“A maior jogada política nos preparativos da cimeira do G20, que se inicia hoje em Pittsburgh (Estados Unidos), foi protagonizada pelos europeus, que estão, claramente, a tentar ganhar a dianteira no campo da regulamentação financeira, explorando as dificuldades que Obama atravessa e alguma focalização dos BRIC no tema do dólar”, diz-nos o analista geopolítico Dylan Kissane, investigador francês professor de política internacional no Centre d’Études Franco-Américain de Management em Lyon.

A Comissão Europeia resolveu adoptar a linha proposta em Fevereiro por Jacques de Larosière ex-governador do Banco de França e ex-director geral do Fundo Monetário Internacional e do BERD (Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento), relativamente ao sistema financeiro europeu no sentido de uma gestão do risco sistémico e anunciou recentemente a proposta (é tão só ainda uma proposta, sublinhe-se) de criação de um supervisor “sistémico” pan-europeu baptizado de European Systemic Risk Board, autónomo do Banco Central Europeu (ainda que povoado de banqueiros centrais e com pessoal técnico do BCE), e de um sistema de três autoridades “sectoriais” dirigidas ao sector bancário, ao segurador e ao mercado de capitais.

O super-organismo emitirá recomendações e avisos – e não, ainda, imposições obrigatórias, como os mais radicais reclamam. De qualquer modo, defendem os advogados da solução de compromisso, estas “recomendações” e “avisos” terão, naturalmente, um enorme poder real.

Cheque mate à City

Enquanto nos Estados Unidos, a Administração Obama procura convencer, com dificuldade, o Congresso para atribuir ao banco central, a Reserva Federal (FED), novos poderes reguladores, a Europa pretende criar uma nova estrutura que possa “envolver” o Reino Unido, que não está integrado no BCE nem na Zona Euro. A avançar este tipo de estrutura pan-europeia será um golpe decisivo na autonomia estratégica que ainda conserva o Reino Unido, que mantém um dos centros financeiros mundiais de topo, a City londrina, segundo na área do sistema “sombra” financeiro, depois da Wall Street nova-iorquina. O envolvimento inglês está a ser “comprado” com a colocação do governador do Banco de Inglaterra em lugar cimeiro do novo Board da nova estrutura, o que, no entanto, tem gerado muitos anticorpos na City londrina, ciosa da sua independência de movimentos.

Kissane vê nesta jogada europeia “um dos mais interessantes – e inesperados – acontecimentos deste final de crise olhado numa perspectiva de movimentações globais”. Os europeus pretenderão marcar pontos no sentido de apresentar um conceito capaz de influenciar a ideia de um futuro organismo mundial de supervisão sistémica do sistema financeiro. Organismo mundial que o presidente francês Sarkozy gostaria de ver sediado em Paris.