Qui 13 Ago 2009
China avança com primeira aquisição hostil – diário de bordo 24
Por JNR na secção Geoprotagonistas , Gestão do risco , Globalização , História Económica , sem seccaoainda sem comentários
Depois de ter visto bloqueadas politicamente desde 2004 aquisições de empresas de mineração de recursos e energéticas no Canadá, Estados Unidos e Austrália, uma empresa chinesa avança com a primeira operação hostil sobre uma firma ocidental. A Jilin Jien, da área do níquel, quer comprar a Canadian Royalties, que tem em banho-maria um projecto no norte do Quebeque por falta de financiamento devido à crise de crédito.
Na própria semana em que Jim Flaherty, o Ministro federal das Finanças do Canadá, visita a China para namorar os fundos soberanos e as colossais reservas de 2,1 biliões (triliões, na designação amglo-saxónica) de dólares de Pequim, a Jilin Jien Nickel Industry, da área do níquel, através da sua participada Jien Canada Mining, resolveu avançar com a primeira aquisição hostil da história recente da expansão internacional das novas multinacionais chinesas.
O alvo foi a Canadian Royalties, também da área do níquel, que tem um projecto baptizado Nunavik por financiar, devido à crise, no Quebeque, precisando urgentemente de 500 milhões de dólares (mais de 350 milhões de euros). A Jien oferece 148,5 milhões de dólares canadianos (96 milhões de euros) aos accionistas da firma canadiana, mantendo a oferta aberta até 15 de Setembro.
A Jilin Jien é uma firma estatal cotada na bolsa de Xangai desde 2003 localizada na cidade de Jilin, no nordeste da China. A firma chinesa conta com um parceiro canadiano, a Goldbrook Ventures, de Vancouver, para a operação, tendo formado a Jien Canada Mining. O parceiro canadiano dispõe de uma vasta área de prospecção no norte do Quebeque, na mesma região onde actual a Canadian Royalties, e onde está localizado o projecto Nunavik.
Grandes operações anteriores junto de firmas mineiras “ocidentais” foram, por razões políticas, bloqueadas, como aconteceu em 2004 com a tentativa de aquisição da canadiana Noranda pela China Minmetals, em 2005 com a oferta amigável de compra da Unocal americana pela China National Offshore Oil Corp (conhecida pela sigla CNOOC), e mais recentemente com a operação, também amigável, de aquisição da Oz Minerals australiana pela China Minmetals e com a tentativa de acordo entre a Chinalco e a Rio Tinto de Melbourne (que levou inclusive à retaliação chinesa prendendo quatro executivos da empresa australiana em Xangai).
Apesar de tudo têm ocorrido, recentemente, ou estão em curso algumas operações concretizadas ou concretizáveis no sector dos recursos energéticos em terras “ocidentais”.
O fundo soberano chinês China Investment Corp (CIC) adquiriu, no mês passado, uma participação significativa (17,2% das acções e 6,7% dos direitos de voto) na Teck Resources canadiana, uma grande firma dos minérios sediada em Vancouver. Por outro lado, a China Petroleum Corp, em Junho, acordou comprar a Addax Petroleum Corp, com sede em Genebra, por um montante de 7,6 mil milhões de dólares, considerada a maior compra feita até hoje no estrangeiro.
Já este mês (Agosto), a Yanzhou Coal Mining acordou comprar a australiana Felix Resources (por 2,9 mil milhões de dólares) e a Sinochem Corp (através da Sinochem Resources UK) propôs-se comprar a inglesa Emerald Energy PLC (por 532 milhões de libras, cerca de 615 milhões de euros) para adquirir poços petrolíferos na Síria e na Colômbia. Especula-se que a China National Petroleum Corp (CNPC) chinesa estará interessada em adquirir à Repsol espanhola a YPF argentina.
Desde Dezembro, só as empresas chinesas da área dos recursos energéticos já investiram no estrangeiro – em países em desenvolvimento, como em desenvolvidos – 13 mil milhões de dólares. A estimativa para o ano 2009 cifra-se em 43 mil milhões, quase 50% mais do que no ano passado!
Alguns analistas concluem, no entanto, que a China, com a operação hostil no Canadá, poderá estar a alterar a sua táctica no quadro da estratégia “go global” no plano geoeconómico. Os chineses compreendem que a janela de oportunidade criada pelas desvalorizações bolsistas e pelas descapitalizações provocadas pela crise financeira nas empresas “ocidentais” é o momento ideal. Não podem, por isso, perder tempo.