Seg 7 Set 2009
Krugman partiu a loiça na “loja” dos economistas – diário de bordo 30
Por JNR na secção Globalização , História Económica , Inteligência Económica , O novo capital financeiro[4] comentários
O mediático Nobel da Economia atacou frontalmente este fim-de-semana a corrente académica que tem dominado a macroeconomia dos últimos trinta anos conhecida pela designação de “hipótese da eficiência dos mercados”. O artigo publicado na revista do The New York Times funciona como um manifesto para o regresso ao keynesianismo e uma proposta de ruptura definitiva com a escola de Chicago.
Este fim-de-semana no The New York Times Magazine o economista Paul Krugman resolveu criticar frontalmente a corrente ‘macroeconómica’ de inspiração neoclássica nascida na Universidade de Chicago que responsabiliza pela cegueira de muitos economistas, políticos e tecnocratas face aos riscos da financeirização extrema da economia americana.
O nome porque ficou conhecida foi “hipótese da eficiência dos mercados [financeiros]” (HEM). Escreve Krugman: “Durante os anos de ouro, os economistas financeiros acabaram por acreditar que os mercados eram inerentemente estáveis – na verdade, julgavam que as acções e outros activos teriam sempre o seu preço definido de um modo certo. Não havia absolutamente nada nesses modelos prevalecentes que sugerisse a possibilidade de um colapso como o que ocorreu no ano passado”.
Regresso ao Keynes no original
Mas o polémico professor da Universidade de Princeton também belisca os ‘bastardos’ neo-keynesianos (na expressão irónica cunhada em 1962 pela keynesiana inglesa Joan Robinson) que ajudaram à festa das ‘bolhas’ financeiras dos últimos vinte anos. Sem papas na língua: “Os modelos standard neo-keynesianos não deixaram espaço para uma crise como esta, porque tais modelos, em geral, aceitavam a visão do mercado eficiente no caso do sector financeiro”.
Em suma, há um duplo choque. Por isso em ‘How did Economists get it so wrong?’, o Nobel da Economia, além da crítica contundente aos teóricos da HEM resolveu lançar um movimento pelo regresso ao Keynes original, ainda que reconhecendo que não há nenhuma síntese no bolso para lançar no curto-prazo.
Krugman, um opinador hábil, julga estar aberta uma janela de oportunidade para um Renascimento keynesiano face ao estado moribundo da ‘Idade das Trevas’ da macroeconomia neoclássica. “Uma visão mais ou menos keynesiana é o único jogo plausível em campo”, diz, e reforça mais adiante: “A economia keynesiana continua a ser o melhor enquadramento para compreendermos as recessões e as depressões”.
Mas Eugene Fama não desarma
Mas a própria batalha contra a hipótese da eficiência está longe de estar encerrada nos corredores da academia. Apesar da força dos factos, o colapso intelectual dos “eficientistas” de Chicago não está selado. Como Eugene Fama, 70 anos, professor de finanças da Universidade de Chicago e o pai fundador da teoria, nos refere numa curta entrevista que pode ser lida aqui na íntegra em inglês, a crítica de Krugman e de outros cai ao lado. “Não há relação nenhuma [da hipótese de eficiência dos mercados com a presente crise]”, diz-nos. E contra-ataca sobre o sentido do actual debate: “Eu ganhei”, pois, no seu entender, mesmo os neo-keynesianos continuam a admitir “que a HEM fornece uma boa visão do mundo para quase todos os propósitos práticos”.
A culpa dá a entender Fama foi dos intervenientes nos mercados financeiros e dos políticos e tecnocratas que, na verdade, não aplicaram a HEM. “É muito claro que continuo em minoria. Se a HEM tomou conta do mundo do investimento, não me dei conta disso. Na verdade, se os bancos e os bancos de investimento tivessem encarado com mais seriedade a eficiência do mercado, talvez tivessem evitado muitos dos recentes problemas”. No final, o principal visado por Krugman respondeu-nos prontamente: “Não vi [o artigo]. Mas também não presto grande atenção a ele [Krugman]”.
O próprio Fama sente-se incomodado quando se repete o termo “bolha” e afirma não estar familiarizado com a teoria de Hyman Minsky (1919-1996), o economista que nos anos 1990 avisou que o sistema financeiro era intrinsecamente instável. “Se as firmas financeiras suportarem todos os custos e os benefícios das suas acções, não penso que o sistema seja ‘inerentemente’ instável. Mas se as firmas financeiras ficam com os benefícios nos bons tempos e os contribuintes suportam as perdas nos maus, então o sistema pode tornar-se instável”, sublinha-nos, habilmente, Eugene Fama.
Minsky perdido na edição
Krugman tinha escrito sobre o papel da “hipótese de instabilidade financeira” de Minsky, mas declara no seu blogue que, na edição da versão final do artigo para o The New York Times Magazine, cortou esses parágrafos. Foi uma pena Minsky se ter perdido na edição, pois de desconhecido professor para o comum dos leitores de economia se tornou popular na blogoesfera nos últimos dois anos.
Merece, por isso, aqui uma nota para o leitor menos íntimo com este economista de apelido estranho. Apesar de nativo de Chicago, Minsky atirou uma seta envenenada à teoria da eficiência dos mercados financeiros concebida na Universidade da sua cidade natal. A sua “hipótese” (como a designou), colocada em 1986, era muito crua: o sistema financeiro da economia de mercado é intrinsecamente instável, frágil e conduzirá a um padrão de comportamento com euforias e derrocadas.
A saída política para diminuir a intensidade dos efeitos deste padrão é a acção da mão visível da regulação pelo Estado, e em particular a coragem de colocar em prática políticas em contra ciclo nos períodos de ‘bolha’ financeira. O que, naturalmente, foi muito mal visto pelos políticos que defendiam a desregulação, pelos banqueiros centrais que usaram a política monetária para provocar sucessivas ‘bolhas’ e pelo chamado “sistema bancário sombra” que retirou milhões de um processo, segundo o economista, em três fases sucessivas que evoluía da garantia contra o risco para a especulação e depois mesmo para os esquemas Ponzi.
Minsky morreu com 77 anos sem ver a consagração dos seus “avisos” nas derrocadas financeiras de 2000 (depois da mania das dot-com) e agora de 2007 (depois da ‘bolha’ do imobiliário). Alguns passaram a chamar ao ponto em que a situação se inverte de euforia para estoiro como “momento Minsky”.
Não é o único jogo em campo
Em suma, com a iniciativa do artigo no The New York Times em prol do keynesianismo, Krugman procura aproveitar uma janela de oportunidade – não só a crise retirou do armário as recomendações de política orçamental do economista inglês como os seus pontos de vista de então sobre o sistema monetário internacional estão hoje na ribalta (a começar pelos insuspeitos chineses que o recordaram a propósito da questão do dólar como divisa internacional no futuro) com a importância assumida pelo G20.
Provavelmente a dimensão “globalista” do pensamento de Lorde Keynes tornar-se-á, com o tempo, mais decisiva do que o efeito “doméstico” das políticas orçamentais. O australiano Don Markwell, do Trinity College da Universidade de Melbourne, dizia recentemente: “Parece-me que as três ideias chave que emergem de Keynes são da maior relevância para os temas internacionais de hoje: primeira, a importância da coordenação internacional das políticas de estímulos orçamentais e monetárias; segunda, a importância da governância económica global através de instituições económicas eficazes, como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial; e terceira, a importância de resistir ao proteccionismo e ao nacionalismo económico, e de manter uma economia internacional aberta”.
Mas o regresso ao Keynes original não é o único jogo em campo, como quer fazer crer Krugman.
A par de algum revivalismo do keynesianismo (com o Nobel Paul Krugman ou com James K. Galbraith que animou em Junho um outro Manifesto de um grupo reunido em Paris sob os auspícios dos Economists for Peace and Security e da Initiative for Rethinking the Economy) ganharam, também, agora, maior expressão pública correntes heterodoxas até há anos remetidas para a margem.
É o caso do comportamentalismo ou behavioral economics na designação anglo-saxónica (Robert Shiller e o Nobel George Akerlof publicaram, este ano, o livro ‘Animal Spirits’ que se inspira nesse conceito keynesiano da pulsão humana); dos especialistas em comportamentalismo financeiro (behavioral finance, um dos casos mais conhecido é o de Andrew Lo, do MIT); das abordagens da economia evolucionista e da complexidade (por exemplo, a corrente dos econofísicos que apostam no apoio das simulações computacionais e na aplicação da metodologia da estatística física à análise dos problemas económicos); dos seguidores actuais da “escola austríaca” (desde Antal Fekete a Peter Schiff, que hoje levantam a voz contra a acção dos bancos centrais inflacionando a massa monetária e contra os riscos do endividamento público excessivo, alertando sobre os limites do keynesianismo); dos neo-schumpeterianos focados na questão do papel da inovação, da mudança tecnológica e das ondas longas económicas (como Carlota Perez, da Universidade de Cambridge, Reino Unido); ou mesmo de alguns não-alinhados, sem escola definida (Nouriel Roubini é, porventura, o mais mediático, conhecido como ‘Dr.Doom’), ou dos múltiplos blogues que na América estão ao rubro com esta discussão sobre o futuro da teoria económica depois da grande crise financeira de 2007.
Que mil escolas floresçam
Mas o pensamento dogmático de grupo e o groupthinking em que muitas destas correntes macroeconómicas se fecham, a tendência para “uma captura cognitiva”, como lhe chama o economista e ex-ministro italiano Luigi Spaventa, professor da Universidade de Roma e investigador do Center for Economic Policy Research, de Londres, é um bom aviso para que não haja precipitação nem em decretar um novo vencedor que crie uma moda e contagie a massa dos economistas desorientados, nem uma nova “síntese” apressada que lime as arestas dos dois lados da barricada dos últimos trinta anos.
A economia não é uma “ciência sinistra”. Mas “é infelizmente uma coisa bem complexa”, diz-nos Jean-Philippe Bouchaud, um ‘econofísico’, do Capital Fund Management e professor da École Polytécnique em Paris.
Como Mark Thoma, da Universidade de Oregon, nos refere, o ponto de partida tem de ser colocar as questões certas antes de correr atrás de qualquer manifesto: “O que se passou encaro-o mais como um falhanço em colocar as questões certas, mais do que o falhanço das próprias ferramentas e técnicas. Os modelos, como sabemos, constroem-se a partir de questões específicas. Construímos modelos errados porque colocámos questões erradas”. E conclui este editor de um dos blogues americanos de economia (Economist’s View) hoje em dia mais populares: “O problema para mim não começa por colocar a questão de qual dos diversos modelos em campo deveremos usar. Começa por colocar as tais questões certas, e, então, depois procurar o melhor modelo que nos possa guiar na procura da resposta”. E uma das perguntas que seguramente não vale a pena repetir “é a das últimas décadas, sobre quão rápida a macroeconomia retorna ao seu equilíbrio de longo prazo depois de uma convulsão”.
Por isso, muitos advogam que o melhor é que várias escolas floresçam, repescando o velho mote maoista (que era mais propaganda do que realidade). ”O barco está a meter água e muita gente já começa a pensar que é altura de mudar de paradigma. Por exemplo, o recente trabalho do The Economist em Julho é um exemplo dessa reflexão. Mas creio que essas mudanças vão ser lentas, pois não há uma alternativa de síntese unificada. A diversidade de abordagens e de escolas é necessária neste momento. É preciso investigar em diversas direcções. A síntese só virá depois, mas é verdade que, entretanto, as pessoas têm de tomar decisões e, tal como a cobra quando perde a pele, é a situação mais perigosa”, afirma-nos Jean-Philippe Bouchaud.
Bouchaud é um entusiasta das simulações realistas em computador: “Esta ferramenta, casada com as ideias que vêm das finanças comportamentais, da física estatística e da biologia evolucionista poderão, em minha opinião, abrir muitas vias nos próximos dez anos, tanto no plano teórico como pragmático. Surpreendentemente, os economistas mainstream continuam a ser relutantes em reconhecer a força e a utilidade das simulações numéricas”. Estas simulações permitem perceber a instabilidade que emerge repentinamente, as oscilações selvagens nos mercados, a dinâmica intermitente, os eventos extremos, os comportamentos em multidão derivados do animal spirits keynesiano (provocando euforias e pânicos), enfim os “momentos Minsky” em que um dado contexto sofre uma mutação – tudo palavrões que convém colocar no seu dicionário de bolso.
Setembro 14th, 2009 at 23:26
[...] Krugman, um keynesiano assumido, resolveu entrar na ‘loja’ dos economistas e partir a loiça, como já referimos. Num extenso artigo na revista do The New York Times de 6 de Setembro, intitulado ‘How did [...]
Setembro 15th, 2009 at 20:38
[...] resolveu entrar na ‘loja’ dos economistas e partir a loiça, como já referimos num post (aqui) colocado na altura. Num extenso artigo na revista do The New York Times de 6 de Setembro, [...]
Setembro 15th, 2009 at 21:24
[...] resolveu entrar na ‘loja’ dos economistas e partir a loiça, como já referimos num post (aqui) colocado na altura. Num extenso artigo na revista do The New York Times de 6 de Setembro, [...]
Outubro 27th, 2009 at 13:05
[...] Recorde-se que a 6 de Setembro, o Nobel Paul Krugman lançou no ‘The New York Times’ um ataque contundente contra as teorias dominantes dos últimos trinta anos e a favor do renascimento do keynesianismo, como então comentámos. [...]