Ter 25 Ago 2009
Risco de reacendimento do choque petrolífero? – diário de bordo 28
Por JNR na secção Choque petrolífero , Estados fora do baralho , Geoprotagonistas , Gestão do risco , Globalização , Inteligência Económicaainda sem comentários
A geopolítica pode voltar a acender os preços do barril de crude, ou, pelo menos, reanimar a sua volatilidade e o risco de ‘oscilações ‘selvagens’. O analista David Kotok alerta para as implicações do dossiê nuclear do Irão, que terão um período crítico no próximo mês. Ambos os lados dispõem de armas políticas e económicas que poderão aquecer o Índico.
As autoridades do Irão já declararam que não aceitam a imposição de uma data de resposta (um deadline, em inglês) para Setembro relativamente a negociações formais multilaterais para resolver o dossiê nuclear. Com a proximidade de Setembro no calendário, os meios do petróleo estão ao rubro com a discussão se iremos assistir a algum “choque do deadline” no mercado do crude, que empurre os preços para uma escalada como a dos primeiros sete meses de 2008 (quando chegou em Julho a um preço médio mensal do barril de 132,72 dólares, um recorde histórico).
As causas imediatas, agora, seriam abertamente geopolíticas. “Desta vez, o risco geopolítico é importante no curto prazo, em virtude da inelasticidade do preço do petróleo nas decisões empresariais. Sem dúvida, que, no longo prazo, a oferta e a procura são os propulsores do preço”, afirma-nos o economista americano David Kotok, o principal consultor de investimento e co-fundador da Cumberland Advisors, que alertou, esta semana, os seus clientes para este risco.
O Irão dispõe de um meio político de pressão típico do hard power em geopolítica: a possibilidade do bloqueio do estreito de Ormuz, de apenas 54 quilómetros, na entrada do Golfo Pérsico, por onde passam 40% da logística marítima do crude e 20% do comércio mundial por mar, segundo dados da Energy Information Administration dos Estados Unidos. É um dos mais importantes chokepoints (designação técnica para estas passagens estratégicas em termos militares e de comércio internacional que Afonso de Albuquerque bem compreendeu no seu tempo quando decidiu recapturá-la definitivamente em 1515) mundiais.
“Não há nenhuma ideia clara de como o Irão se irá comportar, se provocará oscilações selvagens ou movimentos moderados no preço do petróleo. A própria situação interna está em turbulência depois das eleições. No entanto, o Irão tem um ponto fraco – é um importador líquido de produtos refinados. Essa deficiência é a arma de que dispõem os Estados Unidos e os seus aliados nesta questão. Por isso, o Irão joga com duas cartas – abre-se a inspecções, mas continua a brandir a arma do estreito”, prossegue Kotok.
Erros estratégicos são comuns
À pergunta, será que, no final das contas, o Irão jogará a cartada de Ormuz como chantagem de último recurso e defrontará inclusive os interesses das novas potências do Índico, a China e a Índia, o analista responde: “A irracionalidade é comum no Médio Oriente. Muitos regimes naquela região são capazes de erros estratégicos. Em geopolítica, erros podem suceder a qualquer momento. É, por isso, que há um prémio de risco elevado no petróleo nomeadamente”.
Uma nova retoma do choque petrolífero não seria nada agradável para as expectativas de saída da recessão mundial. O preço do barril tem oscilado (por vezes com percentagens elevadas de um dia para o outro, o que tecnicamente se designa por oscilações selvagens) no patamar dos 70-75 dólares. O aumento é de, pelo menos, 75% em relação ao preço médio em Dezembro de 2008 (39,95 dólares).
Até que ponto é que esta nova subida durante 2009 reflecte sobretudo o colapso do dólar (a divisa em que está cotada esta commodity), a retoma nos países emergentes (e particularmente por parte das importações pela China) ou a eventual antecipação pelos mercados de um problema geopolítico grave que afecte o negócio, é, ainda, uma incógnita.