Outubro 2009


As oscilações na Bolsa nova-iorquina estão a ser tão “selvagens” que a verdade ontem é mentira hoje. A volatilidade voltou a atacar Wall Street depois de oito meses de uma míni-bolha especulativa.

Na quinta-feira (dia 29 de Outubro), o dia nasceu radioso na América: foi anunciado que a economia crescera 3,5% no terceiro trimestre e que os cerca de 160 mil milhões de dólares de estímulos do American Recovery and Reinvestment Act teriam valido um pouco mais de 640 mil empregos, criados de novo ou evitados ao abate.

A retoma estaria, assim, confirmada, depois de quatro trimestres de quebras do PIB. O pior trimestre teria sido o primeiro de 2009 com uma quebra profunda de 6,4%. Esta viragem radical de curso (de 0,7% de queda no 2º trimestre para 3,5% de crescimento no 3º trimestre) teria sido a maior desde 1980, disse a economista Christina Romer, presidente do Conselho de Consultores Económicos do Presidente Obama. O desemprego teria sido poupado de subir além dos 7,2 milhões actuais.

A Bolsa de Wall Street reagiu, imediatamente, entusiasticamente: uma subida de 2% do índice Dow Jones, reaproximando-se da marca dos 10.000 pontos. Alguns analistas comentaram que era o “Waterloo dos bears”, ou seja a derrota final dos pessimistas da bolsa, à semelhança da batalha decisiva em 1815 que enterrou o projecto imperial de Napoleão Bonaparte perto da vila belga de Waterloo. Em suma, as Cassandras calar-se-iam.

Reviravolta de sexta-feira

Mas a realidade foi madrasta. Inesperadamente, a Wall Street, no dia seguinte, hoje (30 de Outubro), derrocava moderadamente – não foi uma sexta-feira «negra», mas marcadamente de um cinzento-escuro. O Dow Jones Industrial Average (DJIA) e o Nasdaq (o índice das tecnológicas cotadas) caíam 2,5% e outro índice, o S&P500, um pouco mais, 2,8%. O DJIA voltava ao terreno dos 9.700 pontos, tendo caído quase 250 pontos na sessão de hoje.

O DJIA tem ultimamente flutuado numa banda entre 9700 e 10.000 pontos desde 6 de Outubro. Fruto da vaga altista desde Março, este índice havia ultrapassado a barreira dos 10 mil pontos em 14 de Outubro, gerando uma onda de euforia.

Contudo, alguns baldes de água fria têm moderado o frenesim bolsista. O índice acabou por fechar esta semana quase 300 pontos abaixo da marca dos 10.000 pontos.

As interrogações dos analistas independentes dirigem-se agora para saber se o DJIA se consolidará acima dos 10.000 pontos, mantendo a tendência altista (ainda que esteja longe do máximo de Outubro de 2007, quando atingiu mais de 14.000 pontos), ou se as oscilações se vão agravar como sintoma de que a mini-’bolha’ (50,48% de valorização do DJIA desde o ponto mais baixo em 9 de Março passado ou de 58% no caso do índice S&P500) poderá não aguentar-se.

Petróleo com oscilações selvagens

Confusa é, também, a situação do preço do petróleo, uma commodity estratégica. A Goldman Sachs alvitrou que o preço do barril de crude poderá situar-se nos 85 dólares no final do ano, dez dólares acima do limite da banda fixada pela OPEP. O preço do crude tem oscilado, ultimamente, com significado nos dois mercados (Londres e norte-americano) de referência.

O comportamento destes preços voltou, também, a “oscilações selvagens”, como referem os analistas do sector. Hoje sexta-feira o preço do crude fechou entre 3,6 e 3,9% abaixo do dia anterior, enquanto ontem havia subido 3,1% em relação a quarta-feira. Outras oscilações similares ocorreram durante a semana.

Depois de ter passado os $81 por barril (na variedade WTI americana) em 21 de Outubro, voltando a um patamar que já não se observava desde princípios de Outubro de 2008, o preço do barril acabou por fechar a semana nos 77 dólares nos EUA e nos 74 dólares no caso do Brent, variedade de referência na Europa.

As crises do capitalismo moderno com impacto efectivamente mundial contam-se, ainda, pelos dedos de uma mão. Na fase pós-Revolução Industrial, os economistas Carmen Reinhart e Kenneth S. Rogoff só encontraram, ainda, três crises globais.

Nessa galeria a partir de 1860, os dois autores incluem a célebre Grande Depressão de 1929 a 1933 (que esta semana comemora os 80 anos do seu início a partir de Wall Street) e a que já é designada como Grande Recessão de 2007 a 2009.

Os dois investigadores distinguem as crises com projecção e impacto global (1908, 1929/1933 e 2007/2009) de outras plurinacionais, abrangendo vários países-chave (como o núcleo duro dos países desenvolvidos, como em 1873/79, 1893, 1982) ou mesmo regiões do mundo (como a famosa ‘crise asiática’ de 1997-1998).

Alguns pânicos financeiros nem sequer se transformaram em depressões globais, como o crash de 1987 em Wall Street ou o do Nasdaq em 2000, e outras depressões mundiais ligadas às guerras mundiais afectaram a produção mas não o comércio internacional, como a de 1945/46 (os dois anos em que o PIB mundial mais decresceu, na ordem dos 8,1 e 11,1%, mas sem efeito negativo nas trocas). Ao invés, houve crises no comércio internacional, como em 1938 (quebra de 12%) e 1975 (quebra de 7%), que não se traduziram em recessões mundiais. A situação é, por isso, complexa.

Os dois autores definiram quatro critérios técnicos (que não vamos desenvolver aqui) para identificar tais crises globais que podem ser estudados na sua recente obra, This Time is Different (Princeton University Press, 2009).

Em termos mais simples, podemos verificar que as crises globais têm, em simultâneo, um impacto negativo significativo no PIB mundial e no comércio internacional. O carácter “sistémico” do choque nos principais centros financeiros, a dinâmica de contágio, a sincronização do processo evolutivo da crise em vários países com peso significativo na economia mundial e a projecção geográfica são sintomas visíveis do globalismo de uma crise.

O pânico financeiro de 1907 (um acontecimento histórico mundial pouco conhecido, tratado em The Panic of 1907: Lessons learned from the Market’s Perfect Storm, de Robert Bruner e Sean Carr; Willey, 2007) acabou por gerar em 1908 uma quebra de produção mundial de 3,6% e do comércio internacional na ordem dos 6%.

O pânico de 1929 acabou por originar três anos de crescimento negativo mundial (5,7% em 1930, 6,4% em 1931 e 6,6% em 1932) e o mesmo período com as maiores quebras de sempre das trocas comerciais planetárias (20% em 1930, 29% em 1931 e 32% em 1932). Com base nos dados do Boletim Mensal da Liga das Nações o declínio, no período crítico da crise, entre o quarto trimestre de1929 e o terceiro trimestre de 1932, durante três anos, foi de 36%.

O balanço da Grande Recessão de 2007 a 2009 está ainda por fazer: estima-se que o PIB mundial possa cair este ano entre 1 e 2,5% (depende das estimativas; o FMI, em Outubro, estimou 1,1%; mas o Banco Mundial já apontou para uma quebra de 2,2%; o FMI em 26/01/2010 corrigiu a quebra para 0,8%) e o comércio internacional decaiu na primeira metade de 2009 mais de 30% trimestralmente, segundo a Organização Mundial do Comércio. Só nos nove meses entre Abril de 2008 e Janeiro de 2009 caiu de 20%.

Em virtude da irregularidade destas crises globais, que não se encaixam quer nas crises dos ciclos de negócio (business cycles, na linguagem técnica) mais comuns (designados tecnicamente como ciclos de Juglar, com duração entre 6 a 10 anos) como nas ondas longas (designadas de Kondratieff, com duração de 50 a 60 anos), a sua dinâmica continua a ser estudada e envolta em polémica.

SÍNTESE
Crises Globais do Capitalismo financeiro
(desde 1860, por ordem de impacto no PIB e comércio internacional)

. Grande Depressão de final da 2ª Guerra Mundial em 1945 e 1946: PIB mundial cai 8,1% em 1945 e 11,1% em 1946 (a maior queda anual de sempre na história económica do capitalismo). Não há, contudo, efeito negativo no comércio internacional.

. Pânicos financeiros de 1929 e 1931 e Grande Depressão de 1929/1933: PIB mundial cai 5,7% em 1930, 6,4% em 1931 e 6,6% em 1932. Comércio internacional sofre as maiores quebras de sempre: 20% em 1930, 29% em 1931 e 32% em 1932. Depois de uma queda ligeira do PIB em 1938 (-0,1%), o comércio mundial cai significativamente (12%). Epicentro financeiro na Wall Street (queda de 89,19% desde pico do Dow Jones até ao ponto mais baixo em 8 de Julho de 1932, a maior de sempre deste índice; 149 dias de trading). Todas as regiões do mundo afectadas.

. Pânico financeiro de 1907 e Grande Depressão de 1908: PIB mundial cai 3,6% e comércio internacional quebra 6%. Epicentro financeiro na Wall Street (queda de 48,54%, desde o pico do Dow Jones ao ponto mais baixo em 15 de Novembro de 1907, a quinta maior de sempre; 96 dias de trading). Regiões mais afectadas: Europa, Ásia e América Latina.

. Pânico financeiro de 2008 e Depressão de 2007/2009: PIB mundial deverá cair 1,7% em 2009 e comércio internacional contraiu 10,8% no quarto trimestre de 2008 e 32% em média nos dois primeiros trimestres de 2009. Epicentro financeiro na Wall Street (queda de 53,5% desde o pico do Dow Jones em 15 de Outubro de 2007 até ponto mais baixo em 9 de Março de 2009, a segunda maior de sempre; 75 dias de trading). Todas as regiões do mundo afectadas.

Fontes consultadas (links visíveis): This Time is Different, Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff, 2009, p.261; Angus Maddison (http://www.ggdc.net/maddison/ARTICLES/Business_Cycles.pdf ); Estatísticas das Nações Unidas (http://unstats.un.org/unsd/trade/imts/Historical%20data%201900-1960.pdf ), Base de dados europeia (http://dataservice.eea.europa.eu/atlas/viewdata/viewpub.asp?id=1552 ) e do FMI (http://www.imf.org/external/pubs/ft/weo/2009/update/01/index.htm#tbl1 ); Mark Lundeen (http://www.gold-eagle.com/editorials_08/lundeen030709.html ); Organização Mundial do Comércio (http://www.wto.org/english/res_e/statis_e/quarterly_world_exp_e.htm ); The World Economy (http://www.theworldeconomy.org/histostats-table07-3.pdf ).

Um novo chapéu para Obama

Há uma interpretação curiosa sobre qual poderá ser a mais-valia da atribuição do Prémio Nobel da Paz ao presidente americano Obama.

Robert Kaplan, o jornalista e autor nova-iorquino, escrevia, recentemente, na revista The Atlantic Monthly (‘What Obama’s Nobel Really Means’), que Obama deveria alavancar esse prémio no sentido de se transformar no líder de uma nova dimensão mundial, a da sociedade civil global, e, na mesma assentada, tornar os Estados Unidos na “primeira nação internacional da história”.

Dito por outras palavras, a atribuição – tão prematura, segundo muitos críticos – deste Nobel da Paz a um recém-eleito presidente, que ainda mal aqueceu o lugar, seria a inspiração de “uma nova classe humanitarista global”, uma força social e política globalista que pretenderia assumir uma projecção de poder acima das nações.

Para esta missão geoestratégica, Barack Obama (que detém as rédeas do poder da ainda superpotência) seria uma valia, obviamente, incomparávelmente superior em relação a um Clinton ou mesmo a um Al Gore, que têm, politicamente, explorado essa dimensão. (…)

Continua neste link.

Um post no novo blogue colectivo A Regra do Jogo

A Reuters noticiava na sexta-feira passada (23 de Outubro) que o organismo estatal russo repositório de metais preciosos e minerais, o Gokhran (criado pelo czar Pedro, ‘O Grande’, e que depende do Ministério das Finanças), iria proceder a uma venda de 20 a 50 toneladas de ouro. Onde as colocaria em venda e a que entidades poderia vendê-las não foi revelado.

O objectivo seria encaixar entre 700 milhões e 1700 milhões de dólares, com vista ao financiamento do défice orçamental russo, que já vai nos 5,9% para os primeiros oito meses de 2009 e poderá chegar ao 7,8%.

Contudo, ontem (27 de Outubro), a agência oficial de export-import para os metais preciosos, encarregada da alegada operação, a Almazjuvelirexport, veio suspender o anúncio de venda, alegando fuga de informação.

Os analistas do portal independente Le Metropole Café advertem que pode ter-se tratado de uma jogada de mercado dos traders oficiais russos. Agitar uma venda com significado para pressionar em baixa o preço da onça que esteve entre os 1050 e os 1065 dólares (atingindo um máximo histórico de fecho a 13 de Outubro, nos 1063,9 dólares por onça), para, de seguida, proceder a compras por um valor mais baixo, actualmente na banda dos 1030-1040 dólares.

Recorde-se que o Banco Central russo (formalmente independente do Governo) dispõe de 568,4 toneladas de ouro em reservas oficiais, uma vez e meia mais do que as portuguesas, 7% das norte-americanas e 17% das alemãs, segundo dados de Setembro do World Gold Council (WGC). O Banco central russo terá aumentado as suas reservas oficiais declaradas em cerca de 48,9 toneladas ao longo de 2009 (com uma compra mais significativa de 18,3 toneladas em Julho), segundo dados do WGC de Setembro.

O polémico multimilionário George Soros anunciou esta semana em Budapeste que vai criar a Iniciativa para um Novo Pensamento Económico (INET, no acrónimo em inglês) no sentido de fomentar o debate teórico face à derrocada, com esta Grande Recessão, das teorias dominantes nos últimos trinta anos. Vários Prémios Nobel já se associaram ao projecto, entre eles George Akerlof, Joseph Stiglitz e A. Michael Spence, formando um vasto advisory board.

A iniciativa atribuirá bolsas de investigação, realizará simpósios e conferências e editará inclusive um jornal. A ideia é que floresçam diversas correntes e nasceu de uma reunião que Soros realizou no mês passado, trazendo para a mesma mesa economistas de diversas correntes e posturas, e inclusive de várias gerações.

O primeiro encontro decorrerá em Cambridge, Reino Unido, no Kings Kollege, entre 8 e 11 de Abril, sob o tema “A Economia da Crise e a Crise da Economia:Implicações para a teoria económica e para a economia da regulação”.

A INET é coordenada por Robert Johnson, seu director executivo, que pertence à comissão das Nações Unidas liderada por Stiglitz.

Recorde-se que a 6 de Setembro, o Nobel Paul Krugman lançou no ‘The New York Times’ um ataque contundente contra as teorias dominantes dos últimos trinta anos e a favor do renascimento do keynesianismo, como então comentámos.

O debate posterior a esta tomada de posição de Krugman “aqueceu” significativamente, com um número significativo de economistas independentes pugnando por que várias escolas floresçam e recusando a bipolarização entre adeptos, de um lado, das teorias monetaristas e da eficiência dos mercados e das expectativas racionais e, do outro, dos descendentes keynesianos, como já referido em artigo que pode ser lido aqui.

O Dow Jones Industrial Average (DJIA), um dos índices do clima bolsista em Wall Street, em Nova Iorque, tem flutuado numa banda entre 9700 e 10.000 pontos desde 6 de Outubro, tendo ultrapassado a barreira dos 10 mil pontos a 14 de Outubro, mas situando-se hoje abaixo daquela marca. Há duas sessões que continua a baixar daquele patamar, com quedas diárias de 1%.

As interrogações dos analistas independentes dirigem-se agora para saber se o DJIA se aguentará acima dos 10.000 pontos, mantendo a tendência altista (ainda que esteja longe do máximo de Outubro de 2007, quando atingiu mais de 14.000 pontos), ou se as oscilações se vão agravar como sintoma de que a míni-‘bolha’ (50,48% de valorização do DJIA desde o ponto mais baixo em 9 de Março passado ou de 58% do S&P500) poderá não aguentar-se.

“Quando algumas acções e áreas dispararam tanto, inexplicavelmente, em seis meses, está na hora de sair”, diz Mark J. Lundeen, investigador económico independente, comentador da Gold-Eagle e um dos analistas americanos a contracorrente do Le Metropole Café, um portal financeiro heterodoxo.

O analista vai divulgar no final desta semana uma avaliação da performance da bolsa americana, em que constata que se há sectores em que se compreende a valorização significativa (como nas empresas do sector de metais preciosos que subiram 96% ou nas de minerais não ferrosos que saltaram 275%, áreas em que a pressão da corrida aos valores refúgio e aos recursos estratégicos se tem feito sentir plenamente, ou ainda no caso dos casinos, com 237%), há outros em que os disparos de valorização são aparentemente “absurdos”. Lundeen interroga-se sobre a consistência dos aumentos no sector dos seguros (493%, que lidera a tabela de disparos de valorização) ou mesmo na banca (173%).

O dólar desceu, esta semana, abaixo dos 67 cêntimos de euro, tendo fechado hoje (23 de Outubro) nos 66,63 cêntimos. Dito de outro modo, o euro ultrapassou a fasquia psicológica dos 1,5 dólares (fechou a semana nos 1,5008 dólares) e o dólar aproximou-se, durante a semana, dos 91 ienes (a divisa japonesa).

Em relação a Janeiro deste ano, tendo em conta o índice do dólar da Reserva Federal norte-americana, a divisa desvalorizou-se 7%. O seu valor cambial desceu para uma banda de mínimos verificados entre 28 de Fevereiro e 11 de Agosto de 2008.

Muitos analistas vaticinam, por isso, uma tendência de colapso da moeda americana. Em 2008, o euro chegou a cotar-se num máximo de 1,6 dólares. Há, ainda, alguma margem de descida da divisa americana em relação aos seus mínimos históricos de Julho de 1995 e de Outubro de 1978.

Apesar da queda do dólar favorecer alegadamente as exportações americanas (que ficam mais baratas para quem as compra com moedas mais valorizadas), a tendência de queda reforça as dúvidas sobre a solidez financeira e económica dos EUA, diminui os ganhos dos exportadores de commodities que têm o preço fixado em dólares e gera a revolta dos países que sofrem a valorização das suas moedas, enfraquecendo a sua capacidade competitiva no comércio internacional, e que vêm as suas reservas estrangeiras em dólares perder assustadoramente valor.

Fruto do enfraquecimento do dólar, o preço do ouro tem mantido a tendência altista, acima do patamar dos 1050 dólares por onça (o máximo histórico está em 1063,9 dólares, atingidos em 13 de Outubro e reafirmados em 19 de Outubro), e a cotação do barril já galgou, no mercado americano, para a variedade WTI, a barreira dos 80 dólares (cotou-se, no fecho da semana, nos $80,05). A Goldman Sachs já previu que o barril possa chegar aos 85 dólares até final deste ano e aos 95 dólares pelo final de 2010.

O impacto financeiro da alta do petróleo nos países importadores é conhecido. Por exemplo, uma subida de 10 dólares do preço do barril implica uma drenagem adicional de 13 mil milhões de dólares das economias da OCDE para os exportadores de crude. Ora, um aumento de 10 dólares já ocorreu entre final de Julho e agora. Para países convalescentes de uma Grande Recessão esta punção de sangue financeiro em menos de três meses é significativa.

Aviso japonês

O analista chefe de estratégia da Sumitomo Mitsui Banking Corp, Daisuke Uno, admitiu que o dólar possa cair para os 50 iénes durante o próximo ano, o que significaria uma desvalorização brutal adicional na ordem dos 45% em relação à divisa nipónica. Um colapso desta envergadura significaria, politicamente, a perda total do papel do dólar como divisa de reserva global, conclui o analista da Sumitomo, citado pela Bloomberg.

A última cimeira do G20 acabou por não abordar, formalmente, o assunto do dólar como divisa internacional. Mas os analistas inclinam-se, agora, para admitir que a próxima reunião dos ministros das Finanças do G20, que se realizará na Escócia a 6 e 7 de Novembro próximos, terá de tomar o assunto em mãos.

Várias acções unilaterais têm vindo a ser tomadas. No início de Outubro, vários bancos centrais asiáticos, da Coreia do Sul, Taiwan, Hong Kong, Filipinas, Tailândia e Indonésia, intervieram para “arrefecer” a valorização excessiva das suas moedas face à quebra do dólar.

O sinal brasileiro

O Brasil acabou de instaurar um imposto de 2% sobre os investimentos estrangeiros em títulos e acções (não sobre investimento directo estrangeiro) tidos como “especulativos” de modo a travar a valorização do real face ao dólar (34% desde o final de 2008) e a moderar a queda das exportações brasileiras este ano (25,1% até à data).

Este controlo parcial do fluxo de capitais internacionais pelo governo brasileiro é tido como um caminho possível, se não houver uma acção internacional concertada. Naturalmente que esta medida teve impacto imediato sobre a Bolsa de São Paulo, onde as 271 empresas cotadas perderam, numa só sessão (terça-feira, dia 20, após o anuncio da nova taxa na segunda-feira), 4,5% da sua capitalização, segundo um estudo da consultora Economática. É a outra face da moeda.

Os analistas dos mercados deste metal precioso interrogam-se, agora, se a onça de ouro alcançará o patamar psicológico dos $1100.

A onça de ouro valia na terça-feira passada (dia 13 de Outubro de 2009) 1063,9 dólares, fixando um novo máximo histórico em termos nominais, prosseguindo um movimento de subida que se vinha a verificar há mais de um mês. Nos dias seguintes desceu ligeiramente.

Recorde-se que o preço do ouro voltou a ultrapassar a barreira dos $1000 em 8 de Setembro passado e superou o anterior máximo histórico de $1011 alcançado no dia da aquisição do banco de investimentos Bear Stearns pelo banco JP Morgan Chase em 17 de Março de 2008. Esta aquisição forçada foi o prelúdio do Pânico Financeiro que viria a despoletar em Setembro daquele ano na Wall Street.

Os analistas referem a ligação “umbilical” – ainda que não quantificável matematicamente – entre o comportamento do preço do ouro (fixado em dólares desde que o London fix adoptou esse método em 1950, abandonando a fixação em libras) e do valor do dólar. A relação é inversa.

O ciclo mais recente de desvalorização do dólar tem ocorrido desde Março de 2009 – em sete meses o índice do dólar da Reserva Federal americana caiu quase 10 pontos. Situa-se hoje nos 87,6345, ainda acima dos mínimos de Outubro de 1978 (84,1620), de Julho de 1995 (84,1516) ou mesmo de Fevereiro (85,8236) e Julho (85,6996) de 2008. O dólar tem, ainda, margem para cair até aos mínimos históricos.

A subida da onça de ouro até aos $1100 depende, assim, da continuação ou não do colapso do dólar, em virtude da fragilidade da saúde orçamental norte-americana e dos riscos de inflação ou mesmo hiperinflação no pós-crise.

Uma realidade económico-financeira que tem sido pressionada politicamente pelas desconfianças de muitos países do mundo, e em particular dos BRIC, em relação ao dólar como divisa internacional. Os analistas falam de “um sentimento altamente negativo face ao dólar”. Algumas propostas, a que já fizemos referência, sugerem que a par da criação de um cabaz de divisas de referência para além do dólar americano e do uso da unidade de conta do Fundo Monetário Internacional, os direitos de saque especiais (SDR, na linguagem técnica anglo-saxónica), se junte o ouro nessa rede de segurança.

A única solução é seguir atentamente os ziguezagues do dólar e os eventos políticos relacionados com as movimentações do G20.

O Dow Jones Industrial Average, um índice da bolsa nova-iorquina existente desde o século XIX, fechou hoje a sessão nos 10.015,86 pontos, ultrapassando o patamar dos 10.000 pontos, regressando aos valores de há um ano atrás.

Este valor de fecho corresponde a uma recuperação de 53% em relação ao ponto mais baixo da crise bolsista em Março deste ano. Contudo, em relação ao máximo atingido em Outubro de 2007, o patamar actual está, ainda, nos 71%.

A recuperação bolsista em curso tem uma incógnita pela frente – a futura regulação dos mercados bolsistas e de alguns dos veículos financeiros e estratégias de trading.

É preciso recordar que 2/3 do volume de acções americanas está hoje ligado a estratégias designadas por high-frequency trading, apoiadas por poderosos modelos de automação do trading criados por talentos, recrutados entre matemáticos, físicos e doutorados em ciências da computação (em vez de MBAs de gestão), técnicas que têm gerado polémica, pois são consideradas por alguns analistas como estratagemas fraudulentos. Se estas estratégias forem restringidas legalmente, as bolsas ressentir-se-ão.

Por outro lado, começou hoje a discutir-se no Comité de Serviços Financeiros do Congresso americano a futura legislação relativa ao segmento do mercado de derivados over-the-counter que envolve, nos EUA, 450 biliões (triliões ou trilhões, na designação anglo-saxónica) de dólares.

O volume de emprego no final deste ano (2009) será inferior ao que havia há dez anos atrás. O défice de emprego gerado por esta recessão de dois anos nos Estados Unidos só em 2017 (ou mais tarde) estará anulado.

Em termos de emprego, a década de 2000 a 2009 vai ser um fiasco na América. Em Dezembro de 2009 estima-se que haverá menos 1,3 a 1,8 milhões de empregos do que em Dezembro de 1999! “Algo que nunca ocorrera nos Estados Unidos, exceptuando o período da Grande Depressão dos anos 1930”, sublinha-nos Joseph J. Seneca, professor na The Edward J. Bloustein School of Planning and Public Policy, pertencente à Universidade de Rutgers, em New Jersey, co-autor de um estudo intitulado ‘America’s Post-Recession Employment Arithmetic’, acabado de divulgar.

A primeira constatação dramática é que o emprego líquido criado entre 2001 e 2007, mais de 6 milhões de novos empregos no sector privado, foi ‘engolido’ literalmente por dois anos de crise que já destruíram em termos líquidos mais de 7,5 milhões de empregos entre Dezembro de 2007 (início da recessão) e Agosto passado. Ou seja, a destruição de emprego em 20 meses foi superior à criação de emprego durante a fase de crescimento anterior de quase sete anos.

Défice de emprego gigante

Mas o mais dramático não se fica por aqui. “O problema mais grave”, refere Seneca, é a herança de um défice gigante de emprego logo em Janeiro de 2010, que poderá rondar os 9,5 milhões. A aritmética que o estudo desenvolveu antevê que só em 2017, no melhor dos cenários pessimistas, a América retornará “às condições do mercado de trabalho anterior ao início da recessão em 2007”. Ou seja, a recuperação do défice levará sete anos!

No pior dos cenários, isto é se o crescimento de emprego for similar ao que ocorreu entre 2001 e 2007 (criação, apenas, de 1 milhão de novos postos de trabalho por ano no sector privado, tendo em conta um crescimento do PIB inferior a 2%), e não ao que ocorreu entre 1991-2001 e 1982-1990 (mais de 2 milhões por ano, com um crescimento do PIB superior a 3%), só lá para 2025, os americanos suspirarão de alívio.

Contudo, este cenário dramático poderá ser “desdramatizado”, sublinha-nos o autor do estudo, com o aumento do número de desempregados “desencorajados” que sairão do circuito de procura de emprego formal (em Agosto deste ano eram mais de 750 mil), com a decisão de mais jovens permanecerem no sistema de ensino formal até mais tarde e com a diminuição da imigração para os EUA. Também, as políticas públicas dirigidas à criação de emprego, à Investigação & Desenvolvimento e ao apoio às PME no quadro dos sectores tecnológicos mais promissores (como Internet, tecnologias ‘limpas’, nanotecnologia, biotecnologia, etc.) poderão “moderar” o cenário pessimista, admite Seneca.

O fim de uma bóia de salvação

Os padrões da geração de desemprego durante esta recessão de 2007-2009 trazem, contudo, uma novidade, adverte Joseph Seneca: “Mais de 50% dos empregos perdidos foram no sector dos serviços. Isto é dramaticamente diferente do que ocorreu em recessões anteriores, onde o desemprego em massa atingia sobretudo a indústria e a construção. Ora esse sector dos serviços norte-americano está sujeito a uma concorrência internacional muito forte, o que levanta a interrogação se será capaz de se reanimar com força”. Nas duas recessões imediatamente anteriores, o peso do sector dos serviços na destruição de emprego fora, apenas, de pouco mais de 17%. Há aqui uma “alteração estrutural”, diz o autor. O sector dos serviços deixou de ser a bóia se salvação.

Outro problema que se tem vindo a agravar é o do tempo decorrido entre o final da recessão e a retoma na criação de empregos, que passou de uma média de 2-3 meses, nos ciclos recessivos anteriores entre 1949 e 1990, para 11 meses e depois 20-21 meses (mais de ano e meio) respectivamente nas recessões de 1991 e 2001.

Um estatuto para a criação de algo similar a uma “OPEP” (cartel petrolífero) para o sector estratégico do gás natural estará em fase final de aprovação entre os principais exportadores e detentores de reservas mundiais, segundo o director executivo da National Iranian Gas Company, Azizollah Ramezani, declarou numa entrevista em Buenos Aires, durante a conclusão da 24ª Conferência Mundial do Gás, que decorreu esta semana.

A ameaça de criação de um cartel anda no ar há alguns anos. Estão incluídos nesta iniciativa, a tríade de superpotências no gás – Rússia (que detém 26% das reservas mundiais provadas de gás, as maiores do mundo, controla 19% das exportações de gás natural, sendo o exportador número um, e é, ainda, o principal produtor do mundo), Irão (que detém 15% das reservas, sendo o segundo neste ranking, é o quinto produtor do mundo, mas não se encontra entre os dez principais exportadores) e Qatar (que detém 14% das reservas, sendo o terceiro, e é sétimo exportador do mundo) – e outros parceiros relevantes, por ordem alfabética, Argélia (quarto exportador, nono em reservas e sétimo em produção), Bolívia, Brunei, Egipto, Emirados Árabes Unidos (quinto em reservas), Indonésia (oitavo em exportações), Líbia, Malásia (nono em exportações), Nigéria (sétimo em reservas), Trindade e Tobago e Venezuela (oitavo em reservas).

Encontram-se fora do potencial cartel, exportadores de topo, como Canadá (12% das exportações mundiais), Noruega (9% das exportações mundiais), Holanda (5º no ranking) e Turquemenistão (6º no ranking), e grandes detentores de reservas provadas como Arábia Saudita (4º no ranking), Estados Unidos (6º no ranking) e Iraque (10º no ranking).

A sede do cartel do gás deverá ficar no Qatar.

Os analistas do sector, intervenientes na 24ª Conferência Mundial do Gás, afirmaram que o século XXI será “o século do gás” e que o seu peso na matriz energética subirá dos 28% actuais para 32% em 2030. Será um sector de bonanza de investimento, atraindo 230 mil milhões de dólares por ano até 2030.

Nota: Rankings sobre produtores, exportadores e detentores de reservas mundiais podem ser consultados aqui.

A onça de ouro fechou dia 7 de Outubro nos 1053,60 dólares e a 6 de Outubro nos 1040,10 dólares, ultrapassando o anterior máximo histórico ($1019,40) de 16 de Setembro passado. O metal precioso reagiu dia 6 a uma noticia (não confirmada) de reuniões secretas para substituir o dólar americano como divisa de fixação dos preços do petróleo árabe, e prosseguiu em alta no dia seguinte.

A onça de ouro fechou a primeira semana de Outubro, dia 9/10, nos $1048,6, abaixo do máximo de dia 7.

O dólar voltou, também, a desvalorizar valendo menos de 68 cêntimos de euro, estando ao nível do câmbio dos finais de Agosto de há um ano.

O patamar psicológico dos 1000 dólares por onça havia sido ultrapassado durante três dias em Março de 2008 durante a crise do banco americano Bear Stearns, tendo atingido um máximo nominal de 1011,25 dólares em 17 de Março de 2008, no dia seguinte ao fim de semana em que a negociação de venda daquele banco foi realizada.

O preço médio anual da onça de ouro no London fix foi de 871,96 dólares em 2008 e o valor médio dos primeiros nove meses de 2009 situou-se em 930,09 dólares.

Contudo, em termos reais o actual máximo histórico nominal está ainda longe dos valores atingidos em Janeiro de 1980 (decorria, então, o caso dos reféns americanos no Irão) quando a onça atingiu em termos nominais 850 dólares, o que equivale a 2200 dólares hoje.

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