Ter 15 Set 2009
O dilema: retoma ou recaída – diário de bordo 32
Por JNR na secção A diferença portuguesa , A questão dos impérios , Choque petrolífero , Geoprotagonistas , Gestão do risco , Globalização , História Económica , Inteligência Económica , O novo capital financeiroainda sem comentários
A recessão de 2009 será a décima maior na história do capitalismo americano, mas está longe das Grandes Depressões dos anos 1890 e 1930. Muitos economistas americanos inclinam-se para o risco de uma recaída, apesar do ‘aquecimento’ bolsista na Wall Street
Há um ano, o fim-de-semana de 12 e 13 de Setembro ditou o curso da crise financeira nascida num canto exótico do mundo dos produtos financeiros, chamado de subprime, em Agosto de 2007. O falhanço, naquele fim-de-semana, da negociação da venda da mais do que centenária casa financeira Lehman Brothers e a falta de vontade política do secretário do Tesouro e do governador do banco central americanos em injectar o dinheiro dos contribuintes em mais um protagonista do apelidado “sistema financeiro sombra” da Wall Street de Nova Iorque, transformou a crise bancária em Grande Pânico financeiro e projectou-a globalmente.
A segunda-feira ‘negra’ de 15 de Setembro de 2008 foi o ‘momento Minsky’, como os economistas dizem, em que a mutação se deu – em que o que poderia ficar por ser mais uma “normalíssima” crise financeira, com uma derrocada bolsista moderada, atravessou a linha divisória e colocou a América à beira de um segundo 1929 (a Grande Depressão mais conhecida) ou de uma repetição da depressão de 1893/1894, menos conhecida.
Evitou-se repetir 1929
Um ano depois, o pior cenário de uma Grande Depressão ao estilo de 1929/1933 foi posto de lado. A derrocada bolsista na Wall Street parou a 9 de Março deste ano (54% de quebra em relação ao pico em 15 de Outubro de 2007, a segunda maior de sempre na história do Dow Jones) e a OCDE voltou a anunciar, a 11 de Setembro, que, tecnicamente (de acordo com o seu indicador compósito), a maioria das economias que tinham entrado em recessão se aproximaram no segundo trimestre de 2009 da “vala” (trough, em inglês; vala entre dois ciclos económicos) que poderá conduzir à retoma. Globalmente o G7 (o clube dos ‘ricos’) terá em termos trimestrais, em cadeia, decrescido, apenas, 0,1% no segundo trimestre deste ano, face a quebras significativas de 8,4% no primeiro trimestre de 2009 e 7,3% no quarto trimestre de 2008.
A economia mundial em 2009 irá decrescer apenas 1,3% segundo o FMI ou 2,7% segundo o último relatório da UNCTAD. Será o pior ano desde que a crise financeira se manifestou em meados de 2007. Mas mesmo assim estará longe dos números atingidos em outras grandes depressões. O comércio internacional deverá retroceder 10% este ano, segundo uma estimativa da Organização Mundial de Comércio, mas entre 1929 e 1932 caiu 60%.
Olhando um outro indicador do comércio internacional, podemos avaliar a contracção nesta área motivada pela recessão. Segundo dados do Institute of Shipping (ISL), de Bremen, o movimento mundial de contentores quebrou 15,7% em termos mundiais no 1º semestre de 2009 em relação ao primeiro semestre do ano passado, com uma situação mais grave nas Américas (onde caiu, em termos homólogos, 19,2%) e na Europa (quebra de 17,8%). A quebra na Ásia (14,8%) foi inferior à média global. A fonte é o Monthly Container Port Monitor do ISL.
Mas já é o 10º pior ano da América
Olhando ao caso dos EUA, o epicentro desta crise, a economia, estima-se, quebrará 3% em 2009. A ser assim, será a décima maior quebra anual de sempre do PIB em termos reais em relação ao ano anterior na história do capitalismo moderno americano desde os anos 1860.
Em termos de comparação histórica, o PIB americano quebrou, em termos reais, 13% em 1932 (um ano de recaída no percurso da Grande Depressão de 1929/1933), em 1908 (11%), em 1930 (8,6%), em 1931 (6,4%), em 1893 (5,8%), em 1894 (4,7%), em 1866 (4,6%), em 1904 (3,5%) e em 1938 (3,4%, a segunda recaída cinco anos depois da Grande Depressão de 1929/1933, um evento a que os americanos chamam de double dip).
Para o analista americano Peter Cohan o ter-se evitado a reedição de uma Grande Depressão mundial ao estilo de 1929 deveu-se à massiva intervenção das autoridades monetárias e das políticas orçamentais tanto nos países da OCDE como nos emergentes.
Paradoxalmente, os emergentes apostaram mais em intervenções keynesianas, em média na ordem dos 4% do PIB (com recordes na Arábia Saudita, com 9%, em Singapura com 8%, e na África do Sul com 7,4%), do que os países desenvolvidos (3,7% do PIB em média), segundo dados recentes da UNCTAD. O intervencionismo de base orçamental chinês é particularmente destacado, segundo a UNCTAD na ordem dos 6,2% do PIB, e segundo outros analistas estará nos 13%. Os países ‘ricos’ lideraram, no entanto, no esforço de intervenção no sector financeiro, com posições relativas recorde na Islândia e Irlanda, seguidas do Reino Unido, EUA e Suécia. Nos países emergentes, esse tipo de injecção foi negligenciável. A defesa do sistema de financeirização nos países da OCDE é particularmente crítico, como se vê.
O risco de recaída
Esta dependência, por parte dos países ‘ricos’, da morfina do dinheiro dos contribuintes dirigida a segurar um sistema financeiro em que muitas das entidades são tidas como não-confiáveis (falando claro: como insolventes ou zombie) surge como o ponto fraco, refere-nos William Thomson, presidente da Private Capital, em Hong Kong, um olhar bem distanciado da Wall Street nova-iorquina. Metade do “lixo mais tóxico” financeiro, diz-nos Thomson, ainda continua debaixo do tapete: uns 30 biliões de dólares. “A questão é saber o que acontecerá quando as injecções artificiais dos governos recuarem”, conclui.
David Kotok, director do Global Interdependence Center,uma organização sem fins lucrativos de alcance globalista, coloca o dedo na ferida. Muita gente bateu palmas porque os bancos centrais estavam actuando face a um problema de liquidez. Mas a realidade é outra: “O Tesouro americano violou as regras porque se envolveu em assuntos de insolvência. Uma coisa é atacar a falta de liquidez, outra, completamente diferente, é esbanjar dinheiro dos contribuintes em insolventes. As consequências disso ainda estarão para vir”.
Por isso são cada vez mais as vozes que falam do risco de um padrão de recaída como aconteceu em 1932 (o PIB americano voltou a quebrar dramaticamente, um afundamento de 13%, depois de ter desacelerado a quebra no ano anterior) ou de uma entrada num período de “tipo japonês” (entre 1991 e 2007, a economia nipónica não cresceu mais do que 1,9% ao ano em média), como refere Thomson. Alguns, como o historiador Michael Perelman, da California State University, adiantam que, mesmo a médio prazo, há que estar vigilante, pois há o risco de um double dip, como aconteceu em 1938, em que já depois de terminada a Grande Depressão, a recessão regressou por um ano (com uma quebra de 3,4%).
Peter Cohan sublinha que o desemprego – e em particular o aumento do desemprego de longa duração – tem em economias como a americana (cujo crescimento depende 70% do consumo) um efeito negativo suplementar. Este risco tem levado os políticos e os banqueiros centrais a uma atitude de prudência e os organismos internacionais a aconselhar a manutenção das políticas keynesianas e da ZIRP (taxas de juro próximas de zero %, no acrónimo em inglês para zero interest rates policy) monetária.