milhões de habitantes do mundo rural. Em segundo lugar, o desenvolvimento incrível do sector privado doméstico, chinês, que criou mais de 50 milhões de empreendedores de todos os tipos, explorando nichos de oportunidade, até ao nível do negócio de rua. Por fim, a abertura gradual da China e a sua integração na economia mundial, o que provocará mudanças estruturais profundas. A China é, desde este ano, o maior exportador do mundo e 60% do seu comércio internacional está nas mãos de investidores estrangeiros”.
Juntem-se outros factos, geoeconomicamente relevantes, de que a China forma hoje uma trilogia com os EUA e o Japão em termos de 60% das patentes colocadas em 2007, dispõe das maiores reservas em divisas estrangeiras do mundo e controla alguns minerais estratégicos. Tornou-se, também, no dínamo económico da Ásia, segundo o analista Stephen S. Roach, que vai lançar em breve The Next Asia. Segundo dados oficiais, apenas 8% dos 1300 milhões de chineses serão analfabetos.
A cereja em cima do bolo viria, esta semana, da parte do analista C.H. Kwan, do Nomura Institute of Capital Market Research, ao afirmar que a China ultrapassará o Japão em PIB (em termos nominais) já em 2010, cinco anos antes do que era previsto. Deste modo, depois dos EUA e da União Europeia, o terceiro lugar (mesmo em termos nominais) será ocupado pela China. O mesmo analista prevê que a ultrapassagem dos EUA ocorra em 2039 o mais tardar, e poderá ser antecipada para 2026, “se a China deixar apreciar a sua moeda apenas 2% ao ano”.
Os chineses terão sido, também, “ávidos estudantes” dos sucessivos acontecimentos na URSS a partir de 1986. Segundo Jeffrey Wasserstrom, autor do próximo China in the 21st Century: What Everyone needs to Know, a cúpula chinesa teria tirado duas lições de imediato: por um lado, rapidamente envolver o regime com um manto de patriotismo económico e desígnio geoestratégico acessível ao chinês comum e, por outro, matar no ovo qualquer tentativa de deixar desenvolver na sociedade um movimento de massas, aberto e independente, como o fora o Solidariedade na Polónia (daí que nos círculos de topo chineses se falasse da “doença polaca”).
A China Popular, ao fim destes dois períodos, pode ter entrado numa terceira fase: o seu reconhecimento formal como um dos ‘pesos pesados’ do G20 (quando nunca havia sido convidada a integrar um G7 estendido, como o fora a Rússia) e a estratégia “go global” em que está envolvida por todo o mundo colocam-na num novo patamar.
Na China continuam a cruzar-se várias tendências e forças. A sociedade e a política chinesas não são homogéneas nem estáticas. Zhibin Gu fala de três forças fundamentais, na sua óptica optimistas: “o empreendedorismo, a sociedade aberta que se espalha por vários nichos, e o envolvimento globalista”. Elas convivem com o longo, pesado e milenar braço da burocracia chinesa, com um enquadramento legal de uma sociedade totalitária herdada do maoismo e com a ausência de uma solução constitucional hábil (como foi a encontrada para Hong Kong e Macau nos anos 1990) para questões como a de Taiwan ou do Tibete.
Dois artigos correlacionados:
- nos 30 anos das reformas na China
- nos 40 anos da Revolução Cultural
Outubro 7th, 2009 at 8:58
[...] ponto”. Toda a gente fala que o candidato a hegemonista substituto é a China, um país que, no final dos anos 1970, surpreendeu tudo e todos ao enveredar por um caminho de afirmação de uma grande potência [...]