Setembro 2009


A dinâmica de financeirização ganhou tempo (precioso) para lidar com medidas de regulação, à excepção da questão muito mediatizada das remunerações e compensações variáveis no sector financeiro, e a Europa vai perder inexoravelmente poder de voto no FMI e no Banco Mundial.

Esta cimeira teve uma consequência geopolítica importante: o enterro do anterior clube dos poderosos, o G7 (segundo o poder relativo, Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Reino Unido, Itália e Canadá, a que assistia a Comissão Europeia) ou G8 (na versão estendida à Rússia).

Mas no plano prático resta avaliar até que ponto a cimeira ultrapassou o nível do que William Thomson, presidente da Private Capital, de Hong Kong, baptiza de “talking shop”, de conversa fiada. Uma primeira análise, à lupa, do comunicado, permite apontar 12 medidas e orientações principais, 3 “esquecimentos” ou adiamentos e uma agenda de alertas até 2012 para o leitor acompanhar.

Margem de manobra

Exceptuando a sugestão para a implementação “imediata” de novas regras sobre as políticas de remunerações e compensações variáveis no sector financeiro – um tema muito mediatizado contra a Wall Street, a City londrina e a alta finança nos EUA e na Europa – e a luz verde para uma “Carta” sobre o crescimento (dentro da linha da ideia apresentada pela chancelerina alemã Angela Merkel) a adoptar em Novembro próximo, o resto – e são pontos capitais – terá de passar, ainda, pelo filtro dos grupos técnicos e, em alguns casos a dilação temporal permite significativa margem de manobra de pressão negocial por parte dos visados pelas medidas. São os casos da implementação definitiva de novas medidas”desencorajadoras” da alavancagem no sistema financeiro e de melhoria no campo dos mercados de derivados over-the-counter (OTC), cujo limite é daqui a três anos.

Para quem, como o analista Peter Cohan, esperava acção mais enérgica no imediato, sabe a pouco – o que o leva a dar apenas 2 numa escala de 1 a 5 a esta cimeira.

Merece um apontamento prévio a projecção da União Europeia, um espaço geopolítico que corre o risco, no dizer de Thomson, de se tornar “um jogador marginal” perdendo peso futuro no FMI, no Banco Mundial e dentro do próprio G20, apesar do voluntarismo do presidente francês Sarkozy e do discurso pró-activo do presidente da Comissão Europeia, o português Durão Barroso.

No entanto, o comunicado final da cimeira destaca dois líderes europeus, os únicos nomes de políticos mundiais citados em doze páginas: Merkel e a sua “Carta Global para um crescimento sustentado”, a que já nos referimos, e Gordon Brown, o primeiro-ministro inglês, a propósito do seu relatório sobre a “modernização” das instituições financeiras internacionais, o que, contudo, mereceu apenas um ponto no comunicado de apenas um parágrafo. Brown havia apresentado as ideias num artigo de opinião no The Washington Post de Outubro de 2008.

12 medidas e orientações principais
. Estratégia: Proposta de “Carta” por uma estratégia de crescimento “forte, sustentável e equilibrado” a apresentar em Novembro próximo na reunião de ministros das Finanças e Bancos Centrais do G20;

. Reforço do papel de duas entidades internacionais: o Fundo Monetário Internacional, herança de Bretton Woods (1944) que sai, de novo, reforçado financeiramente (depois da autorização para poder fazer 13 mil milhões de dólares em vendas até 1/8 das suas reservas de ouro, recebe um reforço de 500 mil milhões para o reforço da iniciativa New Arrangements to Borrow), e o Financial Stability Board, criado por mandato inicial do G7 em 1999 e com vocação reforçada pela cimeira do G20 de Londres, em Abril passado;

. Rearranjo geopolítico nas organizações de Bretton-Woods: aumento do peso dos países em desenvolvimento no poder de voto no FMI (subida de 43% para 48% dos votos) até 2011 e de mais 3% (a acrescentar aos 1,46% já em curso de negociação) no Banco Mundial até Março de 2010;

. Aviso à navegação: “não se permitirá o regresso ao banking as usual”; “o regresso ao risco excessivo prevalecente em alguns países antes da crise, não é opção”;

. Implementação imediata: novas regras de remuneração e compensações variáveis no sector financeiro; possibilidade dos organismos de supervisão financeira modificarem a estrutura de compensações no caso de entidades sujeitas a intervenção pública;

. Política dos bancos centrais: recomendação para se “mitigarem as políticas pró-cíclicas” (por alguns críticos acusadas de terem favorecido o desenvolvimento de ‘bolhas’ financeiras e da financeirização extrema das economias nos últimos vinte anos); o termo “mitigar” é suficientemente flexível;

. Alavancagem financeira: aumento das exigências de capital no sector bancário e recomendação explícita para limitação da prática da alavancagem e outras de alto risco através de regras a definir até final de 2010 e a implementar até final de 2012; no que respeita aos mercados de derivados over-the-counter refere-se a necessidade de uma melhoria das regras de funcionamento a implementar até final de 2012;

. Paraísos fiscais: afirmação da continuação do combate às “jurisdições não-cooperativas” com disposição para aplicar medidas a partir de Março 2010;

. Taxa para transacções financeiras: recomendação para o FMI estudar opções possíveis de “como o sector financeiro poderá dar uma contribuição substancial para o pagamento do fardo assumido pelas intervenções governamentais nos sistemas bancários”;

. Inclusão financeira: um novo palavrão para a preocupação do G20 com “serviços financeiros para os pobres”. O G20 vai lançar um grupo de peritos para o tema e avançar com uma iniciativa que designou de G-20 SME Finance Challenge (Desafio Financeiro para as PME). O G20 elogiou o microcrédito como base de trabalho para o estudo de novos tipos de serviços financeiros;

. Combate ao proteccionismo;reafirmado de novo (apesar das medidas discriminatórias continuarem a aumentar). Conclusão da Ronda de Doha e implementação de uma linha de 250 mil milhões de dólares da Iniciativa financeira comercial dirigida a linhas de crédito ao comércio internacional;

. Prioridade política à energia: Apoio ao Plano para a eliminação de subsídios aos combustíveis fósseis e aposta no crescimento “verde” e na eficiência energética.

Três “esquecimentos” e adiamentos

. Ausência de referência ao debate sobre a questão do dólar como divisa internacional; o FMI vai, no entanto, proceder a uma alocação de 283 mil milhões de dólares em direitos de saque especiais (a unidade de conta do FMI), 40% dos quais para suplementar activos em reservas de países em desenvolvimento;

. Ausência de referência ao Bank for International Settlements, sediado em Basel, na Suíça, e criado em 1930, que funciona como banco central dos bancos centrais;

. Ausência de pistas sobre a nova arquitectura do sistema de supervisão financeira que evite a dinâmica pró-cíclica em períodos de ‘bolha’ financeira.

Agenda a seguir
. Novembro de 2009: apresentação da Carta para o crescimento
. Início de 2010: os ministros do Emprego e do Trabalho do G20 deverão reunir sobre matérias de desemprego e de empregabilidade
. Março 2010: Medidas adicionais na regulamentação das compensações; medidas contra os paraísos fiscais; modificação da estrutura de quotas e poder de voto do Banco Mundial
. Junho 2010: Cimeira do G20 em Muskoka, Ontário, Canadá
. Novembro 2010: Novas regras internacionais contra a alavancagem financeira; medidas de acompanhamento das grandes firmas transnacionais; Cimeira do G20 na Coreia do Sul
. Janeiro 2011: limite para a conclusão da revisão da estrutura de quotas e poder de voto no FMI
. 2011: Cimeira anual do G20 em França
. 2012:limite para a implementação de medidas anti-alavancagem no sistema financeiro e no campo dos derivados OTC

A história do pós-Guerra terminou hoje. Entrámos oficialmente no depois do Século Americano. Comunicado dos vinte líderes sela a mudança.

“Hoje designamos o G20 como o primeiro fórum para a cooperação económica internacional”, assim fecha o comunicado oficial de mais de 80 pontos assinado pelos vinte líderes na cimeira de Pittsburgh. O encontro decidiu que o grupo passe a reunir anualmente depois de 2010 e para já convocou três cimeiras sucessivas, uma no Canadá em Junho do próximo ano, outra na Coreia do Sul em Novembro seguinte, e outra para França em 2011.

“O facto mais importante foi a simples ascensão – em menos de um ano – do G20 como o mais importante comité mundial. O significado geopolítico é que os grandes países em desenvolvimento estão, agora, claramente representados na governação global, de onde o G7 e o G8 sempre os haviam excluído”, diz-nos Jeffrey Frankel, professor da Kennedy School of Government, da Universidade de Harvard, como primeira reacção à cimeira de Pittsburgh, que decorreu a 24 e 25 de Setembro. Antes do começo do evento, William Thomson, fundador de uma empresa transnacional de análise financeira, sediada em Hong Kong, recomendava que “se desse um enterro decente ao G8, essa irrelevância sem esperança”.

Muitos encararam a queda do Muro de Berlim ou, depois, os atentados terroristas às Torres Gémeas em Nova Iorque, como o fim de uma era e o princípio de um novo quadro geopolítico radicalmente diferente. A história do pós-Guerra terminou, no entanto, hoje: a cimeira de Pittsburgh “entronou” o G20 como cúpula mundial. E com esta mudança, por paradoxal que pareça, é o fim do ‘Século Americano’ decretado por Henry Luce em 1941 e da ilusão da superpotência “sozinha” imaginada por Francis Fukuyama no ensaio ‘O Fim da História’ (1989).

A ironia da História é que a “transição” é feita em solo americano e sob os auspícios do próprio presidente Obama, o primeiro chefe de estado da ainda superpotência a gerir o início do período mais complexo que vai atravessar a América.

Entrámos, oficialmente, no Depois da América (After America) – o título do polémico livro de Paul Starobin publicado recentemente nos Estados Unidos, que nos concedeu uma entrevista que pode ser lida aqui (em inglês). “É um reconhecimento ainda que tardio, mas significativo, do declínio da hegemonia americana e do surgimento de novas ‘polaridades’ fora do tradicional clube dos ‘ricos’. É um bom sinal de que a Administração Obama está a ‘acomodar’ a tendência, em vez de uma resistência obstinada”, sublinha.

O comunicado da cimeira pode ser lido aqui.

O período de crise financeira provocou uma alteração na composição dos fluxos de capitais à escala mundial visível já no final de 2008. A China e Hong Kong tornaram-se o segundo destino mundial de investimento directo estrangeiro e o mesmo bloco entrou para o clube dos cinco maiores investidores no estrangeiro. Uma mutação que é um dos panos de fundo do debate sobre a nova ordem económica internacional na cimeira do G20.

A crise provocou já uma mutação no perfil dos fluxos de investimento mundiais no final do ano passado, o período agudo do Grande Pânico financeiro. Há uma clara emergência dos países em desenvolvimento e em transição (classificação técnica seguida pela UNCTAD) nestes fluxos internacionais, sublinha-nos o analista indiano Ashutosh Sheshabalya. Essa mutação é já mais visível no que respeita aos destinos do Investimento Directo Estrangeiro (IDE) do que no perfil dos países que mais investem no estrangeiro.

O IDE destinado aos países em desenvolvimento e em transição (estes últimos incluem os antigos países da Federação soviética e da antiga Europa de Leste) passou a representar 43% do total desses fluxos, subindo 11 pontos percentuais em relação a 2007, um crescimento muito assinalável, segundo dados, agora, divulgados pela UNCTAD (organismo das Nações Unidas para a Conferência sobre Comércio e Desenvolvimento) no seu relatório World Investment Report com dados finais para 2008.

O bloco formado pela China e Hong Kong atraiu, em 2008, 171 mil milhões de dólares de IDE, colocando-se como o segundo mais importante destino do mundo, a seguir aos Estados Unidos, que atraíram 316 mil milhões. Apesar da crise, os EUA mantiveram uma capacidade de atracção assinalável, tendo o IDE crescido 17% em relação a 2007. A França e o Reino Unido sofreram quebras importantes como destinos do IDE, tendo sido ultrapassados pelo bloco chinês. A Rússia, com um crescimento de 27% do IDE, posicionou-se em quinto lugar, em virtude da quebra brutal ocorrida em relação ao Canadá. No conjunto, os BRIC representaram, em 2008, 1/5 dos destinos de investimento, o que compara com os EUA que representaram 26%.

No campo do investimento no estrangeiro, o desequilíbrio nos exportadores de capital é ainda muito grande, com os países desenvolvidos dominando esses fluxos em 81%, e com os EUA liderando com 17%. Apesar de os BRIC representarem, apenas, 11%, o bloco China e Hong Kong conseguiu subir para o último lugar do clube dos 5 maiores exportadores de capitais, depois dos EUA, da França, Alemanha e Japão.

O bloco chinês ultrapassou, em 2008, o Reino Unido, que saiu fora do clube dos cinco, em virtude de uma quebra de 60%. Neste clube restrito, o Japão aumentou em 74% o seu investimento no estrangeiro e o bloco chinês em 35%.

Os chineses desenvolvem desde há alguns anos uma estratégia de projecção externa conhecida como “go global” e os japoneses voltaram, de novo, à arena internacional na qual tinham estado muito activos nos anos 1980 antes do início da crise interna prolongada que assolou o país do Sol Nascente. China e Japão, recorde-se, são os dois países com maiores reservas em divisas estrangeiras do mundo, respectivamente 2,3 biliões (incluindo China e Hong Kong, ou seja mais de 1500 mil milhões de euros, 25% de todas as reservas em divisas estrangeiras no mundo) e 1 bilião de dólares (670 mil milhões de euros).

Tanto Sheshabalaya como William Thomson, presidente da Private Capital sediada em Hong Kong, vêm nestas mutações “indicadores de uma multipolaridade crescente e de uma difusão do poder geoeconómico” que já não se revia na composição do G7, a cimeira mundial que dava cartas antes da crise. A subida da China em ambos os tipos de fluxos de investimento leva Thomson a prever que “a relação bilateral entre os EUA e a China se torne na mais importante do mundo”, enquanto o analista indiano sublinha que esse “tango macabro a dois coloca vários dilemas à China a médio prazo”.

“A maior jogada política nos preparativos da cimeira do G20, que se inicia hoje em Pittsburgh (Estados Unidos), foi protagonizada pelos europeus, que estão, claramente, a tentar ganhar a dianteira no campo da regulamentação financeira, explorando as dificuldades que Obama atravessa e alguma focalização dos BRIC no tema do dólar”, diz-nos o analista geopolítico Dylan Kissane, investigador francês professor de política internacional no Centre d’Études Franco-Américain de Management em Lyon.

A Comissão Europeia resolveu adoptar a linha proposta em Fevereiro por Jacques de Larosière ex-governador do Banco de França e ex-director geral do Fundo Monetário Internacional e do BERD (Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento), relativamente ao sistema financeiro europeu no sentido de uma gestão do risco sistémico e anunciou recentemente a proposta (é tão só ainda uma proposta, sublinhe-se) de criação de um supervisor “sistémico” pan-europeu baptizado de European Systemic Risk Board, autónomo do Banco Central Europeu (ainda que povoado de banqueiros centrais e com pessoal técnico do BCE), e de um sistema de três autoridades “sectoriais” dirigidas ao sector bancário, ao segurador e ao mercado de capitais.

O super-organismo emitirá recomendações e avisos – e não, ainda, imposições obrigatórias, como os mais radicais reclamam. De qualquer modo, defendem os advogados da solução de compromisso, estas “recomendações” e “avisos” terão, naturalmente, um enorme poder real.

Cheque mate à City

Enquanto nos Estados Unidos, a Administração Obama procura convencer, com dificuldade, o Congresso para atribuir ao banco central, a Reserva Federal (FED), novos poderes reguladores, a Europa pretende criar uma nova estrutura que possa “envolver” o Reino Unido, que não está integrado no BCE nem na Zona Euro. A avançar este tipo de estrutura pan-europeia será um golpe decisivo na autonomia estratégica que ainda conserva o Reino Unido, que mantém um dos centros financeiros mundiais de topo, a City londrina, segundo na área do sistema “sombra” financeiro, depois da Wall Street nova-iorquina. O envolvimento inglês está a ser “comprado” com a colocação do governador do Banco de Inglaterra em lugar cimeiro do novo Board da nova estrutura, o que, no entanto, tem gerado muitos anticorpos na City londrina, ciosa da sua independência de movimentos.

Kissane vê nesta jogada europeia “um dos mais interessantes – e inesperados – acontecimentos deste final de crise olhado numa perspectiva de movimentações globais”. Os europeus pretenderão marcar pontos no sentido de apresentar um conceito capaz de influenciar a ideia de um futuro organismo mundial de supervisão sistémica do sistema financeiro. Organismo mundial que o presidente francês Sarkozy gostaria de ver sediado em Paris.

No dia em que se inaugura nova cimeira do G20, um relatório de «choque» revela que quase 300 medidas discriminatórias foram anunciadas e mais 134 estão pendentes desde a realização da reunião anterior em Novembro do ano passado. Os países emissores de mais medidas proteccionistas são a Rússia e os Estados Unidos e os principais alvos têm sido a China e os EUA.

Apesar do discurso anti-proteccionista e pelo comércio internacional sem barreiras que as cimeiras do G20 têm incentivado, 281 medidas discriminatórias (não legítimas; uma medida legítima pode ser uma respondendo a dumping de terceiros) foram anunciadas em todo o mundo, das quais 165 estão em curso e são consideradas graves (código “vermelho”), divulgou hoje o Global Trade Alert (GTA), um relatório do Centre for Economic Policy Research (CEPR), uma entidade independente sediada em Londres.

O relatório do CEPR, sugestivamente intitulado “Promessas não cumpridas”, aponta que, cerca de uma centena de medidas graves em curso, são originárias dos próprios membros do G20. Os países do G20 campeões na emissão de medidas proteccionistas são a Rússia e Estados Unidos bem destacados, seguidos pela Alemanha, Indonésia, China, Canadá, Índia e Reino Unido. Os principais alvos deste tipo de medidas são a China (sendo a Rússia o principal emissor de medidas antichinesas), Estados Unidos, Alemanha e França. No período estudado, o país membro que não tomou medidas consideradas graves foi a Turquia.

O GTA foi lançado em Junho deste ano e já investigou 425 decisões estatais relativas ao comércio internacional. Apenas 40 foram consideradas medidas liberalizadoras do comércio, ou que promoveram a transparência nas trocas comerciais. A conclusão do relatório é arrasadora: “O balanço global aponta para uma série de iniciativas planeadas e implementadas para reduzir as oportunidades de parceiros comerciais estrangeiros e com vista a inverter a tendência dos últimos 25 anos para um comércio de fronteiras abertas. O número de medidas proteccionistas ultrapassa as medidas liberalizadoras numa proporção de 5 para 1”.

O relatório conclui que, até à data, apenas 5% das categorias de produtos e 20% dos sectores económicos têm estado a salvo da vaga proteccionista.

Com a onça de ouro nos mercados a 1010 dólares e com perspectivas de continuar a subir, o Fundo Monetário Internacional (FMI) decidiu colocar à venda, por fases, 403,3 toneladas métricas de ouro das suas 3217 toneladas de reservas (as terceiras mais importantes do mundo, depois das dos EUA e da Alemanha).

A decisão de venda foi tomada na anterior cimeira do G20 em Abril em Londres. O objectivo é equilibrar as contas do FMI que espera atingir um défice anual de 400 milhões de dólares em 2010. O plano de médio prazo é poder obter um encaixe que alimente os 6 mil milhões de dólares necessários para os projectos de empréstimos aos países de baixo rendimento, bem como ocorrer ao renascido papel do FMI como “bombeiro” mundial de países mais afectados pela crise global (como ocorreu com a Islândia e o Paquistão).

Ao preço actual da onça de ouro, esta venda das mais de 400 toneladas (cerca de 13 milhões de onças) poderá render 13 mil milhões de dólares. As vendas serão dirigidas prioritariamente aos seus membros (186 entidades), especulando-se que haverá uma “corrida” de parte dos BRIC, nomeadamente China (que tem reforçado as suas reservas em ouro, sendo actualmente o quinto país em reservas de ouro), Índia e Rússia (9º país em reservas de ouro, que já adquiriu, entre Janeiro e final de Julho, 48,9 toneladas). O ouro poderá, também, ser vendido no mercado aberto, o que será feito com pré-aviso e faseadamente. O FMI prometeu, também, adoptar uma política transparente, dando conta das operações.

A onça de ouro fechou hoje nos 1019,40 dólares, ultrapassando o anterior máximo histórico e revelando uma continuada corrida a este metal face a incertezas sobre a retoma por parte dos investidores e devido à depreciação das moedas nos países ultra-endividados e que prosseguem pacotes de estímulos e de aumento da massa monetária.

O dólar voltou hoje a desvalorizar valendo menos de 68 cêntimos de euro, estando ao nível do câmbio dos princípios de Agosto de há um ano.

O patamar psicológico dos 1000 dólares por onça havia sido ultrapassado durante três dias em Março de 2008 durante a crise do banco americano Bear Stearns, tendo atingido um máximo nominal de 1011,25 dólares em 17 de Março de 2008, no dia seguinte ao fim de semana em que a negociação de venda daquele banco foi realizada.

O preço médio anual da onça de ouro foi de 871,96 dólares em 2008 e o valor médio dos primeiros oito meses de 2009 situou-se nos 921,78 dólares.

Contudo, em termos reais o actual máximo histórico nominal está ainda longe dos valores atingidos em Janeiro de 1980 (decorria, então, o caso dos reféns americanos no Irão) quando a onça atingiu em termos nominais 850 dólares, o que equivale a 2200 dólares hoje.

A recessão de 2009 será a décima maior na história do capitalismo americano, mas está longe das Grandes Depressões dos anos 1890 e 1930. Muitos economistas americanos inclinam-se para o risco de uma recaída, apesar do ‘aquecimento’ bolsista na Wall Street

Há um ano, o fim-de-semana de 12 e 13 de Setembro ditou o curso da crise financeira nascida num canto exótico do mundo dos produtos financeiros, chamado de subprime, em Agosto de 2007. O falhanço, naquele fim-de-semana, da negociação da venda da mais do que centenária casa financeira Lehman Brothers e a falta de vontade política do secretário do Tesouro e do governador do banco central americanos em injectar o dinheiro dos contribuintes em mais um protagonista do apelidado “sistema financeiro sombra” da Wall Street de Nova Iorque, transformou a crise bancária em Grande Pânico financeiro e projectou-a globalmente.

A segunda-feira ‘negra’ de 15 de Setembro de 2008 foi o ‘momento Minsky’, como os economistas dizem, em que a mutação se deu – em que o que poderia ficar por ser mais uma “normalíssima” crise financeira, com uma derrocada bolsista moderada, atravessou a linha divisória e colocou a América à beira de um segundo 1929 (a Grande Depressão mais conhecida) ou de uma repetição da depressão de 1893/1894, menos conhecida.

Evitou-se repetir 1929

Um ano depois, o pior cenário de uma Grande Depressão ao estilo de 1929/1933 foi posto de lado. A derrocada bolsista na Wall Street parou a 9 de Março deste ano (54% de quebra em relação ao pico em 15 de Outubro de 2007, a segunda maior de sempre na história do Dow Jones) e a OCDE voltou a anunciar, a 11 de Setembro, que, tecnicamente (de acordo com o seu indicador compósito), a maioria das economias que tinham entrado em recessão se aproximaram no segundo trimestre de 2009 da “vala” (trough, em inglês; vala entre dois ciclos económicos) que poderá conduzir à retoma. Globalmente o G7 (o clube dos ‘ricos’) terá em termos trimestrais, em cadeia, decrescido, apenas, 0,1% no segundo trimestre deste ano, face a quebras significativas de 8,4% no primeiro trimestre de 2009 e 7,3% no quarto trimestre de 2008.

A economia mundial em 2009 irá decrescer apenas 1,3% segundo o FMI ou 2,7% segundo o último relatório da UNCTAD. Será o pior ano desde que a crise financeira se manifestou em meados de 2007. Mas mesmo assim estará longe dos números atingidos em outras grandes depressões. O comércio internacional deverá retroceder 10% este ano, segundo uma estimativa da Organização Mundial de Comércio, mas entre 1929 e 1932 caiu 60%.

Olhando um outro indicador do comércio internacional, podemos avaliar a contracção nesta área motivada pela recessão. Segundo dados do Institute of Shipping (ISL), de Bremen, o movimento mundial de contentores quebrou 15,7% em termos mundiais no 1º semestre de 2009 em relação ao primeiro semestre do ano passado, com uma situação mais grave nas Américas (onde caiu, em termos homólogos, 19,2%) e na Europa (quebra de 17,8%). A quebra na Ásia (14,8%) foi inferior à média global. A fonte é o Monthly Container Port Monitor do ISL.

Mas já é o 10º pior ano da América

Olhando ao caso dos EUA, o epicentro desta crise, a economia, estima-se, quebrará 3% em 2009. A ser assim, será a décima maior quebra anual de sempre do PIB em termos reais em relação ao ano anterior na história do capitalismo moderno americano desde os anos 1860.

Em termos de comparação histórica, o PIB americano quebrou, em termos reais, 13% em 1932 (um ano de recaída no percurso da Grande Depressão de 1929/1933), em 1908 (11%), em 1930 (8,6%), em 1931 (6,4%), em 1893 (5,8%), em 1894 (4,7%), em 1866 (4,6%), em 1904 (3,5%) e em 1938 (3,4%, a segunda recaída cinco anos depois da Grande Depressão de 1929/1933, um evento a que os americanos chamam de double dip).

Para o analista americano Peter Cohan o ter-se evitado a reedição de uma Grande Depressão mundial ao estilo de 1929 deveu-se à massiva intervenção das autoridades monetárias e das políticas orçamentais tanto nos países da OCDE como nos emergentes.

Paradoxalmente, os emergentes apostaram mais em intervenções keynesianas, em média na ordem dos 4% do PIB (com recordes na Arábia Saudita, com 9%, em Singapura com 8%, e na África do Sul com 7,4%), do que os países desenvolvidos (3,7% do PIB em média), segundo dados recentes da UNCTAD. O intervencionismo de base orçamental chinês é particularmente destacado, segundo a UNCTAD na ordem dos 6,2% do PIB, e segundo outros analistas estará nos 13%. Os países ‘ricos’ lideraram, no entanto, no esforço de intervenção no sector financeiro, com posições relativas recorde na Islândia e Irlanda, seguidas do Reino Unido, EUA e Suécia. Nos países emergentes, esse tipo de injecção foi negligenciável. A defesa do sistema de financeirização nos países da OCDE é particularmente crítico, como se vê.

O risco de recaída

Esta dependência, por parte dos países ‘ricos’, da morfina do dinheiro dos contribuintes dirigida a segurar um sistema financeiro em que muitas das entidades são tidas como não-confiáveis (falando claro: como insolventes ou zombie) surge como o ponto fraco, refere-nos William Thomson, presidente da Private Capital, em Hong Kong, um olhar bem distanciado da Wall Street nova-iorquina. Metade do “lixo mais tóxico” financeiro, diz-nos Thomson, ainda continua debaixo do tapete: uns 30 biliões de dólares. “A questão é saber o que acontecerá quando as injecções artificiais dos governos recuarem”, conclui.

David Kotok, director do Global Interdependence Center,uma organização sem fins lucrativos de alcance globalista, coloca o dedo na ferida. Muita gente bateu palmas porque os bancos centrais estavam actuando face a um problema de liquidez. Mas a realidade é outra: “O Tesouro americano violou as regras porque se envolveu em assuntos de insolvência. Uma coisa é atacar a falta de liquidez, outra, completamente diferente, é esbanjar dinheiro dos contribuintes em insolventes. As consequências disso ainda estarão para vir”.

Por isso são cada vez mais as vozes que falam do risco de um padrão de recaída como aconteceu em 1932 (o PIB americano voltou a quebrar dramaticamente, um afundamento de 13%, depois de ter desacelerado a quebra no ano anterior) ou de uma entrada num período de “tipo japonês” (entre 1991 e 2007, a economia nipónica não cresceu mais do que 1,9% ao ano em média), como refere Thomson. Alguns, como o historiador Michael Perelman, da California State University, adiantam que, mesmo a médio prazo, há que estar vigilante, pois há o risco de um double dip, como aconteceu em 1938, em que já depois de terminada a Grande Depressão, a recessão regressou por um ano (com uma quebra de 3,4%).

Peter Cohan sublinha que o desemprego – e em particular o aumento do desemprego de longa duração – tem em economias como a americana (cujo crescimento depende 70% do consumo) um efeito negativo suplementar. Este risco tem levado os políticos e os banqueiros centrais a uma atitude de prudência e os organismos internacionais a aconselhar a manutenção das políticas keynesianas e da ZIRP (taxas de juro próximas de zero %, no acrónimo em inglês para zero interest rates policy) monetária.

O relatório da UNCTAD, o organismo de conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento, com sede em Genebra, vem colocar, a duas semanas da reunião do G20, a necessidade de uma estratégia de substituição da nota verde americana como divisa internacional. O que coincidiu com o anúncio pelos chineses do lançamento em Hong Kong, a partir de dia 28 de Setembro, de obrigações denominadas na sua moeda, o que é interpretado como um primeiro passo na “internacionalização” do yuan or renminbi.

O relatório de 2009 da UNCTAD – Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento criada em 1964 – divulgado esta semana vem colocar em cima da mesa a discussão de uma estratégia de substituição do dólar como divisa internacional, face à sua fragilidade, à sua desvalorização deslizante (o dólar está a valer menos de 70 cêntimos de euro e o ouro aproxima-se dos 1000 dólares a onça) e ao risco de um colapso, que geraria um tsunami financeiro mundial. Os analistas classificaram este relatório como “radical”. Preto no branco aponta que há “uma fraqueza no sistema internacional de reservas por usar uma divisa nacional como activo de reserva”.

O relatório da UNCTAD, que pode ser lido aqui, é mais uma voz que se vem juntar a outras – como as de responsáveis dos BRIC desde o primeiro trimestre deste ano, e nomeadamente do governador do banco central chinês (Banco Popular da China) num documento de Março de 2009, e como a do presidente francês Sarkozy recentemente – a apenas duas semanas da reunião do G20 em Pittsburgh, nos Estados Unidos. Mas acarreta o peso de ser a primeira vez que uma grande instituição internacional coloca abertamente na mesa uma tal sugestão.

No capítulo IV (pgs.113 a 129), o relatório retoma alguns pontos das conclusões da Comissão Stiglitz (do nome do Nobel da Economia que a dirigiu) das Nações Unidas e avança explicitamente com uma proposta de estratégia.

Essa proposta já havia sido alvitrada, recorda agora a UNCTAD, no final dos anos 1970. “Trata-se de facilitar a diversificação das reservas para além do dólar, sem o risco de gerar uma grande crise do dólar, dando aos bancos centrais a possibilidade de depositar dólares numa conta de substituição especial do Fundo Monetário Internacional (FMI) denominada em direitos de saque especiais (DSE). Estes DSE poderiam ser usados para efectuar pagamentos internacionais. Como são valorizados em função do peso médio das divisas mais importantes, o seu valor é mais estável do que cada uma delas”, refere o relatório, que adianta, no entanto, ser necessária uma reformulação da estrutura de quotas no FMI de modo a reflectir a actual realidade geoeconómica.

Apesar de alguns riscos que este sistema implicaria – e que a UNCTAD detalha – seria menos perigoso do que o existente dominado pelo dólar desde o chamado golpe Nixon em Agosto de 1971 que consolidou a hegemonia da moeda americana na economia mundial. Foi o presidente francês De Gaulle que o apelidou de golpe: o presidente americano suspendeu unilateralmente a convertibilidade do dólar em ouro, rompendo com o compromisso assumido pelos americanos em Bretton-Woods em 1944. Era, então, subsecretário do Tesouro americano, do governo Nixon, Paul A. Volcker, actual chefe dos conselheiros económicos do presidente Obama e ex-governador da Reserva Federal.

O relatório admite, ainda, a possibilidade de criar uma divisa de reserva “artificial” (entre aspas no original) por parte de um FMI remodelado ou mesmo de um Banco de Reserva global (uma proposta sugerida pelo comissão Stiglitz, que fosse uma espécie de banco central mundial). A UNCTAD alude à ideia de um “bancor”, de uma unidade de conta internacional sugerida por Keynes, o delegado do governo inglês, nas negociações de Bretton-Woods no âmbito da criação de uma União Internacional de Compensação, aspectos centrais do que então foi designado por “Plano Keynes”.

China internacionaliza yuan

O Ministério das Finanças chinês anunciou que colocará no mercado 6 mil milhões de yuans (equivalente a mais de 600 milhões de euros) de obrigações denominadas na sua moeda, o yuan (ou renminbi), a partir de 28 de Setembro. O plano por fases poderá chegar a um total de 100 mil milhões de yuans.

O local será Hong Kong, a praça financeira que o governo chinês definiu como centro offshore para operações em yuans. A partir daquela data, os investidores financeiros em Hong Kong poderão comprar obrigações emitidas pelo governo chinês em moeda chinesa. Os chineses afirmaram que se trata de uma operação para encorajar a aceitação do yuan em transacções internacionais.

O mediático Nobel da Economia atacou frontalmente este fim-de-semana a corrente académica que tem dominado a macroeconomia dos últimos trinta anos conhecida pela designação de “hipótese da eficiência dos mercados”. O artigo publicado na revista do The New York Times funciona como um manifesto para o regresso ao keynesianismo e uma proposta de ruptura definitiva com a escola de Chicago.

Este fim-de-semana no The New York Times Magazine o economista Paul Krugman resolveu criticar frontalmente a corrente ‘macroeconómica’ de inspiração neoclássica nascida na Universidade de Chicago que responsabiliza pela cegueira de muitos economistas, políticos e tecnocratas face aos riscos da financeirização extrema da economia americana.

O nome porque ficou conhecida foi “hipótese da eficiência dos mercados [financeiros]” (HEM). Escreve Krugman: “Durante os anos de ouro, os economistas financeiros acabaram por acreditar que os mercados eram inerentemente estáveis – na verdade, julgavam que as acções e outros activos teriam sempre o seu preço definido de um modo certo. Não havia absolutamente nada nesses modelos prevalecentes que sugerisse a possibilidade de um colapso como o que ocorreu no ano passado”.

Regresso ao Keynes no original

Mas o polémico professor da Universidade de Princeton também belisca os ‘bastardos’ neo-keynesianos (na expressão irónica cunhada em 1962 pela keynesiana inglesa Joan Robinson) que ajudaram à festa das ‘bolhas’ financeiras dos últimos vinte anos. Sem papas na língua: “Os modelos standard neo-keynesianos não deixaram espaço para uma crise como esta, porque tais modelos, em geral, aceitavam a visão do mercado eficiente no caso do sector financeiro”.

Em suma, há um duplo choque. Por isso em ‘How did Economists get it so wrong?’, o Nobel da Economia, além da crítica contundente aos teóricos da HEM resolveu lançar um movimento pelo regresso ao Keynes original, ainda que reconhecendo que não há nenhuma síntese no bolso para lançar no curto-prazo.

Krugman, um opinador hábil, julga estar aberta uma janela de oportunidade para um Renascimento keynesiano face ao estado moribundo da ‘Idade das Trevas’ da macroeconomia neoclássica. “Uma visão mais ou menos keynesiana é o único jogo plausível em campo”, diz, e reforça mais adiante: “A economia keynesiana continua a ser o melhor enquadramento para compreendermos as recessões e as depressões”.

Mas Eugene Fama não desarma

Mas a própria batalha contra a hipótese da eficiência está longe de estar encerrada nos corredores da academia. Apesar da força dos factos, o colapso intelectual dos “eficientistas” de Chicago não está selado. Como Eugene Fama, 70 anos, professor de finanças da Universidade de Chicago e o pai fundador da teoria, nos refere numa curta entrevista que pode ser lida aqui na íntegra em inglês, a crítica de Krugman e de outros cai ao lado. “Não há relação nenhuma [da hipótese de eficiência dos mercados com a presente crise]”, diz-nos. E contra-ataca sobre o sentido do actual debate: “Eu ganhei”, pois, no seu entender, mesmo os neo-keynesianos continuam a admitir “que a HEM fornece uma boa visão do mundo para quase todos os propósitos práticos”.

A culpa dá a entender Fama foi dos intervenientes nos mercados financeiros e dos políticos e tecnocratas que, na verdade, não aplicaram a HEM. “É muito claro que continuo em minoria. Se a HEM tomou conta do mundo do investimento, não me dei conta disso. Na verdade, se os bancos e os bancos de investimento tivessem encarado com mais seriedade a eficiência do mercado, talvez tivessem evitado muitos dos recentes problemas”. No final, o principal visado por Krugman respondeu-nos prontamente: “Não vi [o artigo]. Mas também não presto grande atenção a ele [Krugman]”.

O próprio Fama sente-se incomodado quando se repete o termo “bolha” e afirma não estar familiarizado com a teoria de Hyman Minsky (1919-1996), o economista que nos anos 1990 avisou que o sistema financeiro era intrinsecamente instável. “Se as firmas financeiras suportarem todos os custos e os benefícios das suas acções, não penso que o sistema seja ‘inerentemente’ instável. Mas se as firmas financeiras ficam com os benefícios nos bons tempos e os contribuintes suportam as perdas nos maus, então o sistema pode tornar-se instável”, sublinha-nos, habilmente, Eugene Fama.

Minsky perdido na edição

Krugman tinha escrito sobre o papel da “hipótese de instabilidade financeira” de Minsky, mas declara no seu blogue que, na edição da versão final do artigo para o The New York Times Magazine, cortou esses parágrafos. Foi uma pena Minsky se ter perdido na edição, pois de desconhecido professor para o comum dos leitores de economia se tornou popular na blogoesfera nos últimos dois anos.

Merece, por isso, aqui uma nota para o leitor menos íntimo com este economista de apelido estranho. Apesar de nativo de Chicago, Minsky atirou uma seta envenenada à teoria da eficiência dos mercados financeiros concebida na Universidade da sua cidade natal. A sua “hipótese” (como a designou), colocada em 1986, era muito crua: o sistema financeiro da economia de mercado é intrinsecamente instável, frágil e conduzirá a um padrão de comportamento com euforias e derrocadas.

A saída política para diminuir a intensidade dos efeitos deste padrão é a acção da mão visível da regulação pelo Estado, e em particular a coragem de colocar em prática políticas em contra ciclo nos períodos de ‘bolha’ financeira. O que, naturalmente, foi muito mal visto pelos políticos que defendiam a desregulação, pelos banqueiros centrais que usaram a política monetária para provocar sucessivas ‘bolhas’ e pelo chamado “sistema bancário sombra” que retirou milhões de um processo, segundo o economista, em três fases sucessivas que evoluía da garantia contra o risco para a especulação e depois mesmo para os esquemas Ponzi.

Minsky morreu com 77 anos sem ver a consagração dos seus “avisos” nas derrocadas financeiras de 2000 (depois da mania das dot-com) e agora de 2007 (depois da ‘bolha’ do imobiliário). Alguns passaram a chamar ao ponto em que a situação se inverte de euforia para estoiro como “momento Minsky”.

Não é o único jogo em campo

Em suma, com a iniciativa do artigo no The New York Times em prol do keynesianismo, Krugman procura aproveitar uma janela de oportunidade – não só a crise retirou do armário as recomendações de política orçamental do economista inglês como os seus pontos de vista de então sobre o sistema monetário internacional estão hoje na ribalta (a começar pelos insuspeitos chineses que o recordaram a propósito da questão do dólar como divisa internacional no futuro) com a importância assumida pelo G20.

Provavelmente a dimensão “globalista” do pensamento de Lorde Keynes tornar-se-á, com o tempo, mais decisiva do que o efeito “doméstico” das políticas orçamentais. O australiano Don Markwell, do Trinity College da Universidade de Melbourne, dizia recentemente: “Parece-me que as três ideias chave que emergem de Keynes são da maior relevância para os temas internacionais de hoje: primeira, a importância da coordenação internacional das políticas de estímulos orçamentais e monetárias; segunda, a importância da governância económica global através de instituições económicas eficazes, como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial; e terceira, a importância de resistir ao proteccionismo e ao nacionalismo económico, e de manter uma economia internacional aberta”.

Mas o regresso ao Keynes original não é o único jogo em campo, como quer fazer crer Krugman.

A par de algum revivalismo do keynesianismo (com o Nobel Paul Krugman ou com James K. Galbraith que animou em Junho um outro Manifesto de um grupo reunido em Paris sob os auspícios dos Economists for Peace and Security e da Initiative for Rethinking the Economy) ganharam, também, agora, maior expressão pública correntes heterodoxas até há anos remetidas para a margem.

É o caso do comportamentalismo ou behavioral economics na designação anglo-saxónica (Robert Shiller e o Nobel George Akerlof publicaram, este ano, o livro ‘Animal Spirits’ que se inspira nesse conceito keynesiano da pulsão humana); dos especialistas em comportamentalismo financeiro (behavioral finance, um dos casos mais conhecido é o de Andrew Lo, do MIT); das abordagens da economia evolucionista e da complexidade (por exemplo, a corrente dos econofísicos que apostam no apoio das simulações computacionais e na aplicação da metodologia da estatística física à análise dos problemas económicos); dos seguidores actuais da “escola austríaca” (desde Antal Fekete a Peter Schiff, que hoje levantam a voz contra a acção dos bancos centrais inflacionando a massa monetária e contra os riscos do endividamento público excessivo, alertando sobre os limites do keynesianismo); dos neo-schumpeterianos focados na questão do papel da inovação, da mudança tecnológica e das ondas longas económicas (como Carlota Perez, da Universidade de Cambridge, Reino Unido); ou mesmo de alguns não-alinhados, sem escola definida (Nouriel Roubini é, porventura, o mais mediático, conhecido como ‘Dr.Doom’), ou dos múltiplos blogues que na América estão ao rubro com esta discussão sobre o futuro da teoria económica depois da grande crise financeira de 2007.

Que mil escolas floresçam

Mas o pensamento dogmático de grupo e o groupthinking em que muitas destas correntes macroeconómicas se fecham, a tendência para “uma captura cognitiva”, como lhe chama o economista e ex-ministro italiano Luigi Spaventa, professor da Universidade de Roma e investigador do Center for Economic Policy Research, de Londres, é um bom aviso para que não haja precipitação nem em decretar um novo vencedor que crie uma moda e contagie a massa dos economistas desorientados, nem uma nova “síntese” apressada que lime as arestas dos dois lados da barricada dos últimos trinta anos.

A economia não é uma “ciência sinistra”. Mas “é infelizmente uma coisa bem complexa”, diz-nos Jean-Philippe Bouchaud, um ‘econofísico’, do Capital Fund Management e professor da École Polytécnique em Paris.

Como Mark Thoma, da Universidade de Oregon, nos refere, o ponto de partida tem de ser colocar as questões certas antes de correr atrás de qualquer manifesto: “O que se passou encaro-o mais como um falhanço em colocar as questões certas, mais do que o falhanço das próprias ferramentas e técnicas. Os modelos, como sabemos, constroem-se a partir de questões específicas. Construímos modelos errados porque colocámos questões erradas”. E conclui este editor de um dos blogues americanos de economia (Economist’s View) hoje em dia mais populares: “O problema para mim não começa por colocar a questão de qual dos diversos modelos em campo deveremos usar. Começa por colocar as tais questões certas, e, então, depois procurar o melhor modelo que nos possa guiar na procura da resposta”. E uma das perguntas que seguramente não vale a pena repetir “é a das últimas décadas, sobre quão rápida a macroeconomia retorna ao seu equilíbrio de longo prazo depois de uma convulsão”.

Por isso, muitos advogam que o melhor é que várias escolas floresçam, repescando o velho mote maoista (que era mais propaganda do que realidade). ”O barco está a meter água e muita gente já começa a pensar que é altura de mudar de paradigma. Por exemplo, o recente trabalho do The Economist em Julho é um exemplo dessa reflexão. Mas creio que essas mudanças vão ser lentas, pois não há uma alternativa de síntese unificada. A diversidade de abordagens e de escolas é necessária neste momento. É preciso investigar em diversas direcções. A síntese só virá depois, mas é verdade que, entretanto, as pessoas têm de tomar decisões e, tal como a cobra quando perde a pele, é a situação mais perigosa”, afirma-nos Jean-Philippe Bouchaud.

Bouchaud é um entusiasta das simulações realistas em computador: “Esta ferramenta, casada com as ideias que vêm das finanças comportamentais, da física estatística e da biologia evolucionista poderão, em minha opinião, abrir muitas vias nos próximos dez anos, tanto no plano teórico como pragmático. Surpreendentemente, os economistas mainstream continuam a ser relutantes em reconhecer a força e a utilidade das simulações numéricas”. Estas simulações permitem perceber a instabilidade que emerge repentinamente, as oscilações selvagens nos mercados, a dinâmica intermitente, os eventos extremos, os comportamentos em multidão derivados do animal spirits keynesiano (provocando euforias e pânicos), enfim os “momentos Minsky” em que um dado contexto sofre uma mutação – tudo palavrões que convém colocar no seu dicionário de bolso.

Setembro 2008 ficará sempre como o momento em que a crise financeira provocada em meados de 2007 por um palavrão estranho – o subprime – sofreu uma mutação inesperada e transformou-se num Grande Pânico ao estilo de outros na história da América. David Wessel, o editor de economia do The Wall Street Journal, desvenda em ‘In Fed We Trust’ (Crown Business, Agosto 2009) os detalhes do que se passou nos corredores da Reserva Federal liderada por Ben Bernanke, que acabou de ser proposto por Obama para novo mandato até 2014.

Com a proposta de recondução de Ben Bernanke, um académico e tecnocrata de 55 anos, para um novo mandato à frente da Reserva Federal americana de 31 de Janeiro de 2010 a 31 de Janeiro de 2014, Barack Obama resolveu colocar um ponto final nas manobras de bastidores e intrigas políticas sobre a cadeira da presidência do comité de governadores do banco central. Ela é hoje considerada um “quarto poder” de facto na organização do Estado (em virtude da independência dos bancos centrais em termos de uso exclusivo de instrumentos de política monetária e, nalguns casos, da própria fixação de metas).

O posto é hoje muito apetecível, quem o ocupar é considerado o quarto mais poderoso do mundo, depois dos presidentes americano e chinês e de algum líder europeu que sobressaia. Assim, aliás, o entendeu a revista Newsweek na sua lista dos 50 mais poderosos do mundo, de final de 2008. O lugar ficou ainda mais em destaque em virtude do protagonismo – que Obama considerou, agora, “enérgico” e denotando um “pensamento fora-da-caixa” – que Ben Bernanke assumiu na resposta à crise financeira, em virtude do apagamento político do anterior presidente americano, George W. Bush, e das hesitações do seu secretário do Tesouro, Hank Paulson.

Comandante em chefe da crise

Como nos confessa David Wessel, editor de economia do The Wall Street Journal e autor do agora lançado ‘In Fed We Trust’, essa delegação de protagonismo e atitude de espectador meio patético de W. Bush (que correspondeu a uma janela de oportunidade agarrada por Bernanke) foi um dos aspectos marcantes desta crise.

O ‘comandante em chefe’ (como Wessel apelida ironicamente Bernanke) foi, agora, premiado. Como já o tinha sido Timothy Geithner ao ser nomeado secretário do Tesouro da Administração Obama. Geithner foi um dos “mosqueteiros” (como eram conhecidos nos bastidores) do grupo de cérebros de Bernanke, que desempenhou ao longo da crise de 2007 e 2008 o papel de presidente do Banco da Reserva Federal de Nova Iorque (o mais importante de todo o sistema).

Bernanke na gestão da crise despiu, em certa medida, o seu casaco de tecnocrata com um pedigree no estudo da Grande Depressão de 1929, e revelou-se um político pragmático hábil, apesar, como revela Wessel no livro, de hesitações iniciais, de não ter entendido logo a dimensão do que estava em jogo, em virtude das teorias anteriores que defendera sobre a ‘grande moderação’, e de ter provavelmente cometido o erro de ter deixado cair o Lehman Brothers em 14 de Setembro de 2008, o que serviu de fósforo, nos dias seguintes, para transformar a crise financeira em Grande Pânico.

No entanto, acrescenta o autor do livro, Bernanke evitou a mutação do Grande Pânico de Setembro e Outubro de há um ano em uma nova Grande Depressão (seria a 3.0, se considerarmos a de 1873/1879 e de 1929/1933, como as suas antecessoras).

Obama que pretende inclusive dar mais poderes à FED, conta com Bernanke, também, para um apertar da regulação do sistema financeiro, algo que o banqueiro central já admitiu, ainda que timidamente e em linguagem quase cifrada, no seu discurso em Agosto no simpósio anual da FED em Jackson Hole.

“Obama recompensou-o seguindo as pisadas de Bill Clinton, de facto. Está a reconduzir um republicano pragmático – substituí-lo por um democrata poderia perturbar mais os mercados e provavelmente subiria as taxas de juro em momento inoportuno. Como se costuma dizer, são os mercados que confirmam a nomeação da FED mais do que o Senado”, ironiza Wessel, numa entrevista que pode ser lida na íntegra aqui (em inglês).

A Wall Street, no entanto, reagiu timidamente, no próprio dia, à nomeação (o DJIA subiu, apenas, 0,3%, tal como o Nasdaq). E resta, no final da linha, a decisão política do Senado – Bernanke, apesar dos louros da gestão da crise, tem muitos anticorpos na opinião pública e no aparelho político legislativo em virtude do caudal de dinheiro dos contribuintes que injectou na Wall Street, em muitos casos recipientes de duvidosa solvabilidade.

Um filme repetido

Clinton, de facto, decidira reconduzir duas vezes outro republicano e monetarista (Alan Greenspan) à frente da Reserva Federal, por razões que se entenderiam algum tempo depois: a medida permitiria aos mandatos desse presidente democrata usufruir de quase 100 meses de crescimento económico alavancado pela revolução tecnológica da web e pela ajuda prestimosa da ‘bolha’ bolsista e da financeirização da economia americana alimentadas pelas políticas monetárias do Maestro (como era conhecido o então presidente da FED).

W. Bush percebeu o mecanismo do chamado “Greenspan put” (deixe-se a especulação em roda livre, pois a FED intervém como salvador de último recurso depois do estoiro) e manteve o Maestro até final de Janeiro de 2006, tendo usufruído de uma ‘bolha’ imobiliária. Os pecados de Greenspan seriam pagos mais tarde – para apanhar os destroços surgiria um historiador económico, com uma cábula desenhada em 2002 (‘Deflação: Garantindo que ela nunca mais acontece aqui’) num discurso e desenvolvida num livro em 2005 (‘Ensaios sobre a Grande Depressão’).

O dilema de política monetária

O passado – os últimos dois anos de Pânico e medidas contra-pânico – está contado, com detalhes e informação de ‘dentro’, por Wessel em ‘In Fed we Trust’. Agora resta saber como Bernanke vai gerir o futuro, o período crítico em que há uma bifurcação: o risco de uma recaída, com uma Grande Depressão (como agora recordam ter acontecido em 1936-1937), ou uma retoma e um reaquecimento dos mercados financeiros por mais 100 meses, que aguente a reeleição de Obama em 2013 e de Bernanke em 2014.

Wessel confessa-nos o dilema do presidente da FED para os próximos quatro anos: “Apertar cedo de mais a política monetária e repetimos 1937, gerando uma recaída recessiva que não será nada bem-vinda – incluindo o frágil sistema financeiro. Ou adiar demasiado e apanhar com a inflação, muita inflação em cima”. Opções difíceis, sem contar com o impacto das surpresas em geopolítica que os ‘modelos’ dos economistas da corrente dominante muitas vezes esquecem.

No entanto, há questões de fundo que não irão ser facilmente empurradas para debaixo do tapete e o que os episódios narrados no livro deixam em aberto.

Duas delas merecem, agora, uma análise; uma é de história económica, outra é política.

O paralelo será válido?

O homem que Obama elogiou como responsável por uma acção enérgica e que muitos analistas consideram ter evitado o colapso da América, continua a achar que a “abrupta deterioração” em 2007 e 2008 era “largamente imprevisível a partir dos indicadores de mercado usados”. Não faz, também, nenhuma referência ao que conduziu a esta recente grande crise – as doutrinas de Greenspan e de ele próprio sobre a ‘Grande Moderação’ nas duas últimas décadas. Nem ao pano de fundo, ao paradigma em que a direcção da FED se baseou: as teorias da eficiência dos mercados financeiros (um conceito introduzido por Eugene Fama da Universidade de Chicago em 1970) e o papel central da política monetária defendida por Milton Friedman, o papa do monetarismo, desde os anos 1960.

A sua própria conduta ao longo da crise, o pragmatismo revelado, a improvisação e a pressão política constante sobre o secretário do Tesouro Hank Paulson, tinham uma ‘cábula’ secreta que o orientou nas acções aparentemente ad hoc. Ben Bernanke é o académico que mais estudou a Grande Depressão de 1929. Aluno de Harvard, doutorou-se no Massachusetts Institute of Technology e apaixonou-se pela Grande Depressão do século XX (que denominaremos de GD 2.0, para distinguir da primeira Grande Depressão do capitalismo, de 1873/1879). Mas é discutível se o paralelo é válido.

A própria “papisa” do monetarismo, ainda viva, Anna Schwartz, que escreveu com Friedman em 1963 a colossal obra ‘Monetary History of the United States, 1867-1960’, fez uns reparos “assassinos” em Outubro de 2008 numa entrevista ao The Wall Street Journal: “O meu veredicto sobre esta actual liderança da FED é que, de facto, não fez o seu trabalho”.

Schwartz, uma nonagenária, observou com acutilância: “A FED enfrentou este problema como se o problema fosse uma falta de liquidez [como foi o caso na crise de 1929/1933]. Este não é hoje o problema básico. O problema essencial para os mercados [financeiros] é essa [incerteza] sobre a credibilidade dos balanços das firmas financeiras”. A economista referia-se, claro, não só à desconfiança em relação ao chamado “sistema sombra financeiro” (de casas financeiras de investimento fora de qualquer regulação) como aos bancos-zombie (que haviam alavancado excessivamente e metido o pescoço até ao fundo no poço dos derivados “exóticos”) que somaram um problema grave do lado dos activos, intoxicando-os. E, no final, Schwartz era clara: “ [A FED] não deve estar a recapitalizar firmas que deveriam ser fechadas. (…) As firmas que cometeram erros devem falir. (…) Tudo funciona muito melhor quando as decisões erradas são punidas e as boas decisões o tornam rico”.

E em Julho já deste ano no The New York Times reincidia nas críticas, ainda com mais veemência, num artigo de opinião intitulado sugestivamente “Um homem sem um plano”, pronunciando-se, antecipadamente, contra a indicação de Bernanke para novo mandato à frente da FED.

Uma falsa despolitização

Uma outra questão que a gestão monetária da FED levanta nos últimos vinte anos é a da suposta “despolitização” da política monetária colocando-a nas mãos de um grupo de tecnocratas à frente de uma instituição independente, “isolada”, à prova das interferências políticas e da opinião pública. No caso dos Estados Unidos, além da independência no uso dos instrumentos (e de ser o depositário do direito de emitir moeda, de “dar à manivela” da máquina de impressão, hoje em dia em larga medida electrónica), há também uma quase independência na fixação de metas.

No fundo, a velha arquitectura de divisão e equilíbrio de poderes no Estado moderno, divulgada pelo barão francês de Montesquieu (1689-1755), mas copiada das ideias originais do inglês John Locke (1632-1704), foi “revista” à socapa. Além dos três poderes – o executivo, o legislativo e o judiciário – passámos a ter mais um, o dos bancos centrais. Como refere David Wessel, no livro agora publicado ‘In FED We Trust’, o americano da rua e os próprios políticos eleitos deram-se conta nesta gestão de uma crise grave – para mais devido à inépcia total do anterior presidente George W. Bush – que a FED se tornou praticamente “o quarto ramo” do poder.

E, em vez da alegada despolitização, a FED prosseguiu, na realidade, uma política (não votada pelos eleitores) de raiz monetarista cujas ideias básicas se resumem a três: os ciclos económicos do capitalismo são “moderáveis”; enquanto as ‘bolhas’ especulativas durarem devem ser deixadas em roda livre e inclusive devem ser alimentadas com dinheiro barato proveniente do banco central; a missão da FED é, depois de a crise estoirar, limpar o lixo, garantindo aos prevaricadores que actuará como bóia de salvação e balão de oxigénio de último recurso, a pretexto de risco sistémico. E, logo que possível, voltar a reacender uma ‘bolha’ para redinamizar o sistema de maximização de rendas financeiras, mantendo a financeirização da economia.

Coisa para tecnocratas?

Os ideólogos desta ‘despolitização’ da política monetária alegaram que é a solução óptima de delegação e que a responsabilidade democrática se resolve pelo facto dos tecnocratas serem escolhidos pelos políticos, devendo o povo confiar na alta craveira dos nomeados. Ainda, esta semana, Alan Blinder, professor de economia na Universidade de Princeton, e ex-vice presidente do comité de governadores da FED entre 1994 e 1996, escrevia na revista Foreign Affairs que “a política monetária deverá permanecer firmemente na esfera tecnocrática”. Uma espécie de divisão de tarefas: a política monetária na mão de tecnocratas, a orçamental na de políticos.

Blinder indignava-se contra a proposta que corre no Congresso (denominada Federal Reserve Transparency Act) para uma auditoria da FED pelo US Government Accountability Office (mais conhecido pelas suas iniciais, GAO), uma agência independente que trabalha para o Congresso americano e cuja missão é investigar como o governo federal gasta o dinheiro dos contribuintes. “Será uma vergonha deixar que isso suceda”, revolta-se Blinder. A proposta do congressista Ron Paul (um republicano atípico tido como próximo de uma direita americana libertária, autor do livro Acabem com o FED, agora publicado) já recolheu 178 assinaturas de congressistas republicanos e 104 de democratas na Câmara dos Representantes e o presidente do Comité de Finanças anunciou ir trabalhar com Paul para incluir o instrumento de auditoria no âmbito de uma legislação regulatória mais vasta que poderá subir em Outubro a votação.

Blinder foi um dos académicos que mais encómios dirigiu ao anterior presidente da FED. Em 2005 falou mesmo da “era Greenspan” e decretou o seu legado de “ressurreição do fine tuning” na política monetária. Dois anos depois provaram-se os seus resultados.

Mea culpa tímido

Até o próprio Alan Greenspan, perante o Congresso, admitiu, já na condição de reformado da FED, que teria cometido um erro ao acreditar numa fantasia (de que o sector financeiro se auto-regulava) durante os anos do seu mandato e afirmou, compungido, que ficou “chocado” com o que aconteceu em 2007 e 2008, ainda não tendo tido tempo de perceber bem o porquê!

Ben Bernanke, por seu lado, já admitiu rever a ideia de deixar as ‘bolhas’ em roda livre face ao custo que a América e o mundo vai pagar por este mais recente estoiro. No seu balanço de um ano, agora em Agosto em Jackson Hole, fala da gestão do risco de liquidez nas instituições financeiras (remetendo para as novas orientações do Comité de supervisão bancária de Basel e das agências de regulação bancária americanas) e da regulação macroprudencial de muitos instrumentos financeiros de “capital fictício”, como os famosos derivados OTC (over-the-counter) que, ainda em finais de 2008, representavam 10 vezes a riqueza anual criada pela economia mundial.