Sex 4 Set 2009
Bernanke e o Grande Pânico de há um ano – o livro sobre os bastidores
Por JNR na secção Geoprotagonistas , Gestão do risco , Globalização , História Económica , Inteligência Económica , O novo capital financeiroainda sem comentários
Setembro 2008 ficará sempre como o momento em que a crise financeira provocada em meados de 2007 por um palavrão estranho – o subprime – sofreu uma mutação inesperada e transformou-se num Grande Pânico ao estilo de outros na história da América. David Wessel, o editor de economia do The Wall Street Journal, desvenda em ‘In Fed We Trust’ (Crown Business, Agosto 2009) os detalhes do que se passou nos corredores da Reserva Federal liderada por Ben Bernanke, que acabou de ser proposto por Obama para novo mandato até 2014.
Com a proposta de recondução de Ben Bernanke, um académico e tecnocrata de 55 anos, para um novo mandato à frente da Reserva Federal americana de 31 de Janeiro de 2010 a 31 de Janeiro de 2014, Barack Obama resolveu colocar um ponto final nas manobras de bastidores e intrigas políticas sobre a cadeira da presidência do comité de governadores do banco central. Ela é hoje considerada um “quarto poder” de facto na organização do Estado (em virtude da independência dos bancos centrais em termos de uso exclusivo de instrumentos de política monetária e, nalguns casos, da própria fixação de metas).
O posto é hoje muito apetecível, quem o ocupar é considerado o quarto mais poderoso do mundo, depois dos presidentes americano e chinês e de algum líder europeu que sobressaia. Assim, aliás, o entendeu a revista Newsweek na sua lista dos 50 mais poderosos do mundo, de final de 2008. O lugar ficou ainda mais em destaque em virtude do protagonismo – que Obama considerou, agora, “enérgico” e denotando um “pensamento fora-da-caixa” – que Ben Bernanke assumiu na resposta à crise financeira, em virtude do apagamento político do anterior presidente americano, George W. Bush, e das hesitações do seu secretário do Tesouro, Hank Paulson.
Comandante em chefe da crise
Como nos confessa David Wessel, editor de economia do The Wall Street Journal e autor do agora lançado ‘In Fed We Trust’, essa delegação de protagonismo e atitude de espectador meio patético de W. Bush (que correspondeu a uma janela de oportunidade agarrada por Bernanke) foi um dos aspectos marcantes desta crise.
O ‘comandante em chefe’ (como Wessel apelida ironicamente Bernanke) foi, agora, premiado. Como já o tinha sido Timothy Geithner ao ser nomeado secretário do Tesouro da Administração Obama. Geithner foi um dos “mosqueteiros” (como eram conhecidos nos bastidores) do grupo de cérebros de Bernanke, que desempenhou ao longo da crise de 2007 e 2008 o papel de presidente do Banco da Reserva Federal de Nova Iorque (o mais importante de todo o sistema).
Bernanke na gestão da crise despiu, em certa medida, o seu casaco de tecnocrata com um pedigree no estudo da Grande Depressão de 1929, e revelou-se um político pragmático hábil, apesar, como revela Wessel no livro, de hesitações iniciais, de não ter entendido logo a dimensão do que estava em jogo, em virtude das teorias anteriores que defendera sobre a ‘grande moderação’, e de ter provavelmente cometido o erro de ter deixado cair o Lehman Brothers em 14 de Setembro de 2008, o que serviu de fósforo, nos dias seguintes, para transformar a crise financeira em Grande Pânico.
No entanto, acrescenta o autor do livro, Bernanke evitou a mutação do Grande Pânico de Setembro e Outubro de há um ano em uma nova Grande Depressão (seria a 3.0, se considerarmos a de 1873/1879 e de 1929/1933, como as suas antecessoras).
Obama que pretende inclusive dar mais poderes à FED, conta com Bernanke, também, para um apertar da regulação do sistema financeiro, algo que o banqueiro central já admitiu, ainda que timidamente e em linguagem quase cifrada, no seu discurso em Agosto no simpósio anual da FED em Jackson Hole.
“Obama recompensou-o seguindo as pisadas de Bill Clinton, de facto. Está a reconduzir um republicano pragmático – substituí-lo por um democrata poderia perturbar mais os mercados e provavelmente subiria as taxas de juro em momento inoportuno. Como se costuma dizer, são os mercados que confirmam a nomeação da FED mais do que o Senado”, ironiza Wessel, numa entrevista que pode ser lida na íntegra aqui (em inglês).
A Wall Street, no entanto, reagiu timidamente, no próprio dia, à nomeação (o DJIA subiu, apenas, 0,3%, tal como o Nasdaq). E resta, no final da linha, a decisão política do Senado – Bernanke, apesar dos louros da gestão da crise, tem muitos anticorpos na opinião pública e no aparelho político legislativo em virtude do caudal de dinheiro dos contribuintes que injectou na Wall Street, em muitos casos recipientes de duvidosa solvabilidade.
Um filme repetido
Clinton, de facto, decidira reconduzir duas vezes outro republicano e monetarista (Alan Greenspan) à frente da Reserva Federal, por razões que se entenderiam algum tempo depois: a medida permitiria aos mandatos desse presidente democrata usufruir de quase 100 meses de crescimento económico alavancado pela revolução tecnológica da web e pela ajuda prestimosa da ‘bolha’ bolsista e da financeirização da economia americana alimentadas pelas políticas monetárias do Maestro (como era conhecido o então presidente da FED).
W. Bush percebeu o mecanismo do chamado “Greenspan put” (deixe-se a especulação em roda livre, pois a FED intervém como salvador de último recurso depois do estoiro) e manteve o Maestro até final de Janeiro de 2006, tendo usufruído de uma ‘bolha’ imobiliária. Os pecados de Greenspan seriam pagos mais tarde – para apanhar os destroços surgiria um historiador económico, com uma cábula desenhada em 2002 (‘Deflação: Garantindo que ela nunca mais acontece aqui’) num discurso e desenvolvida num livro em 2005 (‘Ensaios sobre a Grande Depressão’).
O dilema de política monetária
O passado – os últimos dois anos de Pânico e medidas contra-pânico – está contado, com detalhes e informação de ‘dentro’, por Wessel em ‘In Fed we Trust’. Agora resta saber como Bernanke vai gerir o futuro, o período crítico em que há uma bifurcação: o risco de uma recaída, com uma Grande Depressão (como agora recordam ter acontecido em 1936-1937), ou uma retoma e um reaquecimento dos mercados financeiros por mais 100 meses, que aguente a reeleição de Obama em 2013 e de Bernanke em 2014.
Wessel confessa-nos o dilema do presidente da FED para os próximos quatro anos: “Apertar cedo de mais a política monetária e repetimos 1937, gerando uma recaída recessiva que não será nada bem-vinda – incluindo o frágil sistema financeiro. Ou adiar demasiado e apanhar com a inflação, muita inflação em cima”. Opções difíceis, sem contar com o impacto das surpresas em geopolítica que os ‘modelos’ dos economistas da corrente dominante muitas vezes esquecem.
No entanto, há questões de fundo que não irão ser facilmente empurradas para debaixo do tapete e o que os episódios narrados no livro deixam em aberto.
Duas delas merecem, agora, uma análise; uma é de história económica, outra é política.
O paralelo será válido?
O homem que Obama elogiou como responsável por uma acção enérgica e que muitos analistas consideram ter evitado o colapso da América, continua a achar que a “abrupta deterioração” em 2007 e 2008 era “largamente imprevisível a partir dos indicadores de mercado usados”. Não faz, também, nenhuma referência ao que conduziu a esta recente grande crise – as doutrinas de Greenspan e de ele próprio sobre a ‘Grande Moderação’ nas duas últimas décadas. Nem ao pano de fundo, ao paradigma em que a direcção da FED se baseou: as teorias da eficiência dos mercados financeiros (um conceito introduzido por Eugene Fama da Universidade de Chicago em 1970) e o papel central da política monetária defendida por Milton Friedman, o papa do monetarismo, desde os anos 1960.
A sua própria conduta ao longo da crise, o pragmatismo revelado, a improvisação e a pressão política constante sobre o secretário do Tesouro Hank Paulson, tinham uma ‘cábula’ secreta que o orientou nas acções aparentemente ad hoc. Ben Bernanke é o académico que mais estudou a Grande Depressão de 1929. Aluno de Harvard, doutorou-se no Massachusetts Institute of Technology e apaixonou-se pela Grande Depressão do século XX (que denominaremos de GD 2.0, para distinguir da primeira Grande Depressão do capitalismo, de 1873/1879). Mas é discutível se o paralelo é válido.
A própria “papisa” do monetarismo, ainda viva, Anna Schwartz, que escreveu com Friedman em 1963 a colossal obra ‘Monetary History of the United States, 1867-1960’, fez uns reparos “assassinos” em Outubro de 2008 numa entrevista ao The Wall Street Journal: “O meu veredicto sobre esta actual liderança da FED é que, de facto, não fez o seu trabalho”.
Schwartz, uma nonagenária, observou com acutilância: “A FED enfrentou este problema como se o problema fosse uma falta de liquidez [como foi o caso na crise de 1929/1933]. Este não é hoje o problema básico. O problema essencial para os mercados [financeiros] é essa [incerteza] sobre a credibilidade dos balanços das firmas financeiras”. A economista referia-se, claro, não só à desconfiança em relação ao chamado “sistema sombra financeiro” (de casas financeiras de investimento fora de qualquer regulação) como aos bancos-zombie (que haviam alavancado excessivamente e metido o pescoço até ao fundo no poço dos derivados “exóticos”) que somaram um problema grave do lado dos activos, intoxicando-os. E, no final, Schwartz era clara: “ [A FED] não deve estar a recapitalizar firmas que deveriam ser fechadas. (…) As firmas que cometeram erros devem falir. (…) Tudo funciona muito melhor quando as decisões erradas são punidas e as boas decisões o tornam rico”.
E em Julho já deste ano no The New York Times reincidia nas críticas, ainda com mais veemência, num artigo de opinião intitulado sugestivamente “Um homem sem um plano”, pronunciando-se, antecipadamente, contra a indicação de Bernanke para novo mandato à frente da FED.
Uma falsa despolitização
Uma outra questão que a gestão monetária da FED levanta nos últimos vinte anos é a da suposta “despolitização” da política monetária colocando-a nas mãos de um grupo de tecnocratas à frente de uma instituição independente, “isolada”, à prova das interferências políticas e da opinião pública. No caso dos Estados Unidos, além da independência no uso dos instrumentos (e de ser o depositário do direito de emitir moeda, de “dar à manivela” da máquina de impressão, hoje em dia em larga medida electrónica), há também uma quase independência na fixação de metas.
No fundo, a velha arquitectura de divisão e equilíbrio de poderes no Estado moderno, divulgada pelo barão francês de Montesquieu (1689-1755), mas copiada das ideias originais do inglês John Locke (1632-1704), foi “revista” à socapa. Além dos três poderes – o executivo, o legislativo e o judiciário – passámos a ter mais um, o dos bancos centrais. Como refere David Wessel, no livro agora publicado ‘In FED We Trust’, o americano da rua e os próprios políticos eleitos deram-se conta nesta gestão de uma crise grave – para mais devido à inépcia total do anterior presidente George W. Bush – que a FED se tornou praticamente “o quarto ramo” do poder.
E, em vez da alegada despolitização, a FED prosseguiu, na realidade, uma política (não votada pelos eleitores) de raiz monetarista cujas ideias básicas se resumem a três: os ciclos económicos do capitalismo são “moderáveis”; enquanto as ‘bolhas’ especulativas durarem devem ser deixadas em roda livre e inclusive devem ser alimentadas com dinheiro barato proveniente do banco central; a missão da FED é, depois de a crise estoirar, limpar o lixo, garantindo aos prevaricadores que actuará como bóia de salvação e balão de oxigénio de último recurso, a pretexto de risco sistémico. E, logo que possível, voltar a reacender uma ‘bolha’ para redinamizar o sistema de maximização de rendas financeiras, mantendo a financeirização da economia.
Coisa para tecnocratas?
Os ideólogos desta ‘despolitização’ da política monetária alegaram que é a solução óptima de delegação e que a responsabilidade democrática se resolve pelo facto dos tecnocratas serem escolhidos pelos políticos, devendo o povo confiar na alta craveira dos nomeados. Ainda, esta semana, Alan Blinder, professor de economia na Universidade de Princeton, e ex-vice presidente do comité de governadores da FED entre 1994 e 1996, escrevia na revista Foreign Affairs que “a política monetária deverá permanecer firmemente na esfera tecnocrática”. Uma espécie de divisão de tarefas: a política monetária na mão de tecnocratas, a orçamental na de políticos.
Blinder indignava-se contra a proposta que corre no Congresso (denominada Federal Reserve Transparency Act) para uma auditoria da FED pelo US Government Accountability Office (mais conhecido pelas suas iniciais, GAO), uma agência independente que trabalha para o Congresso americano e cuja missão é investigar como o governo federal gasta o dinheiro dos contribuintes. “Será uma vergonha deixar que isso suceda”, revolta-se Blinder. A proposta do congressista Ron Paul (um republicano atípico tido como próximo de uma direita americana libertária, autor do livro Acabem com o FED, agora publicado) já recolheu 178 assinaturas de congressistas republicanos e 104 de democratas na Câmara dos Representantes e o presidente do Comité de Finanças anunciou ir trabalhar com Paul para incluir o instrumento de auditoria no âmbito de uma legislação regulatória mais vasta que poderá subir em Outubro a votação.
Blinder foi um dos académicos que mais encómios dirigiu ao anterior presidente da FED. Em 2005 falou mesmo da “era Greenspan” e decretou o seu legado de “ressurreição do fine tuning” na política monetária. Dois anos depois provaram-se os seus resultados.
Mea culpa tímido
Até o próprio Alan Greenspan, perante o Congresso, admitiu, já na condição de reformado da FED, que teria cometido um erro ao acreditar numa fantasia (de que o sector financeiro se auto-regulava) durante os anos do seu mandato e afirmou, compungido, que ficou “chocado” com o que aconteceu em 2007 e 2008, ainda não tendo tido tempo de perceber bem o porquê!
Ben Bernanke, por seu lado, já admitiu rever a ideia de deixar as ‘bolhas’ em roda livre face ao custo que a América e o mundo vai pagar por este mais recente estoiro. No seu balanço de um ano, agora em Agosto em Jackson Hole, fala da gestão do risco de liquidez nas instituições financeiras (remetendo para as novas orientações do Comité de supervisão bancária de Basel e das agências de regulação bancária americanas) e da regulação macroprudencial de muitos instrumentos financeiros de “capital fictício”, como os famosos derivados OTC (over-the-counter) que, ainda em finais de 2008, representavam 10 vezes a riqueza anual criada pela economia mundial.