Qui 27 Ago 2009
E depois da crise, quem dominará o mundo? – diário de bordo 29
Por JNR na secção Geoprotagonistas , Globalização , Inteligência Económica , O novo capital financeiroainda sem comentários
Ásia ou América? O debate está, de novo, em cima do tabuleiro global com opiniões bem contrastadas nos dois hemisférios ocidental e oriental, como se houvesse uma nova “raya” de Tordesilhas sobre os cenários do mundo. A janelanaweb.com (onde pode encontrar as entrevistas na íntegra, em inglês) ouviu duas opiniões geograficamente opostas (uma em Singapura/Cingapura e outra em Boston) e geo-economicamente bem distintas.
Os ‘asiatistas’ voltaram ao ataque apanhando a boleia da crise financeira e da recessão iniciada em 2007 que provocou a erosão das economias do G7 e um forte rombo no sistema bancário e financeiro anglo-americano.
Nos Estados Unidos, os economistas questionam, de novo, tal como há vinte anos atrás o fez o Massachusetts Institute of Technology (com o célebre relatório ‘Made in America’, datado de 1989) e Michael Porter (com A Vantagem Competitiva das Nações, uma pesada obra publicada em 1990), os fundamentos da competitividade americana, mas têm a esperança que a base científica de que dispõem e o que resta do património dos seus clusters de alta tecnologia (incluindo os recentes desenvolvimentos nas áreas das ciências da vida, das tecnologias limpas e da Web) permita um renascimento e a manutenção da liderança geoeconómica.
O choque asiático
Da Ásia vem o choque: “O domínio ocidental da história mundial acabou”, diz-nos peremptoriamente Kishore Mahbubani, um filósofo de formação que foi diplomata de Singapura/Cingapura durante mais de trinta anos, tendo chegado a embaixador nas Nações Unidas e a presidente do Conselho de Segurança. O seu livro mais recente tem um título que fala por si: O Novo Hemisfério Asiático: a irresistível mudança de poder global para o Oriente.
“O Ocidente demonstrou imensa incompetência nesta crise. Será difícil ao Ocidente clamar a superioridade moral face aos desafios globais”, refere-nos numa entrevista que pode ser lida aqui (em inglês). Só na cabeça dos ocidentais, ironiza o actual reitor da faculdade de Políticas Públicas da Universidade Nacional de Singapura, a história se faria sem crises. “Até, recentemente, o postulado era que o Ocidente tinha uma melhor governação e estaria mais bem preparado para as crises. Agora, está à vista de todos, que era um mito. Os países asiáticos estavam mais bem preparados. O que os ocidentais se devem interrogar, agora, é como é que isso sucedeu? O propósito do meu livro é dar essa resposta”, conclui.
Do outro lado do mundo, em Boston, o professor da Harvard Business School, Gary Pisano, lançou um grito de alarme na influente revista da Escola (a ‘Harvard Business Review’, edição de Julho-Agosto 2009), uma espécie de novo manifesto sobre a necessidade de restaurar a competitividade americana (“Restoring American Competitiveness“).
A entrada do Japão (então o principal concorrente mundial no plano geoeconómico) em crise e a difusão da Internet retiraram a América do pessimismo do final dos anos 1980 e do fantasma da estagnação crónica da economia real vaticinado por muitos. Viveram-se vinte anos aparentemente “dourados” ajudados por uma aceleração da financeirização da economia jamais vista (o peso da dívida em relação ao PIB americano, um indicador usado para mostrar essa financeirização, disparou desde 1980 e atingiu um índice em 2008 que é quase cinco vezes superior ao peso da produção no PIB, segundo os cálculos dos economistas americanos John Foster e Fred Magdoff, da Monthly Review).
O erro capital do Ocidente
Mas Pisano diz-nos que se cometeu um erro capital em todo esse período dourado: “Ocorreu uma erosão da base tecnológica e industrial”, graças à corrida à maximização de curto prazo de ganhos financeiros trimestrais pelas empresas, que conduziu a um movimento de externalização massivo (outsourcing, como é designado em inglês) que afectou o património colectivo dos clusters americanos. Desde 2002, salienta Pisano numa entrevista que pode ser lida aqui (em inglês), que os EUA são deficitários no comércio internacional em alta tecnologia.
Juntaram-se, já na ponta final pré-crise da Administração W. Bush, as políticas erradas sobre imigração que incentivaram um regresso precipitado de cérebros aos seus países de origem (nomeadamente China, Índia, Europa) e um desinvestimento na ciência em áreas de futuro. Mas os EUA são o país com maior capacidade de adaptação, de fitness, uma espécie darwiniana (ainda que o professor não use o termo) de primeira água. E têm uma vantagem única: “nenhum outro país tem a nossa capacidade de investimento em ciência”.
Em suma, são dois olhares não só geograficamente separados como profundamente distintos sobre as tendências em curso.