Seg 3 Ago 2009
O fim do século do dólar – diário de bordo 20
Por JNR na secção A questão dos impérios , Choque petrolífero , Geoprotagonistas , Gestão do risco , Globalização , História Económica , Inteligência Económica , O novo capital financeiro , sem seccaoainda sem comentários
Há dois anos atrás poucos analistas arriscariam anunciar num horizonte de curto prazo a hipótese de contestação pública do papel internacional do dólar norte-americano.
Esta crise trouxe como uma das prendas geopolíticas o início da discussão aberta sobre os riscos sistémicos ligados ao domínio actual do dólar.
O subir de tom em relação à divisa americana surgiu por ocasião da mais recente reunião (Abril 2009) do G20 (o grupo que reúne os países considerados mais ricos agrupados no G7 e um vasto grupo de países emergentes ou intermédios).
Os BRIC (o clube dos três grandes emergentes, Brasil, Índia e China, e da Rússia, a ex-superpotência procurando reemergir) juntaram a voz em relação aos riscos que o sistema financeiro mundial hoje defronta ao continuar a estar baseado no dólar desde os acordos de Bretton Woods em 1944. Esses quatro países detêm 42% das reservas internacionais, o que significa hoje em dia que uma fatia considerável das reservas mundiais está fora do G7.
A futura estrela ascendente: os SDR
Os críticos do dólar temem o colapso desta divisa e o tsunami que desencadeará e avançam com uma solução de dar mais peso progressivo no comércio internacional e no sistema financeiro mundial aos direitos especiais de saque (SDR, acrónimo para special drawing rights), uma unidade de conta do Fundo Monetário Internacional (FMI) que se baseia num cabaz de quatro divisas (44% para o dólar, 34% para o euro, 11% para o iene japonês e 11% para a libra inglesa, segundo a repartição para o quinquénio que termina em 2010).
O governador do banco central da China chegou a teorizar o assunto em Março (de 2009) provocando, momentaneamente, uma hesitação e uma gafe do novo secretário do Tesouro norte-americano escolhido pelo presidente Obama. A escorregadela do secretário americano (admitindo a hipótese chinesa como discutível) foi logo corrigida – Washington e Wall Street não estão, ainda, na onda de recuo.
O banqueiro central chinês Zhou Xiaochuan chegou mesmo a propor um “plano” de passos a tomar: o uso dos SDR na fixação de preços das commodities (que hoje estão dolarizadas); o lançamento de títulos denominados nessa base, o que, aliás, tem sido estudado pelo próprio FMI; e a criação de um fundo aberto denominado em SDR.
A “lição de finanças” do governador chinês foi encarada como um testar das águas e um aviso à navegação de que a China prepara uma estratégia de fuga à armadilha do dólar em que se enredou nos últimos vinte anos.
Na cimeira do G20 de Abril passado, o FMI foi autorizado a emitir mais 250 mil milhões de dólares em novos direitos especiais de saque no sentido de aumentar as reservas daquele fundo. Vários países já anunciaram a disposição de aumentar as suas reservas no FMI, com a China na liderança, envolvendo 7,3 mil milhões de dólares, a Rússia 6,9, a Índia 4,8, o Brasil 3,5 e a Coreia do Sul 3,4. No entanto, isso dependerá da renegociação dos votos das várias grandes potências no seio do fundo. É esperado que o Japão, a China, a Índia e o Brasil aumentem o seu peso decisório.
Em contraste, a China, entre o final de 2008 e o final do Verão de 2009, segundo o grupo de consultoria francês LEAP/E2020, terá disposto de 600 mil milhões de dólares de activos denominados em dólares que aplicou em compras de activos em recursos estratégicos e empréstimos a países com acordos estratégicos um pouco por todo o mundo (exceptuando, et pour cause, os EUA) e terá abdicado de comprar obrigações do Tesouro americano na ordem dos 500 mil milhões a 1 bilião de dólares, começando a tirar o tapete aos americanos.
Situação de impasse
A situação actual é, por isso, de impasse, sublinha Jane D’Arista, uma especialista em história do sistema monetário internacional, investigadora do Political Economy Research Institute, da Universidade do Massachusetts, nos Estados Unidos.
“A incapacidade das famílias americanas continuarem a carregar o fardo de consumidor de último recurso da economia mundial, acabou efectivamente com o século do dólar”, diz a investigadora americana com algum humor. “O problema é que não há divisa que o substitua. Mas essa falência de se avançar com um novo sistema será um factor de manutenção da recessão global e de contínua vulnerabilidade a crises”, acrescenta.
Uma situação deste tipo não é nova – ocorreu nos anos 1930 com o declínio da libra esterlina. E só se resolveu com as alterações no plano geopolítico que ocorreriam nas duas décadas seguintes, recorda a investigadora num estudo que publicou recentemente no Cambridge Journal of Economics. Jane acha que a Zona Euro – que poderá ser fortemente atingida pelo colapso do dólar dada a colaterização das suas dívidas públicas – não está interessada em substituir o dólar, apesar de algumas vozes nesse sentido. “Na minha opinião, deveriam ser os próprios Estados Unidos a tomar a iniciativa da reforma do sistema”, conclui a investigadora.
O exemplo inglês vem logo à memória. Apesar da proposta de John Maynard Keynes, em representação do império britânico, ter sido derrotada em Bretton-Woods pelas manobras americanas que acabaram por impor o dólar “como Sol do sistema solar financeiro”, o famoso economista inglês foi um exemplo de tenacidade, mesmo num contexto geopolítico adverso e apesar de doente. Via Lisboa, ele viajou, desde 1941, umas seis vezes para os EUA, empolgado na sua cruzada.
Os chineses recordam hoje que, provavelmente, a proposta de Keynes de uma unidade de conta internacional (que baptizou de ‘bancor’), baseada num sistema multilateral, teria sido mais «sagaz» do que a imposição de um sistema apoiado numa divisa nacional dominante, sujeita aos ciclos e políticas dessa potência.